Eu Mato
Capítulo 7
7
DESCENDO A PÉ PARA A MARINA, Frank viu o aj untam ento de gente parada para ver os carros de polícia e os hom ens de uniform e que se agitavam entre os barcos atracados. Ouviu o som de um a sirene subir lentam ente às suas costas. Dim inuiu um pouco o passo. Toda aquela concentração de forças significava algum a coisa além do que se podia ver: um a sim ples colisão entre duas em barcações.
Além do m ais, havia os j ornalistas. Frank tinha experiência suficiente para reconhecê-los im ediatam ente. Rondavam farej ando e procurando notícias com um frenesi que só algum a coisa im portante podia criar. A sirene, que antes soava distante com o um pressentim ento, transform ou-se em realidade.
Dois veículos da polícia chegaram em alta velocidade da Rascasse, contornaram a m arina e pararam diante das barreiras. Um agente apressou-se em deslocá-las para que passassem . Os carros pararam atrás da am bulância que estava estacionada paralelam ente à m arina, as portas traseiras abertas.
Para Frank, parecia a goela escancarada de um a fera pronta para engolir seu pasto.
Dos autom óveis desceram vários hom ens, alguns uniform izados, dois à paisana. Dirigiram -se para a popa de um grande iate ancorado m ais adiante. Em pé na frente da passarela, Frank viu o delegado Hulot. Os recém -chegados pararam para falar com ele, m as depois subiram j untos no iate e passaram para o convés do barco fora de prum o, preso entre os outros dois.
Frank cam inhou lentam ente ao redor da m ultidão am ontoada e seguiu ao abrigo do m uro, pelo lado direito do bar. Ficou num a posição em que podia ver com facilidade toda a cena.
Do porão do veleiro apareceram a céu aberto alguns hom ens que transportavam com dificuldade, por causa da inclinação do convés, dois sacos plásticos lacrados por um grosso zíper na parte superior. Frank reconheceu im ediatam ente os sacos onde são colocados os cadáveres.
Ficou observando o transporte dos corpos até a am bulância com estranha indiferença. Houve um tem po em que o local de um crim e era seu hábitat. Agora, observava aquele espetáculo com o se fosse algum a coisa que nunca tivesse lhe pertencido, sem a sensação de desafio que todo policial experim enta diante de um crim e e sem o calafrio que a m orte violenta provoca nas pessoas com uns.
Enquanto as portas da am bulância se fechavam sobre sua carga, o delegado Hulot e os que estavam com ele desceram a prancha do Baglietto em fila indiana.
Hulot encam inhou-se diretam ente para a m ultidão de j ornalistas, contida com grande dificuldade por dois agentes. Havia repórteres de j ornais, de em issoras de rádio, e da televisão. O delegado chegou j unto deles agitando tudo com o um a ventania no bam buzal. De longe, Frank im aginou o bom bardeio de perguntas, viu os m icrofones estendidos espasm odicam ente diante da boca do policial para conseguir captar algum a inform ação, m esm o que fosse apenas um fragm ento sobre o qual tecer palavras e m ais palavras capazes de suscitar interesse. Quando não podiam oferecer a verdade, os j ornalistas se contentavam em despertar a curiosidade.
Enquanto enfrentava a im prensa, Hulot virou a cabeça em sua direção. Frank percebeu que ele o tinha visto. O delegado abandonou o grupo de j ornalistas com a expressão do policial que acabou de repetir um a série interm inável de “nada a declarar”. Saiu acom panhado por um enxam e desesperado de perguntas para as quais não podia dar ou não tinha respostas. Parou num a barreira bem em baixo de onde ele estava e fez um sinal com a m ão pedindo que se aproxim asse. De m á vontade, Frank desencostou-se do m uro, abriu cam inho entre as pessoas e foi até Hulot, parando do outro lado dos cavaletes de ferro.
Os dois se olharam . Provavelm ente o delegado tinha acordado há pouco tem po, m as j á estava com um ar cansado, com o quem não dorm iu nada nas últim as 24 horas.
— Olá, Frank. Entre aqui.
Fez um sinal para um agente em pé j unto a eles, que afastou um pouco a barreira para deixá-los passar. Sentaram -se nas m esas do lado de fora do bar, sob um guarda-sol. Hulot deixou os olhos vagarem ao redor, com o se não conseguisse com preender o que estava acontecendo. Frank tirou o Ray -Ban e esperou seu olhar.
— O que houve?
— Dois m ortos, Frank. Assassinatos — disse sem olhar para ele.
Fez um a pausa. Finalm ente, virou-se para procurar seus olhos.
— E não são qualquer um . Jochen Welder, o piloto de Fórm ula 1. A nam orada, Arij ane Parker, cam peã de xadrez bastante fam osa.
Frank não disse nada. Sabia, sem saber com o, que ainda não tinha acabado.
— Não têm m ais rosto. O assassino esfolou-os com o se fossem anim ais. Foi um a visão pavorosa. Nunca tinha visto tanto sangue em m inha vida.
Nesse m eio-tem po, a partida m elancólica com a sirene da am bulância e do furgão do Departam ento de Perícia foi o sinal de que não havia m ais nada para ser visto. Pouco a pouco, os curiosos com eçaram a se dispersar, vencidos pelo calor e cham ados por suas atividades norm ais. Os j ornalistas j á tinham recolhido tudo o que era possível e tam bém estavam se desm obilizando.
Hulot fez outra pausa. Olhou-o fixam ente nos olhos e, em silêncio, disse m uitas palavras.
— Quer dar um a olhada?
Frank quis dizer que não. Tudo dentro dele dizia que não. Nunca m ais teria que ver rastros de sangue, m óveis derrubados ou tocar a garganta de um hom em caído no chão para ver se estava m orto. Não era m ais um policial, não era m ais nem um hom em . Não era nada.
— Não, Nicolas. Não tenho vontade.
— Não estou pedindo por você. Estou pedindo por m im .
Frank Ottobre olhou para Nicolas Hulot com o se o visse pela prim eira vez, em bora o conhecesse havia anos. Tinham trabalhado j untos no passado, num a investigação que reuniu o Bureau com a Sûreté Publique num a história de lavagem internacional de dinheiro relacionada ao tráfico de drogas e ao terrorism o. A polícia m onegasca, por sua natureza e eficiência, estava em contato perm anente com as polícias do m undo inteiro, inclusive o FBI. Frank fora enviado para acom panhar a investigação local por causa de seu perfeito conhecim ento de francês e de italiano. Ele se entendeu bem com Hulot e logo ficaram am igos. Mantiveram contato e ele e Harriet chegaram certa vez a vir à Europa com o convidados dele e de sua m ulher. Hulot, por sua vez, estava planej ando um a viagem aos Estados Unidos quando a coisa com Harriet aconteceu…
Frank pensou que ainda não conseguia dar nom e aos bois, com o se não nom ear a noite im pedisse autom aticam ente que a escuridão chegasse. Na sua cabeça, o que tinha acontecido ainda era a coisa com Harriet.
Quando soube do acontecido, Hulot ligou para ele quase todos os dias, durante m eses. Por fim , convenceu-o a deixar aquele isolam ento e se transferir para Montecarlo, para j unto dele. Com a discrição de um verdadeiro am igo, encontrou o apartam ento em que ele agora m orava, que era de André Ferrand, um em presário que ia passar vários m eses no Japão.
Naquele m om ento, Hulot olhava para ele com o um hom em no m ar olha para um salva-vidas. Frank não pôde evitar de se perguntar qual dos dois era o hom em , qual o salva-vidas. Eram duas pessoas sozinhas contra a fantasia cruel da m orte.
Frank recolocou os óculos e levantou-se de um salto, antes de seguir o im pulso de virar as costas e sair correndo.
— Vam os.
Seguiu o am igo com o um robô até o Beneteau, sentindo o coração bater cada vez m ais forte. O delegado indicou os degraus que desciam para o interior do barco de dois m astros e deixou que passasse prim eiro. Viu que o am igo registrou o detalhe do tim ão bloqueado, m as não disse nada. Quando chegaram às cabines, Frank olhou ao redor, m ovendo os olhos por trás da cortina dos óculos escuros.
— Hum m … Barco de luxo, eu acho. Tudo inform atizado. É um barco de navegador solitário.
— É, dinheiro certam ente não faltava ao proprietário do barco. Se pensarm os que ganhou todo seu dinheiro arriscando a pele durante anos dentro de um carro de corrida para no final acabar dessa m aneira…
Frank viu as pegadas deixadas pelo assassino e aquelas fam iliares deixadas de lado pela perícia para poder encontrar as outras, m enos enganadoras e m enos evidentes. Viu sinais do levantam ento de im pressões digitais, das m edições, das buscas acuradas. Em bora tivessem aberto todas as escotilhas, ainda havia um cheiro de m orte no ar.
— Os dois foram encontrados ali, no quarto, estendidos um ao lado do outro. As m arcas dos pés que você está vendo foram deixadas por sapatos de borracha. Talvez de um m acacão de m ergulho. As m arcas de m ãos não tinham im pressões digitais. O assassino usava luvas e não as tirou nem um a vez.
Frank percorreu o corredor, chegou diante da cabine principal e parou na soleira da porta. Do lado de fora tudo estava calm íssim o, m as dentro era o inferno. Já tinha visto cenas com o aquela m uitas vezes, j á tinha visto sangue respingado até no teto, j á tinha visto autênticas carnificinas. Mas eram hom ens que lutavam contra outros hom ens, im piedosam ente, por coisas hum anas. Poder, dinheiro, m ulheres e tudo o m ais. Eram crim inosos que lutavam com outros crim inosos. Em todo caso, hom ens contra hom ens.
Aqui, flutuava no ar a batalha de alguém contra seus dem ônios pessoais, aqueles que devoram a m ente com o a ferrugem devora o ferro. Ninguém m elhor do que Frank para entender isso.
Sentiu que o ar lhe faltava e recuou sobre os próprios passos. Hulot esperou que chegasse m ais perto e recom eçou o relato.
— Na m arina de Fontvieille, onde estavam ancorados, disseram que Jochen Welder e a m oça, Parker, saíram para o m ar ontem de m anhã. Com o não retornaram , pensam os que fundearam em qualquer lugar ao longo da costa. Aqui perto, possivelm ente, visto que não tinham m uito com bustível. A m ecânica do crim e não foi com pletam ente esclarecida, m as tem os um a hipótese que parece plausível. Encontram os um roupão no convés. Talvez a m oça tenha saído para tom ar ar. Talvez tenha dado um m ergulho. O assassino deve ter chegado da terra, a nado. Sej a com o for, ele a surpreendeu na água e puxou-a para o fundo até afogá-la. O corpo dela não apresentava ferim entos. Depois pegou o hom em , fora, no convés, onde o apunhalou. Arrastou os dois para a cabine e, com toda a calm a, fez aquele… aquele trabalho, que Deus o fulm ine. Depois navegou até a m arina, bloqueou o tim ão apontando o barco na direção do cais e foi em bora do j eito que veio.
Frank ficou em silêncio. Apesar da penum bra, não tinha tirado os óculos. Com a cabeça inclinada, parecia fitar o rastro de sangue que passava entre eles com o um trilho.
— O que acha?
— É preciso um bocado de sangue-frio para fazer tudo isso, se é que as coisas aconteceram com o você disse.
Queria ir em bora dali, queria voltar para casa, não queria ter visto aquilo que viu, não queria dizer o que estava dizendo. Queria voltar para a m arina e prosseguir tranquilam ente, sob o sol, o seu passeio em direção ao nada. Queria respirar sem perceber que o fazia. Mesm o assim , continuou a falar.
— Se veio da terra, isso significa que não foi apenas um ataque de loucura, m as sim que ele prem editou e preparou tudo com m uito cuidado. Sabia onde as vítim as estavam e, m uito provavelm ente, queria atacar exatam ente aqueles dois.
O outro concordou com o se tivesse ouvido aquilo que, de certa form a, tam bém pensava.
— Isso não é tudo, Frank. Deixou isso aqui com o com entário para o que fez.
Hulot afastou-se com um m ovim ento que deu m ais destaque ao que havia atrás de si. Às suas costas, surgiu a m esa de m adeira e a inscrição delirante que parecia traçada pelo lápis de Satanás.
Eu mato…
Frank tirou os óculos, com o se a luz da cabine não fosse suficiente para colocar em foco o sentido daquelas palavras.
— Se os fatos forem realm ente esses, sua m ensagem tem um significado, Nicolas, não é apenas o com entário daquilo que fez. Significa que pretende fazer de novo.