Eu Mato

Giorgio Faletti · Capítulo 64 de 76

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Eu Mato

Capítulo 54

54

 

FRANK E MORELLI DESCERAM AS ESCADAS com o se o destino do m undo dependesse da rapidez daquela descida. Enquanto literalm ente voavam sobre os degraus, Frank se perguntou quantas vezes m ais aquela corrida se repetiria antes do fim do pesadelo. Estava falando com Helena, por alguns instantes havia encontrado lugar num a ilha de tranquilidade no m eio de um m ar tem pestuoso, m as Claude tinha que aparecer para interrom per aquele sonho de olhos abertos.

Ninguém atacara novam ente. E da pior m aneira, acrescentando ironia ao dano.

Jesus Cristo, quando essa carnificina vai ter fim? Quem é esse homem? O que é para fazer tudo o que faz?

Saíram pela porta de vidro do prédio da Sûreté Publique e logo à direita viram um grupinho de policiais ao redor de um carro. A rua j á estava bloqueada para im pedir a passagem de veículos e pedestres, fosse do lado da Rue Suffren Ray m ond, fosse do lado contrário, na m etade da Rue Notari.

Frank e Morelli desceram as escadas externas e aproxim aram -se. Os agentes abriram passagem . Estacionada bem na frente da entrada da central, à direita, na últim a vaga reservada aos carros da polícia, estava a Mercedes SLK de Jean-Loup Verdier com o porta-m alas aberto.

Lá dentro, via-se o corpo de um hom em . Parecia o rascunho do assassinato de Allen Yoshida, um a tentativa m alfeita, com o um a espécie de ensaio geral antes da estreia. O corpo estava encolhido no porta-m alas, de lado sobre o flanco direito. Usava calças azuis e um a cam isa branca m anchada de sangue. No peito, na altura do coração, a cam isa apresentava um corte desbeiçado, em torno do qual o sangue havia se espalhado sobre o tecido. Mas, com o sem pre, o rosto era a parte m ais devastada. Com seu esgar horripilante, sua cara sem pele, o sangue coagulado sobre a testa pelada, onde um ridículo tufo de cabelos indicava que daquela vez o trabalho tinha sido realizado de form a bem m ais apressada, o cadáver parecia fitar o carpete que, a poucos centím etros de seus olhos arregalados, forrava o porta-m alas.

Frank olhou ao redor. Nenhum dos policiais tinha ânsias de vôm ito.

A gente se habitua a tudo, tanto ao pior como ao melhor.

Mas aquilo não era um hábito, era um a m aldição e deveria existir, em algum lugar, um m odo de esconj urá-la. Precisava encontrar aquele hom em a qualquer custo, se não quisesse acabar sentado novam ente no banco de m adeira e ferro batido do j ardim de um a clínica psiquiátrica, fitando sem ver um j ardineiro que plantava um a árvore.

Recordou a conversa com o padre Kenneth. Se estivesse ali naquele m om ento, poderia lhe dizer que, pelo m enos em parte, tinha m udado de convicção. Ainda não conseguia acreditar em Deus, m as j á estava com eçando a acreditar no diabo…

— Com o foi? — perguntou a todos e a ninguém em particular.

Um agente se aproxim ou. Frank não sabia seu nom e. Lem brava que era um dos encarregados da vigilância da casa de Jean-Loup, por sorte sua não no dia em que descobriram que ele era Ninguém .

— Hoj e de m anhã reparei nesse carro estacionado em local proibido. Em geral, som os bastante rigorosos e fazem os a rem oção im ediatam ente, m as nesses dias, com toda essa confusão…

O agente fez um gesto que com preendia um a situação que Frank conhecia m uito bem . Ainda estavam frescos em sua m ente os turnos que os policiais eram obrigados a cum prir, o vaivém contínuo dos carros, as chegadas e partidas em disparada para verificar todos os telefonem as que recebiam . Era um a consequência inevitável do problem a que estavam enfrentando. Todos os m itôm anos da Terra pareciam enlouquecer em casos com o aquele. Ninguém j á tinha sido identificado em dezenas de locais e foram obrigados a checar um por um , sem resultado.

Sim , conhecia m uito bem a situação. Fez sinal para que o agente continuasse.

— Quando saí de novo, um pouco depois, vi que o carro continuava no m esm o lugar. Achei que podia ser um m orador qualquer que tinha vindo à central atrás de algum docum ento. Às vezes eles deixam o carro ali, para ver se cola… Fui até lá verificar. Estava cham ando o departam ento de trânsito para a rem oção quando tive a im pressão de reconhecer a placa. Estive em Beausoleil, na casa de…

— Sim , sei — cortou Frank. — Continue.

— Bem , quando cheguei m ais perto vi que havia um a m arca no porta-m alas traseiro, perto da fechadura, que podia ser sangue. Cham ei Morelli e forçam os a fechadura. E encontram os isso…

O agente indicou o corpo com a m ão.

Claro, “encontramos isso”. E é difícil definir “isso”, como você diz, como um ser humano, não é?

O policial levantou com pletam ente a tam pa do porta-m alas para que pudessem ver toda a parte interna, em purrando com um a esferográfica para não deixar im pressões digitais.

— E tinha isso tam bém …

Frank j á sabia o que ia ver. No verso da chapa de m etal havia um a inscrição feita com sangue, a costum eira e irônica inscrição deixada com o com entário para um a nova proeza.

Eu mato…

Frank m ordeu o interior da bochecha até a dor ficar insuportável. Sentiu o sabor adocicado de seu próprio sangue. Era isso que Jean-Loup tinha vaticinado no brevíssim o telefonem a do dia anterior. Não haveria m ais indícios, apenas cadáveres. Agora, aquele pobre ser hum ano no porta-m alas de um carro era a confirm ação de que a guerra continuava e de que m ais um a batalha fora perdida. Aquele carro estacionado bem ali, diante da central, com sua carga m acabra, era apenas a enésim a vez que zom bava de todos os seus esforços. Frank relem brou a voz de Jean-Loup, finalm ente livre, sem distorções, sobre o fundo dos rum ores do trânsito. Fizera a ligação de um reles celular descartável, com prado para a ocasião em qualquer loj inha. Em seguida, abandonou-o num banco. O m enino que pegaram passou por ali, encontrou e carregou o aparelho. E tratou de usá-lo: tinha sido localizado j ustam ente quando falava com o irm ão m ais velho para contar sobre seu achado. Não viu a pessoa que abandonara o celular, e no aparelho, além das do m enino, não havia im pressões digitais.

Frank voltou a olhar o corpo no porta-m alas. Apesar dos esforços que fazia, não conseguia prever a reação da m ídia daquela vez. Seria um a tarefa árdua para qualquer um encontrar as palavras certas para expor de m odo sintético o novo crim e.

Para ser honesto, estava pouco se lixando para as reações de Durand e Roncaille. E tam bém para seu futuro. Só esperava não ser afastado das investigações antes de poder capturar Ninguém .

— Alguém sabe quem é esse pobre infeliz?

Morelli, que estava do outro lado do carro, deu a volta e se aproxim ou de Frank.

— Não, Frank. Não tinha docum entos de identidade. Nada de nada.

— Creio que logo descobrirem os. A j ulgar pela pele, deve ser j ovem . Se aquele filho da puta seguiu o esquem a de sem pre, deve ser alguém , por volta dos 30, 35 anos, de boa aparência. Um pobre infeliz cuj a única culpa foi estar no lugar errado na hora errada. E com o hom em errado, Deus o fulm ine. Daqui a pouco vai aparecer algum VIP para denunciar seu desaparecim ento e saberem os quem é. Vam os tentar chegar prim eiro.

Um policial se aproxim ou.

— Inspetor…

— O que foi, Bertrand?

— Um a ideia, talvez sej a estúpida, m as…

— Diga, diga…

— Os sapatos, inspetor.

— O que têm os sapatos?

O agente deu de om bros.

— Bem , são sapatos de velej ador. Sei porque eu tam bém uso.

— Acho que existem m ilhares de sapatos assim e acho que não…

Frank, que tinha com eçado a entender onde o agente queria chegar, interrom peu Morelli.

— Deixa ele acabar, Claude. Pode falar, Bertrand.

— Queria dizer que os sapatos, além da m arca do fabricante, têm o logotipo de um a m arca de cigarros. Pode ser a m arca de um patrocinador. E com o nesses dias…

De repente, Frank se lem brou da regata. Pousou a m ão no om bro do agente.

— …e com o nesses dias tem os a Grand Mistral ou sei lá que nom e tem , poderia ser alguém ligado à vela. Muito bem , m eu rapaz, belo trabalho.

Frank fez esse com entário em voz alta o suficiente para que os outros ouvissem . Bertrand voltou para j unto deles com o se fosse o m arinheiro que anunciou “Terra à vista!” para Cristóvão Colom bo.

Frank cham ou Morelli à parte.

— Claude, acho que a ideia de Bertrand é plausível. E além do m ais é a única pista que tem os. Vam os investigar por aí. Nessa altura dos fatos, tudo o que podíam os j ogar, nós j á j ogam os. Agora não tem os m ais nada a perder.

O furgão azul da perícia surgiu na esquina da Rue Ray m ond. Um agente foi até lá para afastar as barreiras e deixá-lo passar.

Frank indicou o furgão com a cabeça.

— Acho que não preciso dizer, m as é sem pre bom lem brar ao pessoal da perícia que precisam os das im pressões digitais do m orto im ediatam ente. Visto o estado em que se encontra, é a única form a de identificá-lo. O dentista dele pode não estar disponível nesse m om ento…

A expressão do rosto de Morelli era só dúvida e cansaço. Depois de toda aquela série de crim es, não era fácil receber certas porradas sem vacilar. Quando Frank o deixou estava dando instruções aos técnicos que desciam do furgão. Frank cruzou a porta em direção a sua sala. O rosto de Helena lhe veio à m em ória. Voltou a ouvir sua voz ao telefone, assustada e, no entanto, tão segura dizendo que o am ava.

Mais um fracasso.

Tinha a poucos m etros de si um a m ulher que podia ser sua salvação e para quem ele podia ser a única esperança. Tinha o m undo ao alcance das m ãos e dois hom ens barravam seu cam inho.

De um lado, Ninguém , cuj a fúria hom icida o levava a continuar m atando gente inocente até que alguém conseguisse detê-lo. Do outro, o general Parker, cuj a aberração o levava a destruir tudo o que encontrava de bom em seu cam inho, até que alguém conseguisse fazer a m esm a coisa com ele.

E Frank queria ser esse alguém .

Não reconhecia nenhum a outra dívida. Ser um policial significava, em últim a análise, só isso. As verdadeiras m otivações estavam escondidas em caixas-fortes que cada um só abria se quisesse.

Durand, Roncaille, o m inistro de Estado, o príncipe e até o presidente dos Estados Unidos em pessoa podiam pensar o que bem entendessem . Frank se sentia com o um sim ples operário, bem distante das salas onde os proj etos eram elaborados. Era apenas a pessoa que estava diante dos m uros que precisavam ser destruídos e reconstruídos, entre a poeira de cim ento e o cheiro de cal. Era aquele que tinha que olhar para corpos m utilados e esfolados em m eio ao cheiro acre de pólvora e sangue. Não queria escrever páginas im ortais, só desej ava escrever o relatório que explicasse com o e por que tinha trancafiado o responsável por tantos hom icídios.

Parker ficaria para depois. Em seu delírio, Ninguém tinha lhe ensinado um a coisa: ser feroz na perseguição dos próprios obj etivos. Era exatam ente o que faria com o general. Com um a ferocidade que ainda surpreenderia Parker, em bora ele fosse um m estre nessa arte.

Quando chegou à sala, sentou-se atrás da escrivaninha e tentou digitar o núm ero do celular que tinha dado a Helena. Estava desligado. Provavelm ente não estava m ais sozinha e não queria correr o risco de ver o aparelho com eçar a tocar de repente, revelando seu segredo. Im aginou-a em casa entre seus carcereiros, Nathan Parker e Ry an Mosse, com Stuart com o único consolo.

Levou quinze m inutos pensando, as m ãos atrás da nuca, os olhos fixos no teto. Não im porta para onde tentasse direcionar sua m ente, sem pre encontrava um a porta fechada.

No entanto, sentia que a solução estava próxim a, ao alcance das m ãos. Sobre seu em penho, não havia dúvida algum a, nem sobre suas capacidades. O currículo de cada um dos hom ens envolvidos naquela investigação, sem excluir ninguém , era testem unha disso. Só faltava um a pequena aj uda da sorte que, apesar de tudo, é um im portante com ponente do sucesso. E era engraçado que aquela falta de sorte crônica se m anifestasse bem ali, no Principado de Mônaco, um a cidade cheia de pequenos e grandes cassinos, cuj os caça-níqueis traziam a inscrição “Winning is easy ”, vencer é fácil. Frank gostaria de ir até um a dessas m aquininhas, enfiar a som a necessária para fazer as rodas girarem até que nas três linhas aparecesse, em vez de um triple bar, a indicação do lugar onde Jean-Loup Verdier estava escondido.

A porta do escritório se abriu e Morelli entrou, tão anim ado que esqueceu de bater.

— Frank, dem os sorte!

Lupus in fabula:* vamos esperar que seja mesmo o lobo e não um cachorrinho de pelúcia…

— Diga.

— Duas pessoas vieram fazer um a denúncia. Ou sej a, não é bem um a denúncia, elas vieram expressar um a preocupação…

— Que seria…?

— Um m em bro da tripulação do Try for the Sun, um dos barcos da Grand Mistral, está desaparecido.

Frank tirou as m ãos da nuca depressa e esperou a sequência. Morelli deu alguns passos à frente, sabendo que tinha j ogado um argum ento interessante na m esa.

— Ele tinha um encontro com um a m oça ontem à noite, na m arina de Fontvieille. Quando ela chegou para buscá-lo, não achou ninguém . Esperou um pouco e acabou indo em bora. Mas trata-se de um a m oça tinhosa e hoj e de m anhã voltou ao barco do patrocinador onde dorm e a tripulação para lhe j ogar na cara tudo o que pensava dele, que um a m ulher com o ela não pode ser tratada assim etc. etc. Deparando-se com aquela fúria toda, um m arinheiro resolveu cham á-lo na cabine, m as encontrou-a deserta. A cam a estava feita, o que significa que ele não dorm iu lá.

— Não poderia ter arrum ado a cam a antes de sair de m anhã cedo?

— É possível, m as m uito difícil. Os m arinheiros do iate levantam cedíssim o e alguém o teria visto, com certeza. Além do m ais, encontraram as roupas que ele usou na noite anterior, o uniform e oficial do Try for the Sun, em cim a da couchette, sinal de que esteve no barco para m udar de roupa e depois saiu…

— Ainda não tem os elem entos conclusivos, precisam os verificar tudo isso. Com parem as im pressões digitais do cadáver com as da cabine. É o m eio m ais seguro.

— Já dei ordens para isso. Mandei um agente isolar a cabine. Um técnico da perícia j á está indo para Fontvieille.

— E você, o que acha?

— A pessoa desaparecida entra nos critérios de Ninguém . Trinta e três anos, bonitão, m oderadam ente fam oso no m undo da vela… Trata-se de um am ericano de nom e Hudson McCorm ack.

Ao ouvir o nom e, Frank estrem eceu com tanta violência que Morelli ficou com m edo que caísse da cadeira.

— Qual é o nom e m esm o?

— Hudson McCorm ack. É um advogado de Nova York.

Frank se levantou.

— Eu sei, Claude, conheço m uito bem o cara. Quer dizer, não conheço de fato, m as é o cara de quem lhe falei, que pedi que tentasse vigiar.

Morelli enfiou a m ão no bolso traseiro da calça e tirou o disquete que Frank tinha lhe dado no dia anterior.

— Olhe, o disquete ainda está aqui. Não consegui tratar disso ontem . Pretendia resolver hoj e…

Frank e Morelli estavam com a m ente no m esm o lugar. Sabiam m uito bem o que o adiam ento daquela providência significava. Se tivessem colocado McCorm ack sob vigilância no dia anterior, talvez ele ainda estivesse vivo e talvez Jean-Loup Verdier estivesse atrás das grades de um a cela.

Frank pensou que aquela história estava acum ulando um excesso de “se” e “talvez”. Cada um a daquelas palavras era um a pedra que poderia construir rem orsos pesados com o um a m ontanha.

— Certo, Claude, verifique e m e inform e.

Morelli j ogou o disquete, agora inútil, na escrivaninha e saiu da sala. Frank ficou sozinho. Pegou o telefone e ligou para a casa de Cooper, nos Estados Unidos, sem se im portar com o fuso. A voz de seu am igo respondeu, surpreendentem ente desperta apesar da hora.

— Alô?

— Coop, é Frank. Acordei você?

— Acordar? Ainda não tinha ido dorm ir. Acabei de chegar em casa, m eu paletó ainda está balançando no cabide. O que houve?

— Um a m erda. Um a coisa de louco. O hom em que estam os procurando, nosso serial killer, deu cabo de Hudson McCorm ack essa noite e o esfolou com o se fosse um antílope.

Houve um segundo de silêncio. Provavelm ente, Cooper não conseguia acreditar em seus próprios ouvidos.

— Cruz-credo, Frank, o m undo parece ter enlouquecido. Aqui tam bém estam os no caos total. Toda hora chega um alarm e de atentado terrorista e devem os estar em estado de alerta perm anente, você nem im agina. E ontem à tarde chegou a últim a pedrada. Osm ond Larkin foi assassinado na prisão, na hora do banho de sol. Houve um a briga entre os presos e ele dançou.

— Beleza.

— É, beleza. Depois de todo o trabalho que tivem os, você sabe, acabam os com um punhado de ar.

— Cada um tem suas m azelas, Coop. Não estam os m uito m elhor por aqui. Desde hoj e de m anhã, tem os m ais um cadáver nas costas.

— Quantos são, afinal?

— Segure-se. Dez.

Cooper não estava a par dos últim os acontecim entos. Deu um assovio quando a contagem de vítim as foi atualizada.

— Cacete! Está querendo entrar para o Guinness?

— Parece que sim . Aquele filho da puta tem dez hom icídios na consciência e o problem a é que tam bém sinto esse peso na m inha consciência.

— Não desista, Frank. Se quer saber, é o que repito para m im tam bém , por aqui.

— É só o que posso fazer por enquanto.

Desligou o telefone. Pobre Cooper, cada um com sua sina. Frank hesitou por alguns instantes. À espera das confirm ações oficiais sobre Hudson McCorm ack, tem endo que, de um a hora para outra, a porta se abrisse e Roncaille entrasse que nem um capeta, ele não sabia o que fazer. Provavelm ente, naquele m om ento o sóbrio Roncaille estava levando um a esporro que trataria de com partilhar im ediatam ente com seus subordinados.

Pegou o disquete da escrivaninha, ligou o com putador, e o enfiou no drive. Abriu um dos dois arquivos m arcados com a extensão j peg.

Apareceu um a foto na tela. Tinha sido tirada num local público, sem que McCorm ack percebesse, é claro. Era um bar e estava bem cheio: um dos m uitos bares de Nova York, longos e estreitos, cheio de espelhos para que parecessem m aiores, que na hora do alm oço recebiam o pessoal dos escritórios para alm oçar um prato de salada e que, à noite, m udavam de figura, transform ando-se em bares de solteiros em busca de com panhia. Num a m esa, o advogado Hudson McCorm ack falava com um a pessoa que estava de costas, usando um trench-coat com a gola levantada.

Abriu o outro arquivo. Era um detalhe am pliado da m esm a foto, levem ente m ais granulada do que a original.

Frank ficou olhando a im agem de um belo am ericano, cabelos cortados bem curtos, segundo a m oda nova-iorquina, com um terno azul que parecia perfeito para alguém que frequentava tribunais.

Então, m uito provavelm ente, aquela era a cara do cadáver sem rosto que tinham encontrado pouco antes. Será que aquele pobre rapaz havia sequer im aginado que, partindo para Montecarlo com a perspectiva de um a regata em m ar aberto, acabaria sua vida no espaço apertado da m ala de um carro? E que o últim o im perm eável que usaria seria o saco plástico em que a polícia enfia os cadáveres?…

Frank ficou observando a foto. De repente, um a ideia louca abriu cam inho em seu cérebro, com o a ponta de um a furadeira que aparece do outro lado de um a parede fina dem ais.

Talvez fosse possível…

Abriu a agenda eletrônica encontrada no com putador de Nicolas. Seu am igo não era um am ante da eletrônica, m as até ali ele chegava. Esperava encontrar o núm ero desej ado. Digitou um sobrenom e e em seguida o núm ero correspondente apareceu na tela, j unto com o nom e com pleto e o endereço.

Antes de ligar, cham ou Morelli pelo interfone.

— Claude, vocês gravaram o telefonem a de Jean-Loup ontem ?

— Claro.

— Queria um a cópia, para ontem .

— Já fizem os. Vou m andar agora m esm o.

— Obrigado.

Ótim o Morelli. Lacônico e eficaz. Enquanto digitava o núm ero do telefone, Frank m atutou em que pé estaria sua história com Barbara, agora que não frequentava m ais a rádio. Com ela, Claude tinha se m ostrado tudo, m enos lacônico, em bora igualm ente eficiente. Seus pensam entos foram interrom pidos pela voz no telefone.

— Alô?

Teve sorte. A pessoa que respondeu era exatam ente aquela com quem queria falar.

— Oi, Guillaum e, é Frank Ottobre.

O rapaz não se espantou nem um pouco com a ligação. Respondeu com o se tivessem se visto pela últim a vez há dez m inutos.

— Oi, agente do FBI. A que devo a honra?

— Gostei m uito da últim a vez que estive em seu estabelecim ento. Acho que vou precisar recorrer novam ente a seus serviços…

— Aceito propostas, venha quando quiser.

— É só o tem po de chegar aí.

Frank desligou e ficou m ais uns instantes olhando a foto no com putador antes de fechar o arquivo e retirar o disquete. Se houvesse alguém com ele na sala, poderia dizer que sua expressão enquanto olhava para a im agem era a m esm a de um j ogador calej ado observando a bolinha girar na roleta.

 

* Expressão latina que tem o m esm o sentido de “falando no diabo, eis que ele aparece”. (N. da T.)