Eu Mato

Giorgio Faletti · Capítulo 61 de 76

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Eu Mato

Capítulo 51

51

 

FRANK OLHOU RESIGNADO PARA O MAÇO DE DESPACHOS em cim a da escrivaninha, no escritório que havia sido de Nicolas Hulot. Não conseguia ficar naquela sala sem sentir de algum a form a a presença do am igo, sem a sensação de que, se virasse a cabeça, o encontraria às suas costas, de pé ao lado da j anela.

Folheou os papéis entre os dedos com o quem folheia um m aço de cartas de baralho. Já tinha dado um a rápida olhada em cada um , m as não havia nada de significativo.

A verdade nua e crua é que continuavam na m erda.

Passada a exaltação da descoberta da identidade de Ninguém , nada m udara. Quarenta e oito horas depois de terem descoberto quem ele era, ainda não haviam descoberto, apesar de todos os esforços, onde ele estava.

Em seu encalço havia um aparato policial que não lem brava de ter visto antes. Todas as polícias do países lim ítrofes estavam em alerta, com seus respectivos departam entos representados por variadas siglas que correspondiam nos Estados Unidos ao VICAP, departam ento especial do FBI para crim es violentos. Não havia um policial na Europa que não tivesse em m ãos um a série de fotos de Jean-Loup, ao natural e retocadas por com putador segundo todas as m udanças que poderia fazer em seu aspecto físico. As estradas, os portos e os aeroportos públicos e privados estavam cheios de barreiras. Não havia um carro que não passasse pelo controle, não havia um avião partindo sem que os passageiros não fossem revistados, não havia um a em barcação que não fosse alvo de inspeções.

Cada palm o da Europa m eridional estava sendo checado. Todos os m eios conhecidos para caçar um hom em estavam sendo em pregados na busca. Para um crim inoso que im pressionara a opinião pública de m aneira sensacional, era preciso um a dem onstração de força igualm ente sensacional. E nessa ocasião, Frank havia constatado a efetiva com petência do Principado de Mônaco. Qualquer um podia dizer que era um estadinho de opereta, m as era um j ulgam ento tão leviano quanto errôneo.

E m esm o assim , ainda estavam diante de um nada de novo.

Jean-Loup Verdier, ou que diabo de nom e tivesse, parecia ter evaporado. Essa era, paradoxalm ente, um a prova a favor da polícia de Montecarlo. Se aquele hom em conseguia dar xeque-m ate em todo m undo, significava que estavam lidando com um a criatura de inteligência muito superior à m édia. E os insucessos parciais obtidos até então ficavam de certa form a j ustificados. A filosofia de que “desgraça partilhada é m eia alegria” podia ser aplicada com algum a eficácia àquela caçada. Frank pensou que dentro em breve o desespero os levaria a recorrer até a algum m édium , desde que garantisse qualquer resultado.

A casa em que Jean-Loup m orava, em Beausoleil, fora praticam ente virada de cabeça para baixo e m icroscopicam ente checada sem que conseguissem um a única e m ísera pista.

Tinham conseguido algum as inform ações sobre seu passado seguindo as investigações de Hulot, graças às inform ações que Morelli lhe fornecera sobre um núm ero de telefone. O zelador do cem itério de Cassis confirm ou que falara com Nicolas sobre a história de La Patience e o que tinha acontecido na casa. Com preenderam que Nicolas m uito provavelm ente tinha sido abordado e raptado pelo assassino ali m esm o no cem itério.

Investigaram Marcel Legrand com a aj uda da polícia francesa, até darem de cara num m uro. No passado, Legrand tinha sido agente dos serviços secretos, e a pasta com seu nom e trazia a etiqueta “top secret”. Frank descobriu, para seu desgosto, que o top secret dos serviços franceses era bem m enos elástico que o de Pierrot.

Tudo o que conseguiram descobrir foi que a certa altura Legrand tinha abandonado o serviço secreto e se retirado para a Provença, onde viveu em total isolam ento. Naquele m om ento, seria necessário um com plicado m ovim ento de diplom acias e segredos de Estado para tentar superar determ inados obstáculos e derrubar certos m uros. Mas se Legrand representava um esqueleto no arm ário de alguém , seria m uito difícil convencer esse alguém a abrir as portas.

Por outro lado, não podiam negligenciar coisa algum a, viesse do passado ou do presente. Ninguém era perigoso e sua liberdade representava um perigo de vida para cada pessoa que entrasse em contato com ele.

Antes, ele m atava levado por seus delírios, m as segundo esquem as que pareciam extrem am ente rigorosos. Agora estava em guerra para garantir a própria sobrevivência e qualquer um representava um inim igo. A facilidade com que se livrara dos três agentes em sua casa falava por si só a respeito de suas capacidades reais. Não era apenas um inócuo DJ de um a rádio, um hom em bonito acostum ado a transm itir m úsica e a responder às perguntas do público. Se necessário, podia se transform ar num com batente de elite. Os cadáveres dos três policiais perfeitam ente treinados podiam testem unhar isso.

Em m eio a toda aquela confusão, Frank havia tentado expulsar a lem brança de Helena para um cantinho de sua m ente, sem conseguir m uito bem . Sentia falta dela de um a form a tão viva que era quase um a dor física, e saber que estava prisioneira nas m ãos da criatura sem escrúpulos que era seu pai certam ente não aliviava aquela sensação. A sensação de im potência o levava a afrouxar lentam ente todos os freios inibitórios que possuía. A única coisa que o im pedia de correr para a casa de Helena e apertar as m ãos ao redor do pescoço do general Parker até ter certeza de que estava m orto era a convicção de que agindo assim só pioraria a situação.

Aqui estou eu. É o que sou agora: um homem sentado numa mesa que não sabe por onde começar a caçar seus próprios fantasmas.

Abriu um a gaveta da escrivaninha e colocou os despachos lá dentro, em bora estivesse tentado a j ogá-los na cesta de papéis velhos. No fundo de m adeira viu um disquete que tinha colocado ali quando tom ara posse do escritório. Na etiqueta estava escrito “Cooper” com sua caligrafia. Na agitação dos últim os dias, esquecera-se com pletam ente do telefonem a de Cooper e das inform ações a ele solicitadas sobre aquele suj eito, o advogado, Hudson McCorm ack.

Não era o m om ento certo para pedir um a coisa do gênero, m as precisava tentar. Devia isso a Cooper e a tudo o que passaram para colocar Jeff e Osm ond Larkin atrás das grades.

Apertou o botão do interfone e cham ou Morelli.

— Claude, poderia vir até aqui?

— Já estava m esm o indo. Estou chegando.

Alguns instantes depois, o inspetor entrou no escritório.

— Tenho um a coisa a lhe dizer antes que você com ece. Laurent Bedon está m orto.

Frank deu um pulo da cadeira.

— Quando?

— Essa noite.

Morelli estendeu as m ãos diante de si para im pedir um a série previsível de perguntas.

— Não, nada a ver com nossa história. O pobre coitado m orreu num a tentativa de assalto. Tinha ganhado um a bela som a no Café de Paris, ontem à noite, e algum ladrão de galinha tentou roubá-lo atrás da praça do Cassino. Ele procurou resistir, caiu na rua e foi atropelado por um carro. O ladrão escapou de m oto. Se o núm ero da placa anotado por um a testem unha estiver certo, vam os pegá-lo em algum as horas.

— É, m as é m ais um a pessoa envolvida nessa história que m orre. Meu Deus, parece que há um a m aldição no ar…

Morelli resolveu aquele im passe com um a m udança de rum o.

— À parte esse fato desagradável, o que estava querendo m e dizer?

Frank se lem brou do m otivo pelo qual o tinha cham ado.

— Claude, preciso de um favor.

— Diga.

— É um a coisa que não tem nada a ver com nossa história. Tem um hom em livre para ficar na cola de um suspeito?

— Sabe com o a gente anda. Estam os utilizando até os caras da carrocinha de cachorro…

Frank j ogou o disquete em cim a da escrivaninha.

— Aqui tem a foto e a identificação de alguém que pode estar envolvido num a investigação que eu estava fazendo com m eu parceiro, nos Estados Unidos. Trata-se de um advogado que, oficialm ente, está em Mônaco para participar de um a regata.

— Acho que é a Grand Mistral. Coisa de gente grande. A m arina de Fontvieille está cheia de barcos.

— Não sei, não entendo nada disso. O suj eito é advogado de um grande traficante que pegam os um tem po atrás. A hipótese é de que sej a algo m ais que um sim ples advogado e não estej a no Principado apenas pela regata. Deu para entender?

Morelli foi até a escrivaninha e pegou o disquete.

— Certo, vou ver o que posso fazer, m as não é um a boa hora, Frank. Acho que nem preciso lem brar.

— Claro. Realm ente não é a hora… Silêncio absoluto?

— Silêncio absoluto. Tudo m udo. Depois de um lam pej o de luz, estam os caçando novam ente nas som bras. Toda a polícia de m eia Europa está correndo atrás de sua própria cauda e, com o dizia o delegado Hulot…

Frank acabou a frase por ele.

— …sob a cauda só se encontra o olho do cu.

— Exatam ente.

Frank inclinou o encosto da poltrona para trás.

— Mas tenho um a sensação… vej a bem , estou falando de um a sim ples im pressão…

Fez um a pausa. Endireitou a poltrona e pousou os cotovelos na escrivaninha. Morelli sentou na cadeira diante da m esa à espera da sequência. Tinha aprendido que as sensações do am ericano deviam ser avaliadas com todo o cuidado.

— Para m im , ele ainda está aqui. Procurá-lo em qualquer parte do m undo não vai adiantar nada. Ninguém nunca saiu do território do Principado de Mônaco!

Morelli estava prestes a retrucar, m as o telefone tocou naquele exato m om ento. Frank olhou para o aparelho com o se estivesse suspenso num ponto de interrogação. À terceira cham ada, levantou o fone. Foi atacado pela voz excitada da telefonista.

— Mister Ottobre, ele está no telefone! E pediu expressam ente para falar com o senhor.

Frank sentiu im ediatam ente com o se alguém enfiasse o tubo de um com pressor em seu estôm ago. Naquela altura, só havia um a pessoa que podia ser definida apenas pelo pronom e ele.

— Pode passar. E grave a ligação.

Frank apertou o botão do viva-voz, de m odo que Morelli tam bém pudesse ouvir. Indicou o aparelho com um gesto im perioso do indicador da m ão direita.

— Alô?

Houve um instante de silêncio, depois um a voz bem conhecida se espalhou pelo escritório.

— Alô, é Jean-Loup Verdier…

Morelli se levantou da poltrona com o se estivesse pegando fogo. Frank fez um gesto girando no ar o dedo com o qual tinha indicado o telefone. Morelli respondeu m ostrando o punho fechado com o polegar para o alto e saiu correndo da sala.

— Sim , é Frank Ottobre. Onde você está?

Um a pequena pausa, depois novam ente a voz profunda do DJ.

— Nada de conversa fiada. Não preciso de alguém que tente falar comigo. Preciso de alguém que me ouça. Se interromper, desligo imediatamente…

Frank ficou em silêncio. Faria qualquer coisa para m antê-lo no aparelho, de m odo que os hom ens lá em baixo tivessem tem po suficiente para interceptar a ligação.

— Nada mudou. Sou um e nenhum e nada poderá me deter. Portanto, é inútil tentar falar comigo. Tudo é como antes. A lua e os cães. Os cães e a lua. Só a música não virá mais. Ainda estou aqui e você sabe muito bem o que faço. Eu mato…

A com unicação se interrom peu. Naquele m esm o instante Morelli entrou com um a fúria im petuosa.

— Pegam os, Frank. Ligou de um celular. Já tem os um carro nos esperando lá em baixo, com um rastreador via satélite.

Frank levantou-se e seguiu Morelli a toda velocidade pelo corredor. Desceram as escadas a pé, pulando os degraus de quatro em quatro. Caíram com o proj éteis no pátio, quase j ogando no chão dois agentes que subiam a escada no sentido oposto.

As portas ainda não estavam com pletam ente fechadas quando o carro saiu cantando pneus. Frank observou que o m otorista era o m esm o da m anhã em que descobriram o cadáver de Allen Yoshida. Era um ótim o piloto e ficou contente em tê-lo ao volante.

Um agente à paisana estava sentado ao lado do m otorista, controlando um m onitor diante dele que m ostrava o m apa da cidade. No centro de um a longa estrada à beira-m ar, via-se um ponto verm elho.

— É o celular de onde partiu a ligação. Pode ser localizado graças às coordenadas do satélite. Está em Nice, m ais ou m enos na Place Île de Beauté. Tem os sorte. Essa zona fica exatam ente na área pela qual chegarem os à cidade. Estava parado, agora se m exeu, m as pela velocidade em que vai, creio que estej a a pé.

Frank virou-se para Morelli.

— Ligue para Froben e explique a situação. Diga que estam os chegando e m ande que venham tam bém . Fique em contato para poder transm itir os deslocam entos do suspeito.

O m otorista voava literalm ente.

— Com o é seu nom e? — perguntou Frank.

O agente respondeu com voz calm a, com o se estivesse passeando tranquilam ente e não disparado com o um m íssil.

— Xavier Lacroix.

— Muito bem , Xavier. Prom eto que se essa história acabar bem , farei de tudo para garantir seu futuro no m undo do autom obilism o.

O agente não disse nada m as, talvez m otivado pelo reconhecim ento de seus m éritos, apertou ainda m ais o acelerador. Enquanto Morelli falava excitadam ente com Froben, Frank voltou sua atenção para o ponto verm elho na tela. Agora estava piscando.

— O que significa?

O agente respondeu sem se virar.

— Está ligando.

— Pode-se ouvir o que diz?

— Com esse aparelho, não. É só um rastreador de sinal.

— Não im porta. O im portante é saber onde aquele m erda se encontra.

Percorreram a Basse Corniche a um a velocidade de dar invej a em qualquer finlandês cam peão de rally. O piloto — Frank o considerava totalm ente digno daquela denom inação — dirigia o bólido em m eio ao trânsito das ruas da cidade com a frieza que deriva de um autêntico talento.

— Froben perguntou onde ele está…

— Está subindo a Rue Cassini… Agora parou. Está dando outro telefonem a.

Na entrada da praça havia um a pequena retenção do trânsito. Lacroix tinha dado m eia-volta pegando o trecho na contram ão e atravessando a Rue Cassini com o se estivesse no treino de classificação para o Grande Prêm io. O agente na frente do m onitor dava as indicações para o carro enquanto Morelli as repassava para os carros da polícia de Nice.

— Vire aqui, à esquerda. Suba a Em m anuel Philibert.

— Agora à direita. Rue Gauthier.

— Rue Gauthier — repetiu Morelli.

Fizeram a curva à direita praticam ente em duas rodas. Quando chegaram ao fim da ruazinha, com as laterais cheias de carros estacionados, alguns carros de polícia bloqueavam o cruzam ento com a Rue Segurane, dispostos em raio. Os policiais uniform izados form avam um grupinho a poucos m etros do carro. Um deles estava voltando para o carro, recolocando a arm a no coldre. O carro deles parou ao lado dos outros. Desceram e em m enos de um segundo j untaram -se aos colegas. Froben viu quando chegaram . Olhou para Frank e abriu os braços com a expressão de quem acabou de pisar num m onte de m erda.

Em pé no m eio de todos aqueles policiais havia um m enino de cerca de 12 anos com um a cam iseta verm elha, berm udas abaixo do j oelho, que ficariam perfeitas em Spike Lee, e tênis Nike nos pés. Estava segurando um celular.

Encarou os policiais um por um , nem um pouco assustado. Deu um sorriso que m ostrou um incisivo quebrado no m eio da boca e deixou escapar um com entário entusiasm ado.

— Caram ba, que m aneiro!