Eu Mato
Sétimo carnaval
NO GRANDE APARTAMENTO SILENCIOSO HÁ UM HOMEM sentado no escuro, num a poltrona.
Pediu para ficar sozinho, ele que sem pre teve horror da solidão, das salas vazias, da penum bra. Os outros se foram depois de perguntar um a últim a vez antes de sair, com um a nota de apreensão na voz, se estava m esm o certo de que queria ficar ali, sem ninguém para cuidar dele.
Respondeu que sim , tranquilizador. Conhece tão bem a casa que pode se m over livrem ente sem ter nada a tem er.
As vozes se diluem nos rum ores dos passos que se afastam , de um a porta que se fecha, de um elevador que desce. Pouco a pouco, os rum ores se transform am em silêncio.
Assim , está sozinho. E pensa.
Na calm a daquela noite de fim de m aio pensa no vigor dos anos passados. Pensa em seu breve verão que está m ergulhando no outono dos anos que virão, que não percorrerá m ais cam inhando nas pontas dos pés, m as com as solas solidam ente plantadas no chão, aproveitando qualquer apoio firm e para não cair.
Pela j anela aberta entra o perfum e do m ar. Ele estica a m ão e acende um abaj ur sobre um a m esinha a seu lado. Quase nada m uda para seus olhos, que se transform aram num teatro de som bras. Volta a apertar o botão. A luz se apaga, ao sopro de seu suspiro sem esperança, com o um a vela. O hom em sentado na poltrona pensa no que ainda o espera. Terá que se habituar ao cheiro das coisas, às suas vozes, quando todas elas se afogarem na m esm a, idêntica cor.
O hom em sentado na penum bra está praticam ente cego.
Houve um tem po em que não era assim . Houve um tem po em que vivia da luz e de sua ausência e de sua essência. Um tem po em que seus olhos definiam um ponto que estava “lá” e, num salto, podia levar seu corpo até ele, enquanto a m úsica parecia feita da própria luz, um a luz que nem os aplausos podiam toldar.
Foi tão breve sua dança.
Desde o nascim ento de sua prim eira paixão até a trepidante descoberta de seu talento, sob as luzes estupefatas do m undo que o confirm ava, foi apenas um átim o. É verdade que houvera alguns m om entos tão plenos de prazer que poderiam bastar para um a vida inteira, m om entos que outras pessoas j am ais viveriam , nem m esm o se vivessem um século.
Mas o tem po, o tem po sarcástico que trata os hom ens com o brinquedos e os anos com o m inutos, voou a seu redor e retirou com um a das m ãos o que tinha dado em profusão com a outra.
Multidões inteiras em extática adm iração de sua graça, do traçado elegante de seu passo, das palavras silenciosas de cada gesto seu, quando parecia que até sua figura tinha sido gerada pela própria m úsica, tão grande era a harm onia dentro da qual se m ovia.
Carregava agora, nos olhos quase apagados, as lem branças. Eram um a luz tão forte que poderia substituir a que estava perdendo. Eram o Scala de Milão, o Bolshoi de Moscou, o Théâtre Princesse Grace de Montecarlo, o Metropolitan de Nova York, o Roy al Theatre de Londres. Um núm ero infinito de cortinas abertas em silêncio e fechadas sob os aplausos para cada um de seus sucessos. Cortinas que não se abririam nunca m ais.
Adeus, ídolo da dança.
O hom em passa as m ãos nos cabelos brilhantes e bastos.
Suas m ãos são seus olhos, agora.
O tecido áspero da poltrona, o tecido m acio das calças sobre as pernas m usculosas, a seda da cam isa no tórax, seguindo a linha definida dos peitorais. A sensação suave das faces barbeadas por um outro, até encontrar o fluxo incolor da lágrim a que a m arca. O hom em pediu e conseguiu ficar sozinho, ele que sem pre teve horror da solidão, das salas vazias, da penum bra.
E de repente sente que aquela solidão se rom peu, que não está m ais sozinho no apartam ento.
Não há nenhum rum or, não há um a respiração ou passo. Mas ele percebe um a presença, com um sentido que não sabe que possui, com o se fosse um prim itivo instinto de m orcego. Um a das m ãos tom ou, outra deu.
Pode ouvir m uito m ais coisas, agora.
A presença se transform a num passo leve, quase sem rum or. Um a respiração calm a e regular. Alguém está atravessando o apartam ento e se aproxim a. Aquele passo silencioso agora se deteve às suas costas. Reprim e o instinto de se virar para olhar, pois sabe que seria inútil.
Sente o perfum e de um a pele com cheiro bom m isturada a um a boa água-de-colônia. Reconhece a essência, m as não a pessoa.
Eau d’Hadrien, de Annick Goutal. Um perfum e que rem ete a frutos cítricos, a sol, a vento. Tem pos atrás, deu um a de presente a Boris, com prado em Paris, na loj a próxim a da Place Vendôm e, no m esm o dia de sua apresentação triunfal na Opéra. Quando ainda…
Os passos recom eçam . O recém -chegado passa por sua poltrona, que fica de costas para a porta. Entrevê a som bra de seu corpo quando para à sua frente.
O hom em sentado na poltrona não está surpreso. Não tem m edo. Só está curioso.
— Quem é você?
Há um instante de silêncio, depois o hom em em pé responde ao hom em sentado com um a voz profunda e harm oniosa.
— E isso im porta?
— Sim , im porta m uito para m im .
— Talvez m eu nom e não lhe diga nada. Não é im portante que saiba quem sou. Quero ter certeza de que saiba o que sou e por que estou aqui.
— Posso im aginar. Ouvi falar de você. Estava esperando, acho eu. Dentro de m im , talvez desej asse que viesse.
O hom em sentado passa a m ão nos cabelos. Gostaria de passá-la nos cabelos do outro tam bém , em seu rosto, em seu corpo, pois as m ãos são seus olhos, agora.
A m esm a voz profunda, tão rica em harm onias, responde da escuridão.
— Estou aqui, agora.
— Im agino que não haj a nada que eu possa fazer.
— Não, nada.
— Então acabou-se. Acho que é m elhor assim , em certo sentido. Eu nunca teria a coragem …
— Quer m úsica?
— Sim , acho que sim . Não, tenho certeza. Quero.
Ouve um a série de pequenos rum ores, o ronronar do gravador que abre e fecha, que a escuridão e o silêncio tornavam m ais evidente. O hom em está m exendo no equipam ento de som da sala. Não acendeu a luz. Deve ter os olhos de um gato, pois a claridade fraca que chega da rua e a luz acesa do som bastam para orientá-lo.
Um instante depois, as notas de um trom pete se espalham flutuando na sala. O hom em sentado não conhece a m úsica, m as o sopro do instrum ento lem bra, desde as prim eiras notas, a m elodia m elancólica de Nino Rota para a trilha sonora de A Estrada, de Fellini. Dançou aquela m úsica no Scala de Milão, no início da carreira, num balé baseado no film e, com um a prim eira bailarina cuj o nom e não recorda, apenas a graça incom um de seu corpo.
O hom em sentado na poltrona volta-se para a escuridão de onde vem a m úsica, que é a m esm a na sala e em seus olhos.
— Quem é?
— Cham a-se Robert Fulton. Um grande m úsico…
— É, eu notei. O que representa para você?
— Um a velha lem brança. De agora em diante será sua tam bém .
Um longo silêncio im óvel. O hom em na poltrona tem por um instante a sensação de que o outro foi em bora. Mas quando fala com ele sua voz chega de im ediato da escuridão que o cerca.
— Posso lhe pedir um favor?
— Sim , se eu puder.
— Posso tocá-lo?
Um leve fru-fru de tecido. O hom em em pé inclinou-se para a frente. O hom em sentado sente o calor de seu hálito, um hálito m asculino. Talvez um hom em que, em outros tem pos e em outra ocasião, ele tentaria conhecer m elhor…
Estica as m ãos, pousando-as naquele rosto que percorre com as pontas dos dedos até chegar à raiz dos cabelos. Segue a linha do nariz, explora com os dedos as faces e a testa. As m ãos são seus olhos, agora, e veem por ele.
O hom em sentado não tem m edo. Estava curioso, agora está apenas surpreso.
— Então você é assim — m urm ura.
— Sim — responde o outro sim plesm ente, levantando-se.
— Por que faz isso?
— Porque devo.
O hom em sentado se satisfaz com a resposta. No passado, ele tam bém fez o que achava que devia. Tem apenas um a últim a pergunta a fazer ao outro. No fundo, é só um hom em . Um hom em que não sente m edo do fim de tudo, m as apenas da dor.
— Vou sofrer?
O hom em sentado não tem com o ver o hom em em pé extrair um revólver com silenciador de um a bolsa de tecido que usa a tiracolo. Não vê o cano apontado para ele. No m etal polido, não vê o reflexo am eaçador do raio de luz que chega obliquam ente da j anela.
— Não, não vai sofrer.
Não vê o nó do dedo ficar branco quando ele aperta o gatilho. A resposta do hom em em pé m istura-se ao sibilar sufocado da bala que, no escuro, despedaça seu coração.