Eu Mato
Capítulo 30
30
TODOS ESTAVAM REUNIDOS NA SEDE da Rádio Monte Carlo, à espera, com o toda noite. A agitação em torno da evolução daquela história tinha triplicado o núm ero de pessoas que norm alm ente ficavam no edifício àquela hora.
Agora, som avam -se tam bém o inspetor Gottet e dois de seus hom ens, que haviam instalado com putadores m uito m ais potentes e sofisticados que os da rádio, conectando-os em rede. Com ele chegou tam bém um rapaz bem j ovem , por volta dos 25 anos, um suj eito de ar esperto, cabelos castanhos bem curtos com m echas louras e um piercing na narina direita. Com eçou a m anipular um a série de disquetes e CD-ROMs m ovendo os dedos a toda velocidade sobre o teclado, a tal ponto que Frank, em pé atrás da cadeira em que o rapaz estava sentado, teve dificuldade em acom panhá-lo.
O rapaz se cham ava Alain Toulouse, m as era conhecido entre os hackers pelo pseudônim o de “Pico”. Quando foi apresentado a Frank, deu um sorrisinho m aroto ao ouvir suas qualificações, os olhos brilhando m aliciosam ente.
— FBI, hein? — disse ele — Já entrei um a vez. Bem , m ais de um a vez, para dizer a verdade. Prim eiro era fácil, m as agora eles tam bém estão m ais cascudos. Sabe se usam hackers com o consultores?
Frank não soube responder à pergunta, m as a resposta tam bém não lhe interessava m ais. Já tinha dado m eia-volta para retornar a seu lugar.
No m om ento, digitava com o um raio, enquanto passava as inform ações sobre o que estava fazendo.
— Antes de tudo, vou instalar um firewall de proteção do sistem a. Se alguém tentar entrar, fico sabendo im ediatam ente. Em geral, a gente só tenta bloquear o acesso dos ataques externos. Mas nesse caso é diferente: trata-se de descobrir o ataque sem que eles percebam . Instalei um program a que eu m esm o criei, que perm ite descobrir o sinal e refazer o cam inho percorrido, ao contrário. Mas tam bém pode ser um “Cavalo de Troia”…
— O que é “Cavalo de Troia”? — perguntou Frank.
— É o nom e que dam os a um a com unicação m ascarada que viaj a coberta por outra, com o alguns vírus. Tam bém estou instalando um a defesa contra isso: não quero de j eito nenhum que o sinal interceptado, quando conseguir interceptá-lo…
Fez um a pausa para tirar o papel de um a bala e enfiá-la na boca. Frank notou que Pico não tinha nenhum a dúvida de que interceptaria a ligação. Devia ter m uita confiança em si, o rapazola. Por outro lado, aquele com portam ento fazia parte da filosofia dos piratas cibernéticos. A presunção e ironia levava-os a realizar ações não propriam ente crim inosas, m as que visavam sim plesm ente dem onstrar às vítim as sua capacidade de furar qualquer vigilância, qualquer m uro erguido para m antê-los afastados. Viam -se com o um a espécie de Robin Hood m oderno, com m ouse e teclado em vez de arco e flecha.
Pico recom eçou sua exposição m astigando vigorosam ente o caram elo que insistia em grudar nos dentes e no palato.
— Com o estava dizendo, não quero que passem um vírus capaz de atacar assim que interceptarm os a ligação. Se isso acontecesse, perderíam os a ligação e a possibilidade de m onitorá-la, j unto com o com putador, é claro. Um vírus do j eito que deve ser é capaz de fundir literalm ente o disco rígido. Se o tal suj eito for capaz de fazer um a coisa desse tipo, significa que é m esm o m uito bom e vai m andar um vírus que não será propriam ente um buquê de flores…
Bikj alo, que até então estava em silêncio, sentado na escrivaninha colocada atrás da estação de trabalho, interveio com um a pergunta.
— Acha que algum colega seu poderia, durante os trabalhos, nos pregar um a peça?
Frank lançou-lhe um olhar que o diretor nem percebeu. Pico virou a cadeira para encará-lo, sem acreditar em sua ignorância abissal do m undo cibernético.
— Som os hackers, não crim inosos. Ninguém faria um a coisa do gênero. Estou aqui porque o suj eito que está com as rédeas na m ão não se lim ita a entrar onde não devia e deixar com o assinatura um a carinha m ostrando a língua. Esse cara m ata, é um assassino. Nenhum hacker digno desse nom e faria coisa sem elhante.
Frank colocou a m ão em seu om bro, num gesto de confiança que tam bém continha um a censura às palavras de Bikj alo.
— Tudo bem , continue. Acho que nesse cam po não há ninguém aqui que possa lhe ensinar algum a coisa.
Dirigiu-se a Bikj alo, que tinha se levantado e se aproxim ado.
— Não tem os m ais nada a fazer por aqui. Vam os ver se Jean-Loup chegou?
Frank gostaria m uito de dizer àquele hom em que parasse de encher o saco e deixasse os outros trabalharem sem sua incôm oda presença respirando no cangote deles. Já tinham m uita gente nos calcanhares, para aguentar m ais um . Mas não podia dizer nada disso por j ustos m otivos de diplom acia. O clim a de colaboração na rádio era perfeito e ele não queria causar nenhum tipo de constrangim ento. Já havia m uita tensão no ar, de vários tipos.
— Certo.
O diretor deu um a últim a olhada desconfiada para os com putadores e para Pico, que j á tinha se esquecido de todos eles e agitava os dedos sobre o teclado, excitado com a ideia de um novo desafio. Deixaram o com partim ento e chegaram à escrivaninha de Raquel bem na hora em que Jean-Loup e Laurent estavam entrando.
Frank observou o DJ. Jean-Loup parecia bem m ais seguro do que de m anhã, m as carregava um a som bra no olhar com o um a m arca indelével. Frank conhecia aquelas som bras. Precisaria de m uita luz e m uito sol para m andá-la em bora quando toda aquela história chegasse ao fim .
— Olá, pessoal. Estão prontos?
Laurent respondeu pelos dois.
— Sim , a escaleta j á está pronta. O m ais difícil é pensar que, sej a com o for, o program a deve continuar, que à parte aqueles telefonem as tem os sem pre os telefonem as norm ais. E aqui, com o vão as coisas?
A porta de entrada se abriu de novo e a figura de Hulot ficou enquadrada ali durante um segundo, com o um a fotografia desfocada. Frank pensou que tinha envelhecido m uito desde sua chegada em Montecarlo.
— Ah, estão todos aqui. Boa-noite a todos. Frank, posso falar com você um instante?
Jean-Loup, Laurent e Bikj alo se afastaram um pouco para perm itir que Frank e o delegado conversassem .
— O que houve?
Os dois foram até a parede oposta, ao lado dos dois painéis de vidro que cobriam o quadro das conexões telefônicas, das ligações via satélite e os equipam entos para a conexão ISDN em caso de pane do repetidor.
— Tudo certo. A unidade de operações especiais está de plantão. Tem os doze hom ens de prontidão na central de polícia. Num segundo, podem estar em qualquer parte. As ruas estão cheias de agentes à paisana. Todos com o ar m ais inocente. Hom ens passeando com seus cães, casais com carrinhos de bebê e coisas assim . A cidade está inteiram ente coberta. Em caso de necessidade, podem os deslocá-los de um lado para o outro num piscar de olhos. Quer dizer, isso se a vítim a estiver aqui, em Montecarlo. Porém , se o senhor Ninguém resolver pegar sua vítim a em qualquer outro lugar, todas as forças policiais da Côte foram alertadas, de cabo a rabo. Agora, só podem os tentar ser m ais espertos que nosso am igo. Quanto ao resto, estam os nas m ãos de Deus.
Frank indicou duas pessoas que chegavam naquele m om ento, acom panhadas por Morelli.
— E nas m ãos de Pierrot, que Deus tratou tão m al…
Pierrot e sua m ãe se aproxim aram e pararam j unto deles. A m ulher apertava a m ão do filho com o um a tábua de salvação. Parecia que, em vez de oferecer segurança, ela procurava apoio na figura inocente do filho, que vivia aquela história com o um m om ento no qual podia participar de um a coisa que em geral lhe era vedada.
Ele, só ele, Pierrot, era o garoto esperto que sabia a m úsica que havia no quarto. Gostou do que tinha acontecido da outra vez, quando todos os grandes olhavam para ele ansiosam ente, à espera de que dissesse se tinha ou não tinha e partisse para pegar o disco. Gostava de ficar ali a cada noite, na rádio, com Jean-Loup, olhando-o através da vidraça, esperando o hom em que falava com os diabos, em vez de ficar em casa ouvindo apenas a voz que saía do rádio.
Gostava daquele j ogo, em bora j á tivesse com preendido que não era só um j ogo.
Às vezes sonhava com aquilo de noite. Pela prim eira vez, estava contente por não ter um quarto só seu na casa onde m oravam , por dorm ir na cam a grande com a m ãe. Acordavam e tinham m edo j untos, os dois, e só conseguiam pegar no sono quando a luz rosa da aurora com eçava a atravessar as persianas.
Pierrot se soltou da m ão da m ãe e correu para Jean-Loup, seu ídolo, seu m elhor am igo. O DJ rem exeu seus cabelos.
— Salve, salve, garotão. Com o vai essa força?
— Bem , Jean-Loup. Sabia que am anhã vou andar no carro da polícia?
— Nossa! Então agora é um policial tam bém .
— Claro, sou um policial no horário…
Ouvindo o novo trocadilho involuntário de Pierrot, Jean-Loup sorriu e puxou-o instintivam ente para si. Apertou seu rosto contra o peito, exagerando o m ovim ento que bagunçava seus cabelos.
— Olhe só o policial no horário envolvido num duro corpo a corpo com seu inim igo im placável, o terrível dr. Cosquinha…
E com eçou a fazer cócegas em Pierrot, que chorava de tanto rir. Foram para a sala da direção, seguidos por Laurent e Bikj alo.
Frank, Hulot e a m ãe observavam a cena em silêncio. A m ulher, com um sorriso encantado ao ver a am izade que ligava Jean-Loup a seu filho, tirou um lenço da bolsa e assoou o nariz. Frank notou que estava lim po e recém -passado. Tam bém notou que, em bora m odestas, as roupas da m ulher estavam em perfeita ordem .
— Senhora, nunca vam os lhe agradecer o suficiente pela paciência que tem conosco.
— Eu? Paciência com o senhor? Sou eu que tenho que agradecer por tudo que estão fazendo por m eu filho. Nem parece ele. Se não fosse essa história horrível, estaria até contente…
Hulot a tranquilizou com um a voz que transm itia calm a. E Frank sabia que, naquele m om ento, calm a era um a coisa que ele não tinha.
— Fique tranquila, senhora. Logo tudo isso vai ter um fim e em grande parte graças a Pierrot. Posso lhe garantir que ele terá o reconhecim ento que m erece. Seu filho vai se transform ar num pequeno herói.
A m ulher se afastou pelo corredor, os om bros levem ente curvos, em seu tím ido passo lento. Frank e Hulot ficaram sozinhos.
Naquele m om ento, a cham ada de Voices propagou-se pelos corredores e a transm issão com eçou. Mas naquela noite o program a estava m eio chocho, e tanto Jean-Loup quanto os outros sentiam isso. Havia um a tensão quase elétrica no ar, m as ela não estava sendo transm itida ao program a. Os telefonem as chegavam , m as eram ligações norm ais e rotineiras, selecionadas previam ente por Raquel, auxiliada por policiais. Pediam a todos os ouvintes que não falassem dos crim es. Mas se, apesar disso, alguém tocava no assunto, Jean-Loup tratava de desviar a conversa para tem as m ais am enos. Todos sabiam que m ilhões de ouvintes estavam sintonizados nas ondas da Rádio Monte Carlo toda noite. O program a, além da Itália e da França, era ouvido tam bém em outros países da Europa através das redes que haviam com prado seus direitos. Eles ouviam , traduziam e com entavam , à espera de que algum a coisa acontecesse. Para a rádio, era um negócio colossal. O triunfo da sabedoria latina.
Mors tua, vita mea.
Frank pensou que fatos com o aquele que estavam vivendo eram um pouco com o a m orte de todos. Ninguém saía disso realm ente vencedor.
Assustou-se com o sentido do que tinha acabado de pensar.
Ninguém saía disso realmente vencedor.
Lem brou-se da estratégia de Ulisses. O significado intrínseco da definição que o assassino fazia de si m esm o, a ironia, o sentido desprezível do desafio. Convencia-se cada vez m ais de que estavam diante de um hom em fora do com um e que precisavam prendê-lo o m ais rapidam ente possível. Na prim eira oportunidade que tivessem .
Instintivam ente, tocou com o braço o revólver na cartucheira colocada debaixo do braço, sob o paletó. A m orte daquele hom em , não im portava se em sentido real ou figurado, realm ente representava a vida para alguém .
A luz verm elha da linha telefônica se acendeu. Laurent passou a ligação para Jean-Loup no ar.
— Alô?
Houve um a pausa, depois um a voz truncada saiu das caixas.
— Alô, Jean-Loup. Meu nome é um e nenhum, é ninguém…
Todos os presentes ficaram petrificados. Jean-Loup, por trás do vidro da cabine de transm issão, em palideceu, com o se todo seu sangue tivesse sum ido de repente. Barbara, sentada no m ixer, afastou-se bruscam ente do aparelho com o se ele tivesse se transform ado num perigo m ortal.
— Quem é? — perguntou abalado.
— Não interessa quem eu sou. O importante é que vou atacar de novo essa noite, não importa o que aconteça…
Frank se levantou, com o se descobrisse que estava sentado num a cadeira elétrica.
Cluny, que estava sentado à sua esquerda, levantou-se tam bém e agarrou seu braço.
— Não é ele, Frank — m urm urou.
— O que quer dizer com “não é ele”?
— Está errado. Disse: “Meu nom e é um e nenhum , é ninguém .” E o outro diz: “Sou um e nenhum . Sou ninguém .”
— Faz diferença?
— Nesse caso, faz m uita diferença. E depois, a pessoa que está no telefone é um ignorante. Isso é brincadeira de algum babaca.
Quase confirm ando as palavras do psiquiatra, um a risada que se pretendia satânica saiu das caixas e a ligação foi interrom pida.
Morelli entrou correndo na cabine de direção.
— Pegam os!
Frank e Cluny foram com ele para o corredor. Hulot, que estava na sala do diretor da rádio, tam bém chegou correndo, seguido a um passo de distância por Bikj alo.
— Pegaram ?
— Sim , delegado. O telefonem a veio de algum lugar na periferia de Mentone.
Frank j ogou um balde de água fria naquele entusiasm o que, infelizm ente, era seu tam bém .
— O dr. Cluny disse que pode não ser ele, m as um trote.
O psiquiatra sentiu-se desautorizado. O uso do condicional deixava entreaberta um a porta que Cluny tratou de fechar.
— Talvez a voz tenha sido truncada da m esm a m aneira, m as a linguagem não é da m esm a pessoa que deu os telefonem as anteriores. Acho que não é ele.
— Maldito, sej a quem for. Já avisou o delegado de Mentone? – perguntou o delegado a Morelli.
— Im ediatam ente, assim que localizam os a cham ada. Partiram de lá com o um raio.
— Claro, im agine se iam deixar escapar a oportunidade de serem os responsáveis por sua prisão…
O delegado evitava olhar para Cluny, com o se afastá-lo de seus olhos excluísse a possibilidade que o psiquiatra tinha levantado.
Passaram -se quinze interm ináveis m inutos. No fim do corredor, ouviam -se a m úsica e a voz de Jean-Loup pelas caixas de som . Com certeza, centenas de ligações estavam chegando e a central estava congestionada. O aparelho de rádio que Morelli tinha pendurado na cintura soou. O inspetor ficou tenso com o um a corda de violino ao ouvir a cham ada.
— Inspetor Morelli.
Ficou ouvindo. A desilusão se estam pou em seu rosto com o um a nuvem que, pouco a pouco, esconde o sol. Antes m esm o que lhe passasse o fone, Hulot sabia que tudo aquilo não era nada.
— Delegado Hulot.
— Olá, Nicolas, é Roberts, de Mentone.
— Olá, o que m e diz então?
— Estou no local. Nada, alarm e falso. Trata-se de um im becil com pletam ente drogado que queria im pressionar a nam orada. Im agine que ligou de sua própria casa, o babaca. Quando chegam os lá, eles quase m ij aram nas calças de tanto m edo, ele e a m oça…
— Que morressem de m edo, os dois idiotas. Pode prendê-los?
— Claro. Além de obstrução das investigações, o im becil tem um belo pedaço de torta em casa.
Com esse term o, Roberts estava se referindo ao haxixe.
— Ótim o. Pegue os dois e pode j ogar na fogueira. É im portante que a m ídia fique sabendo. Tem os que dar o exem plo, senão daqui a pouco estarem os atolados em telefonem as desse tipo. E obrigado, Roberts.
— Im agine. Sinto m uito, Nicolas.
— Honestam ente, eu tam bém . Tchau.
O delegado desligou. Olhou para os dem ais com um olhar no qual a esperança tinha-se apagado totalm ente.
— O doutor tinha razão. Alarm e falso.
Cluny parecia constrangido, com o se prever aquilo fosse quase um a culpa.
— Bem , eu…
— Ótim o trabalho, doutor — interveio Frank. — Ótim o trabalho m esm o. O que aconteceu não é culpa de ninguém .
Voltaram lentam ente para a cabine de direção, no fundo do corredor. Gottet aproxim ou-se.
— E então?
— Então nada. Um a pista falsa.
— Achei estranho que fosse tão fácil. Mas num caso com o esse, com o im aginar…
— Está tudo certo, Gottet. O que acabei de dizer para o dr. Cluny vale para você tam bém . Ótim o trabalho.
Entraram na cabine onde todos estavam à espera de notícias. Viram a decepção estam pada em seus rostos e tiveram um a resposta antes m esm o de fazer a pergunta. Barbara relaxou na cadeira e apoiou-se ao m ixer. Laurent passou um a m ão pelos cabelos, em silêncio.
Naquele m om ento, o sinal verm elho na parede com eçou a piscar. O DJ estava abatido. Bebeu um gole d’água do copo que estava na m esa e aproxim ou-se do m icrofone.
— Alô?
Prim eiro, houve o silêncio. Aquele silêncio que todos tinham aprendido a reconhecer. Depois o chiado sufocado, o eco artificial.
— Alô, Jean-Loup. Tive a impressão de que estivessem me esperando…
Cluny inclinou-se para Frank.
— Ouviu? Im perfeito do subj untivo! Propriedade de linguagem . Este sim , é ele.
Dessa vez Jean-Loup não hesitou. Suas m ãos apertavam a m esa com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos, m as em sua voz não havia sinal de nada disso.
— Sim , estávam os esperando. Sabe m uito bem que estávam os esperando.
— Eis-me aqui, portanto. Os cães devem estar exaustos de tanto correr atrás de sombras. Mas a caçada deve continuar. A minha e a deles.
— Por que deve, qual o sentido disso tudo?
— A lua é para todos e cada um de nós tem o direito de uivar.
— Uivar para a lua significa dor. Mas tam bém se pode cantar para a lua. Às vezes, é possível ser feliz na escuridão, quando se vê um a luz. Meu Deus, é possível ser feliz no m undo, pode acreditar em m im .
— Pobre Jean-Loup! Você também acha que a lua é verdadeira, mas ela é apenas uma ilusão… Sabe o que há na escuridão daquele céu, meu caro?
— Não, m as acho que vai m e dizer.
O hom em ao telefone pareceu não entender a ironia am arga daquela frase. Ou talvez tivesse entendido, m as se sentisse superior a ela.
— Nem Deus, nem lua, Jean-Loup. A palavra certa é “nada”. Não há absolutamente “nada”. E estou tão habituado a viver lá dentro que nem dou mais atenção. Em toda parte, não importa onde você pouse os olhos, é o nada.
— Você é louco — deixou escapar Jean-Loup, sem querer.
— Também já me perguntei isso várias vezes. Há muitas probabilidades de que eu seja mesmo, embora tenha lido em algum lugar que os loucos sequer cogitam que são loucos. Não sei o que significa desej ar sê-lo, que é o que acontece comigo às vezes.
— Tam bém a loucura pode ter um fim , existem curas. O que podem os fazer para aj udá-lo?
O hom em ignorou a pergunta, com o se não houvesse resposta.
— É melhor que me pergunte o que eu posso fazer para ajudá-los. Bom, aqui está o novo osso. Para os cães que correm atrás do próprio rabo na tentativa desesperada de mordê-lo. É um loop. Um belo loop que gira, gira, gira… Como na música. Onde é que há um loop que gira, gira, gira…
A voz se diluiu num fade out. Das caixas de som , com o das outras vezes, saiu de repente um a m úsica. Nada de guitarras, dessa vez, nada de rock com sabor de revival, m as um a m úsica dance extrem am ente atual. O triunfo da eletrônica e do sam pleado. A m úsica term inou tão bruscam ente quanto com eçou. O silêncio que se seguiu tornou ainda m ais im portante a pergunta de Jean-Loup.
— O que quer dizer? O que significa isso?
— Eu fiz a pergunta, a resposta é de vocês. A vida é feita disso, meu caro amigo. Perguntas e respostas. Nada mais do que perguntas e respostas. Cada homem arrasta consigo suas perguntas, a partir daquelas que estão inscritas no seu nascimento.
— Que perguntas?
— Eu não sou o destino, eu sou um e nenhum, sou ninguém, mas sou fácil de entender. Quando quem me vê percebe quem sou, numa fração de segundos aquela pergunta salta de seus olhos: quando e onde. Eu sou a resposta. Para essas pessoas significo aqui, significo agora.
Houve um a pausa. Depois a voz sibilou um a nova condenação.
— É por isso que eu mato…
Um clique m etálico cortou a com unicação, deixando no ar um eco que parecia vir do m ecanism o de um a guilhotina. Em sua m ente, Frank viu um a cabeça cortada rolar.
Não, dessa vez não, meu Deus!
O inspetor Gottet, de costas, j á tinha entrado em contato com seus hom ens.
— Conseguiram fisgá-lo?
A resposta que relatou foi com o a fórm ula de um sortilégio que fazia desaparecer o pouco de ar que tinham nos pulm ões.
— Nada. Não tem j eito. Nenhum sinal para nos agarrarm os. Pico disse que quem m anobra essas ligações deve ser um autêntico fenôm eno. Não conseguiu ver nada. Se chega pela web, o sinal é m ascarado de tal m aneira que nossas m áquinas não conseguem visualizar. Aquele m onte de m erda nos passou a perna de novo!
— Azar o nosso. Alguém reconheceu a m úsica?
Quem cala consente. Mas naquele caso específico, o silêncio geral tinha um significado negativo.
— Merda! Barbara, um a fita com a m úsica, rápido. Onde está Pierrot?
Barbara j á estava providenciando a cópia.
— Na sala de reuniões — disse Morelli.
Havia um a ânsia febril no ar. Todos sabiam que era preciso ser rápido, rápido, rápido. Talvez o autor dos telefonem as estivesse saindo naquele m om ento para dar início à caçada. E um outro alguém , em algum lugar, estivesse vivendo, sem saber, os últim os m inutos de sua vida. Saíram em busca do Rain Boy, o único entre eles que poderia reconhecer a m úsica à prim eira audição.
Na sala de reuniões, Pierrot estava sentado num a cadeira, de cabeça baixa, ao lado da m ãe. Quando chegaram , olhou para eles com os olhos cheios de lágrim as, depois voltou a abaixar a cabeça.
Com o da prim eira vez, Frank se abaixou ao lado da cadeira. Pierrot levantou um pouco o rosto, com o se tivesse vergonha de m ostrar os olhos úm idos.
— O que houve, Pierrot? Tem algum a coisa errada?
O rapazinho fez que sim com a cabeça.
— Está assustado? Não tenha m edo, estam os aqui, com você.
Pierrot em pinou o nariz.
— Não estou com m edo, eu tam bém sou um policial, agora…
— Então o que houve?
— Não sei a m úsica — respondeu aflito.
Havia em sua voz um a dor autêntica. Passeou os olhos a seu redor, com o se tivesse fracassado na grande ocasião de sua vida. As lágrim as desceram m arcando seu rosto.
Frank sentiu-se perdido. Apesar dessa sensação, fez um esforço e continuou sorrindo para Pierrot.
— Fique tranquilo. Não há m otivo para preocupação. Vam os ouvir a m úsica de novo e vai ver com o consegue reconhecer. É difícil, m as você é capaz. Tenho certeza de que vai conseguir.
Barbara entrou quase correndo na sala. Tinha na m ão um DAT. Enfiou no gravador e apertou o play.
— Ouça com atenção, Pierrot.
As percussões eletrônicas do trecho se espalharam pela sala. A batida quaternária da m úsica dance assem elhava-se à batida do coração hum ano. Cento e quarenta e sete batidas por m inuto. Um coração acelerado pelo m edo, um coração que, em algum lugar, podia parar de um m om ento para o outro.
Pierrot ouviu em silêncio, sem pre de cabeça baixa. Quando a m úsica term inou, levantou a cabeça e um tím ido sorriso despontou em seus lábios.
— Tem — disse suavem ente.
— Reconheceu? Tem no quarto? Vá buscar então, por favor.
Pierrot fez que sim e se levantou da cadeira. Partiu com seu andar atrapalhado. Hulot fez um sinal a Morelli, que foi atrás dele.
Voltaram depois de um a espera que pareceu interm inável. E Pierrot apertava um CD entre as m ãos.
— Está aqui. É um a compilação…
Enfiaram o CD no gravador e procuraram até encontrar a faixa certa.
Era exatam ente a m esm a m úsica que o assassino tinha apresentado pouco antes. Pierrot foi aclam ado com o herói. Sua m ãe o abraçou com o se tivesse acabado de receber o prêm io Nobel. Havia um brilho de orgulho nos olhos da m ulher, o que deixou o coração de Nicolas Hulot apertado até doer.
Frank leu o título na capa da com pilação.
— “Nuclear Sun”, de Roland Brant. Quem é esse Roland Brant?
Ninguém conhecia. Correram todos j untos, para o com putador. Depois de um a rápida busca na internet, o nom e apareceu num site italiano. Roland Brant era o pseudônim o de um DJ italiano, um certo Rolando Bragante. Descobriram que “Nuclear Sun” fizera algum sucesso nas discotecas alguns anos antes.
Nesse m eio-tem po, Laurent e Jean-Loup tinham encerrado a transm issão e se j untado a eles. Estavam m uito abalados. Am bos pareciam ter passado por um tem poral e davam a im pressão de que um pouco daquele tem poral tinha perm anecido dentro deles.
O diretor deu um a explicação sobre o que significava dance, um am biente à parte no quadro do m ercado fonográfico.
— Muitas vezes, os DJs assum em um pseudônim o. Pode ser um a palavra inventada, m as na m aior parte dos casos é um nom e em inglês. Existem três ou quatro na França. Em geral, são m úsicos que se especializaram em m úsica de discoteca.
— O que significa “é um loop”?
— É um a form a de falar na m úsica sam pleada, quando se usa um com putador. Um loop serve com o base, é a essência da m úsica. Eles pegam um a batida e botam para girar sobre si m esm a, de m odo que sej a sem pre perfeitam ente igual.
— Claro, exatam ente com o disse aquele infeliz. Um cão que corre atrás do próprio rabo.
Frank interrom peu bruscam ente aquelas reflexões, trazendo-os de volta à urgência do m om ento. Havia algo m uito m ais im portante que precisavam entender.
— Ok, tem os um trabalho a fazer. Vam os, não tiveram nenhum a ideia? Pensem em alguém fam oso, por volta dos trinta, trinta e cinco anos que possa ter algum a coisa em com um com os elem entos que tem os. E aqui, em Montecarlo.
Frank parecia obcecado. Agitava-se entre eles, repetindo aquelas palavras sem parar. Sua voz parecia seguir um a ideia com o o latido da m atilha de cães segue um a raposa.
— Um hom em j ovem , atraente, fam oso. Alguém que circula por aqui, nas paragens. Mora aqui ou está aqui no m om ento. CDs, com pilações, “Nuclear Sun”, discoteca, m úsica dance, um DJ italiano com nom e inglês, um pseudônim o. Pensem nos j ornais, nas publicações sensacionalistas, no j et-set…
A voz de Frank era com o o chicote de um j óquei incitando o cavalo num a corrida desenfreada. A m ente de cada um deles galopava da m esm a, idêntica m aneira.
— Força! Jean-Loup?
O DJ sacudiu a cabeça. Jean-Loup parecia m uito abalado e era claro que não se podia esperar nada dele.
— Laurent?
— Sinto m uito, m as não m e veio nada à m ente.
Barbara estrem eceu e levantou a cabeça bruscam ente, m ovendo os cabelos acobreados com o um a onda. Frank viu seu rosto se ilum inar. Aproxim ou-se dela.
— Diga, Barbara.
— Não sei… talvez…
Frank m ergulhou com o um falcão em sua expressão hesitante.
— Barbara, não há talvez. Pode dizer qualquer nom e que lhe vier à cabeça, certo ou errado, não im porta.
A m oça passou os olhos pelos presentes, com o quem pede desculpas antecipadam ente por algum a bobagem que ia dizer.
— Bem , pensei que poderia ser Roby Stricker.