Eu Mato
Capítulo 47
47
FRANK E MORELLI SAÍRAM DA RASCASSE para o Boulevard Albert Prem ier a toda velocidade e, dentro do Mégane, viram -se praticam ente enfileirados na procissão de carros que chegavam da Rue Suffren Ray m ond com as sirenes ligadas. Além dos carros com as cores da polícia, havia um furgão azul com vidro fum ê, no qual estavam sentados os agentes da unidade de operações especiais com uniform e de com bate.
Mesm o a contragosto, Frank foi obrigado a reconhecer a eficiência da Sûreté Publique m onegasca. Pouquíssim os m inutos tinham se passado depois que Morelli deu o alarm e e a m áquina tinha se colocado em m ovim ento com um a velocidade im pressionante.
Dobraram à direita no início da subida de Sainte-Dévote e contornaram o porto para pegar o túnel. Era m ais ou m enos o traj eto do Grande Prêm io feito às avessas. Frank pensou que nenhum piloto poderia percorrê-lo com m otivação m aior que a sua.
Saíram do túnel com o proj éteis disparados pela boca de um canhão, deixando para trás as praias de Larvotto e pegando a rua que passa diante do Country Club e continua subindo em direção a Beausoleil.
Frank percebia confusam ente as cabeças curiosas se virando à sua passagem . Um núm ero tão grande de viaturas prontas para a ação não era um espetáculo frequente nas ruas de Montecarlo. Na história da cidade, as ocasiões em que foram com etidos crim es que exigissem tal m obilização de forças podiam ser contadas nos dedos de um a m ão, até pela topografia da cidade. Montecarlo é constituída praticam ente por um a única estrada de acesso e um a outra de saída, que podem ser fechadas de um lado e de outro com facilidade. Ninguém com um m ínim o de cérebro iria se enfiar num a arm adilha daquelas.
Ao ouvir as sirenes, os carros civis paravam ordenadam ente para dar passagem à polícia. Apesar da velocidade, Frank tinha a im pressão de que avançavam a passos de tartaruga.
Gostaria de poder voar, gostaria de…
O rádio do painel apitou. Morelli se esticou para pegar o m icrofone.
— Morelli.
Através do viva-voz, Roncaille adentrou no carro.
— É Roncaille. Onde estão?
— Atrás do senhor, diretor. Estou no carro com Frank Ottobre, atrás do seu.
Frank deu um sorriso ao ouvir que o chefe de polícia em pessoa estava num dos carros que vinham na frente. Aquele hom em não perderia por nada nesse m undo a oportunidade de estar presente no m om ento da prisão de Ninguém . Im aginou se Durand estaria com ele no carro. Provavelm ente, não. Roncaille não era bobo. Se tivesse algum a chance, não dividiria com ninguém o m érito de capturar o assassino a respeito do qual m eia Europa estava falando.
— Está m e ouvindo tam bém , Frank?
— Sim , ele está ouvindo. Está dirigindo, m as pode ouvir. Foi ele quem descobriu a identidade de Ninguém .
Morelli achou que era um a obrigação confirm ar os m éritos efetivos de Frank no que dizia respeito à corrida desenfreada para a casa de Jean-Loup Verdier. Depois fez um a coisa que Frank nunca pensou que fosse capaz de fazer. Com o m icrofone na m ão esquerda e colado à boca, sacudiu o dedo m édio da direita para o alto-falante, no m esm o m om ento em que a voz de Roncaille saía novam ente das caixas.
— Bom . Muito bom . O pessoal de Mentone tam bém está chegando. Tive que avisá-los porque a casa de Jean-Loup fica na França, portanto, é j urisdição deles. Precisam os de sua presença para convalidar a prisão. Não quero que nenhum advogado de porta de cadeia se agarre a um pretexto desse tipo para atrapalhar o desenrolar do processo… Está m e ouvindo, Frank?
Um chiado de energia estática se fez ouvir. Frank pegou o m icrofone das m ãos de Morelli e continuou, segurando o volante com um a m ão só.
— Pode falar, Roncaille.
— Espero vivam ente que, para o bem de todos nós, você saiba o que está fazendo.
— Fique tranquilo, tem os provas suficientes para garantir que é ele m esm o.
— Outro passo em falso de nossa parte depois dos últim os acontecim entos seria inaceitável.
Claro, especialmente agora que o primeiro nome na lista dos afastamentos seria o seu…
A preocupação do chefe de polícia parecia ir além daquilo. Dava para senti-la m esm o através da voz levem ente distorcida pelos receptores do rádio.
— Tem um a coisa, Frank, que não consigo entender.
Só uma?
— Com o é que esse hom em fez para com eter os hom icídios se estava praticam ente barricado dentro de casa pela vigilância de nossos agentes?
Frank j á havia se feito a m esm a pergunta e deu a Roncaille a resposta que j á dera a si m esm o.
— Não sei com o explicar esse detalhe. Acho que ele m esm o terá que fazê-lo, assim que colocarm os as m ãos em cim a dele.
Enquanto essa conversa se desenrolava, tinham praticam ente chegado à casa de Jean-Loup Verdier. Frank achou que a falta de contato com os agentes do carro que vigiava o lugar era um péssim o sinal. Se tinham entrado em ação, j á deveriam ter com unicado o resultado de seus m ovim entos.
Não partilhou a preocupação com Morelli, que, com o não era estúpido, provavelm ente chegara à m esm a conclusão sozinho.
Com um a sincronia perfeita, pararam diante do portão de entrada da casa de Jean-Loup no m esm o instante que chegava o carro do com issariado de Mentone. Frank notou que não havia j ornalistas no local e, se as circunstâncias fossem outras, teria vontade de rir. Tinham feito plantão na frente daquela casa até pouco tem po atrás, sem conseguir nada, e resolveram abandonar o assédio j ustam ente na hora em que aparecia um a notícia suculenta com o um filé onde enfiar os dentes.
Com certeza, logo chegariam em m assa, m as seriam detidos pelos carros da polícia, dispostos em form ação de bloqueio nos dois lados da rua. Alguns agentes j á estavam posicionados m ais abaixo, na altura da casa de Helena, para bloquear qualquer possibilidade de fuga pela ladeira íngrem e que ia dar na costa e no m ar.
O furgão azul ainda não estava com pletam ente parado quando as portas duplas se abriram . Um a dúzia de hom ens da unidade de operações especiais, de m acacão azul, com capacetes, coletes à prova de bala de kevlar e fuzis M-16, saíram e prepararam -se para invadir a casa.
O carro dos agentes em serviço na casa estava estacionado do lado de fora, vazio, com as portas fechadas, m as não trancadas. O próprio Roncaille tratou de abri-las. Frank teve um m au pressentim ento. Um péssim o pressentim ento.
— Tente ligar para os agentes — disse a Morelli.
O inspetor aprovou com um gesto de cabeça, enquanto Roncaille se aproxim ava deles. Frank viu que o dr. Cluny tam bém estava saindo do carro do chefe de polícia. Roncaille não era tão obtuso quanto parecia, afinal. No caso de um a negociação com reféns, a presença do m édico seria m uito útil. Morelli com eçou a cham ar os policiais, sem resultado, enquanto Roncaille parava diante deles.
— O que vam os fazer?
— Nossos agentes não respondem e isso não é um bom sinal. Nessa altura dos acontecim entos, m andaria a unidade de operações especiais invadir.
Roncaille se virou e fez um gesto com a cabeça para o chefe da unidade de operações especiais, que esperava instruções em pé, no m eio da rua. O hom em deu a ordem e tudo aconteceu com a velocidade de um relâm pago. Num segundo, os hom ens se espalharam e desapareceram da vista.
Um hom em à paisana, ainda j ovem , com um a calvície incipiente e o andar gingado de um j ogador de basquete, desceu do carro da polícia de Mentone e aproxim ou-se. Frank teve a im pressão de que j á o vira antes, m isturado à m ultidão, no enterro de Nicolas. Estendeu a m ão para eles.
— Boa-tarde. Sou o delegado Roberts, da Hom icídios de Mentone.
Os dois apertaram a m ão estendida, enquanto Frank se perguntava onde tinha ouvido aquele nom e: era o policial com quem Nicolas tinha falado na noite do assassinato de Roby Stricker e Gregor Yatzim in. Foi ele quem checou o telefonem a que depois se revelou um falso alarm e.
— O que houve? Tudo certo? — perguntou Roberts virando para olhar para o teto da casa que despontava entre os ciprestes.
Frank pensou no rosto banhado em lágrim as de Pierrot, no seu cérebro de m enino ingênuo que prim eiro aj udou e depois, num segundo, destruiu tudo o que tinham construído com esforço e à custa de vidas hum anas. Gostaria de gritar e m entir, m as obrigou sua voz à verdade e à calm a.
— Tem o que não. Infelizm ente, o suspeito foi avisado e a surpresa foi pelos ares. Tem os três agentes lá dentro que não respondem ao rádio e sobre os quais não sabem os nada.
— Hum m , a coisa está feia. Mas acho que três contra um …
As palavras de Roberts foram interrom pidas pelo chiado do rádio portátil que Morelli segurava. O inspetor apressou-se a responder, aproxim ando-se do grupo.
— Sim .
— É Gavin. Estam os dentro. Revistam os a casa de cim a a baixo. O local está seguro, em bora tenham feito um a carnificina por aqui. Tem os três policiais m ortos m as, à parte os cadáveres, não há ninguém .