Eu Mato
Capítulo 60
60
PIERROT ESTICOU A CABEÇA PARA FORA da m oita em que estava escondido e olhou para a rua. Viu com alívio que todos aqueles carros e todas aquelas pessoas que esperavam tinham ido em bora, j unto com os policiais que pararam todo m undo.
Ótim o. Quer dizer, agora estava ótim o, m as antes estava realm ente com m edo…
Quando saiu da rádio, subiu a pé até a casa de Jean-Loup, com sua m ochila nas costas. Estava um pouco nervoso porque não tinha certeza de conhecer bem o cam inho, em bora houvesse visitado a casa diversas vezes, porque sem pre ia para Beausoleil no carro de Jean-Loup, que se cham ava uma Mercedes. Não prestava m uita atenção ao traj eto, pois estava m uito ocupado rindo e olhando o rosto de seu am igo. Quando estava com Jean-Loup ria sem parar. Quer dizer, nem sem pre, porque alguém dizia que só os bobos riem sem pre e ele não queria que dissessem que era bobo.
E tam bém não estava acostum ado a andar sozinho por aí porque a m ãe tinha m edo que algum a coisa de m al lhe acontecesse ou que outros rapazes zom bassem dele, com o a filha da sra. Narbonne, que m esm o tendo os dentes tortos e a cara cheia de espinhas o cham ava de “cara de retardado”.
Ele não sabia m uito bem o que era um a cara de retardado e havia perguntado à m ãe. Ela virou para o outro lado, m as não foi rápida o bastante para im pedir que ele notasse que estava com os olhos cheios d’água. Pierrot não se preocupou m uito com aquela história. Sua m ãe ficava com os olhos cheios d’água m uitas vezes, com o quando via aqueles film es da televisão que no final tinham sem pre aqueles dois se beij ando e os violinos tocavam e eles se casavam .
A única coisa que tem ia de verdade era que os olhos cheios d’água de sua m ãe significassem que, m ais dia, m enos dia, teria que casar com a filha da sra. Narbonne.
No m eio do cam inho, teve sede e, sem parar, bebeu a latinha de Coca-Cola trazida de casa. Não bebeu satisfeito, porque sua intenção era dividi-la com Jean-Loup, m as fazia calor, estava com a boca toda seca e com certeza seu am igo não ficaria chateado por tão pouco.
Em todo caso, ainda tinha a lata de Schweppes.
Chegou à casa de Jean-Loup um pouco suado e pensou que seria m elhor trocar de cam iseta. Mas isso não seria problem a. Sabia que Jean-Loup tinha um a gaveta, num m óvel da lavanderia, onde guardava as cam isetas que usava só para os trabalhos caseiros. Se a sua estivesse m uito suada, pegaria um a das dele em prestada e devolveria depois de lavada e passada por sua m ãe. Já tinha acontecido antes, quando estavam na piscina e caíra na água. Jean-Loup lhe dera um a cam iseta prom ocional da “Martini-Racing”, só que daquela vez ele pensou que era um em préstim o, m as era um presente.
Agora, antes de m ais nada precisava encontrar a chave. Tinha visto a caixa de correio com letras de alum ínio ao lado do portão, com Jean-Loup Verdier escrito em verde-escuro, a m esm a cor das grades. Enfiou a m ão entre as barras e tateou o fundo da caixa de m etal. Sob os dedos sentiu a form a da chave presa por um a fina cam ada de algum a coisa que parecia um chiclete m ascado e seco.
Quando ia puxar a chave e pegá-la, um carro parou no largo vizinho ao portão. Por sorte, Pierrot estava encoberto por um a m oita e pelo tronco de um dos ciprestes. De onde estava, a pessoa do carro não poderia vê-lo. Esticou a cabeça e viu que quem estava dentro do carro azul parado no largo era o hom em am ericano, aquele que sem pre acom panhava o delegado, m as que depois não o fazia m ais porque, com o alguém lhe dissera, o delegado tinha m orrido. Pierrot voltou a se esconder rapidam ente para que não o visse, porque, se descobrisse que estava lá, ele talvez quisesse saber o que estava fazendo e decidisse levá-lo de volta para casa.
Subiu a rua, seguindo o asfalto e m antendo-se encoberto. Depois de passar pelo barranco que descia até lá em baixo, tão abrupto que só de olhar sua cabeça girava, tinha pulado um a am urada num lugar m ais baixo e encontrado um a m oita na ladeira para se esconder.
De seu posto de observação, via-se o pátio da casa de Jean-Loup. Ficou observando curiosam ente aquele m onte de gente que ia e vinha, sobretudo policiais de azul e policiais vestidos de policiais, além de algum as pessoas de roupa norm al. Viu tam bém o suj eito que ficava na rádio e que nunca sorria, m as sem pre sorria quando falava com Barbara.
Ficou em seu esconderij o por um tem po que lhe pareceu longuíssim o, até que, finalm ente, todos foram em bora e o pátio ficou vazio. O últim o a ir em bora, o am ericano, havia esquecido a porta de correr da garagem aberta.
Pierrot pensou que era um a sorte ele estar ali para tom ar conta da casa do am igo. Agora podia descer para ver se os discos estavam no lugar. Antes de ir em bora trataria de fechar a porta da garagem , senão qualquer um poderia entrar e roubar o que bem entendesse.
Ergueu-se lentam ente do chão e em ergiu da m oita olhando ao redor. Os j oelhos doíam um pouco por ter ficado acocorado tanto tem po e os pés pareciam cheios de form igas. Com eçou a bater com eles no chão para fazer passar, com o sua m ãe tinha ensinado.
Dentro de seu m undinho, Pierrot bolou um plano de ação.
De onde estava não poderia chegar ao pátio da casa, pois no m eio da ladeira que descia para o m ar havia aquele barranco íngrem e. Portanto, precisava chegar à rua asfaltada e descer até a casa para ver se conseguia pular o portão.
Arrum ou a m ochila nos om bros e se preparou para enfrentar a subida.
Com o rabo do olho notou um m ovim ento entre as m oitas, um pouco abaixo. Pensou que tinha se enganado. Não era possível haver alguém abaixo dele. Se tivesse passado ele teria visto, porque não dava para subir lá de baixo. Esperou um pouco, por prudência; nada aconteceu e estava quase convencido de que tinha se enganado. Depois seus olhos perceberam um novo m ovim ento entre as m oitas. Colocou a m ão na testa para proteger os olhos do reflexo do sol.
O que viu o fez ficar boquiaberto.
Abaixo dele, vestido de verde e m arrom , com o se fizesse parte da terra e das m oitas, com um a bolsa de tecido a tiracolo, estava seu am igo Jean-Loup, rastej ando para fora dos arbustos.
Pierrot ficou sem fôlego. Se fosse por ele, levantaria e gritaria que estava ali, m as talvez não fosse um a boa ideia, porque se nem todos os policiais tivessem ido em bora, poderiam descobri-los. Resolveu subir um pouco e ir para a direita antes de se fazer notar por Jean-Loup, de m odo que ficasse encoberto pelo barranco.
Deslocou-se em silêncio, tentando im itar os m ovim entos do am igo logo abaixo dele, que entrava e saía das m oitas e nem m exia as folhas.
Quando chegou ao ponto além do qual não podia ir, viu que estava num a posição perfeita, encoberto em relação à casa. Bem abaixo dele, havia um a saliência não m uito grande, m as suficiente para que ficasse de pé e cham asse Jean-Loup sem que os policiais o vissem .
Desceu com cuidado até chegar o m ais perto possível da elevação que avistara e preparou-se dobrando as pernas. Depois levantou os braços para o céu e deu um pequeno salto. Assim que seus pés pousaram , aquele m ontinho instável desm oronou sob seu peso e o pobre Pierrot com eçou a rolar gritando no vazio.