Eu Mato

Giorgio Faletti · Capítulo 59 de 76

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Eu Mato

Capítulo 49

49

 

LAURENT BEDON SAIU DO CAFÉ DE PARIS acariciando com os dedos o bolo de notas de 500 euros que deform ava o bolso interno de seu paletó. Pensou na sorte retum bante daquela noitada. Tinha sido protagonista absoluto do sonho de qualquer j ogador de roleta. En plein e cavalo no verm elho 23, repetido três vezes seguidas, com pontuação m áxim a, público em delírio e cara descom posta do crupiê diante de um evento m ais único do que raro.

Tinha ido ao caixa e com eçara a tirar as fichas coloridas dos bolsos com o se estivesse usando o paletó de Harry Houdini. O em pregado ficou im passível diante da personificação da vitória, m as foi obrigado a pedir m ais dinheiro em espécie, pois o que tinha em caixa não era suficiente para pagar a quantia devida.

Enquanto retirava a sacola de plástico encerado que havia deixado no guarda-roupas, Laurent pensou que a sorte, quando se decide a passar para seu lado, pode ser até constrangedora em seu frenesi de afrontar a m iséria. Tinha entrado no Café de Paris apenas para passar um a m eia hora e, naquela m eia hora, recuperara tudo o que perdera nos últim os quatro anos.

Olhou o relógio. Perfeitam ente na hora.

Ficou um instante na calçada observando a praça diante dele.

À esquerda, todas as luzes do Cassino Municipal estavam acesas, destacando o barroquism o afetado de sua arquitetura. Ao lado da entrada, à esquerda, havia um a BMW 750 estacionada num a ram pa, habilm ente ilum inada por um a série

de refletores. Era o prêm io para um a disputa de chemin-de-fer* que ocorreria em breve.

À frente, o Hotel de Paris parecia um a extensão natural do Cassino, com o se um não pudesse existir sem o outro. Laurent im aginou as pessoas lá dentro. Os cam areiros, os garçons, os concierges, os clientes cheios de tédio e dinheiro.

No que lhe dizia respeito, as coisas pareciam ter finalm ente entrado nos eixos. A com eçar pelo j ogo. Desde que com eçara sua colaboração com o am ericano, o vento tinha m udado de direção. Percebia que o suj eito, Ry an Mosse, era extrem am ente perigoso. Percebeu tudo ao constatar a facilidade com que se desem baraçou de Vadim . Mas tam bém era extrem am ente generoso, e enquanto continuasse a sê-lo, um a coisa deixaria a outra em segundo plano. No fundo, o que tinha lhe pedido? Sim plesm ente que lhe passasse discretam ente todas as novidades sobre o caso Ninguém , todas as inform ações que chegassem até ele graças à sua proxim idade das forças policiais alocadas na rádio, à espera dos telefonem as do assassino. Um a sinecura que trouxe para seus bolsos um a som a suficiente para reparar vários buracos no barco acidentado de sua econom ia.

Sua desilusão foi profunda quando soube que Ry an Mosse havia sido preso, acusado de m atar Roby Stricker. Não é que se im portasse m uito nem com um nem com outro. O am ericano era claram ente um psicopata e ele, para ser sincero, pensava que o lugar certo para aquele fanático era exatam ente aquele onde o tinham colocado, um a robusta cela num a prisão sólida com o a Rocca. Quanto a Stricker, aquele play boy era um babaca cuj o único m érito na vida foi ter saído de um a certa xoxota e não de outra. Ninguém , talvez nem m esm o seu pai, sentiria sua falta.

Requiescat como diabos quiser. Amém.**

Esse pensam ento foi o apressado epitáfio que Laurent Bedon dedicou à m em ória de Roby Stricker.

Seu único m otivo de tristeza diante da notícia da prisão de Mosse foi ver sua galinha dos ovos de ouro desaparecer do galinheiro. A viva preocupação pela perda de seu patrocinador, com o o cham ava com seus botões, fez passar para segundo plano o tem or de um a eventual acusação de cum plicidade. Aquele suj eito não parecia alguém que abre o bico com facilidade. Os tiras teriam que suar sangue para arrancar algum a coisa dele. Mosse era um osso-duro, ainda m ais tendo aquele outro, o general Parker, pai da m oça assassinada, na sua retaguarda. Aquele, sim , devia ser um figurão. E certam ente era o proprietário da bolsa que Mosse segurava, a pessoa que se encarregava de preenchê-la quando o pobre Laurent a esvaziava.

Em todo caso, recebeu a notícia de sua libertação com um suspiro de alívio e um a renovação das esperanças. E a esperança tinha se transform ado num a verdadeira sensação de triunfo quando recebeu um segundo e-m ail, assinado pelo tio da Am érica, com o o prim eiro, m arcando um encontro.

Não se perguntou o que desej aria dele, agora que a identidade do assassino tinha sido finalm ente descoberta. A única coisa que o interessava era que o fluxo de dinheiro para seus bolsos não fosse interrom pida.

Ainda conservava diante dos olhos a expressão desconfiada de Maurice quando saldou a dívida. Ele olhou para o dinheiro j ogado em sua escrivaninha, no escritório nos fundos do Burlesque, seu esquálido cabaré em Nice, repleto de prostitutas decadentes, com o se fosse falso.

Se teve curiosidade de saber de onde vinha aquele dinheiro, não deixou que Laurent percebesse.

Laurent saíra com um ar de deboche estam pado no rosto, passando diante de Vadim com seu nariz arrebentado, um a recordação do seu encontro com o capitão Ry an Mosse. A suspeita de que Laurent poderia ter a proteção de alguém ainda m ais perigoso que eles os fizera abandonar a atitude de desprezo com que, em geral, o tratavam .

O sr. Bedon pagou. O sr. Bedon está livre. O sr. Bedon manda todo mundo se foder. O sr. Bedon está indo embora desse lugar de merda.

Laurent arrum ou a bolsa que usava pendurada no om bro e saiu. Atravessou a praça na diagonal, em direção aos j ardins diante do Cassino.

Tinha um m onte de gente por ali. À parte a estação e os turistas de sem pre, a história do serial killer que circulava por Montecarlo atraíra para lá, além de um m onte de j ornalistas, um núm ero incrível de sim ples curiosos. Havia no ar a anim ação dos bons tem pos, em bora, por um a estranha contradição dialética, a presença de toda aquela vida fosse devida à presença da m orte.

Não se falava de outra coisa. Nos j ornais, nas rádios, na televisão, nos salões das casas cuj as luzes desciam para a rua pelas j anelas abertas.

A lem brança do rosto de Jean-Loup apareceu diante de seus olhos de supetão. Apesar de todo seu cinism o, não conseguiu evitar um estrem ecim ento. Ter vivido tanto tem po lado a lado com alguém capaz de fazer o que ele tinha feito era um a ideia que arrepiaria até m esm o a pele de alguém bem m ais cascudo que ele.

Quantas pessoas teria m atado? Oito, se não estava enganado. Não, nove, contando o pobre do delegado Hulot. Um a autêntica carnificina, perpetrada por um belo rapaz de olhos verdes, voz profunda e ar reservado, que parecia m ais propenso a ser seguido por um a m ultidão de m oças alvoroçadas do que pelas forças policiais de toda a Europa.

Lem brou que tinha sido ele quem dera início à carreira de Jean-Loup. Tinha sido ele quem o levara à rádio, para acabar sendo deixado de lado à m edida que os dotes do DJ se revelavam .

Agora, as coisas estavam m udando tam bém nessa direção.

Bikj alo, que parecia destruído por aquela experiência, estava em baixa com a presidência da rádio. Andava fum ando um cigarro russo atrás do outro e falando um a língua que parecia a m esm a dos cigarros. E o presidente perguntou a Laurent se gostaria de apresentar, ele m esm o, seu Voices. Os acontecim entos não pareciam ter dim inuído o interesse do público pelo program a, que, ao contrário, divisava perspectivas de am pliação da audiência, graças àquela estranha e m órbida alquim ia que flutua em torno das tragédias.

Bem, seus merdas, por que não chamam seu querido Jean-Loup agora?

Ele, por sua vez, vendera a peso de ouro um a entrevista exclusiva a um a revista sem anal, cuj o editor pagara tam bém o adiantam ento referente a um instant-book com o título de Minha vida com Ninguém, no qual j á estava trabalhando. Depois foi a vitória no Café de Paris. E a noite ainda não tinha term inado….

O fato de que Jean-Loup ainda estivesse livre não o preocupava nem um pouco.

O rapaz j á não era m ais um problem a. Com o dizia a polícia, sua captura era questão de horas. Afinal, onde um hom em cuj a foto estava em todos os j ornais e nas m ãos de cada agente de polícia de Montecarlo a Helsinque poderia se esconder?

A estrela de Jean-Loup Verdier tinha se apagado para sem pre.

Agora, estava nascendo o sol de Laurent Bedon.

Descobrira, para sua grande surpresa, que nem m esm o Barbara lhe im portava m ais. Que ficasse com seu policial, seu cão de guarda. Laurent tinha entendido que sua obstinação em relação à m oça era m otivada apenas pelo m om ento negativo. Provavelm ente, via nela um sím bolo de sua falência, a representante m ais significativa das rej eições que a vida lhe oferecia naquele período.

Agora quem estava sentado num trono com o poder de dizer sim e não era ele. A única coisa que desej aria, se ainda podia exigir algum a coisa dela, era vê-la chegar com o rabinho entre as pernas para adm itir que havia com etido um grande erro ao abandoná-lo. Gostaria de ouvir sua voz hum ilhada im plorando que a perdoasse e voltasse para ela.

Tudo isso só para ter a oportunidade sublim e de j ogar a verdade em sua cara. Não precisava m ais dela, agora. Não precisaria dela nunca m ais.

Sentou-se num banco do lado direito do parque, onde havia m ais som bra. Acendeu um cigarro e apoiou-se no encosto, observando aquele m undo que girava em torno dele, finalm ente sem se sentir com o um m em bro ilegítim o daquilo tudo.

Pouco depois, a figura de um hom em saiu da som bra às suas costas e sentou-se a seu lado. Virou a cabeça para olhá-lo. Seus olhos, que pareciam sem vida com o os de um anim al em palhado, não lhe incutiam m edo. Para ele, aquele hom em significava som ente a chegada de m ais dinheiro.

— Boa-noite, Laurent — disse o hom em em inglês.

Laurent inclinou a cabeça ligeiram ente e respondeu na m esm a língua.

— Boa-noite para o senhor tam bém . Fico satisfeito em vê-lo em liberdade, capitão Mosse.

O outro ignorou com pletam ente o sentido daquele cum prim ento. Passou sem m ais delongas ao m otivo de seu encontro.

— Trouxe o que lhe pedi?

Laurent colocou no banco entre eles a sacola de tecido encerado que estava a tiracolo até aquele m om ento.

— Aqui está. Não tem tudo, claro. Peguei um pouco de m aterial ao acaso. Se tivesse m e dito para que serve tudo isso, poderia…

Ry an Mosse o interrom peu com um gesto. Ignorou a pergunta im plícita em sua frase e colocou diante dele um a m aleta à la 007 barata.

— Aqui está o que com binam os.

Laurent agarrou a m aleta e colocou-a nos j oelhos. Num estalo, abriu a fechadura e levantou a tam pa. Na penum bra, viu vários m aços de notas em quantidade suficiente para cobrir totalm ente o fundo da m ala. Laurent pensou que ilum inavam m ais do que qualquer holofote.

— Certo.

— Não vai contar? — perguntou Mosse com um leve tom irônico.

— O senhor não tem com o checar aqui o m aterial que lhe entreguei. Creio que seria um a grande falta de classe não responder à sua confiança com a m esm a confiança.

O capitão Ry an Mosse se levantou. A troca estava concluída. O prazer com a com panhia recíproca não era com certeza m otivo suficiente para prolongar aquele encontro. Nem para ele, nem para Laurent.

— Até logo, sr. Bedon.

Laurent ficou sentado no banco e fez um gesto com a m ão.

— Até logo, capitão Mosse. É sem pre um prazer fazer negócios com o senhor.

Ficou sentado olhando a figura atlética do am ericano se afastar com seu passo decidido, cuj o estilo m arcial nem as roupas civis conseguiam esconder. Esperou no banco até que desaparecesse de sua vista. Estava de ótim o hum or. Era definitivam ente um a noite rendosa. Prim eiro, a vitória no Cassino, à qual se j untava agora a som a contida na m aleta… Com o diziam os m ais velhos, dinheiro cham a dinheiro.

E continuaria assim , tinha certeza.

Vamos dar tempo ao tempo, disse consigo m esm o. Tempo ao tempo.

Um ditado popular dizia que até um relógio parado tem razão duas vezes por dia. Os fatos estavam dem onstrando que seu relógio na verdade não estava parado e que tinha com eçado a m arcar tem pos m elhores.

Levantou-se do banco e pegou a m aleta, m uito m ais leve que a sacola que tinha entregado a Mosse, m as que ele achava muito m ais pesada. Ficou refletindo um instante. Por aquela noite, bastava de Café de Paris. Não se devia pedir dem ais à sorte num m esm o dia. Fora até a praça de carona com Jacques, o técnico de som . Podia pegar um táxi ou descer a pé até a m arina, beber algum a coisa no Stars’n Bars, pegar seu carro novinho em folha no estacionam ento subterrâneo da rádio e voltar para Nice. Não era o Porsche que gostaria, m as era só questão de saber esperar. Por ora, era m ais que suficiente para dispensar os transportes públicos para ir e vir do trabalho, partindo de sua nova casa na Place Pellegrini, no bairro da Acropolis: um apartam ento pequeno m as elegante que tinha acabado de alugar. Ironia do destino, não ficava m uito longe da velha casa que Maurice havia lhe tom ado. Que a peste pegasse aquele desgraçado onde estivesse.

Olhou a hora. Ainda era cedo e a noite era longa.

Laurent Bedon encam inhou-se sem pressa para o Hotel de Paris, com o passo leve de um hom em cheio de otim ism o, e decidiu que seguiria a inspiração do m om ento no que dizia respeito ao resto da noite.

 

* Jogo parecido com o bacará. (N. da E.)

** Requiescat: da expressão latina “Requiescat in pace” (RIP), que significa “descanse em paz”. (N. da E.)