Eu Mato

Giorgio Faletti · Capítulo 18 de 76

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Eu Mato

Capítulo 15

15

 

A MÃE DE PIERROT ERA UMA MULHER grisalha com um vestido no m esm o tom dos cabelos.

Sentada num a cadeira da sala de reuniões, olhava com olhos sonolentos para os hom ens que cercavam seu filho. Tinha sido despertada no m eio da noite, assustando-se um pouco quando disseram no interfone que era a polícia. Mandaram que acordasse Pierrot, que teve que se vestir às pressas, e os dois foram levados para um carro que partiu num a velocidade de dar m edo.

Deixaram o condom ínio popular onde m oravam para trás. A m ulher ficou preocupada com os vizinhos. Ainda bem que àquela hora da noite não tinha ninguém para vê-los entrando no carro da polícia, com o dois bandidos. Sua vida j á era suficientem ente dura, feita de fofocas e m urm úrios à sua passagem , para ter de lidar com m ais esse problem a.

O delegado, o m ais velho, com cara de boa gente, garantira que não havia nada a tem er, que precisavam de seu filho para um assunto im portantíssim o. Agora estavam ali e ela se perguntava de que poderia servir a aj uda de alguém com o Pierrot, o filho que ela am ava com o se fosse um gênio, m as que as pessoas aceitavam com dificuldade, com o se fosse um estúpido.

Olhou ansiosa para Robert Bikj alo, diretor de Rádio Monte Carlo, que perm itia que o filho trabalhasse lá, num lugar seguro, fazendo o que m ais am ava no m undo, a m úsica. O que a polícia tinha a ver com isso? Rezou para que Pierrot, em sua ingenuidade, não tivesse aprontado algum a. Não suportaria ser afastada do filho sob pretexto algum . Só a ideia de ficar sozinha, sem ele, ou de vê-lo em algum lugar sem ela j á a aterrorizava. Sentiu os dedos gelados da angústia agarrarem seu estôm ago e apertarem -no com o num a m ordida. Se pelo m enos…

Bikj alo deu um sorriso tranquilizador, confirm ando que tudo estava bem .

Voltou a observar o suj eito m ais j ovem , com um rosto duro e barba longa, que falava francês com um leve sotaque estrangeiro, acocorado no chão para ficar com o rosto na altura de Pierrot, que estava sentado num a cadeira. Seu filho olhava para ele cheio de curiosidade, ouvindo o que dizia.

— Desculpe por term os acordado você a essa hora, Pierrot, m as precisam os da sua aj uda para um a coisa im portante. Um a coisa que só você pode fazer…

A m ulher relaxou. Aquele hom em tinha um a cara que dava m edo, m as sua voz era tranquila e gentil. Pierrot o ouvia sem m edo nenhum . Parecia, aliás, bastante orgulhoso daquela aventura noturna inesperada, daquela viagem no carro da polícia, além de ter se transform ado no centro das atenções.

Foi tom ada por um a sensação aguda de ternura e proteção por aquele filho estranho que vivia num m undo abstrato todo dele, feito de m úsica e pensam entos puros. Onde até m esm o as palavras sujas, com o dizia ele, tinham o sentido ingênuo das brincadeiras de criança.

O hom em j ovem continuava falando com sua voz pacata.

— Agora você vai ouvir um a m úsica. Ouça bem . Com atenção. Querem os saber se identifica que m úsica é essa ou em que disco ela está. Pode tentar?

Pierrot ficou em silêncio. Depois assentiu quase im perceptivelm ente.

O hom em se levantou e apertou o botão do gravador que estava atrás dele. As notas de um a guitarra entraram de repente na sala. A m ulher observou o rosto tenso do filho, totalm ente concentrado no som que flutuava a seu redor vindo dos am plificadores. Poucos segundos depois a m úsica acabou. O hom em abaixou-se de novo ao lado de Pierrot.

— Quer ouvir de novo?

Sem pre em silêncio, o rapazinho fez que não com a cabeça.

— Reconheceu a m úsica?

Pierrot virou os olhos para Bikj alo, com o se ele fosse sua única referência.

— Tem — disse devagar.

O diretor se aproxim ou.

— Quer dizer que tem os essa m úsica?

De novo, Pierrot fez que sim com a cabeça, quase com o se quisesse dar m ais peso às suas palavras.

— Essa tem , lá no quarto…

— Que quarto? — perguntou Hulot, aproxim ando-se.

— O quarto é o arquivo. Fica em baixo, no subsolo. É o lugar onde Pierrot trabalha. Tem m ilhares de discos e CDs, m as ele conhece todos eles, um por um .

— Sabe onde ela está lá no quarto? Não quer ir pegar para nós? — perguntou gentilm ente Frank. Aquele rapazinho estava prestando um serviço inestim ável e ele não queria assustá-lo de m odo algum .

Pierrot voltou a olhar para o diretor com o quem pede perm issão.

— Pode ir pegar, Pierrot, por favor.

Pierrot se levantou da cadeira e atravessou a sala com aquele seu j eito atrapalhado de andar. Desapareceu na porta, seguido pelos olhos ansiosos e espantados da m ãe.

O delegado Hulot aproxim ou-se da m ulher.

— Senhora, peço desculpas m ais um a vez pela m aneira pouco educada com o foi acordada e trazida para cá. Não im agina a utilidade que seu filho pode ter para nós esta noite. Estam os realm ente m uito agradecidos por ter perm itido que ele viesse nos aj udar.

A m ulher derreteu-se num pequeno orgulho do filho. Envergonhada, apertou ao redor do pescoço o vestido barato que tinha enfiado rapidam ente por cim a da cam isola.

Pouco depois, Pierrot voltou, silencioso com o tinha ido. Sob o braço, via-se a capa m eio gasta de um disco de 33 rotações. Foi até eles e depositou-o na m esa. Com cuidado religioso para não colocar os dedos nos sulcos, tirou da capa um disco de vinil.

— É este aqui — disse Pierrot.

— Pode botar para a gente ouvir, por favor? — pediu o hom em j ovem , com a m esm a voz solícita.

O rapaz se aproxim ou da aparelhagem e com eçou a m anej á-la com o um conhecedor. Apertou alguns botões, levantou a tam pa do toca-discos e enfiou o disco no eixo. Apertou o play e o prato com eçou a girar. Pierrot pegou delicadam ente a agulha e a apoiou no disco.

Saíram das caixas as m esm as notas que um desconhecido tinha enviado algum as horas antes com o um desdenhoso desafio para que tentassem deter seus passos na noite.

Foi um m om ento de alegria geral. Cada um a seu m odo, todos encontraram um j eito de sublinhar o pequeno triunfo pessoal de Pierrot, que olhava ao redor com um sorriso no rosto inocente.

A m ãe olhava para ele com um a dedicação que aquele sucesso só pagava em parte. Um m om ento, um único m om ento no qual o m undo parecia ter se lem brado de seu filho, dando-lhe um pouco da satisfação que até agora tinha lhe negado.

Com eçou a chorar. O delegado apoiou a m ão em suas costas com gentileza.

— Obrigado, senhora. Seu filho foi m aravilhoso. Agora está tudo certo. Vou m andar que a acom panhem até em casa de carro. A senhora trabalha am anhã?

A m ulher ergueu o rosto m olhado de lágrim as, sorrindo envergonhada daquele instante de fraqueza.

— Sim , sou em pregada dom éstica na casa de um a fam ília italiana que m ora em Montecarlo.

O delegado sorriu de volta.

— Deixe o nom e dessa fam ília com aquele senhor de paletó m arrom , o inspetor Morelli. Vam os providenciar para que lhe deem dois dias de folga rem unerada para com pensá-la pelo incôm odo desta noite. Assim pode ficar um pouco com seu filho, se quiser…

O delegado procurou Pierrot.

— Quanto a você, m eu j ovem , gostaria de passar um dia inteiro num carro da polícia, falar com a central pelo rádio e ser um policial honorário?

Talvez Pierrot não soubesse o que era um policial honorário, m as a ideia de passear num carro de polícia ilum inou seus olhos.

— E vai m e dar algem as tam bém ? E posso tocar a sirene?

— Claro, o quanto quiser. Vou arranj ar um par de algem as brilhantes só para você, m as tem que prom eter que não vai prender ninguém sem pedir perm issão.

Hulot fez sinal a um agente que tratou de acom panhar Pierrot e sua m ãe de volta para casa. Enquanto saíam , ouviu o j ovem falar com a m ãe:

— Agora que sou policial no horário, vou prender a filha da sra. Narbonne, que vive rindo de m im , e vou levar ela presa e…

Nunca souberam que fim esperava a filha da sra. Narbonne, pois os três chegaram ao fim do corredor e a voz de Pierrot se apagou.

Frank se apoiou na m esa e olhou pensativo para a capa do disco que ele tinha trazido do arquivo.

— Carlos Santana, “Lotus”. Disco live. Gravação ao vivo feita no Japão em 1975…

Morelli pegou a capa e exam inou atentam ente, virando-a dos dois lados.

— Por que esse suj eito nos m andou um a canção tirada de um disco gravado no Japão, quase trinta anos atrás? O que quis dizer?

Pela j anela, Hulot observava o carro com Pierrot e a m ãe se afastando. Virou-se e levantou o braço esquerdo para ver a hora. Quatro e m eia.

— Não sei, m as precisam os descobrir o m ais depressa possível.

Fez um a pausa que representava o pensam ento de todos.

— Se j á não for tarde dem ais…