Eu Mato

Giorgio Faletti · Capítulo 65 de 76

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Eu Mato

Capítulo 55

55

 

FRANK PAROU O MÉGANE NA FRENTE do portão pintado de verde, no fundo da rua onde ficava a casa de Helena. Desceu do carro e se espantou por encontrar o portão aberto. O pensam ento de que, dentro de alguns segundos, teria o rosto da m ulher que am ava diante de seus olhos fez seu coração bater m ais rápido. Mas lem brou-se tam bém do general Nathan Parker, o que fez com que apertasse os punhos de raiva. Tratou de recobrar a calm a antes de entrar. A raiva era péssim a conselheira para certas situações e a últim a coisa de que precisava naquele m om ento era de m aus conselhos.

Ele, em com pensação, estava em condições de dar ótim os conselhos. O encontro m atinal com Guillaum e tinha sido extrem am ente esclarecedor. Quando estivera em sua casa, na tarde anterior, fora até a edícula onde trabalhava, que parecia absolutam ente caótica, e pedira que verificasse alguns pontos. Mas as m áquinas estavam em penhadas num trabalho que não podia ser interrom pido im ediatam ente e Guillaum e precisaria daquela tarde e da noite para fazer a verificação pedida. Foi obrigado a dar verdadeiros saltos m ortais, m as finalm ente caíra de pé. E conseguira reaprum ar a figura vacilante de Frank Ottobre, agente especial do FBI.

Quando Guillaum e apresentara o resultado de suas pesquisas, Frank ficara boquiaberto ao constatar que suas intricadas hipóteses tinham se revelado exatas. Pareciam m eras suposições construídas no ar, conj ecturas sem sentido e sem lógica. Ele m esm o tinha achado que era m aluquice. No entanto…

Tivera vontade de abraçar o rapaz. Mas, ao contrário, pensou que j á era hora de parar de cham á-lo daquela form a depreciativa, que considerava apenas sua idade cronológica. Guillaum e era um hom em . E um hom em de coragem . Foi o que concluíra definitivam ente quando estava saindo de sua casa. Guillaum e o acom panhara em silêncio até o portão. Atravessaram o j ardim um ao lado do outro, sem falar, cada um com seus pensam entos. Frank j á tinha aberto o portão e estava indo para o carro quando sua expressão o deteve.

— O que houve, Guillaum e?

— Não sei, Frank. É um a sensação estranha. É com o se um a venda tivesse caído dos m eus olhos.

Frank sabia bem a que Guillaum e se referia, m as perguntara assim m esm o.

— O que está querendo dizer?

— Bem , tudo isso. Foi com o descobrir de repente que existe um outro m undo, além , um m undo onde as coisas não acontecem só com os outros, m as conosco tam bém . As pessoas não são assassinadas apenas nos telej ornais, m as tam bém na calçada, cam inhando a seu lado…

Frank acom panhara seu desabafo em silêncio. Mas podia im aginar onde Guillaum e queria chegar.

— Só lhe peço um a coisa, Frank. E preciso de um a resposta sincera. Não quero saber de detalhes, só quero que m e esclareça um dúvida pessoal. O que fiz para você, hoj e e da outra vez, vai servir para pegar o assassino de Nicolas?

Guillaum e tinha os olhos úm idos. Ostentava um ar de quem não está nem aí, m as era um a pessoa de verdade. Gostava de Nicolas Hulot com o gostava antes de seu filho Stéphane.

Frank olhara para ele com um sorriso.

— Algum dia, quando toda essa história tiver chegado ao fim , eu e você terem os um a conversa. Não sei quando, m eu caro, m as quando isso acontecer vou lhe explicar tintim por tintim o quanto você foi im portante para desvendar essa história e, especialm ente, para m im .

Guillaum e assentira e se afastara. Batera o portão e, enquanto o Mégane partia, cum prim entara-o com um aceno indeciso.

Você é grande, Guillaume.

Com aquele pensam ento na cabeça, Frank passou pelo portão e entrou no j ardim da casa de Helena. Espantou-se com o que viu. A casa tinha todas as j anelas do andar de cim a e todas as portas de vidro que davam para o j ardim escancaradas. No interior, no térreo, um a m ulher com um avental azul estava colocando um fio na tom ada. Ela saiu de seu cam po de visão e pouco depois ouviu o ruído de um aspirador de pó. Viu quando apareceu num a das portas arrastando o eletrodom éstico para a frente e para trás. No andar de cim a, no quarto de Helena, um a outra m ulher com o m esm o avental saiu para o balcão segurando um tapete kilim. Depois de pendurá-lo na grade de ferro, com eçou a tirar a poeira com um batedor de vim e.

Frank se aproxim ou da casa. Não estava nada satisfeito com o que via. Da porta principal, de nogueira escura, saiu um hom em . Era um hom em de idade, vestido com um terno claro que com binava perfeitam ente com o estilo da casa. Quando o viu, resolveu ir até ele. Apesar do aspecto vigoroso, quando pôde ver suas m ãos m ais de perto, concluiu que devia estar m ais próxim o dos 70 que dos 60.

— Bom -dia. Em que posso aj udá-lo?

— Bom -dia. Meu nom e é Frank Ottobre e sou am igo dos Parker, que m oravam aqui…

O hom em sorriu de repente, exibindo um a fileira de dentes brancos que certam ente custaram os olhos da cara.

— Ah, tam bém é am ericano. Prazer em conhecê-lo.

Estendeu a m ão firm e, m as com a pele toda m anchada. Frank pensou que além da idade havia algum a coisa que não ia bem no fígado daquele suj eito.

— Meu nom e é Tavernier, André Tavernier. Sou o proprietário dessa casinha…

Indicou com um gesto e um sorriso cúm plice a casa às suas costas.

— Sinto m uito, m eu j ovem , m as seus am igos partiram .

— Partiram ?

Parecia sinceram ente penalizado por ter que confirm ar a m á notícia.

— É, partiram . O contrato de aluguel foi assinado através de um a agência, em bora em geral eu prefira fazer isso pessoalm ente. Vim até aqui de m anhã com as faxineiras para conhecer m eus inquilinos e encontrei-os no vestíbulo com as m alas prontas, esperando o táxi. O general, sabe de quem estou falando, falou de um im previsto que os obrigava a partir im ediatam ente. Para agir com a devida correção, eu disse que reem bolsaria o período que ele tinha pagado a m ais, m as ele não quis nem discutir. Um a bela pessoa, com certeza…

Vou lhe mostrar agora mesmo quem é uma bela pessoa, seu almofadinha naftalinado…

Frank bem que gostaria de contestar as avaliações do sr. Tavernier. Se aquilo era um a am ostra de sua capacidade de j ulgar as pessoas, era m elhor que seus contratos futuros exigissem pagam ento antecipado em dinheiro. No entanto, havia coisas m ais im portantes no m om ento do que inform ar o velhote sobre a verdadeira personalidade do hom em para quem alugara sua casa.

— Sabe para onde foram ?

O sr. Tavernier teve um ataque de tosse, com aquele ruído catarrento que denuncia alguns cigarros a m ais que o devido, apesar da idade. Frank foi obrigado a esperar que o hom em tirasse um lenço im aculado do bolso do paletó e lim passe os lábios antes de responder.

— Nice. Para o aeroporto, acho eu. Tinham um voo direto para os Estados Unidos.

— Merda!

A exclam ação escapou dos lábios de Frank antes que conseguisse reprim i-la.

— Desculpe, sr. Tavernier.

— Não há de quê. Às vezes, é libertador desabafar um pouco.

— Sabe a que horas era o voo?

— Não, sinto m uito. Não posso aj udá-lo nesse caso.

O rosto de Frank certam ente não expressava m uito bom hum or. O sr. Tavernier, com o um verdadeiro hom em do m undo, entendeu tudo.

— Cherchez la femme, não é m esm o, m eu rapaz?

— Com o?

— Entendo perfeitam ente. Estou falando da m ulher que estava aqui. Trata-se dela, não é? Se tivesse vindo até aqui na expectativa de encontrar um a m ulher com o aquela e topasse com a casa vazia, eu tam bém ficaria com essa expressão desapontada. No m eu tem po, quando era j ovem e m orava aqui, essa casa viu tantas histórias que daria para encher uns dois livros…

Frank estava pisando em brasas. Tudo o que desej ava era deixar o sr. Tavernier com suas histórias de capa e espada e correr para o aeroporto de Nice. O hom em o segurou pelo braço. Frank teve vontade de parti-lo ao m eio. Em geral, não suportava as pessoas que im põem um contato físico com os outros, im agine num m om ento em que ouvia os segundos passarem com o se estivesse com a cabeça dentro de um sino.

Tavernier só se salvou por causa do que disse.

— Pois é, eu realm ente gozei a vida, pode acreditar em m im . Ao contrário de m eu irm ão, que vivia na casa aqui ao lado, aquela bem ali, cuj o teto dá para ver atrás dos ciprestes.

Assum iu a atitude de quem vai contar um segredo que só ele conhece. Algo difícil de acreditar.

— É a casa que aquela louca da m inha cunhada deixou com o herança para um rapazinho qualquer, só porque ele salvou seu cachorro. Um vira-lata que não valia nem a árvore em que fazia xixi, entende? Não sei se j á ouviu falar dessa loucura. E sabe quem é o tal rapaz?

Frank sabia, sabia m uito bem . E não tinha vontade nem tem po para ouvir de novo. Tavernier, ignorando o risco que estava correndo, segurou-o novam ente pelo braço.

— Era um assassino, um serial killer, o tal que m atou vários pessoas por aí em Montecarlo, esfolando-as com o anim ais. Vej a só a quem m inha cunhada resolveu deixar um a casa com aquele valor…

Enquanto o senhor alugou a sua a um benfeitor da humanidade… Se existisse um Prêmio Nobel de estupidez, esse velho tonto o ganharia todo ano…

Alheio ao j uízo de Frank a seu respeito, Tavernier deixou escapar um suspiro. E seguiu-se um a onda de recordações.

— É, aquela m ulher deixou m eu irm ão com pletam ente em basbacado. Não que não fosse bonita… Era bonita com o um en plein na roleta, se é possível com parar, m as tão perigosa quanto ele. Dava vontade de j ogar de novo, não sei se m e entende. Mandam os construir essas casas j untos, em m eados dos anos sessenta. Casas gêm eas, um a ao lado da outra, m as isso era tudo. Eu estava aqui e eles dois lá. Cada um com sua vida. Sem pre vi m eu irm ão com o um condenado: com um a bola de ferro acorrentada no pé e sem pre à disposição para satisfazer os caprichos da m ulher. E olhe que ela tinha caprichos, bon Dieu, e com o tinha! Im agine que até…

Frank se perguntou por que estava li ouvindo os devaneios de um ex-libertino com as cuecas cheias de entulho em vez de pular no carro e partir voando para o aeroporto de Nice. Por um m otivo que não conseguia explicar, Frank tinha a im pressão de que aquele hom em estava para dizer algum a coisa im portante. E, de fato, foi o que Tavernier fez. Em m eio ao vazio de suas quixotadas, disse um a coisa tão im portante que Frank ficou na m aior agitação e, ao m esm o tem po, no m ais negro desconsolo ao evocar a im agem de um grande avião que decolava com o rosto triste de Helena num a j anelinha, vendo a França desaparecer lá em baixo.

Fechou os olhos. Havia em palidecido a ponto de preocupar o velho aspirante a grande fidalgo.

— O que houve, está se sentindo m al?

Frank voltou a olhar para ele.

— Não, ao contrário, estou ótim o. Muito bem m esm o.

Tavernier sublinhou sua dúvida com a expressão adequada. Frank deu um sorriso que o hom em entendeu com o quis. Aquele velho idiota j am ais poderia im aginar que tinha acabado de revelar o esconderij o de Jean-Loup Verdier.

— Muito obrigada e adeus, sr. Tavernier.

— Ao ataque, m eu j ovem ! Espero que consiga alcançá-la… m as se não conseguir, lem bre-se que o m undo está cheio de m ulheres.

Frank concordou com ele num gesto distraído enquanto se afastava. Tinha chegado ao portão, quando Tavernier voltou a cham á-lo.

— Ah, lem bre-se, m eu j ovem …

Frank virou-se com vontade de m andá-lo às favas. Foi detido por um sentim ento de gratidão ao velho por aquilo que tinha acabado de revelar sem saber.

— Diga, sr. Tavernier.

O velho abriu um am plo sorriso.

— Se por acaso precisar de um a bela casa aqui na Côte…

Indicou a casa às suas costas com um gesto triunfal.

— Aqui está ela!

Sem responder, Frank atravessou o portão. Parou de pé ao lado do carro, de cabeça baixa, olhando os sapatos, um ao lado do outro sobre o cascalho. Devia tom ar um a decisão e devia tom á-la depressa. Finalm ente decidiu fazer o que era j usto, pelo m enos em prim eiro lugar. Mas não era verdade que não podia tentar, pelo m enos tentar, salvar a cabra e a couve. Pegou o celular e digitou o núm ero da polícia de Nice. Quando um agente respondeu, identificou-se e pediu que cham assem o delegado Froben. Pouco depois, atendeu o delegado.

— Oi, Frank, com o vai?

— Indo… E você?

— Indo tam bém . Mas diga.

— Claude, preciso de um favorzão do tam anho de um bonde.

— Tudo que quiser, se eu puder.

— Tem um as pessoas que estão de partida no aeroporto de Nice. O general Nathan Parker, sua filha Helena e o neto, Stuart. Com eles, deve estar um outro personagem , um certo capitão Ry an Mosse.

— Aquele Ry an Mosse?

— Exatam ente. Preciso que im peça a partida. Não sei com o, não sei qual pode ser a desculpa, m as deve im pedir que em barquem até que eu consiga chegar. Estão fazendo o traslado do corpo de um a das prim eiras vítim as de Ninguém , Arij ane Parker, para os Estados Unidos. Talvez possa usar isso com o pretexto. Algum entrave burocrático, sei lá. É um a questão de vida ou m orte, Claude. Pelo m enos para m im . Acha que pode fazer isso?

— Por você, tudo isso e o céu tam bém .

— Obrigado, am igão, nos falam os daqui a pouco.

Logo em seguida, Frank digitou um outro núm ero, do com ando da Sûreté. Pediu para falar com Roncaille. Ele atendeu quase im ediatam ente.

— Diretor, é Frank Ottobre.

Roncaille, que provavelm ente estava vivendo os últim os dois dias em aceleração m áxim a, atacou-o com o um tornado.

— Frank, onde é que você se enfiou, caralho?

O palavrão na boca do chefe da polícia não indicava um sim ples furacão, m as a tem pestade do século.

— Com tudo o que está ocorrendo por aqui você resolve sum ir? Foi colocado à frente de um a investigação e em vez de chegarm os a algum resultado acabam os topando com m ais m ortos no cam inho do que pássaros nas árvores. Sabe que daqui a pouco não vai sobrar m ais ninguém do quadro da Sûreté no lugar? Eu m esm o terei sorte se arranj ar em prego com o guarda noturno…

— Fique tranquilo, diretor, se não perdeu o em prego até agora, tenho certeza de que vai m anter o posto. Está tudo acabado.

— O que quer dizer com “tudo acabado”?

— Significa que está tudo acabado. Sei onde Jean-Loup Verdier está escondido.

Silêncio do outro lado. Pausa para reflexão. Frank podia sentir o alcance da dúvida ham letiana de Roncaille. Ser ou não ser, crer ou não crer…

— Tem certeza?

— Noventa e nove por cento.

— Não basta. Quero cem .

— Cem por cento não é coisa dessa terra. Noventa e nove j á é um percentual m ais que aceitável.

— Está certo. E onde ele está?

— Antes quero um a coisa em troca.

— Frank, m elhor não esticar dem ais a corda.

— Diretor, preciso esclarecer alguns pontos. A carreira para m im j á não im porta m ais nada. É o senhor quem se im porta com a sua. Se disser que não, desligo esse telefone e pego o prim eiro avião que decolar de Nice com destino à puta que o pariu. E o senhor, para serm os explícitos, pode ir se enforcar j unto com seu am igo Durand. Deu para entender?

Silêncio. Pausa para não m orrer. Depois outra vez a voz de Roncaille, cheia de raiva contida.

— Diga o que desej a.

— Quero sua palavra de honra de que o delegado Nicolas Hulot será considerado m orto em serviço e de que sua viúva receberá a pensão que com pete à m ulher de um herói.

Terceira pausa. A m ais im portante. A da contagem dos colhões de cada um . Quando Roncaille respondeu, Frank ficou contente de ter chegado a dois.

— Certo, de acordo. Feito, tem m inha palavra de honra. Agora é com você.

— Mande os hom ens saírem e diga ao inspetor Morelli que ligue para m im no celular. E pode com eçar a lustrar o uniform e para a coletiva de im prensa.

— Mando os hom ens para onde?

— Beausoleil.

— Beausoleil? — repetiu Roncaille incrédulo.

— Perfeitam ente. Durante todo esse tem po, aquele filho da puta de Jean-Loup Verdier não saiu de sua própria casa.