Eu Mato
Capítulo 10
10
— EU MATO…
A voz ficou um instante em suspenso no autom óvel. Parecia se alim entar do ronco do m otor para continuar a ressoar ali dentro com o um eco.
O delegado Hulot apertou um botão e a fita parou na voz de Jean-Loup Verdier, que retom ava a transm issão com dificuldade. Depois da conversa com o DJ e Robert Bikj alo, diretor da Rádio Monte Carlo, um a pequena, cruel esperança despontou por trás da m ontanha que os detetives tentavam desesperadam ente escalar.
Talvez o telefonem a durante a transm issão de Voices fosse sim plesm ente de um m itôm ano, um a insólita casualidade, um a coincidência de conj unções astrais m ilenares. Mas aquelas duas palavras — “Eu mato…” — lançadas com o um a am eaça no fim da ligação eram iguais às que foram deixadas na m esa de m adeira de um barco, escritas com o sangue de vítim as inocentes.
Hulot parou o carro num sinal verm elho. Um a m ulher que em purrava um carrinho de bebê atravessou a rua diante deles. Parado à esquerda, um ciclista de m acacão azul de fibra e bicicleta am arela apoiou-se no poste do sinal, segurando-se para não ter que tirar os pés dos pedais.
Por todo lado havia cor e calor. Havia um verão que estava chegando com todas as suas prom essas, nos bares, nas calçadas, nas ruas cheias de gente, na beira-m ar anim ada onde hom ens, m ulheres e crianças não pediam nada além de que elas se cum prissem .
Tudo era norm al.
Som ente naquele autom óvel parado num sinal verm elho, aceso com o sangue num a lâm pada, flutuava um a presença que tinha o poder de escurecer toda aquela luz e transform ar as cores do m undo nas tonalidades opacas do preto no branco.
— Teve notícias da perícia? — perguntou Frank.
O verm elho ficou verde. Hulot engatou a m archa e partiu. O ciclista afastou-se rapidam ente. Com o trânsito engarrafado na avenida beira-m ar, ele poderia ir m ais rápido em um a bicicleta do que em um carro.
— Chegou o relatório do patologista. A autópsia foi feita em tem po recorde. Acho que alguém fez os telefones ferverem para o resultado sair tão rápido assim . Tudo confirm ado. A m oça m orreu asfixiada por afogam ento, m as não havia água do m ar em seus pulm ões. Significa que m orreu sem ter tido a possibilidade de voltar à tona. Em geral, os pulm ões se enchem de água quando quem se afoga volta à tona e m ergulha diversas vezes antes de afundar definitivam ente. Nesse caso, o assassino deve tê-la surpreendido na água e puxado para baixo até que se afogasse. O cadáver foi passado pelo crivo de um exam e m inucioso. Nenhum sinal, nenhum a m arca no corpo. Exam inaram de todas as form as possíveis, com todos os instrum entos disponíveis no laboratório.
— E ele?
O rosto de Hulot se fechou.
— Quanto a ele, a história é outra. Foi m orto com um golpe de punhal de ponta e lâm ina m uito afiadas, dado de cim a para baixo. A lâm ina penetrou entre a quinta e a sexta costelas e atingiu diretam ente o coração. A m orte foi quase instantânea. O assassino deve tê-lo surpreendido do lado de fora, no convés, onde com eçava o rastro de sangue. Apesar do efeito surpresa, Jochen Welder era bastante forte. Não era m uito alto, m as em todo caso, m ais do que a m édia dos pilotos. E estava em ótim a form a. Passava m uito tem po na academ ia. Portanto, o agressor deve ser alguém ainda m ais forte do que ele.
— Os corpos foram violentados? Quer dizer, sexualm ente.
Hulot sacudiu a cabeça.
— Não. Ou m elhor, ele certam ente não. Ela acabara de m anter um a relação sexual. Havia resíduos de líquido sem inal no interior da vagina, m as m uito provavelm ente trata-se do sêm en de Jochen Welder. Creio que há 90% de chances do exam e de DNA confirm ar isso.
— Bem , isso exclui um a m otivação sexual, pelo m enos do tipo norm al.
Frank disse isso no tom de quem descobre que, no incêndio da própria casa, um guardanapo se salvou.
— No que diz respeito a im pressões e outros vestígios orgânicos, foram encontrados m ilhares no barco, com o você pode im aginar. Mandarem os tudo para análise do DNA, m as eu não m e surpreenderia se essa estrada não nos levasse a absolutam ente nada.
Passaram por Beaulieu e pelos hotéis de prim eira à beira-m ar, com seus estacionam entos cheios de carros de luxo, cheirando a couro e rádica, repousando placidam ente à som bra das árvores. Por toda parte, havia canteiros coloridos na luz daquele dia m aravilhoso. Frank distraiu-se adm irando as flores verm elhas de um hibisco no j ardim de um a m ansão.
Mais verm elho. Mais sangue.
Trouxe a m ente de volta para o carro. Inclinou-se para desviar a saída do ar-condicionado que j ogava ar frio diretam ente em seu rosto.
— Portanto, não tem os nada.
— Nada de nada.
— As m edidas antropom étricas das im pressões?
— Nada de im portante. Deve ser um indivíduo com cerca de 1,80m de altura, cinco centím etros a m ais, cinco centím etros a m enos, cerca de 75 quilos. Um tipo físico com um a m ilhares de indivíduos.
— Um atleta, em resum o.
— Sim , um atleta… Um atleta com grande habilidade m anual.
Frank tinha um a série de perguntas urgentes na cabeça, m as não queria pressionar o am igo, que parecia refletir e tirar conclusões pessoais enquanto expunha os dados que conhecia. Esperou em silêncio.
— O que fez nos cadáveres não é trabalho para qualquer um . Foi conduzido com um a certa perícia. Seguram ente, não foi a prim eira vez que fez um a coisa do gênero. Talvez se trate de alguém com algum a coisa a ver com m edicina…
Frank não gostou de ter que j ogar um balde de água fria nas esperanças do am igo.
— Sem pre vale a pena tentar, nunca se sabe. Mas seria fácil dem ais. Banal, eu diria. Infelizm ente, em certos aspectos, a anatom ia de um hom em é igual à dos anim ais. Nosso hom em só precisaria treinar em alguns coelhos para ter condições de fazer o que fez tam bém num ser hum ano.
— Coelhos, é? Seres hum anos com o coelhos…
— Ele é esperto, Nicolas. É um lunático furioso, m as é esperto e frio com o um peixe. Tem que ser alguém com gelo nas veias para fazer o que fez, direcionar o barco para o local onde estavam os outros e ir em bora com a m esm a tranquilidade com que chegou. E além do m ais, com a intenção clara de desafiar-nos, de zom bar de nós…
— Está se referindo à m úsica?
— Sim . Encerrou o telefonem a com um a canção da trilha sonora de Um homem, uma mulher.
Hulot lem brou que tinha visto o film e de Lelouch anos atrás, no com eço do rom ance com Céline, sua esposa. Recordava perfeitam ente a bela história de am or e tam bém que eles a tinham visto com o um bom sinal para seu futuro.
Frank continuou, lem brando de um detalhe que não tinha percebido até então.
— O protagonista do film e é um piloto de rally.
— É verdade, bem lem brado. E Jochen Welder era um piloto. Mas então…
— Exato. Na rádio, além de anunciar sua intenção de m atar, ele deixou tam bém um a pista sobre quem pretendia m atar. Mas a m eu ver não é só isso. Matou e pretende m atar de novo. Tem os que im pedi-lo. Com o, não sei, m as tem os que conseguir a qualquer custo.
O carro parou num outro sinal verm elho, na breve descida do final do Boulevard Carnot. Diante deles estava Nice, cidade à beira-m ar, desbotada e hum ana, distante da lim peza ostensiva de Montecarlo e de sua população de aposentados de luxo.
Enquanto dirigia o carro para a Place Masséna, Hulot se virou para olhar Frank, sentado a seu lado. Tinha o olhar fixo diante de si, com a expressão absorta de um Ulisses que espera ouvir o canto das sereias.