Eu Mato
Capítulo 32
32
— NÃO TENHO NENHUMA INTENÇÃO de viver aprisionado até essa história term inar. E, sobretudo, não quero ser usado com o isca!
Roby Stricker largou o copo de Glenm orangie que estava bebendo, levantou-se do sofá e foi olhar pela j anela de seu apartam ento. Malva Reinhart, j ovem atriz am ericana sentada no sofá encostado na parede em frente, deslizava seus fantásticos olhos cor de violeta, j ustificativa e força de tantos closes, dele para Frank. Estava nervosa e silenciosa. Parecia ter saído bruscam ente do personagem que representava em público, feito de olhares que duravam alguns segundos a m ais e de decotes que cobriam alguns centím etros a m enos. Tinha perdido o ar autossuficiente que carregava com o um troféu quando toparam com Frank e Hulot na saída do Jim m y ’z, a m ais exclusiva discoteca de Montecarlo.
Estavam de pé na área asfaltada ao lado do Sporting d’Eté, logo depois da porta de vidro do local, um pouco à esquerda da luz azul do letreiro. Havia um hom em conversando com eles. Frank e Hulot desceram do carro e foram em sua direção. A pessoa que estava com os dois tinha se afastado, deixando-os sozinhos sob a luz dos faróis.
— Roby Stricker? — perguntou Nicolas.
O j ovem olhou para eles sem entender.
— Sim — respondeu com um a voz m eio insegura.
— Sou o delegado Hulot da Sûreté Publique e este é Frank Ottobre, do FBI. Precisam os falar com você. Pode vir conosco, por favor?
Não parecia m uito à vontade ao ouvir suas identificações. Mais tarde, Frank entendeu o porquê, m as fez de conta que não via o j ovem se desfazer de m aneira bastante desaj eitada de um papelote de cocaína. Stricker tinha indicado com a m ão a j ovem m ulher a seu lado, que olhava espantada para eles. Falavam em francês e ela não entendia um a palavra.
— Os dois ou só eu?… Quer dizer, essa é Malva Reinhart e…
— Não está sendo preso, se é isso que quer saber – interveio Frank, em italiano.
— Acho que é de seu interesse vir conosco, para seu próprio bem . Tem os razões para acreditar que sua vida está correndo um sério risco, e talvez a dela tam bém .
Logo depois, no carro, tinham contado tudo. Stricker ficou pálido com o um m orto e Frank suspeitou que, se estivesse em pé, suas pernas teriam cedido. Em seguida, Frank repetiu a história toda em inglês para Reinhart e foi a vez dela perder cor e palavra. Um a j ovem e sensual atriz dos nossos dias abruptam ente transportada para o m undo dos film es m udos em preto e branco.
Foram para o apartam ento de Stricker, em La Condam ine, na área da Central. Era im possível não ficar pasm o diante da audácia daquele louco hom icida. Se seu obj etivo era mesmo Stricker, havia um sinistro e irônico desafio naquela escolha. Aquele hom em tencionava atacar um a pessoa que m orava a um a centena de m etros, em linha reta, da sede da polícia.
Frank ficou com ele e a m oça enquanto Nicolas, depois de inspecionar o apartam ento, foi dar instruções a Morelli e seus hom ens, que estavam chegando ao local. Ao redor do edifício, criou-se um a rede de segurança im possível de ser ultrapassada.
Antes de ir, Hulot tinha cham ado Frank na entrada para entregar um walkie-talkie e perguntar se estava com a pistola. Sem falar, ele tinha aberto o paletó e m ostrado a Glock pendurada na cintura. Roçando a consistência fria da arm a, estrem ecera levem ente.
Frank deu um passo para o centro da sala e, pacientem ente, respondeu aos protestos de Stricker.
— Antes de m ais nada, estam os tentando garantir sua integridade física. Em bora não possa ver, praticam ente toda a polícia do Principado está espalhada aqui ao redor. Em segundo lugar, não querem os usá-lo com o isca, sim plesm ente pedim os sua colaboração para ver se conseguim os prender a pessoa que estam os procurando. Posso garantir que não está correndo nenhum risco. Mora em Montecarlo e deve estar sabendo do que anda acontecendo por aqui, não é?
Roby virou-se para ele, m antendo a posição anterior: de costas diante da j anela.
— Não está pensando que estou com m edo, está? Sim plesm ente não gosto dessa situação. Tudo parece tão… tão exagerado! É só isso.
— Fico contente em saber que não está com m edo, m as isso não significa que podem os subestim ar a pessoa que tem os pela frente. Portanto, afaste-se dessa j anela.
Stricker tentou se m ostrar im passível, m as, com um a atitude que pretendia sim ular a frieza de um aventureiro consum ado, foi sentar-se no sofá. Na realidade, dava para ver a olho nu que estava se borrando de m edo.
Frank só o conhecia há um a hora e, se pudesse seguir seus instintos, j á teria ido em bora tranquilam ente, deixando-o entregue a seu destino. Stricker era tão igual ao estereótipo do filhinho de papai que, em outras circunstâncias, poderia até pensar que estava sendo vítim a de algum a pegadinha.
Roberto Stricker, “Roby ” para as revistas de fofoca, era italiano, de Bolzano, m ais exatam ente, m as com um nom e alem ão que podia ser vendido com o inglês, se quisesse. Tinha passado dos trinta havia pouco e era aquilo que norm alm ente se define com o um hom em bonito. Alto, atlético, belo rosto, belos cabelos, um belo de um babaca. Era filho de um m ultim ilionário, proprietário, entre outros inúm eros negócios, de um a cadeia de discotecas na Itália, França e Espanha cham ada No Nukes, que tinha com o logotipo um sol sorridente. Daí a associação feita por Barbara com “Nuclear Sun”, a m úsica dance que o assassino apresentara no últim o program a. Música de Roland Brant, pseudônim o inglês do italianíssim o DJ Rolando Bragante. Roby Stricker vivia em Montecarlo fazendo tudo aquilo que sua índole e o dinheiro do pai perm itiam : absolutam ente nada. Os tabloides de fofocas viviam cheios de suas peripécias am orosas e de suas férias, esquiando em Saint Moritz com a top m odel do m om ento ou j ogando tênis em Marbella com Bj örn Borg. No que dizia respeito ao trabalho, provavelm ente o pai pagava para m antê-lo distante dos negócios da fam ília, colocando o dinheiro que o filho lhe custava na rubrica “m al m enor” de seus balancetes.
Stricker pegou de volta o copo, m as deixou-o de lado outra vez quando viu que o gelo j á tinha derretido com pletam ente.
— Mas que providências pretendem tom ar?
— Na realidade, não há m uito a fazer, em casos com o esses. Trata-se apenas de tom ar as devidas precauções e esperar.
— Mas o que esse louco furioso pode ter contra m im ? Vocês acham que é alguém que eu conheço?
Se ele o conhece, eu não ficaria espantado se resolvesse matá-lo. E faria muito bem, seu cabeça de alfinete!
Em hom enagem a Stricker, Frank pensou tudo isso em italiano. Sentou-se num a poltrona.
— Isso eu não sei dizer. Honestam ente, à parte o que j á sabe, não tem os nenhum a inform ação sobre esse assassino, exceto os critérios de escolha das vítim as e o que faz com elas depois de m ortas…
Seguindo seu pensam ento, Frank tinha falado de novo em italiano, expressam ente para Roby Stricker, sublinhando levem ente a crueza da palavra “assassino”. Não considerava oportuno assustar ainda m ais a m oça sentada no sofá, que j á estava com os dedos praticam ente em carne viva de tanto m edo. Em bora…
Diz-me com quem andas e te direi quem és.
Se aqueles dois estavam j untos, algum m otivo devia haver. Com o Nicolas e Céline Hulot. Com o Nathan Parker e Ry an Mosse. Com o Bikj alo e Jean-Loup Verdier.
Por am or. Por ódio. Por interesse.
No caso de Roby Stricker e Malva Reinhart talvez se tratasse de um a m era, visceral atração entre duas em balagens vazias.
O walkie-talkie que Frank carregava na cintura tocou. Estranho. Com o norm a de prudência, tinham resolvido observar o m ais rigoroso silêncio no rádio. Nenhum a precaução parecia excessiva, tendo em vista a pessoa que enfrentavam . Um tipo capaz de lidar tão bem com a telefonia e as com unicações podia m uito bem penetrar em qualquer frequência de rádio da polícia. Levantou-se da poltrona e foi para a entrada do apartam ento, antes de tirar o aparelho da cintura e levá-lo à boca.
Não queria que os dois ouvissem a conversa.
— Frank Ottobre.
— Frank, é Nicolas. Acho que o pegam os.
Frank sentiu com o se tivessem disparado um tiro de canhão na sua orelha.
— Onde?
— Aqui em baixo, no andar das caldeiras. Um de m eus hom ens surpreendeu um suj eito que estava se enfiando pelas escadas que levam ao subsolo e conseguiu detê-lo. Ainda estão no prédio. Estou indo encontrá-los.
— Eu tam bém .
Voltou para a sala com o um raio.
— Fiquem aqui e não se m exam . Não abram a porta para ninguém a não ser eu.
Deixou-os sozinhos com seu espanto e seu m edo. Abriu e fechou a porta de entrada num único m ovim ento. O elevador não estava no andar. Não tinha tem po para esperar que chegasse. Desceu pela escada, saltando os degraus de dois em dois.
Chegou ao vestíbulo j ustam ente quando Hulot estava entrando com Morelli pela porta de vidro que dava para a rua. Um agente uniform izado estava de pé diante da porta que descia para o subsolo. Foram até lá.
Desceram à luz fraca de um a série de lam padinhas em butidas na parede e protegidas por um a grade. Frank pensou que os edifícios de Montecarlo tinham todos eles as m esm as características. Extrem am ente requintados nas fachadas, m as igualm ente esquálidos no que dizia respeito aos detalhes ocultos: lá em baixo fazia calor e tinha cheiro de lixo.
O agente foi m ostrando o cam inho. Logo depois de um a esquina, encontraram um agente de pé ao lado de um hom em sentado no chão, apoiado contra a parede, levem ente inclinado, com as m ãos atrás das costas. Na testa do policial, um par de óculos de lentes infraverm elhas para visão noturna.
— Tudo bem , Thierry ?
— Aí está, delegado, eu…
— Oh, não! Cristo!
O grito de Frank interrom peu as palavras do policial.
O hom em sentado no chão era o j ornalista de cabelos verm elhos que ele tinha visto na frente da central de polícia quando o cadáver de Yoshida fora descoberto. O m esm o que revira naquela m anhã na frente da casa de Jean-Loup Verdier.
— Esse cara é j ornalista, m erda!
O repórter aproveitou a ocasião para se fazer ouvir.
— Claro que sou j ornalista. Meu nom e é René Coletti, do France-Soir. É o que estou repetindo a esse cabeça-dura há dez m inutos. Se tivesse m e deixado pegar a carteirinha no bolso, teríam os evitado toda essa confusão.
Hulot estava furioso. Acocorou-se diante de Coletti. Frank teve m edo de que fosse bater nele. Mas se o tivesse feito, teria entendido e estaria disposto a defendê-lo diante dos tribunais dos hom ens e de Deus.
— E se você tivesse ficado no seu lugar, seu bosta, nada disso teria acontecido. E se lhe interessa saber, você está em m aus lençóis.
— Ah, é? Sob que acusação?
— Obstrução de um a investigação policial, por enquanto. Depois, com calm a, encontrarem os m ais algum a coisa. Já não basta tudo o que tem os que fazer, para ainda ter que aguentar vocês, j ornalistas, se m etendo no cam inho para atrapalhar ainda m ais.
Hulot se levantou. Fez um sinal aos dois agentes.
— Podem pegá-lo e levá-lo em bora daqui.
Os dois policiais aj udaram Coletti a se levantar. Resm ungando inúm eras am eaças de represálias j ornalísticas, o repórter levantou-se com dificuldade. Tinha um arranhão na testa que, sem dúvida, raspara na parede. A obj etiva caiu da m áquina fotográfica a tiracolo.
Frank pegou Hulot pelo braço.
— Nicolas, vou lá para cim a de novo.
— Vá, deixe que dou um j eito nesse im becil.
Frank voltou pelo m esm o cam inho. Sentia a decepção apertar seu estôm ago com o um a pedra de m oinho. Podia entender a raiva de Hulot. Todo aquele trabalho, a espera na rádio e o esforço para decifrar a m ensagem j ogados fora por aquele j ornalista idiota com sua m áquina fotográfica. Por causa dele, tinham revelado sua presença. Se o assassino pretendia realm ente atacar Stricker, com certeza m udaria de ideia. A única coisa boa é que tinham evitado outro m orto, em bora fosse m ais um a oportunidade perdida de capturar o assassino.
Quando a porta do elevador deslizou no quinto andar, Frank saiu e bateu na porta do apartam ento de Stricker.
— Quem é?
— Sou eu, Frank.
A porta se abriu e Frank entrou na casa. Roby Stricker teria que se dedicar m uito à praia e às lâm padas de bronzeam ento artificial para fazer a palidez desaparecer de seu rosto. Malva Reinhart não estava m uito m elhor. Sentada no sofá, seus olhos pareciam ainda m aiores e de um violeta m ais forte em contraste com a cor cinérea do rosto.
— O que houve?
— Nada. Não se preocupe.
— Prenderam alguém ?
— Sim , m as não era a pessoa que estam os procurando.
Naquele m om ento, o walkie-talkie tocou de novo. Frank o tirou da cintura. Depois da corrida escada abaixo, espantou-se de que ainda estivesse lá.
— Sim ?
Ouviu a voz de Hulot. E era um a voz que não lhe agradou nem um pouco.
— Frank, é Nicolas. Tenho um a m á notícia para você.
— Quanto?
— Muito, m uito ruim . Ninguém nos enganou, Frank, nos enganou do com eço ao fim . Seu obj etivo não era Roby Stricker.
Frank sentiu que um péssim o m om ento estava com eçando para todos eles.
— Acabaram de descobrir o cadáver de Gregor Yatzim in, o bailarino. Nas m esm as condições que os outros três.
— Merda!
— Estarei na frente do portão em um m inuto.
— Nos vem os j á.
Frank desligou o walkie-talkie e por um instante teve a tentação de arrem essá-lo contra a parede. Sentia a raiva com o se fosse um bloco de granito em seu estôm ago. Stricker veio encontrá-lo na entrada. Estava m uito nervoso, a ponto de não perceber com o Frank estava abalado.
— O que houve?
— Preciso ir em bora.
Stricker olhou para ele, perdido.
— De novo. E nós?
— Não correm m ais nenhum perigo. O obj etivo não era você.
— O quê? O obj etivo não era eu?
O alívio cortou os fios que o sustentavam e ele teve que se apoiar na parede.
— Não, acabam os de descobrir um a nova vítim a.
A certeza de ter escapado do perigo aj udou Stricker a passar da em oção à indignação.
— Está m e dizendo que quase m e fizeram ter um infarto para avisar agora que estavam enganados? Que enquanto estavam aqui se passando pelos bam bam bãs, o suj eito estava m atando outra pessoa na m aior tranquilidade? Que papelão! Quando m eu pai souber vai arm ar um a confus…
Frank ouviu o com eço do desabafo em silêncio. As palavras de Stricker tinham , infelizm ente, um a base inegável de verdade. Sim , haviam sido ludibriados m ais um a vez. Com o uns idiotas. Mas tinham sido sacaneados por alguém que corria seus riscos, que saía de casa e travava sua batalha, por m ais nefasta que fosse. Frank não suportava que aquele inútil fizesse a m esm a coisa, depois de eles terem tentado de todos os m odos salvar sua questionável existência. O gelo que sentia por dentro transform ou-se em vapor e explodiu com toda a força. Agarrou o suj eito pelos testículos e apertou violentam ente.
— Ouça bem , m ocinha…
Stricker em palideceu m ortalm ente e encostou-se na parede, com a cabeça de lado para evitar o olhar de Frank.
— Se não fechar a m atraca, vai poder olhar seus dentes sem precisar de espelho!
Deu um violento apertão nos colhões de Stricker, que com entou o gesto com um a careta de dor. Frank continuou, no m esm o tom sibilante.
— Se dependesse de m im , teria deixado você nas m ãos daquele açougueiro de bom grado, seu babaca inútil. Mas com o o destino resolveu cuidar de você, não desafie a sorte procurando confusão.
Largou a presa. O rosto de Stricker com eçou um lento retorno a um a coloração norm al. Frank viu que tinha os olhos m olhados.
— Estou indo agora. Com o sabe, tenho coisas m ais im portantes a fazer. Livre-se daquela vadia que está ali e fique m e esperando. Precisam os ter um a conversinha, só nós dois. Precisa m e contar alguns detalhes sobre as pessoas que costum a frequentar, aqui em Montecarlo…
Frank se afastou de Stricker, que com eçou a escorregar lentam ente contra a parede até ficar sentado no chão. Segurou a cabeça entre as m ãos e com eçou a chorar.
— E se quiser ligar para seu papaizinho nesse m eio-tem po, pode ligar.
Virou-se e abriu a porta, deixando o j ovem sentado no chão soluçando. Saiu para o saguão e, enquanto esperava o elevador, lam entou-se por não ter tido tem po de pedir explicações a Stricker sobre um pequeno detalhe. Estava esperando ficar sozinho com ele para perguntar, quando Nicolas ligou.
Voltaria m ais tarde, com calm a. Queria alguns esclarecim entos sobre a pessoa que estava falando com ele e com Malva Reinhart quando eles chegaram ao Jim m y ’z e que tinha se afastado assim que os viu. Frank queria saber o que Roby Stricker tinha para conversar com o capitão do Exército dos Estados Unidos, Ry an Mosse.