Eu Mato

Giorgio Faletti · Capítulo 49 de 76

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Eu Mato

Capítulo 41

41

 

JEAN-PAUL FRANCIS GIROU A TAMPA do pequeno cilindro de plástico e apertou várias vezes o êm bolo da bom ba para obter pressão suficiente para borrifar o inseticida. Pegou o aparelho pelo cabo e aproxim ou-se da m oita de rosas verm elhas, encostada na rede m etálica recoberta de plástico verde que servia de cerca. Exam inou os pequenos ram os da roseira. Estavam cheios de parasitas que criaram um a espécie de lanugem branca sobre os galhos.

— Então é guerra — disse com voz solene.

Apertou um a alavanca localizada no fundo do tubo e, da ponta da bom ba, saiu um a nuvem de inseticida m isturado com água. Com eçou pela base e subiu pelo tronco, distribuindo a m istura uniform em ente pelo arbusto inteiro.

Com o suspeitara, o inseticida tinha um cheiro horrível. Felicitou-se pela ideia de usar um a m áscara de gaze apertada para não inalar o produto que, conform e anunciava a etiqueta, “podia ser tóxico se ingerido e devia ser m antido longe do alcance de crianças”.

Lendo as advertências tinha pensado que, se era tóxico para as crianças, na sua idade j á podia inj etar um a dose nas veias que não teria efeito algum .

Enquanto pulverizava a planta, viu com o rabo do olho o Peugeot branco que estava estacionando um pouco depois do portão da garagem da casa. Era raro que um carro estacionasse bem ali, a não ser quando o hotel estava m uito cheio e não havia m ais vagas no estacionam ento. Um hom em alto, por volta dos 55 anos, cabelos ondulados recém -cortados e de aspecto ligeiram ente desalinhado saiu do carro, girou os olhos pelas redondezas e dirigiu-se com passo decidido para o portão de sua casa.

Jean-Paul pousou a bom ba no chão e foi abrir o portão de ferro batido sem dar tem po para que o estranho tocasse a cam painha.

Aquele hom em que estava em sua frente sorria.

— É o sr. Francis?

— Em pessoa.

O recém -chegado exibiu um distintivo num porta-docum entos de couro. Sua foto era bem visível na identidade plastificada.

— Sou o delegado Nicolas Hulot da Sûreté de Mônaco.

— Se veio m e prender, saiba que j á fico preso o suficiente aqui m esm o, cuidando do j ardim . Um a cela não poderia ser pior que isso.

O delegado não pôde conter um sorriso.

— Bem , isso é o que se cham a não ter m edo da lei! É sinal de um a consciência tranquila ou de um a vida vivida no m undo do crim e?

— Culpa de m ulheres m alvadas que despedaçaram m eu coração inúm eras vezes. Enquanto choro m inhas desgraças pessoais, que tal se entrasse? Os vizinhos poderiam pensar que está tentando m e vender vassouras.

Nicolas entrou no j ardim e o velho Francis fechou o portão atrás dele. Usava j eans desbotados e um a cam isa azul de brim m ais leve, da m esm a cor. Na cabeça, tinha um chapéu de palha e um a m áscara de gaze pendurada no pescoço, abaixada j ustam ente para falar com ele. Debaixo do chapéu, despontavam cabelos brancos e abundantes. Os olhos azuis, ressaltados pelo bronzeado da pele, pareciam os de um rapazinho. O resultado era um rosto sim pático e sagaz.

Nicolas Hulot sentiu um aperto cordial e vigoroso tom ando a m ão que tinha estendido.

— Não vim prendê-lo, se isso pode tranquilizá-lo. E só vou lhe roubar alguns m inutos, para sua futura tranquilidade.

Jean-Paul Francis deu de om bros, tirando o chapéu e a m áscara de proteção. Nicolas pensou que ele daria um ótim o dublê de Anthony Hopkins.

— Resolvi cuidar do j ardim não por escolha, m as por tédio. Só estava esperando um a boa desculpa para parar. Venha, vam os entrar em casa que é m ais fresco.

Atravessaram o m inúsculo j ardim , onde um pátio de concreto aparente ligava o portão de entrada à porta da casa. Não era um a casa de luxo e ficava a anos-luz de distância de certas m ansões da Côte d’Azur, m as inspirava ordem e lim peza. Subiram três degraus e chegaram ao interior. No lado oposto à entrada, um a escada levava para o segundo andar e duas portas dispostas em cada lado se abriam sim etricam ente à direita e à esquerda.

Nicolas estava habituado a avaliar os am bientes num rápido passar de olhos e teve a im pressão im ediata de que, se aquela não era a casa de um hom em rico de dinheiro, era sem dúvida de um hom em rico em cultura, bom gosto e ideias.

Notou isso graças à quantidade de livros, bibelôs, alguns poucos quadros e aos cartazes pendurados nas paredes que, com o substitutos de quadros propriam ente ditos, tinham algum a ligação com o m undo da arte.

Mas o que m ais im pressionava eram os discos. Despontavam por todo lado no apartam ento. Olhou pela porta da direita e entreviu um salão onde se exibia um poderoso equipam ento de som , provavelm ente sua única concessão ao consum ism o. No resto da sala, tal com o na entrada, todo o espaço disponível nas paredes era destinado a prateleiras cheias de CDs e velhos LPs.

— Pelo que parece, você gosta m uito de m úsica.

— Nunca fui capaz de escolher m inhas paixões e, portanto, fui obrigado a deixar que elas m e escolhessem .

Francis abriu cam inho, entrando pela porta da esquerda. Chegaram a um a cozinha no fundo da qual se entrevia, pela porta aberta, um local que servia de despensa. No lado oposto, havia um a pequena varanda aberta diretam ente para o verde do j ardim .

— Com o pode ver, nada de m úsica por aqui. Estam os na cozinha e não é bom m isturar dois tipos de alim ento. Quer beber algum a coisa? Um aperitivo?

— Não, obrigado, seu filho j á m e ofereceu um .

— Ah, esteve com Robert.

— Sim , foi ele quem m e deu seu endereço.

Francis olhou para as m anchas de suor sob as próprias axilas. Tinha o sorriso esperto de um m enino que acabou de inventar um a nova brincadeira. Olhou o Swatch em seu pulso.

— Diga-m e um a coisa: j á alm oçou?

— Não.

— Bem … Vou lhe fazer um a proposta. A sra. Sivoire, m inha governanta…

Fez um a pausa que term inou com um ar intrigado.

— Na verdade, é a faxineira, m as gosto de cham á-la de governanta, pois ela se sente valorizada e eu m e sinto m ais im portante. A sra. Sivoire, de origem rigorosam ente italiana e ótim a cozinheira, deixou um as lasanhas al pesto prontas para irem ao forno. Garanto que, de um ponto de vista estético, a sra. Sivoire deixa m uito a desej ar, m as suas lasanhas estão acim a de qualquer suspeita.

Nicolas não pôde evitar m ais um sorriso. Aquele hom em era um a força da natureza. Destilava sim patia por todos os poros. Sua vida devia ter sido um gozo contínuo daquele m odo de ser. Ou, pelo m enos, era com o ele esperava que tivesse sido.

— Não tinha intenção de ficar para alm oçar, m as se o orgulho da sra. Sivoire está em j ogo…

— Maravilha. Enquanto as lasanhas estiverem assando, vou subir para tom ar um banho. Se levantar um braço, tem o que um a m etralhadora dispare debaixo de m inhas axilas. E depois, com o poderia j ustificar o cadáver de um delegado de polícia em m inha cozinha?

Jean-Paul Francis tirou um pirex da geladeira e enfiou-o no forno. Regulou a tem peratura e o timer. Pelo m odo com o m anobrava os eletrodom ésticos, Nicolas deduziu que estava na casa de um hom em que am ava a cozinha ou de um hom em sozinho. De todo m odo, um a coisa não excluía a outra.

— Pronto. Dez m inutos, talvez quinze, e poderem os com er.

Saiu da cozinha e desapareceu pelas escadas assoviando. Dali, Hulot ouviu em seguida o barulho do chuveiro e o tom de voz vagam ente barítono de Jean-Paul Francis cantarolando “The Lady is a Tram p”.

Quando voltou, estava vestido da m esm a m aneira, m as com calças e cam isa lim pas. Tinha os cabelos m olhados penteados para trás.

— E então, ainda m e reconhece?

Nicolas olhou para ele espantado.

— Claro.

— Estranho, depois da ducha m e sinto um outro hom em . Logo se vê que é um policial…

Hulot foi obrigado a rir novam ente. O suj eito tinha a capacidade de catalisar bom hum or a seu redor. O anfitrião pôs a m esa na varandinha que dava para o j ardim . Estendeu-lhe um a garrafa de vinho branco e um saca-rolhas.

— Enquanto tiro a com ida do forno, o que acha de ir abrindo o vinho?

Nicolas liberou a rolha no m esm o instante em que Jean-Paul Francis depositava a travessa de lasanha al pesto recém -saída do forno no centro da m esa, sobre um descanso de cortiça.

— Prontinho. Sente-se, por favor.

O anfitrião serviu um a porção abundante de m assa fum egante em seu prato.

— Pode com eçar. Nessa casa, a única etiqueta observada com atenção é a das garrafas de vinho — disse enquanto se servia de um a porção idêntica.

— Hum m , fantástica — com entou Hulot com a boca cheia.

— Não disse? Isso prova que, não im porta o que desej a de m im , sou um hom em que diz a verdade.

Aquelas palavras deram a Nicolas o ensej o para falar do m otivo de sua visita, e era um m otivo que queim ava m ais do que qualquer coisa recém -saída do forno.

— Era dono de um a loj a de discos há algum tem po, não era? — disse, cortando um pedaço de m assa com o garfo.

Pela expressão do hom em , percebeu que tinha tocado em um a ferida m al cicatrizada.

— É. Fechei há sete anos. A m úsica de qualidade nunca foi um bom negócio por aqui…

Hulot evitou m encionar os com entários do j ovem Francis a respeito da história. Era inútil cutucar um a ferida que j á devia ter sido m exida inúm eras vezes. Resolveu ser franco com seu anfitrião. Gostava daquele hom em e tinha certeza de que não se enganava ao inform á-lo, pelo m enos em parte, daquela história.

— Estam os procurando um assassino em Montecarlo, sr. Francis.

— Não é nesse m om ento do film e que os dois heróis com eçam a se cham ar pelo nom e e a abandonar o “senhor”? Meu nom e é Jean-Paul.

— E o m eu é Nicolas.

— Com “assassino em Montecarlo” não está se referindo, por acaso, à história do suj eito que liga para a rádio? Aquele a quem a im prensa cham a de Ninguém ?

— Exatam ente.

— Bem , não vou dizer que não estou acom panhando, assim com o m ilhares de outras pessoas, im agino, a história. Aquela voz provoca arrepios até em couro de sapato. Quantas pessoas ele j á m atou?

— Quatro. E daquela m aneira que você sabe… E o que é pior é que não tem os a m enor ideia de com o im pedi-lo da m atar de novo.

— O cara deve ser esperto com o um bando de raposas. Ouve péssim a m úsica, m as deve ter um cérebro de prim eira.

— Sobre o cérebro, concordo com você. Sobre a m úsica, vim até aqui j ustam ente para discutirm os isso.

Nicolas rem exeu o bolso do paletó e tirou as cópias que Guillaum e tinha lhe dado. Escolheu um a, que estendeu para Jean-Paul Francis.

— Conhece esse disco?

O hom em pegou a foto e exam inou. Nicolas acreditou ter visto Jean-Paul em palidecer. Levantou para ele seus olhos azuis de rapazinho, cheios de espanto.

— Onde arrum ou essa foto?

— É um a longa história. Só precisa saber por enquanto que acham os que o disco pertence ao assassino e que foi vendido aqui…

Estendeu outra cópia a Jean-Paul, a que m ostrava a etiqueta com o nom e da loj a. Dessa vez a palidez em seu rosto não era im pressão, era a pura realidade. As palavras m orreram em sua garganta.

— Mas…

— Reconhece o disco? Sabe m e dizer que significado pode ter? Quem é Robert Fulton?

Jean-Paul Francis afastou seu prato e fez um gesto com as duas m ãos.

— Quem é Robert Fulton? Qualquer aficionado de j azz que vá além de Louis Arm strong sabe quem é ele. E qualquer j azzófilo daria um braço para ter um de seus discos.

— Com o assim ?

— Porque no m undo inteiro existem apenas dez exem plares, que eu saiba.

Dessa vez foi Nicolas quem em palideceu. Jean-Paul serviu m ais um copo de vinho e encostou-se no espaldar da cadeira. De repente, as lasanhas da sra. Sivoire pareciam ter perdido toda a graça.

— Robert Fulton foi um dos m aiores trom petistas da história do j azz. Infelizm ente, com o sucede tantas vezes, era um gênio no âm bito da m úsica, m as doido de pedra. Tinha lá suas ideias. Nunca quis gravar discos porque estava convencido de que a m úsica não podia e não devia ser aprisionada. Para ele, a única m aneira de usufruir de um a m úsica era o show ao vivo, live, com o se diz agora. Ou sej a, a m úsica é um a experiência diferente a cada sessão e não se tem direito de fixá-la de m odo estático, im utável.

— Mas então de onde vem esse disco?

— Estou chegando lá. No verão de 1960, ele fez um a breve turnê pelos Estados Unidos, tocando em vários clubes com alguns dos m elhores session-men da época. Um a série de concertos históricos. No Be-bop Café, de Nova York, alguns am igos, j unto com alguns em presários, organizaram um a gravação ao vivo, sem que ele soubesse, e tiraram quinhentos discos dessa fita, esperando que, ao ouvi-los, Fulton m udasse de ideia.

— Ah, é por isso que se cham a “Stolen Music”…

— Exatam ente, m úsica roubada. Só que os am igos não previram a reação que ele teve. Fulton ficou furioso, destruiu todos os discos e obrigou-os a entregar as m atrizes para destruí-las tam bém . A história correu m undo e tornou-se um a espécie de lenda, à qual cada um acrescentava um ponto. A única coisa certa é que, de todos aqueles discos, só dez se salvaram e foram vendidos a peso de ouro para colecionadores de gravações raras. E eu era um desses dez.

— Quer dizer que ainda tem o disco?

— Eu disse era, não sou. Foi um m om ento difícil…

Jean-Paul olhou para as m ãos bronzeadas, m anchadas pela idade. Com certeza, não eram boas as lem branças que lhe passavam pela cabeça.

— Minha m ulher teve câncer e m orreu em seguida. O negócio não ia m uito bem naquela época. Quer dizer, ia especialm ente m al. Eu precisava de dinheiro para o tratam ento de m inha m ulher e o disco valia um a fortuna, portanto…

Francis deixou escapar um suspiro que soou com o alguém que respirasse depois de um a vida inteira prendendo o ar.

— Quando resolvi vender, com toda a m á vontade deste m undo, colei a etiqueta da loj a com o se fosse um a form a de não m e separar dele com pletam ente. Aquele disco foi um a das poucas coisas que eu considerava realm ente m inhas em toda a vida, à parte m inha m ulher e m eu filho. Três coisas são um a verdadeira fortuna na vida de um hom em .

O coração de Nicolas Hulot batia no peito com o o único pistom de um m otor de enorm e cilindrada. Escandiu bem as palavras. Fez um a pergunta e o tom de sua voz era o de um hom em que tem e a resposta.

— Você se lem bra a quem o vendeu, Jean-Paul?

— Passaram -se m ais ou m enos quinze anos, Nicolas. Lem bro que o cliente era um suj eito estranho, m ais ou m enos da m inha idade. Vinha sem pre à loj a e com prava discos raros, só coisa de colecionador. Não parecia ter problem as de dinheiro, portanto confesso que algum as vezes peguei pesado nas coisas que lhe vendia. Quando soube que eu tinha um a cópia de “Stolen Music”, m e assediou durante m eses para que o vendesse. Sem pre recusei, m as então, com o lhe disse… A necessidade faz o ladrão. Ou o vendedor. Às vezes as duas coisas j untas.

— Nenhum nom e lhe vem em m ente?

— Sou um hom em , não um com putador. Não vou esquecer daquele disco nem que se passem m il anos. Mas quanto ao resto…

Passou a m ão pelos cabelos brancos e levantou a cabeça, olhando para o teto. Nicolas se apoiou na m esa, inclinado em sua direção.

— Não é necessário dizer o quanto isso pode ser im portante, Jean-Paul. Vidas hum anas dependem disso.

Hulot se perguntou quantas vezes ainda teria que usar aquela expressão, quantas vezes teria que lem brar alguém da im portância de algum a coisa para salvar outros seres hum anos, antes que aquela história tivesse fim .

— Talvez…

— Talvez o quê?

— Venha com igo. Vam os ver se você é m esm o um hom em de sorte.

Seguiu Jean-Paul para fora da cozinha, observando suas costas eretas apesar da idade e a nuca cheia de cabelos brancos, enquanto um a leve corrente que soprava pela casa trazia o perfum e de seu desodorante. Na entrada, viraram à esquerda e o hom em pegou um a escada que levava ao porão.

Depois de um a dezena de degraus, viram -se num local que devia ser o côm odo curinga da casa. De um lado, um a m áquina de lavar ladeada por um tanque, um a bicicleta fem inina pendurada na parede, um balcão para trabalhos de bricolagem com um torninho e ferram entas para m anipular ferro e m adeira.

Do outro lado, um a fileira de estantes de m etal com vidros de conserva e garrafas de vinho. Um a outra parte era dedicada a pastas e caixas de papelão de diversos tam anhos e cores.

— Sou um hom em de lem branças. Um colecionador. E nós, os colecionadores, som os quase todos uns idiotas nostálgicos, a não ser os que colecionam dinheiro.

Jean-Paul Francis parou diante de um a das estantes e ficou olhando por um m om ento, com ar interrogativo.

— Hum m m , vam os ver…

Tom ou um a decisão e pegou da prateleira m ais alta um a caixa de papelão azul bastante volum osa. Na tam pa via-se a etiqueta dourada de um a antiga loj a de discos que se cham ava Disque à Risque. Colocou-a sobre o balcão de trabalho, ao lado do torninho. Acendeu um a lâm pada que pendia do alto.

— Isso é tudo o que resta da m inha atividade com ercial e de um pedaço de m inha vida. Muito pouco, não acha?

Às vezes é até demais, pensou Nicolas. Tem gente que, no final da viagem, não tem necessidade nem de uma caixa, seja ela grande ou pequena. Às vezes os bolsos dão e até sobram.

Jean-Paul abriu a caixa e com eçou a rem exer lá dentro, levantando folhas que pareciam velhas licenças com erciais ou pequenas brochuras de concertos e feiras de discos de coleção.

A certa altura, tirou um papelzinho azul dobrado no m eio, abriu, olhou o que estava escrito e estendeu-o para Nicolas.

— Tom e, hoj e é o seu dia de sorte. Este bilhete foi escrito de próprio punho pelo com prador de “Stolen Music”. Deixou seu telefone quando soube que eu possuía um a cópia. Pensando bem , depois que vendi o disco ele veio m ais algum as vezes e em seguida sum iu…

Nicolas leu o que estava escrito no bilhete. Um a letra decidida e ao m esm o tem po precisa anotara um nom e e um núm ero de telefone.

Legrand 04/4221545.

Hulot achou aquele m om ento estranho. Depois de tanto correr, depois de tantas vozes distorcidas, corpos disfarçados, im pressões digitais inexistentes, passos sem eco, depois de tantas som bras sem rosto e tantos rostos sem feições, finalm ente havia algo de hum ano em suas m ãos, a coisa m ais banal do m undo: um nom e e um núm ero de telefone.

Olhou para Jean-Paul Francis e sentiu-se vazio. Não conseguia encontrar a palavra certa a dizer. Seu anfitrião, que poderia ser seu salvador e de outras vítim as inocentes, deu um sorriso.

— Pela sua cara, diria que está positivam ente im pressionado. Se estivéssem os num film e, com o eu disse antes, penso que agora deveria com eçar um a m úsica im pactante.

— Muito m ais, Jean-Paul. Muito m ais…

Pegou o celular. Seu novo am igo o deteve im ediatam ente.

— Não pega aqui, tem os que subir. Vam os.

Subiram a escada de volta. Enquanto a m ente de Nicolas Hulot corria a cem por hora, Francis com pletava as inform ações que tinha acabado de fornecer com os últim os fragm entos de m em ória.

— Era de um lugar próxim o daqui, acho eu, na zona de Cassis. Era um tipo sólido, alto, m as não altíssim o e dando a im pressão de um vigor físico incom um . Tinha um ar de m ilitar, não sei se m e entende. Mas o que im pressionava, acredito eu, eram os olhos. Davam a im pressão de que olhavam sem oferecer a possibilidade de serem olhados. Essa é a definição m ais próxim a que consigo encontrar. Lem bro que achei estranho que um suj eito daquele tipo fosse apaixonado por j azz…

— Bem , para quem não é um com putador, acho que está m uito bem no que diz respeito à m em ória.

Ainda subiam quando Jean-Paul se virou para ele sorrindo.

— Acha m esm o? Por algum m otivo, estou com eçando a ficar orgulhoso de m im m esm o.

— Creio que pode ter um m onte de m otivos para estar orgulhoso de si m esm o. Esse agora é apenas um deles.

Chegaram ao prim eiro andar e reencontraram a luz do sol. Na m esa da cozinha, a m assa estava fria e o vinho quente. Um triângulo de luz invadira o chão vindo da varandinha e subia com o hera por um a das pernas da m esa.

Hulot olhou para o celular. O visor m ostrava que o sinal havia retornado. Ele ponderou se podia correr o risco, m as deu de om bros. Provavelm ente, seus tem ores de interceptações telefônicas eram pura paranoia. Apertou o botão de um núm ero que estava na m em ória e esperou até ouvir a voz do outro lado.

— Oi, Morelli, é Hulot, preciso de duas coisinhas suas. Inform ação e silêncio. Pode ser?

— Claro.

Um a qualidade indiscutível de Morelli era a capacidade de não fazer perguntas inúteis quando não era o caso.

— Vou lhe dar um nom e e um núm ero de telefone. Pode até ser que o núm ero não estej a m ais em uso. Deve ser da Provença, m ais precisam ente. Pode m e dizer em que endereço fica, tudo isso para ontem ?

— Correndo.

Passou os dados para o inspetor e desligou.

Pediu a Francis um a confirm ação que era, na realidade, apenas um a reflexão.

— Zona de Cassis, você disse?

— É o que acho. Cassis, Auriol, Roquefort, não lem bro bem , m as acho que a região é essa m esm o.

— Acho que vou ter que dar um passeio por lá.

Hulot deu um a olhada pela casa, com o se quisesse im prim ir cada detalhe na m em ória. Voltou a fitar Francis bem nos olhos.

— Espero que não se aborreça se eu for em bora com o um cachorro m agro. Com o pode im aginar, tenho um a certa pressa.

— Sei o que está sentindo. Quer dizer, não, não sei, m as posso im aginar. Espero que encontre o que precisa encontrar. Venha, vou levá-lo até o portão.

— Sinto m uito por ter arruinado seu alm oço.

— Não arruinou nada, Nicolas. Muito pelo contrário. Ultim am ente, não tenho tido m uita com panhia. Quando se chega a um a certa idade, acontecem determ inadas contradições dialéticas. Às vezes, você pergunta com o pode ser que o tem po passe tão depressa e existam certos m om entos em que parece que ele não passa nunca…

Enquanto ouvia Jean-Paul, Hulot atravessou o j ardim e chegou ao portão de ferro batido. Olhou para seu carro estacionado um pouco adiante, ao sol. Certam ente, estaria um forno. Enfiou dois dedos no bolsinho do paletó e puxou um cartão de visita.

— Tom e isso. Se passar pelos lados de Montecarlo, saiba que na m inha casa sem pre haverá um leito e um prato de sopa.

Jean-Paul pegou e olhou para ele sem dizer nada. Nicolas tinha certeza de que não ia j ogá-lo fora. Talvez nunca m ais se vissem , m as era certo que não ia j ogá-lo fora.

Estendeu a m ão para aquele hom em e reencontrou seu aperto enérgico.

— A propósito. Tem m ais um a coisa que queria lhe perguntar. É um a curiosidade pessoal, não tem nada a ver com essa história.

— Diga.

— Por que Disque à Risque?

— Ah, isso… Quando m ontei a loj a, não tinha a m enor ideia de com o aquela história ia term inar. Não eram os clientes que corriam risco, era eu!

Hulot saiu sorrindo e sacudindo a cabeça, enquanto Francis o observava do portão aberto.

Ao chegar ao carro, enfiou as m ãos no bolso do paletó em busca das chaves. Sentiu sob os dedos a textura da folha de papel azul que Jean-Paul havia lhe dado com o nom e e o núm ero de telefone. Pegou-a e ficou olhando por um instante, absorto.

Pensou que, provavelm ente, Disque à Risque, loj a de discos raros, tinha obtido seu m aior sucesso vários anos depois de falir.