Eu Mato
Capítulo 4
4
ROGER SAIU PARA A COBERTA do Baglietto e respirou o ar fresco da m anhã. Eram sete e m eia de um dia que se anunciava esplêndido. Depois da sem ana do Grande Prêm io, os proprietários do iate em que estava em barcado partiram e deixaram o barco aos seus cuidados, à espera do próxim o cruzeiro de verão que, em geral, durava dois m eses. Ficaria na m arina de Montecarlo pelo m enos m ais um m ês e m eio, gozando de toda a tranquilidade, sem a presença sufocante do arm ador e da esposa, um a perua insuportável, tão carregada de j oias que, no sol, era preciso botar óculos escuros para olhar para ela.
Donatella, a garçonete italiana do Restaurant du Port, estava acabando de arrum ar as m esas do terraço. Os funcionários dos escritórios e loj as da m arina logo chegariam para o café da m anhã. Roger ficou observando em silêncio até que ela percebeu sua presença. Sorriu para ele e em pinou im perceptivelm ente os seios.
— Que boa vida, não?
Roger continuou o duelo entre eles, que j á durava alguns m eses. Fez um a cara de sofredor.
— Pois é, m as poderia ser m uito m elhor…
Donatella atravessou os poucos m etros que separavam as m esas da popa do barco e parou bem em baixo dele. A cam iseta aberta deixava entrever o m isterioso sulco entre seus seios e Roger enfiou os olhos com o um anzol no m ar. A m oça percebeu, m as não deu o m enor sinal de se incom odar.
— Quem sabe se em vez de usar tanto os olhos, você usasse m elhor as palavras… Ei, o que houve com aquele doido?
Roger virou a cabeça na direção de seu olhar e viu um Beneteau de dois m astros disparar a toda velocidade diretam ente para a linha dos barcos ancorados. Não havia ninguém na coberta.
— Esses idiotas!
Deixou Donatella e correu para a proa do Baglietto. Com eçou a agitar os braços freneticam ente, berrando.
— Ei, você no dois m astros, cuidado!
Mas nenhum sinal de vida chegou do barco. Continuava disparado em direção à m arina sem dim inuir a velocidade. Já estava a poucos m etros e a colisão parecia inevitável.
— Ei, você…
Roger deu um últim o grito desesperado e depois se agarrou no corrim ão, à espera do im pacto. Com um choque seco, a proa do Beneteau bateu contra o lado esquerdo do Baglietto e deslizou para se enfiar entre seu casco e o da barca ancorada ao lado, inclinando-se levem ente. Felizm ente, o m otor não tinha potência suficiente para causar danos m ais graves e os para-choques conseguiram atenuar o im pacto. No entanto, via-se a m arca acinzentada do arranhão na pintura do iate. Deu um berro em direção ao barco, depois que foi atingido.
— Ficaram m alucos, seus im becis?
Não houve nenhum a resposta do dois m astros. Roger saltou diretam ente da coberta do Baglietto para a proa do Beneteau, enquanto um a pequena m ultidão de curiosos com eçava a se aglom erar na m arina. Quando chegou à popa viu um a coisa que o deixou perplexo. A barra do tim ão estava bloqueada: alguém o prendera com o botaló e o am arrara com um cabo. Um a trilha averm elhada partia da coberta e descia pela escada que levava às cabines. Havia algo de estranho e de sinistro em tudo aquilo e Roger com eçou a sentir um certo frio no estôm ago. Desceu a escada lentam ente, seguindo a trilha que term inava aos pés da m esa, abrindo-se num a poça escura. Roger sentiu a pele arrepiar quando percebeu que era sangue. Aproxim ou-se com as pernas levem ente bam bas. No tam po da m esa, alguém tinha escrito duas palavras com o m esm o líquido:
Eu mato…
A am eaça da escrita e daqueles três pontinhos dava calafrios. Roger tinha 28 anos e não era nenhum herói, m as algo m ais forte que ele o em purrou para a porta que provavelm ente dava para o quarto de dorm ir. Parou um instante diante dela, com a boca seca de tensão e depois a em purrou.
Foi envolvido por um sopro de cheiro adocicado que tom ou sua garganta e provocou um a leve sensação de enj oo. Não teve forças nem para gritar. Durante os anos que ainda viveria, a cena que viu voltaria toda noite a seus sonhos, transform ando-os em pesadelos.
O policial que estava subindo a bordo e a pequena m ultidão na m arina viram quando ele saiu desesperado para a coberta, inclinou-se sobre a am urada e vom itou no m ar, o corpo sacudido por violentos espasm os histéricos.