Eu Mato
Capítulo 34
34
FRANK ESTACIONOU O PEUGEOT DE NICOLAS HULOT em baixo da casa de Roby Stricker, num local proibido. Tirou do porta-luvas o cartão “Carro da polícia em serviço” e colocou no vidro traseiro, em baixo do lim pador de para-brisa. Quando desceu do carro, um policial j á estava se aproxim ando para m andar tirá-lo dali. Viu o cartão antes m esm o de reconhecê-lo. Ergueu a m ão direita, confirm ando que estava tudo bem .
Frank cum prim entou-o em silêncio, com um sinal de cabeça.
Atravessou a rua e dirigiu-se para o Les Caravelles.
Antes disso, Frank deixara o delegado e Morelli enfrentando o assalto dos j ornalistas, atraídos com o m oscas no m el pela notícia de um novo hom icídio. As barreiras colocadas pela polícia diante da entrada pareciam incapazes de conter toda a agitação. Vendo Hulot e o inspetor atrás dos vidros da porta de entrada, os j ornalistas com eçaram a em purrar e foram contidos com esforço por dois agentes. Parecia a repetição da cena da m arina logo após a descoberta dos corpos de Jochen Welder e Arij ane Parker, quando toda aquela triste história com eçara.
Para Frank, eles lem bravam gafanhotos: deslocavam -se em m assa e com iam tudo o que encontravam pelo cam inho. E, na verdade, só estavam fazendo seu trabalho. Mas qualquer um podia usar essa j ustificativa. Até o assassino, ao m anipular todo m undo com o se fosse um rebanho de estúpidas ovelhas, estava fazendo seu trabalho, m aldito fosse ele por toda a eternidade.
Lançara um olhar além das vidraças, depois parou no centro do vestíbulo.
— Claude, tem algum a outra saída?
— Claro, tem a entrada de serviço.
— Com o chego lá?
Morelli indicou um ponto às suas costas.
— O elevador de serviço fica atrás da escada. Aperte S e chegará ao pátio, ao lado da descida que vai para a garagem . Siga à direita, suba a ram pa e estará na rua.
Hulot olhava para ele sem entender nada. Frank não achou que fosse hora de dar explicações. Pelo m enos, não por enquanto.
— Tenho um as coisas a resolver, Nicolas, e queria fazer isso sem ter a m etade da im prensa europeia nos m eus calcanhares. Pode m e em prestar o carro?
— Claro. Pode pegar, não vou precisar dele por enquanto.
Estendeu as chaves sem dizer m ais nada. O delegado estava tão cansado que não tinha forças para servir de com bustível à curiosidade. Todos os três estavam com a barba por fazer e o ar de sobreviventes de um terrem oto, o qual se tornara ainda m ais desolado pela consciência de terem perdido a últim a batalha.
Frank deixara-os para seguir o cam inho indicado por Morelli. Através de um subsolo que cheirava a m ofo e gasolina, chegou à rua. Fora até o carro, estacionado do outro lado da Avenue Princesse Grace, exatam ente atrás do grupo de j ornalistas que atordoava o pobre Nicolas Hulot com perguntas.
Felizm ente, ninguém o vira partir.
Na casa de Roby Stricker em purrou a porta envidraçada e viu-se na entrada do edifício. O porteiro não estava em sua cabine. Olhou o relógio. Sete em ponto. Reprim iu um bocej o a duras penas. O cansaço daquela longa noite em claro com eçava a se fazer sentir. Prim eiro o program a na rádio, em seguida a caça a Roby Stricker, depois o deslocam ento para as redondezas de sua casa, a ilusão, a desilusão, o novo hom icídio, o cadáver m utilado de Gregor Yatzim in.
Fora da porta envidraçada, o céu e o m ar tingiam de azul o início daquele novo dia. Seria m aravilhoso esquecer tudo aquilo, ir para a cam a no confortável apartam ento de Parc Saint-Rom an, fechar os olhos e as persianas e esquecer o sangue e as m ensagens escritas nas paredes.
Eu mato…
Recordou o novo grafite no quarto de Yatzim in. Se não o pegassem , aquele desgraçado não pararia nunca. E depois de um tem po, não haveria paredes para tanta escrita, nem cem itério para tantos m ortos.
Ainda não era o m om ento de dorm ir, se é que conseguiria. Ainda precisava esclarecer aquela história em suspenso com Roby Stricker. Queria saber com o e por que estava em contato com Ry an Mosse, em bora pudesse im aginar. Precisava entender o quanto a investigação do general estava à frente ou atrás da deles e o que podia esperar daquele lado.
Olhou ao redor. Naquele instante, o porteiro saiu daquela que devia ser a porta de seu apartam entinho no térreo do edifício, abotoando o paletó. Chegou diante dele engolindo apressado o que estava m astigando. Surpreendido em flagrante delito, tom ando seu café da m anhã, entrou na cabine e olhou para ele através da proteção de vidro.
Era um suj eito de bigode, cabelos escuros, por volta dos quarenta, de ar não m uito esperto, m as com aquela ligeira arrogância que têm os que trabalham nos lugares habitados por gente m uito rica.
— Com quem desej a falar?
— Roby Stricker.
— Minhas instruções são para dizer que ele está dorm indo a essa hora.
Frank tirou o distintivo e, ao tirá-lo do paletó, deu um j eito para que o porteiro visse a Glock pendurada na cintura.
— E isso aqui diz que vai acordá-lo agora m esm o.
O porteiro m udou im ediatam ente de atitude. O bolo de saliva que tragou parecia m aior que o alim ento engolido anteriorm ente, m as o gesto foi m uito m ais veloz. Ergueu o fone do interfone e digitou um núm ero num único m ovim ento nervoso. Deixou tocar longam ente antes de dar seu veredito.
— Não responde.
Estranho. Depois daquela série de toques estridentes, Roby Stricker, m esm o que estivesse dorm indo, deveria ter acordado. Frank não acreditava que fosse ousado o suficiente para tentar fugir e achava que o tinha assustado o bastante para que desistisse de qualquer gesto im pensado. No caso, seria m ais um a com plicação, m as não um desastre: encontraria aquele cabeça de m elão num piscar de olhos, se precisasse. Mesm o que tivesse se escondido atrás dos príncipes do direito que seu pai podia com prar para ele.
— Tente m ais um a vez.
O porteiro deu de om bros.
— Ainda está tocando, m as ninguém responde.
De repente, Frank teve um terrível pressentim ento. Estendeu a m ão para o porteiro.
— A chave m estra, por favor.
— Mas não tenho autorização para…
— Já disse para m e dar a chave m estra, por favor. Se não for suficiente, posso pedir de form a m enos educada — interrom peu Frank bruscam ente. Seu tom de voz era daqueles que não adm ite réplica. E seu olhar idem . O porteiro engoliu em seco novam ente.
— E depois vá até a rua e m ande o agente que está lá subir im ediatam ente ao apartam ento de Roby Stricker.
O coitado abriu um a gaveta rapidam ente e entregou a chave num chaveiro da BMW. Fez m enção de se levantar da cadeira.
— Ande logo! — incitou Frank.
Dirigiu-se para o elevador e apertou o botão.
Por que os elevadores nunca estão quando a gente precisa deles? E por que sempre estão no último andar quando se tem pressa? Maldita lei de Murphy…
Finalm ente a porta deslizou de lado e Frank entrou no elevador. Apertou apressadam ente o botão do andar de Stricker.
Na eternidade daquela subida, rezou para estar enganado. Rezou para que aquilo que tinha cruzado sua cabeça com o um raio de suspeita não se transform asse num a irônica realidade.
Quando chegou ao quinto andar, o elevador se abriu com o m esm o sopro m urcho de sem pre. Frank viu que a porta do apartam ento do play boy estava entreaberta. Deu um salto até lá, pensando que dava um passo. Em punhou a Glock, em purrou a porta com o cano da arm a para não tocar a m açaneta e entrou.
A entrada era a única coisa em ordem . A sala onde ele, Stricker e a m oça estiveram reunidos m ais cedo era o m ais com pleto caos. A cortina do j anelão tinha sido parcialm ente arrancada do trilho e pendia a m eio pau com o um a bandeira de rendição. Havia um copo no chão e a garrafa de uísque que Stricker estava bebendo encontrava-se despedaçada sobre o carpete cinza-pérola. O conteúdo estava espalhado no chão, num a longa m ancha escura. Um quadro estava caído, revelando um pequeno cofre na parede. O vidro tinha saído do lugar, surpreendentem ente sem quebrar, e j azia no chão ao lado da m oldura torta. Um a alm ofada do sofá tinha deslizado para o chão e estava em pé ao lado do braço do m óvel. Não havia ninguém lá.
Frank atravessou o salão e dobrou à direita, no breve corredor que ia até o quarto. À esquerda, a porta aberta do banheiro, deserto. Ele pelo m enos parecia em ordem . Chegou à soleira da porta do quarto e sentiu que o ar lhe faltava.
— Merda, m erda, m il vezes m erda — disse com vontade de continuar a obra de dem olição da casa que alguém tinha com eçado.
Frank avançou um passo, escolhendo cuidadosam ente onde colocar os pés. No centro do aposento, de bruços no pavim ento de m árm ore, estava o corpo de Roby Stricker, num lago de sangue. Todo o côm odo parecia ensanguentado. Usava a m esm a cam isa de quando Frank o deixara, só que agora estava ensopada de sangue e colada ao corpo. Nas costas, viam -se as m arcas de diversas punhaladas. Seu rosto apresentava equim oses e um profundo corte na face esquerda. O sangue tinha escorrido lam buzando a boca. O braço esquerdo estava quebrado, dobrado num a posição im possível.
Frank inclinou-se para o chão e tocou sua garganta. Nenhum batim ento. Roby Stricker estava m orto. Frank se levantou com lágrim as de raiva ofuscando sua visão.
Mais um . Na m esm a noite. Mais um hom icídio fodido poucas horas depois do outro. Am aldiçoou silenciosam ente o m undo, o dia, a noite e seu destino de caça-fantasm as. Am aldiçoou Nicolas que o colocou naquela história e a si m esm o por ter aceitado participar dela. Am aldiçoou tudo o que lhe veio à cabeça.
Tirou o walkie-talkie da cintura, esperando estar em seu raio de alcance. Apertou o botão de cham ada.
— Frank Ottobre para Nicolas Hulot.
Um toque, um chiado e finalm ente a voz do delegado.
— É Nicolas. Pode falar, Frank.
— Agora sou eu quem tem um a péssim a notícia que vai deixá-lo louco, Nic. Um a péssim a, péssim a notícia.
— Que m erda aconteceu agora?
— Roby Stricker está m orto. Em seu apartam ento. Assassinado.
Hulot soltou um a série de im propérios capazes de em palidecer a luz do sol. Frank com preendia perfeitam ente o que ele estava sentindo. Quando a raiva esfriou, depois de um a descarga da transm issão, o delegado quis saber o que era m ais im portante para ele.
— Ninguém ?
— Não, m orto e basta. O rosto está no lugar e não há m ensagens nas paredes.
— Com o é a cena?
— Posso dizer o que deduzi à prim eira vista. A m orte não deve ter sido instantânea. Foi agredido e apunhalado. Há sinais de luta por todo lado e um m ar de sangue no chão. O assassino pensou que estava m orto e saiu quando ainda vivia. Pode parecer estranho, m as aquele pobre infeliz de Roby Stricker fez, ao m orrer, m uito m ais do que conseguiu fazer quando estava vivo…
— Com o?
— Antes de m orrer escreveu no chão o nom e de seu assassino.
— A gente conhece?
Frank abaixou ligeiram ente o tom de voz, com o se quisesse que Hulot digerisse m elhor o que estava para dizer.
— Eu conheço. Se fosse você, cham aria Durand e pediria que em itisse um m andado de prisão contra Ry an Mosse, capitão do Exército dos Estados Unidos.