Eu Mato

Giorgio Faletti · Capítulo 11 de 76

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Eu Mato

Capítulo 8

8

 

— MERDE!

Nicolas Hulot j ogou o j ornal que tinha nas m ãos sobre os outros que entulhavam a escrivaninha. Todos, franceses e italianos, traziam a notícia do duplo hom icídio na prim eira página. Apesar das tentativas de m anter certas inform ações em sigilo, a coisa toda vazou. As características dos crim es j á seriam , por si só, um a isca capaz de desencadear a voracidade dos repórteres com o a de piranhas em cim a de um boi. Além do m ais, o fato de que eram dois personagens fam osos transform aram as m anchetes num a apoteose de criatividade. Um cam peão do m undo de Fórm ula 1 e a nam orada que, vej a que sorte, era um a enxadrista conhecida m undialm ente!

Era um a m ina de ouro que qualquer j ornalista escavaria até com as próprias m ãos.

Um deles, m ais com petente, tinha conseguido rem ontar os acontecim entos passo a passo, provavelm ente graças ao testem unho, com certeza regiam ente pago, do m arinheiro que descobrira os corpos. O detalhe da m ensagem deixada na m esa arrebatou de m aneira particular a fantasia dos j ornalistas.

Cada um tinha dado sua interpretação pessoal, deixando, com habilidade, espaço suficiente para a fantasia do leitor.

Eu mato…

O delegado fechou os olhos, m as a cena que tinha diante de si não m udou. Não conseguia afastar do pensam ento aqueles signos desenhados com sangue sobre a m adeira. Coisas assim não aconteciam na realidade. Eram invenções dos escritores para vender m ais livros. Eram tram as cinem atográficas que algum roteirista de sucesso escrevia em sua casa na praia de Malibu, bebericando um drinque. Eram investigações que diziam respeito a detetives am ericanos com a cara de Bruce Willis ou John Travolta, de físico atlético e tiro certeiro, e não a um delegado m ais próxim o da aposentadoria do que da glória.

Levantou-se da escrivaninha e andou até a j anela com o passo de um hom em abatido pelo cansaço de um a longa viagem .

Todo m undo telefonou, seguindo a escala hierárquica na ordem do tem po. Para todos, deu a m esm a resposta, j á que todos faziam as m esm as perguntas. Olhou para o relógio. Dentro em pouco, haveria um a reunião para definir as coordenadas das investigações. Além de Luc Roncaille, diretor da Sûreté, lá estariam Alain Durand, secretário de Justiça, que resolvera assum ir as investigações diretam ente, na qualidade de j uiz instrutor, e, ao que parecia, tam bém o conselheiro do Ministério do Interior. Só faltava m esm o o príncipe, que, conform e a constituição do país, era o chefe suprem o das forças policiais, m as quem sabe…

E Hulot teria que usar, com quem quer que fosse, as únicas coisas de que dispunha no m om ento: pouca inform ação e m uita diplom acia.

Ouviu que batiam à porta e virou-se.

— Entre.

A porta se abriu e Frank entrou com aquela expressão de quem se encontra num lugar, m as gostaria de estar bem longe dali.

Hulot se surpreendeu ao vê-lo, m as não pôde im pedir um a instintiva sensação de alívio. Sabia que era um gesto de gratidão para com ele, um a pequena solidariedade no m ar de problem as em que era obrigado a nadar. Perfeito: Frank Ottobre, o velho Frank dos bons tem pos, seria exatam ente o tipo de policial adequado para conduzir um a investigação com o aquela, em bora soubesse que o am igo não queria m ais ser policial — nunca m ais.

— Oi, Frank.

— Oi, Nicolas, com o vão as coisas?

Hulot teve a im pressão de que o outro fazia essa pergunta para evitar que o am igo a fizesse antes dele.

— Com o vão? Você pode im aginar com o vão. Um m eteorito caiu na m inha cabeça num m om ento em que eu teria dificuldade de aguentar até um a pedrinha. Estou num a enrascada inim aginável. Todo m undo em cim a de m im . Parecem cães que confundiram m eu traseiro com algum a raposa.

Frank não disse nada e foi se sentar na poltrona em frente à escrivaninha.

— Ainda estam os esperando o resultado das autópsias e das análises da perícia, m as parece que não vão conseguir nada de significativo, ou m uito pouco. Os especialistas esquadrinharam o barco centím etro por centím etro, m as não encontraram nada. Mandam os fazer a perícia grafológica da escrita na m esa, m as os resultados ainda não chegaram tam bém . Estam os todos de m ãos postas, rezando para que não sej a aquilo que parece ser…

Ele observava um m ínim o de interesse por aquilo que estava dizendo surgir no rosto do am ericano. Conhecia sua história e sabia que não era um a bela bagagem para se carregar, para ninguém . Depois da perda da m ulher e das circunstâncias que a envolveram , Frank parecia viver com a intenção sistem ática de se autodestruir, com o se fosse responsável por todas as culpas desse m undo.

Tinha visto algum as pessoas se perderem no álcool, outras em coisas ainda piores, algum as darem fim à própria vida na tentativa desesperada de apagar um rem orso. Frank, ao contrário, perm anecia lúcido, íntegro, quase com o se quisesse se im pedir de esquecer, com o se quisesse pagar, dia após dia, um a pena sem atenuantes. A sentença tinha sido dada e ele era, ao m esm o tem po, o j uiz e o condenado.

Hulot se sentou e apoiou os cotovelos na m esa. Frank perm aneceu em silêncio, sem expressão, as pernas cruzadas sobre a poltrona. Nicolas continuou com o se aquilo lhe custasse um esforço trem endo.

— E nós não tem os nada. Nada de nada. Provavelm ente, nosso hom em usou um m acacão de m ergulho o tem po todo, inclusive m eias, luvas e capuz. Isso significa nada de im pressões digitais e nenhum rastro orgânico, ou sej a, nada de pelos ou cabelos. Deixou m arcas de pés e m ãos que pertencem a um tipo físico tão norm al que poderia incluir m ilhões de pessoas.

Hulot fez um a pausa. Os olhos de Frank pareciam dois pedaços de carvão, escuros com o a m ina de onde tinham sido desencavados.

— Com eçam os a investigação sobre as vítim as. Pode im aginar quanta gente duas pessoas assim devem ter encontrado, com a vida que levavam , um dia aqui, outro lá…

De repente, o com portam ento do delegado m udou, tom ado pela ansiedade de um a ideia repentina.

— Por que não m e aj uda, Frank? Posso ligar para seu chefe e pedir que m exa os pauzinhos para que eu possa agregá-lo com o pessoa preparada e inform ada dos fatos. Na verdade, j á aconteceu antes. E depois, um a das vítim as era cidadã am ericana… Você é a pessoa certa para um caso com o esse. Fala italiano e francês perfeitam ente, conhece os m étodos investigativos e a m entalidade das polícias europeias. Conhece gente por aqui. É o hom em certo no lugar certo.

A voz chegou ao rosto de Frank com o o vento que traz tem poral, m as as nuvens em seus olhos pertenciam a outra tem pestade.

— Não, Nicolas. Eu e você não tem os m ais as m esm as lem branças. Não sou m ais o que era. Nunca m ais serei.

O delegado se levantou da poltrona, girou ao redor da escrivaninha e apoiou as m ãos no tam po, em pé diante de Frank. Inclinou-se levem ente em sua direção, com o se quisesse dar m ais força às suas palavras.

— Nunca pensou na possibilidade de que a culpa pelo que aconteceu a Harriet não sej a sua? Ou pelo m enos não com pletam ente?

Frank virou a cabeça para olhar além da j anela. Seu m axilar se contraiu com o se quisesse segurar com os dentes um a resposta que j á tinha dado inúm eras vezes. Seu silêncio fez aum entar a raiva de Hulot, que aum entou o tom de voz.

— Por Deus, Frank! Você sabe o que houve. Viu com seus próprios olhos. Há um assassino lá fora que j á m atou duas pessoas e pode m atar de novo. Não sei o que você tem na cabeça exatam ente, m as não acha que aj udar a prender esse m aníaco poderia ser um a bela form a de se sentir m elhor? Não acha que aj udar os outros pode ser um a form a de aj udar a si m esm o? De se aj udar a voltar para casa?

Frank voltou a pousar o olhar sobre o am igo. Eram os olhos de um hom em que podia andar em qualquer lugar, m as sentindo sem pre que não pertencia a nenhum deles.

— Não.

Aquele m onossílabo pronunciado com voz tranquila ergueu-se entre eles com o um m uro. Por um instante, bloqueou todos dois. Naquele m om ento, eram um fotogram a único de um a história cuj o fim não conheciam .

Bateram na porta e Claude Morelli entrou sem esperar resposta.

— Delegado…

— O que houve, Morelli?

— Tem aqui um a pessoa da Rádio Monte Carlo…

— Pode dizer que não falo com j ornalistas agora. Haverá um a coletiva de im prensa m ais tarde, quando o diretor resolver.

— Não, delegado. Não é um j ornalista. É o DJ de um program a m usical noturno. Veio com o diretor da rádio. Leram os j ornais e dizem que talvez tenham inform ações sobre a história dos crim es da m arina.

Hulot não sabia com o encarar essa notícia. Tudo o que pudesse ser útil era um presente dos céus. Mas tem ia um desfile de m itôm anos convencidos de que sabiam tudo sobre hom icídios e até dispostos a confessar que eram os assassinos. Mas não podia m enosprezar nenhum a pista.

Nenhum a.

Voltou a seu lugar atrás da escrivaninha.

— Mande-os entrar.

Morelli saiu e isso foi com o um sinal com binado. Frank se levantou da poltrona e se encam inhou para a porta. Ainda não tinha chegado lá quando Morelli retornou acom panhado de duas pessoas. Um rapaz j ovem , de cabelos longos e negros, de cerca de 30 anos, e um suj eito que andava por volta dos 45 anos. Frank olhou-os rapidam ente e afastou-se para deixá-los entrar. Aproveitou a ocasião para enfiar-se na porta que tinha ficado aberta.

A voz de Nicolas Hulot o deteve na soleira.

— Tem certeza de que não quer ficar, Frank?

Sem nem um a palavra, Frank Ottobre saiu e fechou a porta atrás de si.