Eu Mato
Capítulo 42
42
ENQUANTO ATRAVESSAVA CARNOUX-EN-PROVENCE INDO PARA CASSIS, o telefonem a de Morelli chegou. O dispositivo eletrônico do celular interferiu no aparelho de rádio que, sintonizado na Europe 2, com eçou a em itir um leve chiado. Um segundo depois, o telefone tocou. Hulot pegou o aparelho pousado no banco do carona e ativou a recepção.
— Sim .
— Delegado, é Morelli. Achei o endereço que m e pediu. Dem orei um pouco porque o senhor tinha razão. O núm ero não está m ais em uso. É um a num eração antiga. Tive que procurar na época da France Télécom .
Hulot involuntariam ente exprim iu desapontam ento.
— Pode dizer, Morelli.
— O núm ero corresponde a um a em presa agrícola, Dom aine La Patience. Chem in de l’Hiver, Cassis. Mas tem um a coisa…
— O quê?
— O telefone foi desligado à revelia. Ninguém requisitou o desligam ento. De um a hora para outra, pararam de pagar e a telefônica desativou a linha, depois de alguns avisos sem resposta. A pessoa com quem falei não sabia dizer m ais nada. Para m aiores detalhes, teríam os que fazer um a pesquisa m ais aprofundada e não achei que fosse o caso…
— Não tem problem a, Claude, isso está ótim o. Obrigado.
— Não há de quê, delegado.
Houve um a ligeira hesitação do outro lado da linha. Hulot percebeu que Morelli estava esperando algum com entário seu.
— Pode falar.
— Está tudo bem ?
— Sim , Morelli, tudo bem . Am anhã vou poder dizer se ficou m elhor ainda. Por enquanto, espero que tenham os um bom dia.
— Eu tam bém , delegado. Cuide-se.
Hulot colocou o telefone de volta no banco a seu lado. Não precisava anotar os dados fornecidos por Morelli. Já estavam im pressos em sua m ente e lá ainda ficariam por m uito tem po. Enquanto saía de Carnoux, pequena cidade da Provença, m oderna, lim pa e organizada, deixou que outras lem branças desfilassem livrem ente por sua m em ória.
Percorrera aquela m esm a estrada indo para Cassis com Céline e Stéphane, m uitos anos antes, num a viagem de férias em que riram e se divertiram , na qual ele alcançou aquilo que definiu depois com o a perfeição do bem -estar, para não incom odar palavras m ais com plicadas. Com parada com sua vida atual, aquilo era a verdadeira felicidade, que exauriu sua vida ulterior, tão grande foi a energia que dedicou à saudade. Seu filho tinha 7 anos, talvez um pouco m enos, naquela época. Chegara a Cassis e Stéphane fora quase im ediatam ente invadido por aquela excitação que tom a conta de todas as crianças quando chegam a um a cidade de praia. Estacionaram o carro na periferia da cidadezinha e dirigiram -se para o m ar descendo por um a ruazinha estreita, varrida por um a brisa fresca que fazia as roupas esvoaçarem .
Quando chegaram à m arina, foram recebidos pelo bosque de m astros dos veleiros. Ao fundo, desenhava-se o farol com sua cúpula pintada de verde e, além dos diques de cim ento, construídos para proteger o cais, entrevia-se o m ar aberto.
Tom aram um sorvete e fizeram um passeio de barco nas calanques, estreitas enseadas sobre o m ar, com o pequenos fiordes que pareciam tão franceses, de água lím pida e transparente. Durante o traj eto, ele fingiu que ficava enj oado: Céline e Stéphane riram histericam ente de suas caretas, seus olhos esbugalhados e suas falsas ânsias de vôm ito. Esqueceu por com pleto que era um oficial da polícia e foi única e exclusivam ente um m arido, um pai e um palhaço.
Para, papai, vou morrer de tanto rir…
Hulot pensou em quem traçava os cam inhos da existência. Quem escrevia os roteiros tinha um estranho e às vezes m acabro senso de hum or. Enquanto rodava pelas ruas da cidadezinha, tantos anos atrás, com a m ulher e o filho, feliz e despreocupado, em algum lugar um hom em recebia o telefonem a, e então o proprietário de um a loj a de discos em m aus lençóis aceitava vender seu exem plar de um a gravação raríssim a. Talvez tivessem cruzado com ele em seus passeios. Talvez, ao sair de Cassis, tivessem seguido seu carro num trecho de estrada quando esse hom em estava indo pegar o disco em Aix.
Quando chegou à periferia da cidade, estacionou as lem branças de um passado feliz j unto com o carro. Do últim o andar do estacionam ento em que deixou o 206, que um a placa batizava de “Parking de la Viguerie — 310 vagas”, contem plou a paisagem .
Cassis não parecia m uito diferente de com o a recordava. Os diques da m arina tiveram seu cim ento reforçados, algum as casas foram reform adas, outras haviam se deteriorado, m as havia cal e tinta suficientes para fazer os turistas esquecerem que o tem po passava.
Talvez fosse aquele o sentido das férias: esquecer…
Pensou sobre qual atitude assum ir. O m ais sim ples seria pedir inform ações na polícia local, m as sua busca tinha se transform ado num a espécie de investigação particular e não queria cham ar atenção; pelo m enos, não m ais que o necessário. Por outro lado, um suj eito fazendo perguntas por ali, m esm o num a cidade cheia de turistas, cedo ou tarde deixaria de passar despercebido. Era um a pequena cidade onde todos se conheciam , e ele ia m exer num vespeiro.
A ruazinha que tom ou para descer à m arina era a m esm a que havia percorrido com sua fam ília tem pos atrás. Um hom em de um a certa idade, carregando um cesto de vim e com ouriços-do-m ar, subia a rua lentam ente. Hulot parou e deteve o velho. Ao contrário do que esperava, o hom em não deu o m enor sinal de que estava ofegante.
— Desculpe…
— O que é? — perguntou o velho bruscam ente.
— Preciso de um a inform ação, por favor.
O hom em colocou o cesto de ouriços no chão, e olhou para eles com o se tem esse que se estragassem . Cheio de m á vontade, ergueu os olhos em oldurados por bastas sobrancelhas ainda escuras.
— Pode dizer.
— Conhece um lugar que se cham a La Patience?
— Sim .
Hulot avaliou por um instante se o respeito que sentia pelos m ais velhos era realm ente superior à profunda irritação que sentia pelos babacas, j ovens ou velhos. Com um suspiro, resolveu deixar para lá.
— Poderia m e fazer a gentileza de dizer onde fica?
O velho fez um gesto com a m ão indicando um ponto vago além das casas.
— Fica fora da cidade.
— Foi o que pensei…
Hulot teve que fazer um esforço para não agarrar aquele hom em pelo pescoço. Esperou pacientem ente, m as a expressão de seu rosto deve ter aconselhado o interlocutor a não esticar dem ais a corda.
— Está de carro?
— Sim , estou.
— Então saia da cidade seguindo a perim etral. No sinal, dobre à direita, na direção de Roquefort. Quando chegar a um trevo, procure um a placa à direita com “Les Janots”. Seguindo o cam inho, logo à esquerda tem um a estradinha de terra que passa por um a ponte de pedra sobre a ferrovia. Siga por ali e, quando encontrar a bifurcação, dobre à direita. A estrada acaba em La Patience.
— Obrigado.
Sem um a palavra, o velho pegou seu cesto de frutos do m ar e retom ou seu cam inho.
Hulot finalm ente sentiu a excitação de seguir um a pista. Retornou pela m esm a rua a passos largos e quando chegou ao carro, quem ofegava era ele. Seguiu as indicações que, apesar da m á vontade, eram perfeitas e tom ou a estradinha de terra que subia para o m aciço rochoso que, do alto, em oldurava Cassis. A vegetação m editerrânea, m isturada com lariços e oliveiras, escondia quase com pletam ente a espécie de desfiladeiro por onde corria a ferrovia. Quando atravessou a ponte de pedra indicada pelo velho, um cão de pelos dourados, aparentando um vago parentesco com um labrador, correu atrás do Peugeot, latindo.
Quando chegaram à bifurcação, considerando evidentem ente que seu trabalho estava encerrado, ele parou de correr e latir e foi em bora, trotando para um sítio à esquerda.
Hulot continuou na estrada, que subia cada vez m ais, ladeada por um bosque cuj os troncos grossos às vezes escondiam a vista do m ar. As m anchas coloridas das flores desapareciam à m edida que a cidade ficava para trás, sendo, então, substituídas pelo verde das coníferas, dos arbustos e pelo perfum e agudo da vegetação rasteira m isturada ao cheiro do m ar.
A estrada continuou por m ais alguns quilôm etros, tantos que Hulot com eçou a suspeitar que o velho tinha lhe dado inform ações erradas, só pelo prazer de fazê-lo rodar sem rum o. Talvez estivesse em casa naquele m esm o instante com algum Jean ou René ou Arm and, com endo seus ouriços e rindo do babaca do turista que rodava com o um pião pelas m ontanhas.
Enquanto pensava essas coisas, a estrada fez um a curva e, depois dela, avistou La Patience.
Agradeceu m entalm ente a Jean-Paul e sua caixa m ágica. Se conseguisse pôr as m ãos naquele disco de Robert Fulton, considerava j usto devolvê-lo a Francis. Com o coração batendo na garganta, percorreu o cam inho que o separava da construção entalhada contra a rocha da m ontanha, na qual parecia se apoiar.
Passou sob um arco de tij olos coberto por trepadeiras e pegou a alam eda de acesso que levava ao pátio da grande casa senhorial de dois andares. À m edida que se aproxim ava, a sensação de triunfo que a visão da propriedade tinha provocado ia dando lugar à desilusão. O m ato cobrira quase por com pleto o cam inho de cascalho, deixando parcialm ente livres apenas duas linhas paralelas que pareciam trilhos por onde as rodas do carro se m oviam . Enquanto avançava, podia ouvir os arbustos arranhando a parte de baixo do carro num rum or que parecia estranham ente sinistro naquele silêncio.
Com a m udança de perspectiva, pôde notar que os fundos da casa estavam em ruínas. O teto havia desm oronado quase totalm ente, deixando de pé apenas a fachada. Traves enegrecidas apontavam para o céu com o dedos escuros dos cantores de um coro gospel, despontando do que restara da velha estrutura, cuj as telhas caídas sepultavam o terreno. As paredes estavam rachadas e cobertas de fuligem , testem unhando que a casa fora vítim a de um furioso incêndio que a devastara quase com pletam ente, deixando a fachada com o o falso edifício de um cenário teatral.
Tudo aquilo devia ter acontecido havia m uito tem po, pois o m ato e as trepadeiras tiveram tem po suficiente para se reapropriar do que sem pre tinha sido sua propriedade. Parecia que a natureza estava tecendo lentam ente um delicado e paciente trabalho de tricô para recobrir a ferida aberta pelos hom ens em sua carne.
Hulot parou o carro no pátio e saiu para o ar livre. Olhou ao redor. A vista dali era estupenda. Descortinava-se todo o vale, pontilhado por casas isoladas e vinhas que se alternavam com trechos de vegetação silvestre, descendo em degraus até Cassis, branca e bela, apoiada à costa com o um a m ulher em um balcão, olhando o m ar que risca o horizonte.
Os restos de um j ardim e as estruturas enferruj adas de ferro batido testem unhavam que, em seu tem po, aquela casa devia ser um a verdadeira beleza. Na prim avera, os j ardins deviam ser autênticos espetáculos da natureza. Mas, agora, por todo lado, tufos incultos de lavanda eram os novos patrões. As persianas fechadas e as paredes m arcadas pelo fogo, as gram íneas que enterravam as raízes nas rachaduras, com o um ladrão enfia os dedos na bolsa de sua vítim a distraída, davam um a sensação de desolação e abandono da qual era difícil escapar.
Hulot viu um carro chegando da estrada e percorrendo a alam eda. Parado no m eio do pátio, o delegado esperou. Logo depois, um Renault Kangoo estacionou ao lado do seu Peugeot. Dois hom ens vestidos com roupas sim ples de trabalho desem barcaram : um m ais velho, na casa dos 60 anos, e outro m ais j ovem , por volta dos 30, m eio atarracado, com um a cara estúpida e barba longa e escura. O hom em m ais j ovem nem se dignou a olhar para o outro. Abriu a m ala da cam inhonete e com eçou a descarregar os apetrechos de j ardinagem .
O m ais velho dava instruções.
— Pode ir com eçando, Bertot. Já volto.
E depois de deixar claro quem era o chefe ali, veio em direção a Hulot. Visto m ais de perto, seu rosto de nariz achatado tam bém não transpirava inteligência pelos poros. Parecia um a espécie de versão m ais longilínea e curtida do outro.
— Bom -dia.
— Bom -dia para o senhor tam bém .
Hulot tentou evitar qualquer protesto com um a atitude hum ilde. Sorriu com sua m elhor cara de bom m oço.
— Espero não ter com etido nenhum a infração e, se o fiz, peço desculpas. Acho que errei o cam inho lá em baixo, m as continuei em busca de um local para fazer o retorno até chegar aqui. Quando vi a casa, a curiosidade falou m ais alto. Resolvi subir para dar um a olhada. Já estou indo em bora.
— Não há pressa, não está incom odando ninguém . Não sobrou nada por aqui que valha a pena roubar, a não ser terra e m ato. É um turista, não é?
— Sim .
— Foi o que im aginei.
Imaginou o quê, meu belo Gastão?* Acabou de passar por um carro com placa de Montecarlo. Até mesmo alguém com uma bengala branca e um cão-guia teria entendido.
Mas o hom em deu de om bros em sinal de m odéstia.
— Às vezes chegam algum as pessoas aqui em cim a. Por acaso, com o o senhor, ou por curiosidade, com o a m aior parte dos outros. A gente de Cassis não vem aqui se não for obrigada. Eu tam bém , para dizer a verdade, não dou pulos de alegria toda vez que sou obrigado a vir. Depois do que aconteceu, sobretudo… m as fazer o quê? Trabalho é trabalho e nos tem pos que correm não é bom fazer corpo m ole. Já se passaram m uitos anos, e ainda assim esse lugar continua a m e dar arrepios…
— Por quê, o que houve por aqui?
— Não conhece a história de La Patience?
Olhou para Hulot com o se fosse im possível que alguém desse planeta ignorasse a história de La Patience. Depois daquilo, se o visse escapar num disco voador, talvez seu único com entário fosse: “Ah, bem que desconfiei…”
Nicolas deu corda.
— Não, acho que nunca ouvi falar.
— Houve um crim e, ou m elhor, um a série de crim es. Tem certeza de que nunca ouviu falar?
Hulot sentiu sua pulsação acelerar levem ente.
— Não, nunca.
O hom em tirou um pacote de tabaco e com eçou a enrolar, com um a certa perícia, um cigarro no papel que tirou do bolso da j aqueta. Com o sem pre acontece com as pessoas sim ples quando percebem que são depositárias de um a história interessante, com eçou a falar tratando de valorizar sua narrativa.
— Não conheço a história em seus m ínim os detalhes porque não m orava em Cassis na época. Mas parece que o suj eito que m orava nessa casa m atou a governanta e o filho, antes de tocar fogo em tudo e dar um tiro de revólver na própria cabeça.
— Nossa!
— Pois é, não é qualquer coisa. Dizem na cidade que era um suj eito m eio doido e que, se o viram vinte vezes, ele e o filho, foi m uito. A governanta descia para fazer as com pras, m as não dava confiança a ninguém . Bom -dia, boa-tarde e tchau! Nem cultivava a terra e olhe que era m uita. Passou a adm inistração para um a agência im obiliária, que alugava para os produtores de vinho da região. Vivia sozinho com o um erem ita, no alto dessa m ontanha. Acho que com o passar do tem po a cabeça dele fundiu de vez e acabou fazendo o que fez…
— Três pessoas, é?
— É. Os dois, o hom em e a m ulher, foram encontrados com pletam ente carbonizados. O corpo do filho, ao contrário, foi recuperado intacto quando conseguiram apagar o fogo. E ainda bem que perceberam o incêndio a tem po, senão teria queim ado m eia m ontanha.
Indicou com o dedo o hom em m ais j ovem que chegou com ele.
— O pai de Bertot, que naquela época trabalhava no corpo de bom beiros, m e disse que quando entraram na casa, depois de apagarem as cham as, o corpo do rapaz estava num estado tão lam entável, tanto que preferiam que estivesse carbonizado, com o os outros dois. Pense só que o corpo do pai estava tão queim ado que a bala que enfiou na cabeça se derreteu…
— O que quer dizer “num estado tão lam entável”?
— Bem , o pai de Bertot disse que não tinha m ais rosto, não sei se m e entende, com o se alguém tivesse arrancado a pele da cabeça. E depois, não m e venham dizer que o suj eito não era doido…
Hulot sentiu que suas tripas se enrolavam pelas paredes do estôm ago, com o as trepadeiras nas paredes rachadas.
Santo Deus, o rapaz não tinha mais rosto, como se alguém o tivesse arrancado da cabeça.
Com o um a série de slides do inferno, um a série de rostos sem pele passou diante de seus olhos. Jochen Welder e Arij ane Parker. Allen Yoshida. Gregor Yatzim in. Via seus olhos sem pálpebras escancarados para o nada, com o um a condenação sem fim do assassino e de quem não soube im pedir que aquilo acontecesse.
Teve a im pressão de que ouvia um a voz distorcida que sussurrava em seus dois ouvidos, num soturno efeito estéreo, aquelas duas palavras m alditas.
Eu mato…
Apesar do ar quente da tarde de verão, estrem eceu dentro do paletó de algodão sem forro. Um rio de suor com eçou a escorrer de sua axila direita para a cintura.
— E o que aconteceu depois? — perguntou com um a voz repentinam ente estranha.
O hom em não percebeu ou pensou que era a reação norm al de um daqueles turistas aveadados diante dos fatos sangrentos que contava.
— Bem , a m ecânica do crim e era clara e então, depois de excluir todas as alternativas, um a por um a, arquivaram a coisa com o hom icídio duplo e suicídio. Com certeza, não foi um a boa publicidade para La Patience…
— Não apareceram herdeiros?
— É j ustam ente o que estava dizendo. Nada de herdeiros, portanto a propriedade passou a fazer parte do patrim ônio público. Foi colocada à venda e ainda está à venda até agora, m as quem vai querer ficar com ela depois de tudo o que aconteceu? Eu não quereria nem de presente. A prefeitura entregou a adm inistração à m esm a agência que j á tratava do aluguel das terras antes. Com esse dinheiro, paga as despesas de m anutenção e a própria agência. Eu venho aqui de vez em quando para im pedir que o m ato tom e conta do que ainda resta da casa.
— E onde foram sepultados os corpos das vítim as?
Hulot tentou dar à pergunta o tom casual de sim ples curiosidade de um hom em com um , m as com aquele suj eito não era necessário usar de m uita sutileza. Estava tão em polgado que provavelm ente contaria sua história até o fim m esm o que ele fosse em bora e o deixasse sozinho ali.
— Ah, acho que no cem itério da cidadezinha, que fica em cim a da m arina, na colina. Se j á andou por ali certam ente j á o viu.
Hulot tinha um a vaga lem brança de um cam po-santo próxim o ao estacionam ento onde havia parado antes.
— E com o se cham avam as pessoas que m oravam aqui?
— Ah, não lem bro direito, um nom e com Le… Le algum a coisa: Legrand ou Le Norm and, acho.
Hulot olhou ostensivam ente para o relógio.
— Nossa, j á é tarde. É incrível com o o tem po passa rápido quando a gente está ouvindo um a boa história. Meus am igos devem estar se perguntando onde m e m eti. Muito obrigado pela história.
— De nada. Não há o que agradecer. Boas férias.
O hom em virou e foi unir sua ciência à de Bertot. Quando estava entrando no carro, Hulot ouviu que o cham ava.
— Ei, senhor. Se quiser com er um bom peixe, vá com seus am igos ao La Coquille d’Or, na m arina. Se escolher outro e for passado para trás, não venha reclam ar com igo depois. Lem bre, La Coquille d’Or. É do m eu cunhado. Diga que foi Gastão quem m andou, vai ser bem tratado.
Ora, ora! Gastão, o belo Gastão. Veja só, acertei na mosca. Hoje é mesmo meu dia de sorte, pensou Hulot ligando o m otor.
No cam inho de volta para Cassis, excitado e firm em ente decidido a visitar o cem itério local, Nicolas Hulot pensou que ainda precisaria de m uita sorte para acertar certas contas.
* Personagem do contoA bela e a fera. (N. da T.)