Eu Mato
Capítulo 44
44
QUANDO FRANK DESPERTOU AINDA ESTAVA ESCURO lá fora. Abriu os olhos e pela enésim a vez estava num a cam a que não era sua, num quarto que não era seu, num a casa que não lhe pertencia. Mas dessa vez, tudo era diferente. A volta à realidade não levava apenas a m ais um dia a ser com partilhado com os m esm os pensam entos do anterior. Virou a cabeça para a esquerda e, na luz azulada de um abaj ur, viu o corpo adorm ecido de Helena estendido a seu lado. O lençol cobria parcialm ente suas costas e Frank adm irou o desenho dos m úsculos sob a pele, o dorso torneado term inando na linha esguia dos braços. Virou-se de lado, apoiado no quadril, e se aproxim ou dela com o um cão sem dono se aproxim a do alim ento oferecido por um desconhecido, de m odo que antes de m ais nada o perfum e natural de sua pele chegasse às suas narinas.
Era a segunda noite que passavam j untos.
Na noite anterior haviam voltado para a casa dela e saíram do carro de Frank quase tem erosos, com o se o abandono do espaço restrito do carro pudesse m udar as coisas, com o se aquilo que tinham criado no interior pudesse se dissolver em contato com o ar.
Entraram em casa sem fazer rum or, quase furtivos. Parecia que estavam se aproxim ando de algo que não era um direito, m as um a coisa da qual se apropriavam por m eio da força e do engano.
Frank am aldiçoou aquela sensação doentia e as coisas e pessoas que o levaram a experim entá-la.
Não houve a com ida e nem o vinho que Helena prom etera.
Houve única e exclusivam ente os dois, e suas roupas repentinam ente grandes dem ais, caídas no chão com a naturalidade das prom essas cum pridas. Era a necessidade de saciar um a outra fom e e um a outra sede ignoradas por m uito tem po, era um vazio a preencher que, só naquele instante em que tentavam fazê-lo, conseguiram perceber com o era im enso.
Frank voltou a apoiar a cabeça no travesseiro e fechou os olhos. As im agens com eçaram a escorrer livrem ente por trás das pálpebras fechadas.
A porta.
A escada.
A cama.
A pele de Helena, única no mundo em contato com a sua, que finalmente falava uma língua conhecida.
Os olhos tão lindos velados por uma sombra.
O olhar de repente assustado quando Frank a apertou nos braços.
Sua voz, um sopro nos lábios que roçavam os seus.
Por favor, não me faça mal, tinha implorado.
Frank sentiu os olhos úm idos de em oção. Pediu aj uda às palavras inutilm ente. Helena pediu a m esm a aj uda e tam bém não a encontrou. As únicas explicações entre eles foram a fúria e a ternura com que se buscaram , nas quais se reconheceram , necessitados de um a e de outra. Possuiu seu corpo com toda a delicadeza de que era capaz, desej ando ser um deus qualquer com o poder de voltar no tem po e m udar o curso das coisas. E descobriu, enquanto se anulava nela, que era capaz, que ela podia lhe dar a força de se transform ar nesse deus e ainda encontrar a força de ser para ele a m esm a coisa.
Apagariam o sofrim ento, ou então a m em ória.
A memória…
Depois de Harriet não houve m ais nenhum a m ulher. Era com o se um a parte dele tivesse entrado em suspensão, deixando ativas apenas as funções prim árias, aquelas que lhe perm itiam beber, com er, respirar, circular pelo m undo com o um autôm ato feito de carne e osso em vez de m etal e circuitos eletrônicos. A m orte de Harriet lhe ensinara que o am or não se reproduz com a vontade. Ninguém poderia se obrigar a não m ais am ar. Mas sobretudo, ninguém poderia se obrigar a am ar de novo. A vontade não basta, m esm o que férrea: é preciso a bênção do acaso, aquela som a de coisas que m ilhões de anos de experiências e discussões e poesias ainda não explicaram profundam ente, e cuj a existência apenas constataram .
Helena era de repente o presente do destino, um silencioso “Oh!” de espanto quando seu planeta, j á árido e apagado, girava inerte ao redor de um sol que parecia brilhar apenas para os outros. Era a com oção de descobrir que, em m eio às rochas e à terra calcinada pela seca, um único, m ilagroso fio de relva estava brotando. Ainda não era um retorno à vida, m as um a pequena prom essa sussurrada à flor dos lábios, um a hipótese a ser cultivada no sopro gentil da esperança, que, enquanto tal, não traz felicidade, só anseio.
— Está dorm indo?
A voz de Helena o surpreendeu seguindo lem branças tão recentes que pareciam coladas em sua m ente com o fotos recém -reveladas. Virou-se e deparou com ela na contraluz cúm plice da lâm pada da m esinha de cabeceira, fitando-o com a cabeça apoiada na m ão, o cotovelo fincado na cam a.
— Não, não estou.
Aproxim aram -se e o corpo de Helena deslizou, encaixando-se entre seus braços com a m esm a naturalidade com que a água flui no leito de um rio depois de ter lutado longam ente contra o obstáculo que bloqueava seu curso. Frank sentiu de novo o m ilagre da pele de Helena contra a sua. Ela apoiou o rosto em seu peito e sentiu seu cheiro.
— Que cheiro bom , Frank Ottobre. Você é tão bonito.
— Claro que sou bonito. Sou a resposta dos sim ples m ortais a George Clooney. O problem a é que ninguém faz a pergunta…
Os lábios de Helena sobre os seus foram a certeza de que ela pretendia fazer aquela pergunta e exigia um a resposta exclusiva. Fizeram am or novam ente, com o gosto preguiçoso e sensual de seus corpos ainda um pouco adorm ecidos, retirados do repouso para um desej o que, naquele m om ento, era m ais m ental que físico.
Esqueceram todo o resto do m undo com o só o am or faz esquecer.
Depois, de volta, foram obrigados a pagar o preço de sua viagem . Ficaram estendidos, olhando o teto claro, que sobre eles parecia m ais distante do que outras presenças, as quais davam a im pressão de flutuar na luz âm bar do quarto. Presenças que não se podia expulsar sim plesm ente fechando os olhos.
Frank passara o dia na central de polícia, seguindo a evolução das investigações sobre Ninguém , constatando a cada hora que passava que os indícios que possuíam oscilavam entre o nada e o zero absoluto, esforçando-se m esm o assim para parecer ativo e concentrado, enquanto sua m ente vagava em outras direções.
Seu pensam ento estava em Nicolas Hulot, que seguia um a pista escrita num papel tão fino que se podia enxergar através dele a ansiedade pintada em seus rostos. Seu pensam ento estava em Helena, presa por um a chantagem ignóbil e por um carcereiro igualm ente ignóbil, naquela irônica e inexpugnável prisão que era sua casa de portas e j anelas escancaradas para o m undo.
À tardinha voltou a Beausoleil e encontrou-a em pé no j ardim . Experim entou a sensação de um viaj ante que vê a m eta de sua peregrinação surgir depois de um a longa e cansativa travessia do deserto.
No tem po que passaram j untos, Nathan Parker telefonara duas vezes de Paris. Da prim eira vez, afastou-se discretam ente, m as Helena o deteve, segurando-o pelo braço num gesto tão im perioso que o surpreendeu. Acom panhou sua conversa com o pai, com posta sobretudo por m onossílabos, enquanto seus olhos não conseguiam esconder um m edo que Frank receava que não passasse nunca.
Depois, finalm ente, o fone foi passado para Stuart e o rosto de Helena se ilum inou ao falar com o filho. Frank percebeu que, durante todos aqueles anos, Stuart era um a tábua de salvação, um local de refúgio, um esconderij o secreto onde podia escrever as cartas que seriam entregues a alguém que ela não sabia se chegaria um dia. Entendeu tam bém que o cam inho para seu coração passava inevitavelm ente pelo coração do filho. Não era possível ter um sem o outro. Frank se perguntou, com um sopro de inquietude se m isturando a sua respiração, se saberia fazê-lo.
A m ão de Helena se ergueu e pousou sobre a cicatriz que atravessava a parte esquerda de seu peito, um pedaço de pele rosada que se destacava do resto da epiderm e um pouco m ais bronzeada. Helena sentiu pelo tato que era um a pele diferente, um a pele que crescera depois, quase com o um a couraça, e que, com o todas as couraças, tinha a vantagem de suportar os golpes m ais duros, m as trazia tam bém a consequência inevitável de atenuar o toque suave das carícias.
— Dói? — perguntou passando delicadam ente os dedos, seguindo seu desenho.
— Não m ais.
Houve um instante de silêncio, durante o qual Frank pensou que Helena não estava tocando suas cicatrizes, m as as deles dois.
Estam os vivos, Helena, feridos e sepultados, m as vivos.E lá de fora dá para ouvir o rumor de alguém que está escavando para nos retirar das ruínas. Andem logo, por favor, andem logo…
Helena sorriu e um pequeno sol se som ou à luz da sala. Virou-se e ficou em cim a dele com o se dem arcasse um a conquista pessoal. Mordeu seu nariz delicadam ente.
— Está vendo, se o arrancasse, George Clooney estaria perdendo de um nariz a zero!
Frank ergueu seu rosto segurando-o entre as m ãos. Helena tentou resistir sem m uita convicção, m as sua boca largou o nariz de Frank com um pequeno estalido. Frank tentou olhar para ela com toda a ternura que os olhos de um hom em poderiam transm itir.
— Tem o que de agora em diante, com ou sem nariz, eu vá ter m uita dificuldade para im aginar m inha vida sem você…
Um a som bra passou pelo rosto de Helena. Seus olhos cinzentos tinham a cor da espada de Excalibur. Delicadam ente, ela segurou seus pulsos e libertou o rosto. Frank conseguia im aginar os pensam entos que se escondiam por trás daquele olhar e tentou aliviar a tensão.
— Ei, o que houve? Acho que não disse nada de tão terrível assim . Nem pedi que casasse com igo…
Helena enfiou o rosto na curva de seu om bro. Seu tom de voz dizia que aquele breve intervalo de relaxam ento entre eles tinha chegado ao fim .
— Já sou casada, Frank. Ou m elhor, fui.
— O que quer dizer com fui?
— Sabe com o é o am biente da política, Frank. É com o o m undo do espetáculo. É tudo ficção, representação. Em Washington, com o em Holly wood, aceita-se qualquer coisa oficiosam ente, desde que não venha a público. Um hom em que constrói um a carreira não pode aceitar o escândalo de um a filha que dá à luz um m enino sem ter um m arido a seu lado.
Frank ficou em silêncio, à espera. Sentia o calor úm ido da respiração de Helena acariciando sua pele enquanto falava. A voz chegava na altura de seu om bro, m as era com o se viesse do fundo de um poço sem eco.
— E m enos ainda se esse hom em é o general Nathan Parker. Por tudo isso, sou oficialm ente a viúva do capitão Randall Keegan, m orto na Guerra do Golfo depois de deixar em casa um a esposa que esperava um filho que não era seu.
Levantou e voltou à posição anterior, o rosto diante do dele. Um sorriso despontou em seus lábios, fitando os olhos de Frank com o se só eles pudessem trazer o perdão. Frank nunca im aginou que um sorriso pudesse conter tanta am argura.
Naquela altura, Helena esboçou um a definição de si m esm a com o se falasse de outra pessoa, de um a m ulher que lhe despertava um m isto de piedade e desprezo.
— Sou viúva de um hom em que vi pela prim eira vez no dia de m eu casam ento e nunca m ais, a não ser num caixão coberto com um a bandeira. Não m e pergunto o que m eu pai fez para convencer esse hom em a se casar com igo. Não sei o que lhe prom eteu em troca, m as é fácil im aginar. Um casam ento quase por procuração, um prazo suficientem ente longo para criar um a cortina de fum aça plausível e depois um divórcio resolvendo tudo. Nesse m eio-tem po, facilitação da carreira com um tapete verm elho desenrolado à sua passagem … Sabe o que é m ais engraçado?
Frank esperou em silêncio. Sabia m uito bem que a coisa não teria nada de engraçado.
— O capitão Randall Keegan m orreu na Guerra do Golfo sem ter disparado um único tiro. Caiu heroicam ente durante as operações de descarga de um avião de transporte, atropelado por um Ham m er que perdeu os freios quando descia a ram pa do avião. Um dos m ais curtos casam entos da história. E além do m ais com um im becil…
Frank não teve tem po de responder. Ainda estava assim ilando essa nova dem onstração da perfídia e do poder de Nathan Parker, quando o celular com eçou a vibrar na m esinha de cabeceira. Conseguiu pegá-lo antes que a cam painha tocasse. Olhou a hora. O m ostrador do relógio m arcava encrenca. Abriu o telefone.
— Alô?
— Frank, é Morelli.
Helena, deitada a seu lado, viu seu rosto se contrair.
— Diga, Claude. Problem as?
— Sim , Frank, m as não do tipo que você pensa. O delegado Hulot sofreu um acidente de carro.
— Quando?
— Não sabem os precisam ente. Acabam os de receber a com unicação de um com ando da polícia rodoviária francesa. Encontraram o carro dele na região de Auriol, na Provença, num a estrada secundária, no fundo de um barranco. Quem encontrou foi um caçador que estava adestrando seus cães.
— E com o ele está?
O breve silêncio de Morelli do outro lado foi eloquente. Frank sentiu o desconsolo derreter seu coração.
Não, Nicolas, você não, agora não. Não desse jeito de merda e nesse momento em que sua vida parecia um lixo. Não assim, enfant terrible…
— Ele m orreu, Frank.
Frank apertou o m axilar tão forte que sentiu os dentes rangerem . Os nós de seus dedos ficaram brancos ao redor do telefone. Por um instante, Helena pensou que o aparelho ia se partir em sua m ão.
— A m ulher dele j á sabe?
— Não, ainda não foi avisada. Pensei que você talvez preferisse fazer isso pessoalm ente.
— Obrigado, Claude. Ótim o trabalho.
— Preferia não ter que receber esse elogio.
— Eu sei e agradeço tam bém em nom e de Céline Hulot.
Helena o viu cam inhar até a poltrona onde tinha j ogado suas roupas. Com eçou a enfiar as calças.
Ela sentou-se na cam a, cobrindo os seios com um lençol. Frank não percebeu aquele gesto de pudor instintivo em relação a um a nudez que Helena ainda não vivia com o um fato natural.
— O que houve, Frank? Onde vai?
Frank olhou para ela e Helena leu um a dor rancorosa em seu rosto. Viu quando sentou-se na cam a para vestir as m eias. Sua voz chegou até ela por trás da barreira dos om bros cobertos de cicatrizes.
— Ao pior lugar do m undo, Helena. Vou acordar um a m ulher no coração da noite para lhe dizer por que seu m arido não voltará para casa nunca m ais.