Eu Mato
Capítulo 19
19
QUANDO RETORNARAM À CENTRAL, O ESPAÇO na frente do edifício estava cheio de j ornalistas.
— Que o diabo os carregue, m alditos abutres.
— Era de se prever, Nicolas. Conseguim os fugir deles no estacionam ento, m as não se consegue escapar dessa gente para sem pre. Lem bre-se de que, com todos os problem as que tem os, esse é o m enor.
Hulot falou com o m otorista, o m esm o que dirigira na ida.
— Vam os para a entrada dos fundos. Não tenho nenhum a vontade de falar com eles agora.
O autom óvel passou direto e parou na porta da garagem . Vendo o com issário no interior, a m assa de j ornalistas se deslocou num fluxo tão coordenado que parecia a coroação de um cuidadoso ensaio geral.
A porta ainda não estava levantada e o carro j á se encontrava cercado de gente e de perguntas. Mesm o de m á vontade, Hulot foi obrigado a descer o vidro da j anela. A gritaria dos j ornalistas aum entou de intensidade. Um suj eito de cabelos verm elhos com a cara toda sardenta praticam ente enfiou a cabeça dentro do carro.
— Delegado, sabe de quem é o corpo no estacionam ento?
De trás, um a j ornalista do Nice Matin, que Hulot conhecia bem , se introm eteu à força, em purrando bruscam ente o colega.
— Vocês acham que o assassino é a m esm a pessoa que m atou Jochen Welder e Arij ane Parker? Estam os diante de um serial killer?
— O que diz do telefonem a dessa noite para a Rádio Monte Carlo? — gritou um outro, despontando sobre seus om bros.
Hulot levantou as m ãos para bloquear a raj ada de perguntas.
— Por favor, senhores. Todos aqui são profissionais e sabem m uito bem que por enquanto não posso dizer nada. Mais tarde haverá um com unicado do diretor. Isso é tudo, por enquanto. Desculpem . Vam os, Lacroix.
Avançando lentam ente para não atropelar ninguém , o carro cruzou a entrada da garagem e a porta desceu às suas costas.
Saltaram do carro j untos. Hulot passou as m ãos no rosto. Tinha os olhos cercados de olheiras por causa da noite sem dorm ir e dos horrores que tinha acabado de ver.
Entregou a Morelli a fita que estava em seu bolso, encontrada no carro da vítim a. A perícia tinha lhe devolvido assim que constatou que não havia im pressões.
— Claude, m ande fazer um a cópia de segurança e depois m e devolva. E providencie um m onitor com um videocassete. Ligue tam bém para Nice e fale com Clavert. Diga que nos procure assim que analisar a fita dessa noite. Não é que espere grande coisa, m as nunca se sabe. Estarem os na m inha sala.
Subiram os poucos degraus da escada externa e pararam diante da porta de vidro. Frank em purrou-a e entrou na frente. Desde que tinham se encontrado na rádio, na noite anterior, ele e Hulot praticam ente não ficaram um instante sozinhos. Pararam diante do elevador. O delegado apertou o botão e as portas se abriram chiando.
— Está pensando em quê?
Frank deu de om bros.
— O problem a não é o que estou pensando, é que não sei m ais o que pensar. Esse hom em é um caso à parte. Em todos os casos que acom panhei, havia sem pre algum a coisa deixada m eio ao acaso, havia sem pre alguns indícios possíveis que dem onstravam , antes de tudo, que o serial killer era vítim a da sua condição. Esse hom em , ao contrário, consegue adm inistrá-la com um a lucidez im pressionante.
— É. E nesse m eio-tem po chegam os a três.
— Mas tem um a coisa que continuo m e perguntando, Nicolas.
— O quê?
— À parte o fato de não saberm os o m otivo pelo qual ele retira a pele do rosto de suas vítim as, no prim eiro caso, de Jochen Welder e Arij ane Parker, tratava-se de um hom em e um a m ulher. Agora tem os um único cadáver, de um hom em . Qual é a ligação entre isso? Ou m elhor, excluindo por enquanto a m ulher, qual é a ligação entre Jochen Welder, duas vezes cam peão de Fórm ula 1, e Allen Yoshida, em presário internacional da área de inform ática?
Hulot encostou-se na parede de m etal do elevador.
— Os pontos em com um m ais evidentes são, acho eu, o fato de am bos serem fam osos e terem m ais ou m enos a m esm a idade, cerca de 35 anos. E se quiserm os ir adiante, os dois eram fisicam ente atraentes.
— Está bem , m as o que Arij ane Parker tem a ver com isso? Por que um a m ulher?
O elevador chegou e as portas se abriram . Hulot estendeu um a m ão para bloquear a célula fotoelétrica.
— É provável que o assassino estivesse interessado apenas em Jochen Welder, m as com o ela se m eteu em seu cam inho, ele foi obrigado a m atá-la.
— Certo. Mas então, por que teria dispensado o m esm o tratam ento a ela?
Percorreram o corredor e pararam diante da sala de Hulot. Todos os que encontraram olhavam para os dois com o se fossem dois veteranos que voltavam da guerra.
— Não sei, Frank. Não sei o que dizer. Tem os três m ortos e nenhum indício digno desse nom e, ou m elhor, não conseguim os decifrar a tem po o único que tínham os. O resultado é que agora tem os m ais um m orto na consciência. E afinal de contas, era tudo m uito sim ples.
— Um a vez li num livro que todos os enigm as são sim ples, depois que você fica sabendo a resposta.
Entraram na sala. A luz do sol desenhava quadrados de luz no pavim ento. Lá fora, era quase verão. Mas dentro daquela sala, ainda reinava o inverno.
Hulot foi para a escrivaninha, pegou o telefone e discou o núm ero direto de Froben, o delegado de Nice. Frank voltou a se sentar na poltrona, num a pose que reproduzia a de algum as horas antes.
— Alô, Claude? É Nicolas, com o vai? Ouça, tem os um problem a. Aliás, tem os um problem a a m ais, para ser exato. Encontram os outro cadáver, dessa vez num carro. Mesm a m etodologia. O rosto com pletam ente sem pele. Segundo os docum entos, o carro pertence à Zen Electronics, a em presa de Allen Yoshida, sabe, o…
O delegado parou, com o se tivesse sido interrom pido pelo interlocutor.
— O quêêê? Espere, estou aqui com Frank. Vou colocá-lo no viva voz, para ele poder ouvir tam bém . Repita o que acabou de m e dizer.
Apertou um botão no telefone e a voz de Froben invadiu o am biente, levem ente distorcida pelo m icrofone do aparelho.
— Eu disse que estou na casa de Yoshida, em Beaulieu. Coisa de m ilionário, só para deixar claro. Multim ilionário: serviço de segurança com hom ens e câm eras de vídeo por todo lado. Recebem os um a ligação hoj e de m anhã, por volta das sete. Os em pregados não m oram aqui, todo m undo chega às seis e m eia. Hoj e, assim que chegaram , com eçaram a arrum ar a casa depois da festa que o patrão tinha dado ontem à noite. Quando desceram ao subsolo, encontraram aberta a porta de um a sala cuj a existência desconheciam …
— O que significa “cuj a existência desconheciam ”?
— Significa, Nicolas, exatam ente o que eu disse. Um aposento cuj a existência eles ignoravam , um a câm ara secreta com a porta com andada por fechadura digital escondida na base de um a estátua.
— Desculpe, continue.
— Entraram e encontraram um a poltrona coberta de sangue. Havia sangue no chão e nas paredes. Um lago, com o disse literalm ente o segurança que nos cham ou, e devo dizer que não estava exagerando. Estam os aqui há algum tem po e a perícia ainda está trabalhando. Com ecei a interrogar algum as pessoas, m as não encontrei nada.
— Ele o m atou aí, Claude. Chegou, m atou Yoshida, fez seu trabalho de m erda, colocou o corpo no carro e depois abandonou carro e cadáver no estacionam ento do Cassino.
— O chefe da segurança, um ex-policial que se cham a Valm eere, disse que viu o carro de Yoshida sair às quatro da m anhã.
— E não viram quem guiava?
— Não, disse que o carro tem vidros escuros e não se vê nada no interior. E depois era de noite, e com o reflexo das luzes fica pior ainda.
— E não achou estranho que Yoshida saísse àquela hora da noite?
— Foi a pergunta que fiz. Valm eere respondeu que Yoshida era um tipo estranho. E que fazia isso de vez em quando. Ele m esm o tentou avisar que não era seguro andar por aí sozinho, m as não teve m eio dele entender. Quer saber o quanto m ister Yoshida era estranho?
— Diga.
— Na tal sala encontram os um a coleção de snuff movies de arrepiar. Tem coisa que você nem im agina. Um de m eus rapazes teve ânsias de vôm ito quando viu. Posso lhe dizer um a coisa?
Froben continuou sem esperar resposta.
— Se Yoshida gostava m esm o desse tipo de film e, recebeu exatam ente o fim que m erecia!
Sentia-se claram ente a repugnância na voz de Froben. Aquele era o destino de todo policial. Quando pensava que j á tinha tocado o fundo, acontecia algum a coisa que destruía essa convicção.
— Está certo, Claude. Mande o m ais rápido que puder os resultados das am ostras, fotos, im pressões, se houver, e todo o resto. E dê um j eito para que a gente possa fazer um a inspeção no local, se precisar. Agradeço m uito.
— Não há de quê. Nicolas…
— Sim ?
— Da outra vez eu só pensei em falar, m as agora digo abertam ente. Você acredita que eu não queria m esm o estar em seu lugar?
— Acredito, am igo. E com o acredito…
Hulot colocou o fone no gancho com o se fosse extrem am ente frágil.
Frank estava apoiado no encosto da poltrona e pela j anela olhava um pedaço de céu azul com o se não o visse. Sua voz parecia chegar através de m il quilôm etros de distância e m il anos de tem po.
— Sabe, Nicolas, às vezes, quando penso nas coisas que acontecem no m undo, coisas com o essa, com o o World Trade Center, guerras e tudo o m ais, o que m e vem à cabeça são os dinossauros.
O delegado olhou para ele sem dizer nada. Não conseguia entender onde ele queria chegar.
— Há m uito tem po, m uita gente tenta entender por que os dinossauros se extinguiram , por que os anim ais que dom inavam o m undo desapareceram assim , de repente. Talvez a explicação m ais válida entre todas as possíveis sej a tam bém a m ais sim ples. Talvez tenham m orrido porque enlouqueceram , todos eles. Exatam ente com o nós. É isso que nós som os, nada m ais do que pequenos dinossauros. E, m ais cedo ou m ais tarde, nossa loucura será a causa de nossa ruína.