Eu Mato
Capítulo 45
45
CHOVIA NO FUNERAL DE NICOLAS HULOT.
O tem po parecia ter resolvido interrom per aquele verão lum inoso e derram ar do céu as m esm as lágrim as que estavam sendo derram adas por Nicolas na terra. Um a chuva constante e firm e, com o constante e firm e tinha sido a vida de um anônim o delegado de polícia, passada em sua pequena m issão de hom em com um .
Agora recebia, talvez sem saber, a única recom pensa que realm ente desej ara quando estava vivo: descer para a m esm a terra que acolhia o corpo de seu filho, acom panhado de palavras que a esperança criara para consolar os que continuavam vivos.
Céline estava de pé ao lado da cova, perto do padre, o rosto com posto na firm eza da dor, sobrevivente desprovida de vontade diante dos túm ulos do m arido e do filho. Junto a ela, a irm ã e o cunhado, chegados às pressas de Carcassonne depois da notícia da m orte de Nicolas.
Os funerais seriam particulares, segundo a vontade expressa por Hulot. Apesar disso, um a pequena m ultidão estava reunida no cem itério de Eze Village por ocasião da cerim ônia. Um pouco afastado e acim a do local em que tinham cavado a sepultura, Frank observava a m assa de gente ao redor do j ovem sacerdote que oficiava o funeral de cabeça descoberta apesar da chuva.
Lá estavam os am igos, os conhecidos, os m oradores de Eze, todas as pessoas que tiveram a oportunidade de conhecer e apreciar a consistência do hom em que estavam saudando pela últim a vez. Provavelm ente, havia tam bém um certo núm ero de m eros curiosos.
Lá estava Morelli, cuj o rosto expressava um sofrim ento tão agudo que Frank se surpreendeu. Estavam tam bém Roncaille e Durand, representando as autoridades do Principado, e todos os expoentes da Sûreté que não estavam de serviço. Frank viu Froben, num ponto exatam ente oposto ao que ocupava, tam bém de cabeça descoberta. Além deles, estavam Bikj alo, Laurent, Jean-Loup, Barbara e grande parte do pessoal da Rádio Monte Carlo. Lá estavam tam bém , um pouco afastados, Pierrot e a m ãe.
Os poucos j ornalistas presentes tinham sido m antidos fora do cem itério por um a patrulha que, afinal, m ostrou-se dispensável. A m orte de um hom em num acidente de carro era banal dem ais para ser realm ente interessante, m esm o em se tratando de um delegado que estivera envolvido nas investigações do caso Ninguém e fora afastado.
Frank olhou para o caixão de Nicolas Hulot, que descia lentam ente para a cova escavada na terra com o um a ferida, acom panhado pela água da chuva e pela água benta m isturadas com o bênção do céu e dos hom ens. Dois coveiros usando capas verdes e pás com eçaram a fechar a sepultura com um a terra que tinha a m esm a cor da m adeira do caixão.
Frank ficou ali em pé até que a últim a pá de terra caísse na cova cheia. Pouco a pouco a terra se reacom odaria e alguém contratado para fazê-lo colocaria sobre ela um a lápide de m árm ore igual a que estava a seu lado, cuj a inscrição indicaria que Stéphane Hulot e seu pai, Nicolas, tinham de algum a form a se reencontrado.
O sacerdote deu sua últim a bênção e todos fizeram o sinal da cruz.
Apesar de tudo, Frank não conseguiu pronunciar a palavra “Am ém ”.
Logo depois, a m ultidão com eçou a se dissolver. Os m ais próxim os da fam ília com eçaram a apresentar seus pêsam es à viúva antes de partirem . Céline o viu quando recebia o abraço dos Mercier. Cum prim entou Guillaum e e seus pais, recebeu as apressadas condolências de Durand e Roncaille, virou e sussurrou algum a coisa à irm ã, que a deixou sozinha, seguindo com o m arido para o portão do cem itério. Frank observou a figura graciosa de Céline se aproxim ando com passo calm o, os olhos verm elhos aos quais ela havia negado a proteção de óculos escuros.
Sem um a palavra, Céline se refugiou em seu abraço. Sentia seu pranto silencioso no om bro, quando ela finalm ente concedeu um a pausa para as lágrim as incapazes de reconstruir seu pequeno m undo em frangalhos.
Céline se afastou para olhar para ele. Em seus olhos brilhava com o um sol incandescente a estrela vívida da dor.
— Obrigado, Frank. Obrigado por estar aqui. Obrigado por ter sido você a m e contar. Sei o quanto lhe custou.
Frank não disse nada. Depois do telefonem a de Morelli, foi para Eze e chegou à casa de Nicolas. Ficou cinco longos m inutos diante da porta de Hulot antes de tom ar coragem e tocar a cam painha. Quando veio abrir, apertando a gola de um robe sobre a cam isola, Céline entendeu tudo im ediatam ente, assim que o viu. Afinal, era m ulher de um policial. Já devia ter im aginado aquela cena anteriorm ente, vivida com o um a funesta eventualidade, invariavelm ente afastada com o um m au agouro. Agora Frank estava ali, de pé, na soleira de sua casa, a expressão dolente e o silêncio confirm ando que o m arido, depois do filho, tam bém não estaria m ais ali com ela.
— Aconteceu algum a coisa com Nicolas, não é?
Frank concordou em silêncio.
— Ele está…
— Sim , Céline, está m orto.
Céline fechou os olhos por um instante e seu rosto foi invadido por um a palidez m ortal. Vacilou levem ente e Frank ficou com m edo que ela estivesse desm aiando. Deu um passo para a frente para am pará-la, m as ela se recuperou im ediatam ente. Frank viu um a veia pulsando em sua testa, enquanto pedia detalhes que ele gostaria de poder evitar.
— Com o aconteceu?
— Um acidente de carro. Não sei m uita coisa. Saiu da estrada com o carro e caiu num barranco. Se pode servir de consolo, não deve ter sofrido.
Enquanto as pronunciava, Frank teve consciência da futilidade de suas palavras. Não, não era um conforto, não podia ser, em bora soubesse do torm ento por que passaram , Nicolas e Céline: a agonia de Stéphane, em com a, reduzido a um vegetal, ligado a um a m áquina que o m anteve vivo até que a piedade foi m ais forte que a esperança e resolveram dar autorização para que fosse desligada.
— Entre, Frank. Tenho que dar alguns telefonem as, m as posso adiar para am anhã de m anhã. E queria lhe pedir um favor…
Quando se virou para encará-lo, seus olhos de m ulher ainda apaixonada pelo m arido estavam cheios de lágrim as.
— O que você quiser, Céline.
— Não m e deixe sozinha essa noite, por favor.
Ligou para o único parente de Nicolas, um irm ão que vivia nos Estados Unidos e que, por conta do fuso horário, não receberia a notícia no m eio da noite. Explicou a situação brevem ente e desligou m urm urando “Não, não estou sozinha”, certam ente respondendo à preocupação de quem estava do outro lado da linha. Colocou o fone no gancho com o se ele fosse fragilíssim o e virou-se para ele.
— Quer um café?
— Não, Céline, obrigado. Não preciso de nada.
— Então vam os nos sentar aqui no sofá, Frank Ottobre. Quero que m e abrace e m e dê apoio enquanto choro…
E assim foi. Ficaram sentados no sofá, na bela sala de j anelas que davam para o terraço e para o vazio da noite, e Frank a ouviu chorar até que a luz viesse tingir o m ar e o céu de azul, por trás das vidraças. Sentiu seu corpo exausto deslizar para um a espécie de torpor e deixou-a ficar, com todo o afeto que devia a ela e Nicolas, até entregá-la, bem m ais tarde, aos cuidados da irm ã e do cunhado.
E agora estavam ali, no cem itério, um diante do outro novam ente, e ele não podia deixar de olhar para ela com o se seus olhos quisessem ver dentro dela. Céline entendeu a pergunta que aquele olhar escondia. Sorriu com ternura de sua ingenuidade m asculina.
— Não serve para m ais nada agora, Frank.
— O que não serve m ais?
— Pensei que tivesse entendido…
— Entendido o quê, Céline?
— A m inha pequena loucura, Frank. Sabia m uito bem que Stéphane estava m orto, sem pre soube, assim com o sei agora que Nicolas não está m ais aqui.
Vendo sua expressão perdida, Céline Hulot sorriu ternam ente e pousou um a das m ãos em seu braço.
— Pobre Frank, sinto m uito por ter enganado você tam bém . Sinto m uito por tê-lo feito sofrer a cada vez que m encionava Harriet.
Levantou os olhos para fitar o céu cinzento. Um casal de gaivotas esvoaçava no alto, planando preguiçosam ente graças ao vento nas alturas. Eram duas, estavam j untas. Talvez Céline estivesse pensando nisso enquanto acom panhava a traj etória de seu voo por um instante. Um a lufada de vento balançou as pontas do lenço que tinha no pescoço e seus olhos voltaram a encontrar os de Frank.
— Era teatro, m eu caro. Um pequeno e estúpido teatro para im pedir que um hom em se abandonasse a si m esm o até m orrer. Para ser exata, depois da perda de Stéphane, aqui m esm o, quando saíam os do cem itério após o enterro, tive a certeza de que, se não fizesse algum a coisa, Nicolas ficaria arrasado. Ainda m ais que eu. Talvez até a ponto de acabar com tudo.
Céline prosseguiu com a voz de quem está seguindo um a recordação.
— E assim , enquanto voltávam os para casa, tive essa ideia. Pensei que se Nicolas ficasse preocupado com igo, se surgisse um outro m otivo de preocupação, pelo m enos em parte isso aliviaria seu desespero em relação a Stéphane. Mesm o que fosse um a distração infinitesim al, podia ser útil para evitar o pior. Foi assim que tudo com eçou. E continuou. Eu o enganei e não m e arrependo. Faria tudo de novo se fosse necessário, m as com o pode ver, não há m ais ninguém para quem eu precise fingir…
Agora, ali no cem itério, as lágrim as escorriam novam ente no rosto de Céline Hulot. Frank fitou a m aravilhosa profundidade daqueles olhos.
No m undo, havia m uitas pessoas cuj o único valor era conseguir se vender com o se fossem seda, quando na verdade eram um m onte de trapos. Outras que fizeram coisas grandiosas, coisas que m udaram o m undo. Frank pensou que nenhum a delas podia igualar a grandeza daquela m ulher.
Céline sorriu de novo, com ternura.
— Tchau, Frank. Não im porta o que estiver procurando, espero que encontre logo. Queria m uito que fosse feliz, porque você m erece. Au revoir, bonitão…
Ergueu-se levem ente na ponta dos pés e roçou seus lábios com um beij o. Sua m ão deixou um rastro doloroso no braço de Frank ao virar de costas e seguir pelo cam inho de cascalho.
Frank ficou olhando enquanto ela se afastava. Alguns passos depois, viu que parou e voltou-se para ele.
— Frank, para m im não m uda nada. Nada no m undo poderá m e trazer Nicolas de volta. Mas pode ser im portante para você. Morelli m e contou os detalhes do acidente. Leu os relatórios?
— Sim , Céline, com m uita atenção.
— Claude m e disse que Nicolas não estava com o cinto de segurança na hora do acidente. Foi essa a causa da m orte de Stéphane, na época. Se estivesse usando um cinto, nosso filho teria se salvado. Desde então, Nicolas não enfiava nem as chaves na ignição sem antes colocar o cinto. Acho m uito estranho que dessa vez não tenha feito isso…
— Não sabia desse detalhe sobre o acidente com seu filho. E agora que falou, tam bém acho estranho.
— Repito, para m im não m uda nada. Mas se existe a possibilidade de que Nicolas tenha sido assassinado, quer dizer que estava no cam inho certo, que vocês estavam no rum o certo.
Frank concordou com a cabeça, em silêncio. A m ulher deu m eia-volta e se afastou sem olhar para trás. Enquanto via Céline se distanciar, Roncaille e Durand chegaram , ostentando um a perfeita expressão com pungida. Tam bém acom panharam com os olhos a figura de Céline, negra silhueta delicada sob a chuva na alam eda de um cem itério.
— Que perda, não é m esm o? Ainda não consigo acreditar…
Frank virou de repente. Sua expressão fez um a som bra passar pelo rosto do chefe de polícia.
— Ah, ainda não conseguem acreditar? Justam ente vocês, que sacrificaram Nicolas à sua razão de Estado e deixaram que m orresse com o um hom em derrotado, ainda não conseguem acreditar?
Frank fez um a pausa que colocou sobre eles um a lápide m ais pesada do que as que os circundavam .
— Se algum dia sentirem vergonha, adm itindo-se que sej am capazes disso, têm todos os m otivos para tanto.
Durand levantou a cabeça bruscam ente.
— Mister Ottobre, só posso j ustificar seu ressentim ento à luz de sua dor, m as não perm ito…
Frank interrom peu-o abruptam ente. Sua voz era seca com o o barulho de um galho que se parte sob os pés de alguém .
— Dr. Durand, estou perfeitam ente consciente de que m inha presença aqui é de difícil digestão para o senhor. Mas quero prender esse assassino m ais do que qualquer coisa no m undo e por m il m otivos, um dos quais é que devo isso a m eu am igo Nicolas Hulot. O que o senhor m e perm ite ou não é absolutam ente indiferente para m im . Se as circunstâncias e o local fossem outros, posso garantir que pegaria toda sua autoridade e lhe enfiaria goela abaixo j unto com os dentes.
O rosto de Durand pegou fogo. Roncaille interveio tentando recom por aquela fratura. Frank espantou-se ao vê-lo tom ar um a posição, em bora a m otivação fosse totalm ente discutível.
— Frank, talvez todos estej am os com os nervos um pouco abalados pelos acontecim entos. Creio que é m elhor não perm itir que as em oções nos dom inem . Tem os um trabalho a fazer, que j á é suficientem ente difícil por si só, sem a introm issão de elem entos estranhos à questão que possam servir com o obstáculos. Nossos dissabores pessoais, sej am quais forem , têm que ficar em segundo plano por enquanto.
Roncaille segurou o braço de Durand, que só opôs um a resistência form al, e arrastou-o dali. Os dois se afastaram , protegidos por seus guarda-chuvas, e Frank ficou sozinho.
Deu alguns passos e se viu diante do túm ulo que continha os restos m ortais de Nicolas Hulot. Ficou observando a chuva que dava início a seu trabalho de nivelam ento da terra revolvida, sentindo a raiva ferver dentro dele com o lava incandescente na boca de um vulcão.
Um a breve raj ada de vento agitou os ram os de um a árvore próxim a. O sopro de ar entre as folhagens trouxe a seus ouvidos um a voz que j á tinha escutado m uitas vezes desde que tudo aquilo com eçara.
Eu mato…
Ali, bem ali, sob aquele m onte de terra recém -feito, estava seu m elhor am igo. Era o hom em que, quando o viu à deriva, teve a força de estender a m ão no m om ento em que m ais precisava. Era o hom em que tinha tido a coragem de confessar todas as suas fraquezas e, exatam ente por isso, se tornara ainda m aior a seus olhos. Se ele, Frank Ottobre, ainda estava de pé, se ainda estava vivo, devia isso exclusivam ente a Nicolas Hulot.
Quase sem se dar conta, com eçou a falar com quem não podia responder.
— Foi ele, Nicolas, não foi? Você não foi um a vítim a escolhida, não estava em seus planos, foi apenas um obstáculo que surgiu inesperadam ente em seu cam inho. Por isso ele se viu obrigado a fazer o que fez. Antes de m orrer, você descobriu quem é ele, não foi? O que posso fazer para saber tam bém , Nicolas? O quê?
Frank Ottobre ficou um longo tem po em pé diante de um túm ulo m udo, sob a chuva inclem ente, repetindo obsessivam ente aquela pergunta. Não obteve resposta algum a, nem m esm o um a palavra sussurrada na língua do vento, um som para decifrar num sopro de ar entre os ram os de árvores.