Eu Mato
Décimo carnaval
O HOMEM DESLIGA LENTAMENTE O TELEFONE, sem dar atenção à voz, raivosa e ao m esm o tem po suplicante, que sai do aparelho. Sorri e o sorriso que distende seus lábios é doce.
Então o m om ento que esperava tinha chegado. Sej a com o for, o que sente é alívio e um a sensação de libertação. Acabou-se o tem po dos passos abafados ao longo dos m uros, coberto pelo abrigo que as som bras lhe davam . Agora terá, enquanto durar, o conforto da luz do sol, de seu calor no rosto descoberto. O hom em não está nem um pouco preocupado, sim plesm ente atento com o nunca esteve naquele tem po todo. E no entanto, de agora em diante terá inim igos às centenas, m uito m ais do que aqueles que o caçavam até então.
Seu sorriso se am plia.
Será tudo inútil, nunca o pegarão. As longas horas de adestram ento do passado, im postas com o um dever inelutável, ficaram im pressas em sua m ente com o a m arca do ferro em brasa nas costas de um escravo.
Sim, senhor! Claro, senhor! Conheço cem maneiras de matar um homem, senhor. O melhor inimigo não é o que se rende, senhor. O melhor inimigo é um inimigo morto, senhor…
De repente, a voz im periosa do hom em que os obrigava a cham á-lo daquela form a, “senhor”, lhe volta à m em ória, as ordens, as punições, a m ão de ferro com que dirigia cada instante de suas vidas.
Com o num film e, revive as im agens de sua hum ilhação, de seu cansaço, a chuva sobre seus corpos trêm ulos de frio, um a porta fechada, um a lâm ina de luz cada vez m enor sobre seus rostos no escuro, o rum or de um a chave que gira na fechadura, a sede, a fom e.
E o m edo, a única e verdadeira com panhia constante que tiveram , sem ter nunca o consolo das lágrim as. Nunca foram crianças, nunca foram rapazes, nunca foram hom ens: só soldados.
Recorda os olhos e o rosto do hom em duro e inflexível, que para eles representava o terror. No entanto, quando tudo aconteceu, naquela bendita noite, foi surpreendentem ente fácil dom iná-lo. Seu corpo j ovem era um a m áquina perfeita de com bate, graças a seus ensinam entos. O do outro pesava, pela idade e pela incredulidade, e j á não podia com petir com a força e a ferocidade, por ele m esm o criadas e reforçadas dia após dia.
Surpreendeu-o quando ouvia com os olhos sem icerrados seu disco preferido, “Stolen Music”, de Robert Fulton. A m úsica de seu prazer, a m úsica de sua própria rebelião. Im obilizou-o agarrando seu pescoço num garrote firm e com o a prensa de um ferreiro. Ouviu seus ossos estalarem sob a m ão e espantou-se ao descobrir que, afinal, era apenas um hom em .
Lem bra com o se fosse hoj e sua pergunta, form ulada com um a voz que não dem onstrava m edo, apenas perplexidade, quando sentiu o frio do cano do revólver em sua têm pora.
— O que está fazendo, soldado?
Lem bra sua própria resposta, forte, clara, fria apesar de tudo, no m om ento sublim e da rebelião, o m om ento em que todos os erros seriam sanados, todas as inj ustiças apagadas.
O que me ensinou, senhor. Eu mato, senhor!
Quando puxou o gatilho, seu único lam ento foi não poder m atá-lo m ais de um a vez.
O sorriso se apaga no rosto do hom em . Ele perdeu o nom e que pegara em prestado havia tanto tem po para voltar a ser, única e sim plesm ente, um e nenhum . Agora os nom es não servem m ais, há apenas os hom ens e os papéis que representam . O hom em que foge e o hom em que segue, o hom em forte e o hom em fraco, o hom em que sabe e o hom em que ignora.
O hom em que m ata e o hom em que m orre…
Vira para exam inar a sala onde se encontra. No sofá diante dele, sentado de costas, há um hom em de uniform e. Pode ver sua nuca despontando do espaldar, os cabelos cortados curtos na cabeça inclinada, exam inando um a pilha de CDs colocados num a m esinha baixa em frente ao sofá.
Do estéreo ligado sai a guitarra acústica de John Ham m ond. Flutua no ar a sinuosidade atorm entada de um blues, um som que lem bra o delta do Mississippi, a m odorra das tardes de verão, um m undo feito de um idade e m osquitos, tão distante dali que dá m edo de que sej a tudo invenção, que nem sequer exista.
O hom em de uniform e entrou em casa com um pretexto qualquer, vencido pelo tédio de um a tarefa que talvez considere inútil, deixando dois iguais a ele na rua, vítim as do m esm o tédio e da m esm a convicção. Ficou fascinado com a quantidade de discos que encontrou nas estantes e com eçou a falar de m úsica presum indo um a com petência que não encontrou eco em suas palavras.
Agora o hom em em pé observa com o que hipnotizado o pescoço indefeso do hom em sentado no sofá.
Fique sentado e ouça a música. A música não trai. A música é a viagem e a meta da própria viagem. A música é o princípio e o fim de tudo.
O hom em abre lentam ente a gaveta do m óvel em que está pousado o telefone. No interior há um punhal, afiado com o um a navalha. A lâm ina reflete a luz que chega de um a j anela enquanto o hom em em punha a arm a com firm eza e com eça a se m over em direção ao hom em sentado no sofá.
Sua cabeça inclinada se m exe lentam ente, seguindo o ritm o da m úsica. Sua boca fechada em ite um m urm úrio que, em sua intenção, é um acom panham ento da voz do bluesman.
Quando a boca é tapada pela m ão do outro, o m urm úrio m uda de tom e torna-se m ais agudo, deixa de ser um a tentativa de canto para se transform ar num coro m udo de surpresa e m edo.
A música é o fim de tudo…
Ao cortar a garganta, o j ato verm elho j orra tão forte que chega a suj ar a aparelhagem . O corpo sem vida do hom em de uniform e desfalece, sua cabeça cai de lado.
Ouve rum ores provenientes da entrada da casa. São passos de hom ens que se aproxim am cam inhando com prudência, m as seus sentidos vigilantes e adestrados sentiram, m ais do que ouviram aqueles passos.
Enquanto lim pa a lâm ina do punhal no encosto do sofá, o hom em sorri novam ente. O blues, m elancólico e indiferente, continua a sair das caixas, coberto de ferrugem e sangue.