Eu Mato
Capítulo 11
11
NICOLAS HULOT PAROU O PEUGEOT 206 no portão da central de polícia de Auvare, na Rue de Roquebillière.
Um agente uniform izado, aprum ado diante da guarita, aproxim ou-se com ar irritado para afastar aqueles dois da entrada de veículos reservada ao pessoal da polícia. Da j anela do carro, o delegado exibiu seu distintivo.
— Delegado Hulot, Sûreté Publique de Mônaco. Tenho um a reunião com o com issário Froben.
— Desculpe, delegado. Não o reconheci. Em que posso ser útil?
— Pode avisá-lo de m inha chegada, por favor?
— Im ediatam ente, delegado. Nesse m eio-tem po, pode entrar, por favor.
— Obrigado.
Hulot avançou alguns m etros e estacionou o carro no lado da rua em que havia som bra. Frank desceu e olhou ao redor. O quartel de Auvare era um com plexo de construções de dois andares, com paredes cor de cim ento e tetos de telhas verm elhas, com as arm ações das portas e j anelas em m adeira escura. Um a série de edifícios retangulares ordenadam ente dispostos com o um j ogo de xadrez, sem nenhum a ligação entre eles. Na parte m ais baixa de cada um , a que dava para a rua, havia um a escada externa que levava ao andar superior.
O com issário ficou se perguntando o que aquilo tudo ao redor significaria aos olhos de um am ericano. Nice era um a cidade diferente, num m undo diferente. Talvez até um outro planeta, cuj a língua ele entendia, m as cuj a m entalidade só fazia parte de sua cultura, não de sua vida.
Pequenas casas, pequenos cafés, pequenas pessoas.
Nenhum sonho am ericano, nenhum arranha-céu a ser derrubado, som ente pequenos sonhos, quando havia, e às vezes desbotados pela m aresia, com o as paredes de algum as casas. Pequenos sonhos, m as que quando se partiam tam bém causavam grandes dores.
Na parede bem em frente à entrada da central de polícia, alguém tinha colado um cartaz contra a globalização. Hom ens que lutavam para não perder a própria identidade. A Europa, a Am érica, a China, a Ásia… eram apenas espaços coloridos nos m apas, siglas nas tabelas de câm bio, nom es nos dicionários das bibliotecas. Agora, havia a Internet, os m eios de com unicação, as notícias em tem po real. Sinais de um m undo que se expandia ou se reduzia segundo o ponto de vista de quem olhava.
A única coisa que encurtava realm ente as distâncias era o m al, presente em toda parte, falando em toda parte a m esm a linguagem e escrevendo suas m ensagens sem pre com a m esm a tinta.
Frank fechou a porta do carro e virou-se para ele.
Hulot viu um hom em de 38 anos, com os olhos de um velho a quem a vida tivesse negado sabedoria. Viu um rosto escuro, latino, coberto pela som bra ainda m ais escura de seus olhos e de seus cabelos e pela m arca da barba em seu rosto. Um hom em de corpo atlético, forte, um hom em que j á tinha m atado outros hom ens, protegido por um distintivo e pela j ustificativa de estar do lado certo. Talvez o m al não tivesse cura, não tivesse um antídoto. Mas havia os hom ens com o Frank, coveiros tocados e im unizados pela própria peste.
A guerra não acabava nunca.
Enquanto Hulot fechava o carro, viram Froben, da delegacia de hom icídios, que colaborava com as investigações, sair pela porta de m adeira do edifício em frente e cam inhar na direção deles.
Cum prim entou Hulot com um sorriso largo, m ostrando dentes grandes e regulares, que davam luz ao rosto de feições m arcadas. Tinha um a com pleição m aciça, que inchava o paletó do terno das Galeries Lafay ette, e o nariz quebrado de quem tinha praticado pugilism o no passado. As pequenas cicatrizes em torno das sobrancelhas confirm aram essa hipótese para Frank.
Froben apertou a m ão de Hulot. Seu sorriso se acentuou e seus olhos cinzentos se transform aram em duas fissuras, m isturando as cicatrizes a um a teia de pequenas rugas.
— Olá, Nicolas. Com o tem passado?
— É você quem vai dizer com o vou passar. Nesse m ar de m erda que prom ete tem pestade, preciso da aj uda de todos os am igos.
Froben pousou os olhos em Frank. Hulot fez as apresentações.
— É Frank Ottobre, agente especial designado pelo FBI. Muito especial. Foi incorporado às investigações pelo com ando do FBI.
Froben não disse nada, m as seus olhos m ostraram que estava im pressionado pelas qualificações de Frank. Estendeu um a m ão de dedos grandes e fortes, reservando tam bém para ele um sorriso aberto.
— Claude Froben, hum ilde delegado de Hom icídios.
Enquanto enfrentava o aperto vigoroso de Froben, Frank teve a im pressão de que, se quisesse, poderia esm agar seus dedos. Gostou dele im ediatam ente. Dava a im pressão de força e delicadeza ao m esm o tem po. Frank não acharia estranho encontrá-lo com os filhos, depois do trabalho, m ontando m odelos de navios, m anej ando com surpreendente cuidado até as partes m ais frágeis.
Hulot foi direto ao assunto.
— Novidades sobre a fita?
— Entreguei a Clavert, o m elhor dos nossos técnicos. Um m ago, eu diria. Quando o deixei estava com eçando a analisar a fita com suas engenhocas. Venha, vou m ostrar o cam inho.
Froben foi na frente e entraram pela m esm a porta que ele tinha usado para sair. Guiou-os por um breve corredor im erso num a luz difusa, proveniente de um a j anela às suas costas. Hulot e Frank seguiram atrás dele até que a nuca grisalha de Froben, que term inava num pescoço curto e grosso sobre os om bros robustos, deu lugar novam ente ao rosto. Parou diante de um a escada que descia à esquerda. Fez um gesto com sua grande m ão quadrada.
— Por favor.
Desceram dois lances de escada e encontraram -se num vasto salão de aparelhagens eletrônicas, ilum inado por frios tubos fluorescentes que reforçavam a claridade que chegava ao subsolo através das lucarnas colocadas ao nível da rua.
Sentado num banco alto havia um suj eito m agro, os cabelos raspados a zero para disfarçar um a incipiente calvície. Vestia um j aleco branco aberto sobre um a cam isa xadrez usada para fora dos j eans. O nariz equilibrava um par de óculos curvos com lentes am arelas.
Os três pararam atrás da cadeira de rodinhas em que ele estava trabalhando, absorto nos potenciôm etros. Virou-se para olhá-los. Hulot ficou se perguntando com o ele fazia para não ficar cego andando por aí com aquelas lentes.
Froben não fez nenhum a apresentação e o hom em não pareceu se incom odar. Provavelm ente, no seu m odo de pensar, se aqueles hom ens estavam ali era porque deviam estar.
— E então, Clavert, o que nos diz da fita?
O técnico deu de om bros.
— Pouco, delegado… Não tenho boas notícias. Exam inei a gravação com todas as m áquinas disponíveis. Nada. A voz foi m anipulada e não pode ser identificada de j eito nenhum .
— O que isso quer dizer?
Clavert deu um passo atrás ao se dar conta de que nem todos os presentes tinham seu conhecim ento técnico.
— Todas as vozes hum anas se m ovem segundo frequências que fazem parte de um a bagagem pessoal, identificável com o a retina ou as im pressões digitais. Um a certa quantidade de agudos, de baixos e de m édios que não variam nem quando se tenta alterar a voz, falando em falsete, por exem plo. É possível visualizar essas frequências por m eio de aparelhagens específicas e reproduzi-las em seguida sob a form a de um diagram a. São m áquinas bastante com uns e fazem parte, por exem plo, da aparelhagem dos estúdios de gravação m usical. Servem para distribuir as frequências e evitar que um trecho tenha um a ou outra a m ais ou a m enos.
Clavert se aproxim ou do teclado de um Macintosh e apoiou a m ão no m ouse. Fez um a série de cliques e um a tela branca atravessada por linhas horizontais paralelas apareceu. No m eio dessas linhas, m oviam -se duas outras, um a verde e outra roxa, m aiores e cheias de altos e baixos.
O técnico indicou a linha verde com o cursor do m ouse.
— Essa linha representa a voz de Jean-Loup Verdier, o DJ da Rádio Monte Carlo. Depois de analisá-la, obtive esse diagram a fônico.
— Fez um outro clique e a tela virou um gráfico que destacava um a linha am arela m ovendo-se sobre um fundo escuro, aprisionada entre linhas paralelas azuis. Clavert apontou para a tela.
— As linhas horizontais azuis são as frequências. A linha am arela indica em quais destas linhas se m ove a voz analisada. Sobrepondo a voz de Verdier extraída de diversos pontos da gravação, podem os ver que correspondem perfeitam ente.
Clavert voltou à tela anterior. Clicou na linha roxa.
— Essa é a outra voz.
O gráfico apareceu de novo, m as dessa vez a linha am arela se m ovia de form a m uito irregular e dentro de cam pos m uito m enores.
— Nesse caso, a pessoa que ligou passou a própria voz por um aparelho dotado de filtros que, graças a um a série de distorções e com pressões, m istura as frequências da em issão vocal, em baralhando-as com pletam ente. Basta variar ligeiram ente os valores de um dos filtros para ter um gráfico totalm ente diferente.
Hulot interrom peu com um a pergunta.
— É possível chegar ao m odelo de aparelho que foi usado através da análise dos registros? Talvez possam os descobrir quem o vendeu.
O técnico m ostrou um a expressão de dúvida.
— Acho que não. Essas m áquinas podem ser encontradas facilm ente no com ércio. Há diversos fabricantes e qualidades variáveis segundo o preço e a m arca, m as para um obj etivo com o esse, todas elas servem da m esm a form a. Além do m ais, a eletrônica está sem pre evoluindo e, portanto, tem os um m ercado de usados bem am plo. Coisas que, em geral, acabam nas m ãos dos apaixonados pelo home-recording, quase sem pre sem nota fiscal. Honestam ente, não creio que sej a um bom cam inho a seguir.
Froben interveio sem convalidar com pletam ente o parecer pessim ista de Clavert.
— Em todo caso, verem os o que podem os fazer. Tem os tão poucos elem entos na m ão que nada pode ser descartado.
Hulot virou-se para observar Frank. Ele olhava ao redor, aparentem ente absorto em outros pensam entos, com o se j á soubesse de tudo aquilo por conta própria. No entanto, o delegado tinha certeza de que nada do que estava sendo dito lhe escapava e de que estava arm azenando cada dado.
Dirigiu-se de novo a Clavert.
— E sobre o telefonem a que chegou sem passar pela central, pode nos dizer algum a coisa?
— Bem , sobre isso não poderia levantar um a hipótese precisa. Há duas possibilidades. Todas as centrais telefônicas são dotadas de senhas num éricas. Basta conhecê-las para evitar o filtro da telefonista. A Rádio Monte Carlo não é a NASA em m atéria de segurança e, portanto, não é im pensável que alguém tenha encontrado um a form a de obtê-las. A segunda hipótese é um pouco m ais com plicada, m as não chega a ser um a ficção científica. Para m im , parece ser a m ais verossím il.
— Ou sej a?
Clavert apoiou as costas no espaldar da cadeira.
— Fui m e inform ar. A central da Rádio Monte Carlo é adm inistrada por um program a de com putador que tem um a função que perm ite visualizar em tem po real o núm ero telefônico de quem liga. A finalidade é óbvia…
Deu um a olhada ao redor para se certificar de que todos os presentes o acom panhavam .
— Pois bem , na hora do telefonem a em questão, nenhum núm ero apareceu no m ostrador e, portanto, a pessoa que ligou deve ter ligado a seu telefone um dispositivo eletrônico que neutraliza essa função do com putador.
— É difícil de encontrar?
— Um bom conhecedor de eletrônica e telefonia pode obter um resultado sem elhante com bastante facilidade. Não é preciso ser um gênio das telecom unicações. Qualquer hacker de nível m édio poderia fazê-lo através da internet.
Hulot estava se sentindo com o um preso na hora do banho de sol. Não im porta para onde virasse os olhos, estava diante de um m uro.
— É possível estabelecer se a ligação chegou de um telefone fixo ou de um celular?
— Não. Mas eu excluiria um celular. Se usou a Web, o celular é m uito m ais lento e suas conexões não são confiáveis. Quem fez isso tudo é esperto dem ais para não saber disso.
— Existem outras possibilidades de análises da fita?
— Com os aparelhos que eu tenho aqui, não. Pretendo m andar um a cópia desse DAT para o laboratório científico de Ly on, para ver se conseguem descobrir m ais algum a coisa.
Hulot apoiou a m ão no om bro de Clavert.
— Ótim o. Prioridade absoluta. Se encrencarem em Ly on, encontrarem os os apoios necessários para garantir a m áxim a rapidez.
Clavert deu a conversa por encerrada. Tirou um chiclete do bolso da cam isa, desem brulhou-o e enfiou na boca.
Por um instante, fez-se silêncio. A seu m odo, cada um dos quatro pensava no que tinha sido dito.
— Venham , vam os tom ar um café. Eu convido — disse Froben antes dos outros.
Conduziu-os novam ente escada acim a, virou à esquerda no térreo e depois de alguns passos viram -se diante de um a m áquina de café enfiada num vão da parede. Froben pegou um cartão m agnético.
— Café para todos?
Os outros concordaram . O delegado enfiou o cartão, apertou um botão e a m áquina com eçou a ronronar, enchendo um copinho de plástico colocado na bandej a.
— O que acha, Frank? — perguntou Hulot ao am ericano, que continuava em silêncio.
Frank resolveu dar voz a seus pensam entos.
— Não tem os m uitas opções. Todos os cam inhos parecem levar a absolutam ente nada. Bem que eu disse, Nicolas, estam os diante de um hom em m uito, m uito esperto. São coincidências dem ais para pensar que foi sim plesm ente beij ado pela fada da sorte. Por enquanto, a única pista que tem os desse desgraçado é esse telefonem a. Se tiverm os um pouco de sorte e ele for bastante narcisista, vai voltar a ligar. Se tiverm os m uita sorte, vai ligar para a m esm a pessoa. Se tiverm os m ais ainda, com eterá um erro. É a única esperança que tem os para conseguir detê-lo antes que m ate de novo.
Acabou de beber seu café e j ogou o copo de plástico na lixeira.
— Acho que j á é hora de term os um a conversa séria com esse Jean-Loup Verdier e com o resto do pessoal da Rádio Monte Carlo. Não gosto de adm itir, m as no m om ento estam os nas m ãos deles.
Dirigiram -se para a saída.
— Im agino que o clim a lá no Principado estej a… com o dizer… efervescente — disse Froben a Hulot.
— Bem , definir aquilo com o efervescente é com o dizer que Mike Ty son é “um suj eito nervoso”. Estam os à beira de um colapso. Montecarlo é um cartão-postal, você sabe. Lá, a im agem é tudo. Gastam os rios de dinheiro para garantir pelo m enos duas coisas: elegância e segurança. E de repente, surge do nada um suj eito que consegue nos ferrar com toda a elegância possível. Se não resolverm os essa história rapidam ente, verem os m uitas poltronas ficarem vazias.
Hulot fez um a pausa. E deu um suspiro.
— Inclusive a m inha.
Chegando ao portão, cum prim entaram -se. Froben ficou olhando enquanto eles se afastavam . Em seu rosto de pugilista havia solidariedade, m as tam bém alívio por não estar no lugar deles.
Hulot e Frank foram para o estacionam ento onde tinham deixado o carro. Dentro do carro, enquanto ligava o m otor, o delegado virou-se para olhar para Frank na luz incerta do interior do autom óvel. Era quase hora de j antar e descobriu que estava com fom e.
— Café de Turin?
O Café de Turin era um bistrô bastante espartano, do tipo com grandes m esas com uns e bancos, na Place Garibaldi. Com iam -se ótim os frutos do m ar, quem sabe com um a garrafa de Muscadet gelado. Tinha levado Frank e a m ulher ao local quando vieram à Europa, e os dois ficaram literalm ente loucos quando viram o longo balcão cheio de frutos do m ar e o pessoal de luvas de trabalho abrindo as conchas à vista de todos. Adm iraram com olhos brilhantes os garçons passarem com grandes travessas cheias de ostras, am êij oas e grandes cam arões verm elhos, deliciosos com m aionese. Voltaram várias vezes e o pequeno restaurante tinha se transform ado no seu sancta sanctorum gastronôm ico. Hulot hesitou antes de m encionar o local, tem endo que a lem brança pudesse perturbar Frank. Mas o am ericano parecia m udado ou pelo m enos com intenção de m udar. Se queria tirar a cabeça da areia, era um a das form as de fazê-lo. Frank fez um sinal com a cabeça, com o se confirm asse sim ultaneam ente a escolha e as boas intenções de Hulot. O que quer que tivesse na cabeça não aparecia no rosto.
— O Café de Turin é um a ótim a pedida.
Hulot relaxou im perceptivelm ente.
— Na verdade, estou um pouco cansado de m e m exer e falar com o se fosse um personagem do cinem a. Às vezes, tenho a sensação de ser um a caricatura do tenente Colom bo. Preciso de m eia hora de norm alidade. Preciso desligar a tom ada, senão acabo ficando m aluco.
A noite tinha caído e as luzes da cidade j á estavam acesas. Pela j anela, Frank observava em silêncio as pessoas que saíam , se espalhavam e tagarelavam nas casas, nos bares, nos restaurantes, nos locais de trabalho. Milhares de pessoas de rostos anônim os.
Am bos sabiam que aquele discurso de Hulot era um a m entira. Em m eio àquela gente tranquila do verão havia um assassino, e nenhum dos dois conseguiria pensar em outra coisa antes que tudo tivesse term inado.