Eu Mato

Giorgio Faletti · Capítulo 47 de 76

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Eu Mato

Oitavo carnaval

 

PROTEGIDO EM SEU ESCONDERIJO SECRETO, O hom em está deitado na cam a.

Mergulhou num sono reparador com a sensação fluida e gratificante de um barco em terra quando reencontra o m ar. Sua respiração calm a, tranquila, que m al se percebe, m ove o lençol que o cobre quase im perceptivelm ente, indicando que o hom em está vivo, que o tecido branco sobre ele é um a coberta e não um a m ortalha.

A seu lado, igualm ente im óvel, o corpo ressequido j az em seu caixão vítreo. Usa com o um a condecoração aquilo que um dia foi o rosto diáfano de Gregor Yatzim in. Dessa vez, o trabalho de rem oção foi um a autêntica obra-prim a. Não parece um a m áscara, m as o verdadeiro rosto do esqueleto m um ificado.

O hom em estendido no leito dorm e e sonha.

São im agens indecifráveis que vêm agitar seu sono, em bora as figuras que sua m ente tenta destrinchar não cheguem a perturbar a perfeita im obilidade do corpo.

Prim eiro era o escuro. Agora é a rua de terra batida e no fundo se entrevê um a construção, sob a luz suave da lua cheia. É um a tarde quente de verão. O hom em se aproxim a passo a passo da silhueta de um a grande casa na penum bra, da qual chega com o um cham ado o perfum e fam iliar de lavanda. O hom em sente as pequenas m ordidas do cascalho sob os pés nus. Gostaria de avançar, m as ao m esm o tem po tem m edo.

O hom em percebe o som sufocado de um a respiração ofegante, o aperto brusco da angústia que se acalm a e se evapora assim que se dá conta de que a respiração é a sua. Agora está tranquilo, no pátio da casa. A cham iné de um a lareira de pedra desponta além da linha do teto, com o um dedo apontando a lua, e divide esse pátio ao m eio.

A casa está m ergulhada no silêncio que soa com o um convite.

De repente, a im agem da casa se dissolve: ele está lá dentro e sobe um a escada. Ergue a cabeça para um a lum inosidade fraca que se derram a do alto. Do térreo chega um a luz que espalha penum bra pelo vão da escada. Há um a figura hum ana recortada à contraluz.

O hom em sente que o m edo volta com o um nó de gravata apertado dem ais, dificultando a respiração. Apesar de tudo, continua sua lenta escalada para o alto. Enquanto sobe, e não queria subir, im agina quem pode ser a pessoa que encontrará lá em cim a e, no m esm o instante em que o faz, sente o terror de sabê-lo.

Um degrau. Outro. O rangido da m adeira sob os pés nus se enfia na pausa de sua respiração novam ente ofegante. A m ão apoiada no corrim ão de m adeira se tinge pouco a pouco com a lum inosidade.

Quando está para com eçar o últim o lance, a figura se volta e cruza a porta da qual provém a luz, deixando-o sozinho na escada.

O hom em sobe os últim os degraus. Diante dele, um a porta aberta, de onde sai um a luz vívida e bruxuleante. Ele chega lentam ente à soleira, que ultrapassa investido por aquela luz que é, além de clarão, rum or.

Em pé, no m eio do quarto, há um hom em . O corpo está nu, é esbelto e atlético, m as seu rosto é disform e. É com o se um polvo envolvesse a cabeça, apagando suas feições. Daquele am ontoado m onstruoso de excrescências carnosas, dois olhos claros o observam suplicantes, com o se buscassem sua piedade. Aquela figura infeliz chora.

Quem é você?

Um a voz no ar faz a pergunta. Não a reconhece com o sua. E não pode ser a do hom em disform e diante dele, porque não tem boca.

Quem é você?, repete a voz que parece vir de toda parte, saindo diretam ente da luz ofuscante que o circunda.

Agora o hom em sabe e não queria saber, vê e não gostaria de ver.

A figura estende os braços para ele e o que consegue causar é autêntico terror, em bora seus olhos continuem a buscar piedade de quem está diante dele, assim com o buscaram em vão a piedade do m undo. E, de repente, a luz é fogo, altas cham as crepitantes que devoram tudo o que encontram em seu cam inho, um fogo que parece chegar diretam ente do inferno para purificar a terra.

Desperta sem sobressalto, sim plesm ente abrindo os olhos e substituindo a claridade das cham as pela escuridão do quarto.

Sua m ão sobe na escuridão para pedir aj uda ao abaj ur colocado na m esinha de cabeceira. Acende. A luz fraca se espalha pelo aposento despoj ado.

Logo em seguida, chega a voz. Os m ortos, com o dorm em para sem pre, na realidade não têm necessidade de dorm ir nunca.

O que houve, Vibo, não consegue dormir?

— Não, Paso, j á dorm i o suficiente por hoj e. Tenho m uita coisa a fazer nos próxim os dias. Terei tem po para descansar depois…

Não acrescenta o resto do pensam ento: quando tudo tiver acabado…

O hom em não alim enta nenhum a ilusão a esse respeito. Sabe m uito bem que m ais cedo ou m ais tarde o fim chegará. Todas as coisas hum anas têm um fim , exatam ente com o têm um princípio. Mas por ora, tudo está em aberto e não pode negar ao corpo estendido no caixão a quim era de um novo rosto e a si m esm o a satisfação da prom essa cum prida.

Havia um a am pulheta quebrada nas névoas de seu sono, um tem po soterrado pela areia que se espalhou sobre a m em ória. Aqui, no m undo real, a am pulheta continua a girar sobre seu eixo e ninguém nunca poderá quebrá-la. As ilusões se despedaçarão com o sem pre acontece, m as aquela am pulheta inquebrável não, ela continuará a girar infinitam ente, até m esm o quando não houver m ais ninguém para contar o tem po que m arca.

O hom em sente que é chegada a hora. Levanta-se da cam a e com eça a se vestir.

O que está fazendo?

— Preciso sair.

Vai demorar muito tempo fora?

— Não sei. O dia inteiro, acho. Talvez am anhã tam bém .

Não me deixe preocupado, Vibo. Sabe que me sinto mal quando você não está.

O hom em dirige-se para o esquife de vidro e sorri afetuosam ente para o pesadelo que contém .

— Vou deixar a luz acesa. Fiz um a surpresa para você enquanto dorm ia.

Estica a m ão para pegar o espelho, que coloca diante do rosto deitado no caixão para que possa ver a própria im agem refletida.

— Olhe…

Oh, é maravilhoso. Eu sou esse? Como sou bonito, Vibo! Ainda mais que antes.

— Claro que é bonito, Paso. E vai ficar cada vez m ais.

Há um instante de silêncio, um silêncio de com oção que o corpo não conhece e não pode expressar com lágrim as.

— Agora preciso ir, Paso. É m uito im portante.

O hom em vira de costas para o corpo estendido e cam inha para a porta. Quando atravessa a soleira, repete aquele frase, talvez apenas para si m esm o.

— Sim , é m uito im portante.

E a caçada recom eça.