Eu Mato
Capítulo 20
20
MORELLI ENFIOU A FITA NO VÍDEO e quase im ediatam ente apareceram na tela as barras coloridas do início. Hulot abaixou as persianas para elim inar o reflexo da j anela na TV. Frank estava sentado em sua poltrona de sem pre, virada na direção do aparelho colocado na parede em frente à escrivaninha.
A seu lado estava Luc Roncaille, o diretor da Sûreté Publique do Principado de Mônaco, que chegou de surpresa à sala de Hulot no m om ento em que Morelli e outro agente estavam instalando a televisão e o videocassete num a m esa de rodinhas.
Era um hom em alto, bronzeado, de têm poras grisalhas, um a edição atualizada de Stewart Granger. Instintivam ente, Frank olhou para ele com suspeita. Aquele suj eito tinha m ais cara de político do que de técnico. Um a bela cara em blem ática e um a carreira feita m ais de relações públicas do que de trabalho de cam po. Um ótim o cartaz para exibir em ocasiões oficiais. Depois que Hulot fez as apresentações, Frank e eles se estudaram um segundo, fazendo suas respectivas avaliações. Olhando nos olhos de Roncaille, Frank concluiu que não era um idiota. Talvez um oportunista, m as certam ente não um idiota. Frank teve a im pressão de que, se precisasse j ogar alguém no m ar para se salvar, ele faria isso sem hesitar. Ou que, em todo caso, não acabaria no m ar sozinho. Tinha aparecido ali logo depois da notícia do encontro do corpo de Yoshida. Por enquanto, não estava causando problem as, m as com certeza sua intenção era reunir as inform ações necessárias para tirar o seu da reta diante dos superiores. O Principado de Mônaco era um pedacinho de terra, m as certam ente não era um país de opereta. Havia regras férreas que precisavam ser respeitadas e um a organização estatal de prim eira ordem , de fazer invej a a m uitas nações.
O fato de que sua polícia estava incluída entre as m elhores do m undo confirm ava isso.
Finalm ente, as im agens apareceram na tela. A prim eira coisa que viram foi um hom em am arrado à poltrona, a boca tapada por um a fita isolante, os olhos esbugalhados pelo m edo, olhando algum a coisa à esquerda. Todos reconheceram o rosto transtornado de Allen Yoshida. Sua foto tinha saído inúm eras vezes nas capas dos j ornais de m eio m undo. Depois um a figura escura entrou no cam po de visão. Hulot ficou sem fôlego. Olhando aquele hom em e o m odo com o estava vestido, Frank pensou por um instante num defeito da fita ou da film agem , por causa das protuberâncias nos cotovelos e nos j oelhos. Depois percebeu que faziam parte de um a cam uflagem e na m esm a hora descobriu a identidade da pessoa que estava diante dele.
— Grandessíssim o filho da puta! — sibilou entre dentes.
Os presentes viraram -se para olhar para ele. Frank fez um sinal, com o quem pede desculpa por ter perturbado a exibição do film e. Todos se concentraram novam ente nas im agens. Com os olhos esbugalhados de horror, viram a figura de negro apunhalar o hom em im obilizado na poltrona repetidam ente, cientificam ente, de m odo que nenhum a das punhaladas fosse letal. Viram seus m ovim entos, que as roupas tornavam artificiais, abrindo feridas que nunca cicatrizariam , viram o sangue se espalhando em câm era lenta sobre o tecido branco da cam isa de Yoshida, com o flores que se alim entassem de sua vida para enfim desabrocharem .
Viram a m orte em pessoa, dançando ao redor de um hom em , apreciando sua dor e seu terror, à espera de levá-lo consigo para a eternidade.
Depois de um lapso de tem po que pareceu durar séculos, o hom em de negro ficou im óvel. O rosto de Yoshida estava banhado de suor. O hom em estendeu um braço e enxugou-o com a m anga de seu cam isolão. Sobre a testa do prisioneiro, ficou um risco averm elhado, um a vírgula de vida naquele ritual de m orte.
Havia sangue por todo lado. No m árm ore do pavim ento, nas roupas, nas paredes. O hom em de negro cam inhou em direção à aparelhagem instalada na parede à sua direita. Esticou a m ão para um a das m áquinas. De repente, parou e inclinou a cabeça de lado, com o se um pensam ento repentino o dom inasse. Depois virou de frente para a câm era que estava às suas costas e fez um a reverência, indicando com um gesto suave do braço direito o hom em que m orria na poltrona.
Virou-se novam ente, apertou um botão e a tela foi tom ada pela neve do inverno e do inferno.
Na sala, o silêncio tinha para cada um deles um a voz diferente.
Frank foi levado de volta no tem po, para um a casa à beira-m ar, para im agens que nunca pararam de passar, com o um vídeo sem fim , diante de seus olhos. A lem brança foi um a nova dor, a dor se transform ou em ódio e Frank o dividiu igualm ente entre ele m esm o e o assassino.
Hulot foi levantar as persianas e a luz do sol voltou à sala com o um a bênção.
— Valha-m e Deus, que diabo está acontecendo nesse lugar?
A voz saiu com o um a prece dos lábios de Roncaille.
Frank se levantou de sua poltrona. Hulot viu a luz de seu olhar. Por um segundo, teve a sensação de que, se a figura de negro daquele vídeo tivesse retirado os óculos espelhados, em seus olhos tam bém se veria a m esm a luz.
À água, água; ao fogo, fogo; à loucura, loucura. E à m orte, m orte.
Hulot estrem eceu com o se o ar-condicionado tivesse trazido um sopro de vento do polo Norte. E talvez a voz de Frank viesse do m esm o lugar.
— Senhores, acabam os de ver Belzebu em pessoa. Esse hom em talvez sej a louco de pedra, m as tem um a lucidez e um a astúcia sobre-hum anas.
Indicou com a m ão o vídeo ligado, ainda com os efeitos da estática.
— Viram com o está vestido. Viram os cotovelos e os j oelhos. Não sei se era sua intenção gravar essa fita quando entrou na casa de Yoshida. Provavelm ente não, pois não podia saber da sala secreta e da perversão particular do dono da casa. Talvez tenha sido um im proviso. Talvez o tenha surpreendido na hora em que estava abrindo seu sancta sanctorum. Deve ter achado divertida a ideia de que pudéssem os vê-lo enquanto m atava aquele infeliz. Talvez o term o correto sej a admirá-lo. Isso no que diz respeito à sua insanidade. Morelli, pode voltar a fita?
O inspetor apontou o controle rem oto e, depois de um estalido, o aparelho com eçou a chiar, rebobinando a fita. Alguns segundos depois, Frank o deteve com um gesto.
— Está bom assim , obrigado. Pode parar a im agem num ponto em que possam os ver bem nosso hom em ?
Morelli apertou um botão e a im agem na tela se deteve na figura de negro com o punhal erguido. A pausa congelou no ar um a gota de sangue que caía da lâm ina. O chefe da polícia apertou os olhos cheios de repugnância. Certam ente, um espetáculo daqueles não fazia parte de sua rotina.
— Aí.
Frank se aproxim ou da tela e apontou o braço levantado do assassino na altura da cotovelo.
— O hom em sabia que a casa estaria cheia de câm eras de vídeo. No m ínim o, conhecia o fato de que existem câm eras de vídeo posicionadas por todo lado no Principado. Sabia que, ao levar o carro para o Parking des Boulingrins, corria o risco de ser film ado. E sabia, sobretudo, que as m edidas antropom étricas que podem ser feitas por m eio de análises de um a cena qualquer representam um parâm etro de identificação. Há valores que são típicos do indivíduo. O tam anho das orelhas, a distância dos pulsos aos cotovelos, a distância dos tornozelos aos j oelhos. Podem ser identificadas com aparelhagens que fazem parte dos equipam entos periciais de qualquer polícia do m undo. Foi por isso que colocou essa espécie de proteção nas pernas e nos braços. Assim , não nos deixou a m enor possibilidade de levantar nenhum dado. Nada de rosto, nada de corpo. Apenas a estatura, m as m ilhões de pessoas têm a m esm a estatura. Por isso eu disse que ele é m uito lúcido e esperto, além de louco.
— Mas esse m aníaco tinha que vir cair bem aqui?
Talvez Roncaille estivesse ouvindo rangidos sinistros provenientes de sua poltrona de chefe da polícia. Olhou para Frank tentando recuperar um a aparência de frieza.
— O que pretendem fazer agora?
Frank olhou para Hulot. O delegado entendeu que estava lhe passando a palavra para que fizesse as honras da casa em relação às considerações de Roncaille.
— Estam os com várias frentes de investigação. Tem os poucos indícios, m as é sem pre algum a coisa. Estam os esperando que nos m andem de Ly on os resultados da análise m ais aprofundada das fitas dos telefonem as. Cluny, o psiquiatra, está fazendo um relatório sobre o assunto, com base nessas m esm as fitas. Tem os os resultados das perícias no barco, no carro de Yoshida e na casa dele. Não que a gente espere grande coisa disso, m as sem pre pode ter escapado algum a coisa. Os protocolos das autópsias não disseram m uito m ais do que foi revelado pelos prim eiros exam es. A única verdadeira ligação que tem os com o assassino são os telefonem as para a Rádio Monte Carlo antes de atacar. Estam os vigiando a em issora 24 horas por dia. Infelizm ente, com o vim os, o suj eito tem um a astúcia e um preparo com paráveis apenas à sua selvageria. No m om ento, só podem os esperar que com eta um erro. Organizam os um a divisão, sob o com ando do inspetor Morelli, que recebe todos os telefonem as e m onitora todos os sinais suspeitos…
Morelli sentiu-se cham ado às falas.
— Recebem os m uitos e acho que vam os receber m ais ainda depois desse novo hom icídio. Às vezes, coisas delirantes, do tipo extraterrestres e anj os vingadores, m as quanto ao resto, não estam os descartando nada. É evidente que para m onitorar tudo isso precisam os de tem po e pessoal, e nem sem pre dispom os…
— Hum m m . Quanto a isso, vou ver o que posso fazer. Posso pedir o apoio de agentes da polícia francesa. É desnecessário dizer que o Principado não vê um a história dessas com bons olhos. Sem pre cultivam os um a im agem de segurança, de um a ilha de tranquilidade em m eio às confusões que acontecem pelo m undo. Agora que esse m aluco nos obrigou a enfrentar um núm ero im pressionante de assassinatos, tem os que sair dessa dando provas de um a eficiência com patível com essa im agem . Em poucas palavras, precisam os pegá-lo. O m ais rápido possível. Antes que m ate m ais gente.
Roncaille se levantou alisando as pregas de sua calça de linho.
— Bem , vou deixá-los trabalhar. Confesso que terei que repassar as inform ações que acabaram de m e dar ao secretário de Justiça. É um a tarefa que eu recusaria, se pudesse. Hulot, m antenha-nos inform ados a qualquer hora do dia ou da noite. Que venha o touro, senhores!
Dirigiu-se para a porta, abriu-a e saiu da sala fechando-a delicadam ente atrás de si. O sentido das palavras, m as sobretudo o tom de sua voz, não dava m argem à dúvida sobre aquele “precisam os pegá-lo”. O sentido exato era “vocês têm que pegá-lo”. E a am eaça de represálias desagradáveis em caso de insucesso não era nem m esm o velada.