Eu Mato

Giorgio Faletti · Capítulo 76 de 76

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Eu Mato

Último carnaval

 

AGORA FINALMENTE TUDO É BRANCO.

O hom em está com as costas apoiadas na parede, no lado m ais longo de um a pequena sala retangular. Está sentado no chão abraçado aos j oelhos dobrados, observando o m ovim ento dos dedos dos pés nas m eias brancas de algodão. Usa blusa e calças brancas de tecido áspero, com o brancas são as paredes em que está enclausurado. Encostado à parede diante dele, solidam ente preso ao chão, há um leito tubular de m etal.

Branco tam bém .

Não há lençóis, m as brancos são o colchão e o travesseiro. E branca é a luz que se derram a do teto, protegida por um a pesada grade cuidadosam ente pintada de branco, que parece ser a própria fonte da brancura ofuscante daquela sala.

Aquela luz não se apaga nunca.

Ergue lentam ente a cabeça. Seus olhos verdes olham sem angústia para a única m inúscula j anela, colocada alto o suficiente para ser inatingível. É o único relógio que tem à disposição para m arcar a passagem do tem po.

Claro e escuro. Branco e preto. Dia e noite.

Não sabe por quê, m as o azul do céu não aparece nunca.

Sua solidão não lhe pesa.

Experim enta, aliás, um a espécie de incôm odo cada vez que um sinal do m undo lhe chega de fora. De vez em quando, um a j anelinha se abre na porta, em baixo, e um a bandej a com travessas de plástico cheias de com ida desliza sobre o pavim ento. O plástico é branco e a com ida tem sem pre o m esm o sabor. Não há talheres. Com e com os dedos e restitui a bandej a e as travessas quando a j anelinha volta a se abrir. Recebe em troca um lenço branco e um edecido para lim par as m ãos. Tem que devolvê-lo em seguida.

De vez em quando um a voz lhe diz que fique de pé no centro da sala e estenda os braços para a frente. Observam seus m ovim entos pelo olho m ágico no centro da porta. Quando veem que está na posição certa, a porta se abre e alguns hom ens entram , enfiam um a cam isa de força em seus braços e apertam bem atrás das costas. Cada vez que é obrigado a usá-la, ele sorri.

Sente que aqueles hom ens m aciços, vestidos de verde, têm m edo dele, e nota que tentam de todos os m odos evitar seu olhar. Quase sente o cheiro do m edo que lhes incute. Contudo, j á deveriam saber que o tem po de lutar acabou. Já repetiu isso várias vezes ao hom em de óculos que se encontra na sala para onde é levado, o hom em que quer saber, que quer entender.

Já disse várias vezes tam bém que não há o que entender.

Só aceitar o que acontece e continuará a acontecer, do m esm o m odo com o ele aceita im possível ficar trancado em toda aquela brancura até o m om ento em que com eçar a fazer parte dela.

Não, sua solidão não lhe pesa.

A única coisa que lhe falta é a m úsica.

Sabe que j am ais lhe perm itirão tê-la de novo, portanto, fecha os olhos de quando em quando e consegue im aginá-la. Tocou-a tantas vezes, ouviu-a tantas vezes, respirou-a tantas vezes que agora, quando procura por ela, pode encontrá-la intacta, com o era no m om ento em que entrou nele. As recordações, as que são feitas de im agens e palavras, m íseras cores desbotadas e roucos sons envilecidos pela busca de um significado, j á não lhe interessam m ais. Em sua prisão, a m em ória só lhe serve agora para reencontrar, com o um tesouro escondido, toda a m úsica que possui. É a única herança deixada por aquele hom em que um dia se arrogou o direito de ser cham ado de “pai”, antes que ele finalm ente resolvesse deixar de ser seu filho e lhe retirasse esse direito, j untam ente com a vida.

Quando se concentra bem , consegue ouvir com o se estivesse a seu lado o deslizar de um a m ão ágil no cabo de um a guitarra elétrica, o som raivoso de um solo que parece um a corrida escadas acim a, girando, girando, subindo cada vez m ais alto e que parece não ter fim .

Sente o chiado das vassouras nos pratos de um a bateria ou o hálito úm ido e quente de um hom em que abre cam inho com dificuldade no funil tortuoso de um saxofone e, com o tal, se transform a num a voz de hum ana m elancolia, a pontada aguda do lam ento por algum a coisa bela que se possuía e que se desfez entre suas m ãos, corroída pelo tem po.

Pode se encontrar sentado bem no m eio de um a seção de cordas e vigiar por sobre o om bro o m ovim ento leve e rápido do arco do prim eiro violino, pode se enfiar insuspeito entre as espirais sinuosas do oboé ou observar os dedos de unhas tratadas que se agitam nervosos entre as cordas de um a harpa, com o anim ais selvagens atrás das grades de um a j aula.

Pode ligar e desligar quando quiser aquela m úsica que, com o todas as coisas im aginadas, é perfeita. Ali dentro tem tudo de que precisa, todo seu passado, todo seu presente, todo seu futuro.

A m úsica dá e sobra para derrotar a solidão. A m úsica é a única prom essa cum prida, a m úsica é a única aposta vencida. Disse a alguém , certa vez, que a m úsica é tudo, que é o início e o fim da viagem , que a m úsica é a própria viagem . Eles o ouviram , m as não acreditaram . Por outro lado, o que se poderia esperar de quem toca e ouve m úsica, m as não é capaz de respirá-la?

Não, não tem m edo algum da solidão.

E depois, não está sozinho.

Nunca, nem agora.

Ninguém o entendeu até agora e talvez ninguém consiga entendê-lo em seguida. Foi por esse m otivo que buscaram tão longe o que estava diante de seus olhos, com o todos fazem , com o todos sem pre fazem . Foi por esse m otivo que conseguiu se esconder tanto tem po entre aqueles olhos apressados, exatam ente com o o negro se esconde entre as cores. Nenhum deles poderia aceitar o branco ofuscante de um a sala com o aquela em que se encontra sem gritar.

Mas ele não precisa disso. Não sente necessidade nem de falar.

Apoia a cabeça na parede e fecha os olhos. Afasta-os por alguns instantes da brancura daquela sala, não por tem or, m as por respeito.

Sorri quando a voz chega clara e forte, em sua cabeça.

Você está aí, Vibo?

Você terminou Eu Mato

Giorgio Faletti

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