Eu Mato

Giorgio Faletti · Capítulo 74 de 76

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Eu Mato

Capítulo 63

63

 

FRANK CHEGOU AO FINAL DO CORREDOR e parou na frente da porta da sala de Roncaille. Esperou um instante antes de bater. Pensou em todas as vezes em que estivera diante daquela porta fechada anteriorm ente. De verdade ou na im aginação. Aquela era apenas um a das m uitas, m as agora tudo era diferente. Agora o hom em conhecido com o Ninguém estava bem guardado atrás das grades de um a cela e o caso poderia engrossar com plenos direitos as estatísticas das investigações que chegaram a bom term o.

Passaram -se quatro dias desde a prisão de Jean-Loup e o encontro com Parker no aeroporto de Nice. Passou aquele tem po em com panhia de Helena e seu filho, sem ler j ornais, sem ver televisão, tentando apenas deixar aquela história para trás por um tem po.

Conseguir fazer isso para sem pre era quase im pensável.

Deixara o apartam ento de Parc Saint-Germ ain e refugiara-se com Helena e Stuart num pequeno e discreto hotel do interior, um local onde era possível escapar da caçada obsessiva dos j ornalistas, literalm ente enlouquecidos atrás dele. Ele e Helena, apesar do desej o, acharam que não era conveniente dorm irem no m esm o quarto. Ainda não. Frank usara aqueles dias j untos para descansar e fam iliarizar-se com Stuart, tentando construir sua relação com ele. A confirm ação oficial de que a prom essa de ir à Disney seria m antida tinha sido um ótim o ponto de partida. E o fato de que as férias se estenderiam por m ais um a dezena de dias no Canal du Midi, a bordo de um a house-boat, com eçara a cim entá-la. Stuart ficara fascinado quando Frank lhe contou que passariam além dos diques, dorm iriam no barco e que ele poderia até aprender a pilotar. Agora só restava esperar que o cim ento se solidificasse.

Frank se decidiu a bater na porta da sala.

A voz de Roncaille convidou-o a entrar. Ao abrir a porta, Frank não se espantou ao encontrar Durand. A surpresa veio, no entanto, com a presença do dr. Cluny.

Roncaille o recebeu com o costum eiro sorriso de relações-públicas, que agora parecia bem m ais natural e espontâneo. O chefe da polícia, naqueles m om entos de grandeur, sabia se com portar com o um perfeito anfitrião. Durand estava sentado com sua expressão habitual e cum prim entou-o com um gesto de m ão.

— Ótim o, Frank. Só faltava você. Entre, sente-se. O dr. Durand acabou de chegar.

O tom era tão descontraído que Frank se surpreendeu ao não ver o balde de gelo com cham panhe e as taças sobre a m esa. Provavelm ente, chegariam depois, num outro m om ento e num outro lugar.

Roncaille voltou a se sentar atrás de sua m esa. Frank ocupou a poltrona indicada pelo chefe de polícia. Esperou em silêncio. Não havia m ais nada que pudesse dizer. Só algum as coisas que desej ava saber.

— Visto que estam os todos aqui, creio que é m elhor ir direto ao assunto. Há certos aspectos dessa história sobre os quais você não foi inform ado, Frank, coisas relativas sobretudo à história de Daniel Legrand, aliás, Jean-Loup Verdier. Aqui está, em linhas gerais, o que conseguim os saber.

Roncaille apoiou-se no encosto e cruzou as pernas. Frank achou estranho que Durand perm itisse que ele conduzisse a reunião, m as o m otivo não lhe interessava nem um pouco.

Roncaille partilhou com ele tudo o que sabia com a naturalidade e a benevolência com que um santo dividiria seu m anto com um pobre.

— O pai, Marcel Legrand, era um a figura im portante dos serviços secretos franceses. Era a pessoa que m onitorava o treinam ento, um especialista em tudo o que deveria fazer parte da bagagem de um m em bro dos corpos especiais ou de um serviço de inteligência. Num dado m om ento, parece que com eçou a dar sinais de desequilíbrio. Ignoram os os detalhes precisos desse pedaço da história. Fom os até onde foi possível, m as o governo francês não se abriu m uito nesse sentido. O problem a deve ter causado m uita dor de cabeça. Contudo, as inform ações que conseguim os obter são suficientes para entender o que aconteceu. Depois de alguns episódios considerados incômodos, Legrand foi convidado, por assim dizer, a abandonar a ativa por livre e espontânea vontade e com pulsoriam ente aposentado. Isso deve ter sido um grande baque para ele e certam ente contribuiu para dar o em purrão final num a m ente instável. Transferiu-se para Cassis com a esposa grávida e um a governanta, um a m ulher que estava com ele desde a infância. Com prou aquela propriedade, La Patience, e fechou-se no solar, vivendo com o um erem ita, sem m anter relações com o resto do m undo. E im pôs tais condições a todo o resto da fam ília. Nenhum contato, em hipótese algum a.

Roncaille virou para o dr. Cluny. Passou-lhe a palavra, reconhecendo tacitam ente que era a pessoa m ais qualificada entre eles para expor o resto dos fatos, que tinham com ponentes psicológicos extrem am ente relevantes.

O psiquiatra tirou os óculos e apertou o osso do nariz com o indicador e o polegar, com o costum ava fazer. Frank ainda não tinha descoberto se aquele gesto era resultado de um estudo atento das form as de captar a atenção dos presentes ou se era fruto de um sim ples hábito. De qualquer form a, não era tão im portante assim . Cluny recolocou os óculos. Tinha captado a atenção de todos. Muitas das coisas que diria eram novidade tam bém para Durand e Roncaille.

— Conversei com Jean-Loup, aliás, Daniel Legrand, que é seu verdadeiro nom e. Consegui esboçar um quadro geral com um a certa dificuldade, pois só raram ente o suj eito dem onstra vontade de se abrir, em ergindo do seu m utism o. Portanto, com o dizia o chefe de polícia há pouco, a fam ília Legrand chegou à cidadezinha da Provença. A sra. Legrand era italiana, devo dizer. Creio que isso foi determ inante, apesar de tudo, para que Daniel ou Jean-Loup, com o preferirem , fale tão bem a língua. Sugeriria que o cham ássem os de Jean-Loup, para deixar as coisas m ais claras.

Olhou ao redor em busca de aprovação. O silêncio geral indicou que não havia obj eções. Cluny continuou sua exposição dos fatos ou pelo m enos de com o ele acreditava que tinham se passado.

— Pouco depois de sua chegada, a esposa deu à luz. De acordo com a lógica antissocial do m arido, que nesse m eio-tem po tinha se transform ado num a verdadeira obsessão, nenhum m édico foi cham ado para assistir ao parto. A m ulher dá à luz, atenção, não um , m as dois meninos gêmeos, Lucien e Daniel. Mas houve um a pequena com plicação. O pequeno Lucien nasceu deform ado. O rosto do m enino é com pletam ente desfigurado por excrescências carnosas que fazem dele um ser m onstruoso. De um ponto de vista clínico, não posso dizer com exatidão do que se trata, pois só disponho do depoim ento de Jean-Loup, que não se abre facilm ente a respeito desse assunto. Em todo caso, os exam es de DNA do cadáver encontrado no abrigo revelaram sem som bra de dúvida que os dois são irm ãos. O pai fica ensandecido com o dram a e suas condições m entais só fazem piorar. Recusa-se a adm itir o nascim ento do filho disform e, a tal ponto que registra apenas o nascim ento de um a criança, Daniel, claro. O outro é m antido escondido em casa, com o um segredo a ser cuidadosam ente guardado, um a vergonha diante do m undo. A m ãe m orre alguns m eses depois do parto. O relatório do m édico que assinou o atestado de óbito fala de causas naturais genéricas. Não há m otivos para acreditar que tenha sido diferente.

Durand interrom peu a exposição de Cluny com um gesto e se im iscuiu no discurso.

— Sugerim os ao governo francês a exum ação do cadáver da sra. Legrand, m as não parece que, depois de tantos anos e com o desaparecim ento de todos os envolvidos na história, esse detalhe venha a ser de interesse vital para eles.

Durand encostou-se no espaldar da poltrona com a expressão de quem considera lam entável essa falta de cuidado com os detalhes. Com um gesto, repassou a palavra a Cluny.

Cluny a recebeu com o um dever, não um prazer.

— Os dois m eninos crescem sob a m ão rígida e obsessiva do pai, que cuida com pletam ente de sua educação, sem interferências externas. Nem creche, nem escola, m enos ainda a convivência com crianças de sua idade. Com o passar do tem po, havia se transform ado num autêntico m aníaco. Talvez sofresse de m ania de perseguição, um a pessoa obcecada pela figura retórica do “inim igo”, que estaria em toda parte e em cada pessoa fora da casa em que viviam reclusos com o num a fortaleza. Nesse caso tam bém são apenas suposições m inhas, sem o apoio de dados concretos. O único que m antém contatos esporádicos com o m undo, sem pre sob rigoroso controle do pai, é Jean-Loup. O gêm eo, Lucien, fica prisioneiro na casa, um a criatura cuj o rosto não pode ser m ostrado ao m undo, um a espécie de Máscara de Ferro, para citar um exem plo literário. Os dois são subm etidos a um rigoroso treinam ento m ilitar, o m esm o que Legrand m inistrava aos agentes dos serviços secretos de que fazia parte. Vem daí a preparação de Jean-Loup nos m ais diversos cam pos, inclusive sua habilidade nas lutas. Não quero m e estender, m as ele m esm o revelou alguns detalhes aterrorizantes, perfeitam ente adequados à personalidade que Jean-Loup desenvolveu subsequentem ente…

Cluny fez um a pausa, com o se fosse m elhor que, para o bem de todos, tais detalhes ficassem restritos a ele. Por sua vez, Frank estava com eçando a entender. Ou pelo m enos a imaginar, m ais ou m enos o que Cluny tinha sido obrigado a fazer tam bém . Estava vindo à luz um a história que flutuava no tem po com o um iceberg no m ar, e assim com o a grande geleira, exibia som ente sua parte m enos volum osa. Um a parte coberta de sangue. E o m undo tinha batizado essa parte de Ninguém .

— Posso dizer que Jean-Loup e seu pobre irm ão praticam ente nunca foram crianças. Legrand conseguiu transform ar um dos j ogos infantis m ais antigos do m undo, a brincadeira de guerra, num autêntico pesadelo. Essa experiência uniu os dois irm ãos de m odo indissolúvel. A relação norm al entre gêm eos j á costum a ser m ais forte e m ais particular do que entre irm ãos com uns: o m undo é cheio de exem plos que dem onstram isso. Im aginem um caso em que, além de tudo, um dos dois vivia em condições de evidente desvantagem . Jean-Loup atribuiu a si m esm o o papel de defensor e protetor do irm ão m enos afortunado, que o pai tratava com o um ser inferior. Jean-Loup confessou que o m elhor entre os epítetos que o pai lhe destinava era “m onstro horrível”.

Houve um instante de silêncio. Cluny deu a todos o tem po de assim ilarem o que tinha dito. O que estavam ouvindo era de certo m odo a confirm ação de que havia um traum a por trás da persona de Jean-Loup. E agora que podiam verificar sua dim ensão, todos se davam conta de que superava am plam ente até as conj ecturas m ais fantasiosas. E ainda não tinha term inado.

— Mas o afeto que unia os dois era m órbido. Jean-Loup vive o dram a do irm ão com o se fosse seu, talvez com m aior intensidade, pois percebe que ele está indefeso diante da fúria e da perseguição do próprio pai.

Cluny fez um a nova pausa, obrigando-os a m ais um a edição do ritual dos óculos. Frank, Roncaille e Durand subm eteram -se pacientem ente. Cluny ganhara esse direito no curso das entrevistas com Jean-Loup, em contato com a escuridão de sua m ente, tentando reconstruir através do passado os m otivos de um presente sem futuro.

— Não sei dizer precisam ente qual foi o m otivo que desencadeou os acontecim entos na casa de Cassis num a certa noite de m uitos anos atrás. Talvez não tenha acontecido nada de particular, m as um a série de pequenas causas que, no decorrer do tem po, criaram as condições ideais para a explosão da tragédia. Todos sabem os que na casa incendiada foi encontrado um corpo com o rosto desfigurado…

Outra pausa. Os olhos do psiquiatra vagaram pela sala, não em busca, m as fugindo dos olhos dos outros, com o se fosse parcialm ente responsável pelo que iria dizer.

— Foi o próprio Jean-Loup quem matou o irmão. Seu afeto tinha chegado a tal ponto que, em sua m ente doentia, acreditava que esse era o único m odo de curá-lo de “seu m al”, com o ele costum a dizer. Com o se aquela aparência fosse um a verdadeira doença. Depois, cum priu o gesto da libertação, o ritual de tirar a pele do rosto para libertar o irm ão gêm eo da deform idade. Em seguida, assassina o pai e a governanta, que evidentem ente considera com o cúm plice, de m odo que tornasse plausível a hipótese do duplo hom icídio coroado por um suicídio. Então ateia fogo à casa. Poderia dar a tudo isso o significado sim bólico da catarse, m as m e parece com pletam ente desnecessário e retórico, m ais que científico. Depois, ele fugiu. Ignoro os detalhes de seu desaparecim ento…

Roncaille interveio para trazer de volta à terra por alguns instantes aquela narrativa que parecia suspensa num lim bo de epopeia de feiticeiras.

— Seguindo os docum entos encontrados na casa de Jean-Loup chegam os a um a conta num erada num banco de Zurique. Provavelm ente, era um a som a depositada por Marcel Legrand, um a bela som a em dinheiro, aliás. Jean-Loup só precisava conhecer o código da conta para ter acesso à quantia depositada. Não sabem os onde viveu até aparecer em Montecarlo, tom ando em prestado o nom e de um rapazinho m orto num acidente em Cassis, m as sobre o como não tem os nenhum a dúvida. Com aquele dinheiro à disposição, poderia viver a vida inteira sem trabalhar.

O secretário de Justiça Durand interveio.

— É bom term os um a coisa em m ente. Dado que para todos apenas um rapaz vivia naquela casa, a descoberta de um corpo com sua idade não levantou nem a m ais longínqua suspeita sobre a presença de um outro. De todo m odo, o incêndio devastou praticam ente a casa inteira e destruiu qualquer indício. Por isso o arquivam ento foi bastante rápido. O que deu àquele louco a possibilidade de roubar o cadáver do irm ão do cem itério de Cassis quando soube que não tinha sido devorado pelas cham as.

Durand se calou. Depois de um a leve hesitação, Frank se introm eteu naquela pausa.

— E a m úsica? — perguntou a Cluny.

O psiquiatra deixou passar um instante antes de responder.

— A relação dele com a m úsica é um ponto que estou tentando aprofundar. Parece que o pai era um aficionado fervoroso e um colecionador m aníaco de gravações raras. Provavelm ente, foi a única liberalidade que concedeu aos filhos em troca de tudo que os fez suportar. Mas m esm o nesse aspecto, a com unicação é difícil. Quando falo com ele sobre m úsica, o suj eito fecha os olhos e se alheia com pletam ente.

Agora, todos estavam vidrados em cada palavra de Cluny. Se ele percebeu, não deixou transparecer. Provavelm ente, tudo o que tinha descoberto ainda o afetava, m esm o durante um a sim ples exposição.

— O que gostaria de destacar agora é um aspecto sutil de toda essa história. Ter m atado o irm ão criou em Jean-Loup um sentim ento de culpa do qual nunca poderá se livrar. Ele considerava e ainda considera o m undo responsável pela m orte do irm ão e por tudo o que Lucien sofreu por causa de seu aspecto m onstruoso. Esta é a gênese da patologia de Jean-Loup com o serial killer, a m eio cam inho entre o perfil do m issionário e o do m anipulador. Um com plexo heteroinduzido por um m al-estar fam iliar que tem com o com pensação a conquista de um a norm alidade efêm era para o irm ão. O verdadeiro m otivo pelo qual m atou todas aquelas pessoas e utilizou a pele de seus rostos com o um a m áscara para o cadáver é que isso lhe parecia um a coisa devida, um m odo de com pensar o pobre infeliz por tudo aquilo que sofreu…

O psiquiatra estava sentado com as pernas levem ente afastadas. Abaixou os olhos para o chão. Quando voltou a erguê-los, havia piedade em seus olhos.

— Gostem os ou não, aquele hom em fez tudo por am or, um am or m órbido e incondicional pelo irm ão. Essa é m inha conclusão.

Cluny levantou de repente, com o se o fato de ter encerrado sua exposição finalm ente o livrasse de um peso que não desej ava carregar sozinho. Agora que tinha conseguido dividi-lo com outras pessoas, considerava que sua presença naquela sala era supérflua.

— Por enquanto, isso é tudo que tenho a dizer, senhores. Deem -m e m ais alguns dias e enviarei um relatório por escrito. Nesse m eio-tem po, continuarei com m eus encontros com o suj eito, em bora ele j á tenha nos dito tudo aquilo que precisávam os saber.

Roncaille se levantou e contornou a m esa para agradecer pessoalm ente ao psiquiatra. Apertou sua m ão e acom panhou-o até a porta. Ao passar ao lado de Frank, Cluny pousou um a m ão em seus om bros.

— Parabéns — disse sim plesm ente.

— Parabéns ao senhor tam bém e obrigado por tudo.

Cluny respondeu com um a espécie de careta que talvez fosse um sorriso ou quem sabe um a dem onstração de m odéstia. Acenou para Durand, sentado im óvel e pensativo. Durand assentiu.

Cluny saiu e Roncaille tornou a fechar a porta delicadam ente às suas costas. Os três perm aneceram na sala. O chefe de polícia retom ou seu lugar na m esa. Frank voltou a sentar-se em sua poltrona e Durand continuou m ergulhado em seus pensam entos.

Finalm ente, o secretário se levantou e foi olhar pela j anela. Daquele posto de observação, resolveu rom per o silêncio. Falou de costas, com o se tivesse vergonha de m ostrar a cara.

— Pelo que parece, essa história chegou ao fim , e tudo indica que isso aconteceu por m érito seu, Frank. O diretor Roncaille pode confirm ar que o próprio príncipe pediu que com unicássem os a você sua satisfação pessoal pelo resultado obtido.

Fez um a pausa que estava m uito distante do efeito m agnético obtido pelo dr. Cluny. Decidiu virar-se de frente.

— Serei sincero com o você foi com igo. Sei que não gosta de m im , pois j á m e disse isso claram ente faz algum tem po. Tam bém não gosto de você. Nunca gostei e não creio que possa vir a gostar. Há um abism o entre nós e nem eu nem você farem os o m enor esforço para construir um a ponte sobre ele. Todavia, por am or à j ustiça, há um a coisa que devo lhe dizer.

Deu dois passos e parou diante de Frank. Estendeu-lhe a m ão.

— Gostaria de ter m uitos policiais com o você.

Frank se levantou e apertou a m ão que Durand estendia. Por enquanto, e talvez para sem pre, era o m áxim o que am bos podiam fazer.

Depois Durand voltou a ser o que era, um frio secretário de Justiça, elegante e com um a leve pretensão de eficiência.

— Agora, se não se incom odarem , devo deixá-los. Até breve, m eus cum prim entos ao senhor tam bém .

Roncaille esperou pelo barulho da porta fechando. Sua expressão estava nitidam ente aliviada. Ficou m enos form al, sobretudo.

— O que vai fazer agora, Frank? Voltará para os Estados Unidos?

Frank fez um gesto que podia indicar absolutam ente nada ou qualquer lugar do m undo.

— Não sei. Por enquanto, estou dando um a olhada por aí. Verem os. Tenho bastante tem po para decidir.

Despediram -se e finalm ente Frank se sentiu autorizado a sair. Quando estava com a m ão na m açaneta da porta, a voz de Roncaille o deteve.

— Um a últim a coisa, Frank….

Frank ficou im óvel.

— Diga.

— Queria confirm ar que j á providenciei tudo o que m e pediu a propósito de Nicolas Hulot.

Frank girou sobre si m esm o e fez um a ligeira inclinação com a cabeça, com o convém diante do com portam ento de um adversário honrado, provando que é um hom em de palavra.

— Nunca duvidei disso, nem por um instante.

Saiu do escritório fechando a porta atrás de si. Enquanto percorria o corredor, ficou pensando se Roncaille teria suspeitado que suas últim as palavras eram um a clam orosa m entira.