Eu Mato
Capítulo 64
64
FRANK SAIU PELA PORTA PRINCIPAL da Sûreté Publique do Principado de Mônaco e se viu na rua, ao sol. Apertou os olhos por causa da repentina claridade, depois da luz suave dos corredores da central. Aquela lum inosidade plena, aquele sinal inconfundível de vitalidade teria incom odado o Frank Ottobre de pouco tem po atrás.
Mas agora não.
Agora bastava um sim ples par de óculos escuros. Retirou os Ray -Ban do bolso do paletó e os colocou. Tantas coisas tinham se passado, quase todas ruins, algum as até m esm o horripilantes. Tantas pessoas tinham m orrido. Agora e no passado. Um a delas era seu am igo Nicolas Hulot, um dos poucos hom ens que conhecera em quem essa definição cabia perfeitam ente.
De pé na altura da m etade da Rue Notari estava o inspetor Morelli, esperando por ele, com as m ãos enfiadas nos bolsos. Frank desceu os poucos degraus daquela escada e foi até ele, cam inhando com calm a. Enquanto se aproxim ava, tirou os óculos que tinha acabado de colocar. Claude m erecia ser olhado nos olhos, sem telas de proteção e sem barreiras. Sorriu e rem exeu dentro de si para ver se ainda dispunha de um tom leve, talvez um pouco gasto, m as verdadeiro.
— Olá, Claude, que ventos o trazem ? Está esperando alguém que não chega?
— Não, m eu caro. Só espero gente que vai chegar com certeza. No caso específico, estava esperando você, precisam ente. Não estava pensando em sum ir e deixar tudo por isso m esm o, estava? Você m e deve um a coisa. Para m im , ainda é o culpado por um retorno de Nice a bordo de um carro guiado por um louco desem bestado.
— Hum … Xavier?
— Deve estar se referindo ao ex-agente Xavier, que nesse m om ento deve estar desesperado consultando as ofertas de em prego dos classificados, dando um a certa preferência às em presas de j ardinagem . Você sabe, os cortadores de gram a…
Naquele preciso instante, o agente Xavier Lacroix chegou da Rue Suffren Ray m ond ao volante de um carro da polícia. Passou diante deles e sorriu pela j anela, acenando com a m ão. Parou um pouco depois. Foi apenas o tem po de em barcar um outro agente que esperava por ele na calçada e o carro partiu de novo.
No rosto de Morelli se estam pou aquela expressão rarefeita de quem foi pego com a boca na botij a. Frank riu. Estava contente de que entre eles existisse, graças a um sim ples fator natural, um a atm osfera tão diferente da que tinha deixado lá em cim a, na sala de Roncaille.
— Se não fez isso antes, esse m e parece ser outro excelente m otivo para expulsar o agente Lacroix. Suspeito que por culpa dele você acabou de fazer um discreto papelão.
— Quem , eu? Im agine! Um a pitada de saudável e honesta cara de pau resolve isso. E você, o que pretende fazer no futuro próxim o?
Frank respondeu vagam ente.
— Talvez dê um a volta por aí, sabe com o é…
— Sozinho?
— Claro! O que um agente do FBI m ais furado que um queij o suíço conseguiria arranj ar?
Morelli teve sua revanche. Naquele preciso instante, um a Laguna m etálica despontou exatam ente do m esm o lugar de onde viera o carro de Xavier e parou ao lado deles. Na direção, Helena Parker, o rosto sorridente e um olhar que nem parecia o dela. Se alguém tivesse tirado um a fotografia em close de seus olhos um a sem ana antes e com parasse com os olhos que exibia agora, teria dificuldades para afirm ar que era a m esm a m ulher. Stuart estava sentado no banco de trás e exam inava a entrada do com ando da Sûreté Publique com intensa curiosidade.
Morelli olhou para ele cheio de ironia.
— Sozinho, não é? Creio que em algum lugar desse m undo ainda se faz j ustiça. É o que perm ite que você entre nesse carro e que Lacroix m antenha o em prego…
Estendeu-lhe a m ão e Frank apertou-a com prazer. O tom era diferente agora. Era o tom de quem viu e fala com um am igo que tam bém viu as m esm as coisas.
— Ande, vá antes que essa m ulher perceba que você é um suj eito com m ais furos que um queij o suíço e resolva partir sozinha. As coisas por aqui chegaram ao fim .
— Pois é, essa história acabou. Mas pode ter certeza de que am anhã, vinda de algum lugar, um a nova história com eça.
— É assim que funciona, Frank, em Montecarlo ou em qualquer lugar do m undo. Aqui é só um pouco m ais glam oroso.
Morelli ficou indeciso se devia avançar além disso. Não por insegurança, m as por um senso de discrição que Frank teve que aprender a reconhecer.
— Já resolveu o que vai fazer depois?
— Está falando de trabalho?
— É.
Frank deu de om bros, despreocupado. Morelli sabia m uito bem que não era bem assim , m as por ora não se podia querer m uito m ais que isso.
— O FBI nesse m om ento é com o o paraíso: pode esperar. O que preciso agora é de um as boas férias, férias de verdade, para rir e m e divertir com as pessoas certas.
Frank fez um gesto significativo com a m ão em direção ao carro.
De repente, Morelli arregalou os olhos e enfiou a m ão no bolso do paletó.
— Droga, quase esqueci. Teria que m andar toda a polícia da França atrás de você para lhe entregar isso.
Tirou um envelope azul, leve, do bolso.
— Sem contar que a pessoa que m e entregou essa carta para você nunca m e perdoaria.
Frank exam inou-a um instante, sem abrir. No envelope via-se seu nom e escrito num a caligrafia fem inina, delicada, m as sem afetação. Im aginava de quem seria. Mas resolveu guardá-la no bolso e esticou a m ão para abrir a porta.
— Tchau, Claude. Nos Estados Unidos dizem os take it easy, fique num a boa.
— Você está num a boa, passeando de férias pelo m undo.
Fazendo eco a essas palavras, do interior do carro chegou a voz aguda de Stuart.
— Vam os à Disney — disse em inglês.
Morelli deu um passo para trás e ergueu os olhos ao céu. Fingiu um a expressão desolada, dirigindo-se ao m enino enfiado no espaço entre os dois bancos dianteiros. Respondeu em bom inglês, levem ente arranhado pelos erres franceses.
— Olhem para eles. Vão pra Disney e eu aqui, puxando a carreta.
Depois, fez um a pequena concessão.
— Em Montecarlo, é bem verdade, m as sem pre trabalhando duro e sozinho com o um a m ula.
Frank entrou no carro, fechou a porta e abriu a j anela. Falou com Helena, m as de form a que o inspetor ouvisse.
— Vam os em bora logo, antes que esse pedinte arruíne nosso dia. Não sei onde eles vão buscar os policiais neste lugar. E depois dizem que a polícia de Montecarlo está entre as m elhores do m undo…
O carro partiu e Frank lançou a Morelli um últim o gesto pela j anela. Chegaram ao final da Rue Notari e viraram à direita. No final da Rue Princesse Antoinette pararam por causa da preferencial. Na esquina, Frank reconheceu Barbara subindo a rua, andando rápido, os cabelos ruivos cintilando com o m ovim ento de seus passos. Quando o carro deu partida de novo, Frank se virou para segui-la com os olhos. Pensou que a presença daquela m oça, naquela rua, não era puro acaso. Morelli tinha acabado de dizer que só esperava gente que chegaria com certeza…
Helena lhe deu um a leve cotovelada. Quando se virou para ela, viu que sorria.
— Ei! Ainda nem partim os e você j á está se virando para olhar outras m ulheres?
Frank apoiou-se no encosto e colocou os óculos escuros com um gesto teatral.
— Caso lhe interesse, a m ulher com quem acabam os de cruzar é o verdadeiro m otivo da presença de Morelli naquela calçada. Nada de despedidas em ocionadas do am igo que parte. Viu o que m e restava em Montecarlo, sozinho com o um cão?
— Isso só confirm a a teoria de que o m undo está cheio de hom ens covardes e m entirosos.
Frank olhou para a m ulher sentada a seu lado. Quanta transform ação em tão poucos dias! E só o pensam ento de que isso era, em parte, m érito seu j á bastava para transform á-lo tam bém . Sorriu e sacudiu energicam ente a cabeça, recusando abertam ente tudo o que ela tinha acabado de afirm ar.
— Não, isso confirm a a teoria de que o m undo está cheio de covardes m entirosos. Alguns deles são hom ens apenas por um inevitável dado estatístico.
Frank fingiu im pedir qualquer reação de Helena dando instruções sobre o percurso. Indicou a rua com a m ão.
— Dobre à direita. Tem os que contornar a m arina e depois seguir as placas para Nice.
— Não adianta disfarçar, pretendo retom ar essa discussão — rebateu Helena.
No entanto, sua expressão desm entia as palavras. O carro com eçou a breve descida até a m arina e depois atravessou o cais cheio de gente. Stuart estava pendurado na j anela e parecia fascinado com todo aquele caos estival e colorido de gente e de barcos. Apontou um iate particular, ancorado na m arina à direita, que tinha até um pequeno helicóptero estacionado na ponte superior.
— Mam ãe, olha que barco grande. Tem até helicóptero.
Helena respondeu sem se virar.
— Bem , é com o eu disse, Stuart. O Principado de Mônaco é um lugar estranho. É um país bem pequeno, m as tem um m onte de gente im portante que vem para cá.
— Ah, eu sei por quê. Porque aqui não pagam im postos.
Frank não achou oportuno explicar que cedo ou tarde os im postos acabam sendo pagos, em qualquer lugar do m undo onde se estej a. Mas não era um discurso que Stuart pudesse entender e não tinha vontade de falar naquilo. Não tinha vontade nem de pensar naquele m om ento. Deixaram para trás o local onde tinha sido encontrado o corpo de Arij ane. Helena não disse nada e Frank tam bém não. Ficou contente de estar com os Ray -Ban para que ela não visse seus olhos. Chegaram à curva da Rascasse. Deixaram à esquerda o edifício onde ficava a Rádio Monte Carlo. Frank reviu por um instante a cabine de direção atrás dos vidros e a luz verm elha com as palavras “No ar” se acendendo. Im aginou o DJ que estava no ar e…
Chega. Acabou. E se amanhã alguma outra história vai começar, não é nada que lhe diga respeito.
A cam inhonete pegou a estrada para sair da cidade e, assim que passou pela bifurcação de Fontvieille pegando a estrada para Nice, aquela pequena tensão que se criou a bordo virou fum aça. Rem exendo-se no assento em busca de um a posição m elhor, Frank sentiu o rum or de papel no bolso do paletó. Enfiou a m ão e tirou o envelope azul que Morelli lhe entregara.
Mensageiro não sofre castigo. Mas quem escreveu essa carta, certamente sim.
O envelope não estava colado, m as só com a aba enfiada para dentro. Frank tirou um a folha azul com o o papel do envelope, dobrada em dois. Quando abriu, viu-se diante de um a breve m ensagem com a m esm a caligrafia delicada do envelope.
Olá, bonitão,
Junto-me às congratulações gerais ao herói do dia. E acrescento meus agradecimentos mais sinceros por tudo o que fez por mim. Acabei de receber uma comunicação das autoridades do Principado de Mônaco. Haverá uma cerimônia oficial em memória do delegado Nicolas Hulot, em reconhecimento de seus méritos, e soube de fonte segura que você foi o principal artífice disso. Sabe o que isso significa para mim, e não estou me referindo apenas à parte econômica, que vai me garantir uma velhice tranquila, tão tranquila quanto a minha poderia ser.
Diante de certos acontecimentos, a única coisa que o mundo deseja é esquecer o mais rápido possível. Mas cabe a alguém a tarefa de recordar, para que não aconteçam novamente.
Tenho muito orgulho de você. Você e meu marido são os melhores homens que encontrei em minha vida. A Nicolas, eu amei e ainda amo. E meu afeto por você é para sempre.
Desejo toda a boa sorte que merece e que certamente encontrará.
Um beijo.
Céline
Frank releu a breve carta de Céline Hulot duas ou três vezes antes de dobrar e enfiar de volta no bolso do paletó. Enquanto se livrava do trânsito e pegava a subida para a autoestrada, Helena voltou os olhos para ele por um instante.
— Más notícias?
— Ao contrário. São os cum prim entos e os votos de um a am iga querida.
Stuart se enfiou no espaço entre os bancos. Sua cabeça estava praticam ente entre as de Frank e Helena.
— É um a que vive em Montecarlo?
— Sim , Stuart, m ora aqui.
— É um a m ulher im portante?
Frank olhou para Helena. A resposta que deu a Stuart valia sobretudo para ela.
— Claro que é um a m ulher im portante. É a esposa de um policial.
Helena sorriu. Stuart voltou a seu lugar, m eio na dúvida. Voltou a se sentar no banco de trás olhando o m ar que desaparecia da j anela à m edida que avançavam para o interior. Frank esticou o braço para pegar o cinto de segurança. Enquanto colocava, falou com Stuart.
— Meu j ovem , a partir desse m om ento, colocar os cintos até nova ordem . Roger?
Frank resolveu que, depois de tudo o que tinha passado, tinha ganhado o direito de ser um pouco idiota. Estendeu o braço para a frente, com o o chefe de um a caravana indicando a estrada para o oeste ao com boio de pioneiros.
— França, aqui vam os nós!
Ele e Helena receberam com um sorriso a barulhenta reação do m enino. Enquanto verificava se Stuart estava colocando o cinto corretam ente, Frank teve tem po de observar o perfil da m ulher ao volante, concentrada na direção em m eio ao trânsito congestionado da Côte d’Azur no verão. Seguiu seu perfil com olhos que eram com o um lápis desenhando aquele m inuto de m odo indelével em sua m em ória.
Pensou que não seria sim ples para nenhum dos dois. Teriam que dividir seus esforços igualm ente entre a vontade de viver e a vontade de esquecer. Mas estavam j untos e isso era, por si só, um ótim o com eço. Aj eitou-se m elhor no banco e apoiou a nuca no encosto. Fechou os olhos por trás da tela dos óculos escuros. Lem brou-se de que tudo o que lhe interessava para o futuro estava naquele carro com ele. Tinha certeza de que não poderia ter desej ado nada m elhor que isso.