Eu Mato

Giorgio Faletti · Capítulo 33 de 76

Páginas do PDF

Eu Mato

Capítulo 28

28

 

QUANDO FRANK CHEGOU NA ENTRADA da central de polícia, na Rue Notari, a tarde j á ia bem adiantada. Fez o traj eto entre o Parc Saint-Rom an e a central a pé, deslizando entre os passageiros do sol poente, quase sem vê-los, em bora enchessem as ruas. Estava agitado. Quando caçava um crim inoso, aquela ansiedade, aquela vibração sem pre voltava, com o um a voz interior que o pressionava, que o incitava a ir m ais rápido. Agora que o m arasm o tinha tom ado conta da investigação e nenhum a de suas conj ecturas tinha chegado a lugar algum , um a pequena luz surgia. Havia algum a coisa brilhando à flor-d’água e Frank não via a hora de m ergulhar e descobrir se era m esm o um a luz ou apenas um a m iragem provocada pelos reflexos.

Na entrada, quando o agente de plantão o viu chegar, deixou que passasse sem m uita com plicação. Frank ficou pensando se, ao falar dele, usavam seu nom e ou sim plesm ente “o am ericano”.

Subiu as escadas e chegou à sala de Nicolas Hulot.

Atravessou o corredor e ficou de frente para a porta. Bateu duas vezes na m adeira com os nós dos dedos e abriu a porta. A sala estava deserta.

Ficou um segundo perplexo, de pé no corredor. Resolveu entrar. Estava tom ado por um verdadeiro frenesi de verificar se sua hipótese correspondia à verdade. Claro que Nicolas não criaria problem as se o fizesse em sua ausência.

Sobre a escrivaninha de m adeira estava o dossiê com todos os relatórios e pastas relacionados ao caso. Abriu e com eçou a procurar o envelope com a foto da casa de Allen Yoshida que Froben tinha trazido depois da inspeção dos locais. Estudou todas elas atentam ente. Sentou-se na cadeira da escrivaninha, pegou o telefone e discou o núm ero do delegado de Nice.

— Froben?

— Sim , quem é?

— Olá, Claude, é Frank.

— Oi, am ericano. Com o vai?

— Posso lançar m ão de um a aj uda extra?

— Li os j ornais, está tão m al assim ?

— Está. Im agine que m esm o quando vai m al, dam os um suspiro de alívio porque não está pior ainda.

— Parabéns. Com toda essa confusão, o que posso fazer por você?

— Responder a algum as perguntas.

— Diga lá.

— Sabe se alguém tocou em algum a coisa na casa de Yoshida, sei lá, se tirou algum a coisa do lugar sem querer, antes que vocês chegassem para as fotos e am ostras?

— Acho que não. A em pregada que descobriu o local do crim e nem entrou. Quase desm aiou quando viu todo aquele sangue. E avisou os seguranças im ediatam ente. Deve lem brar que Valm eere, o chefe da vigilância, é um ex-policial e conhece os procedim entos. Nós, obviam ente, não tocam os em nada. As fotos que entreguei são da casa exatam ente com o estava quando chegam os.

— Certo, Claude. Desculpe, m as precisava estar absolutam ente certo a esse respeito.

— Tem algum a pista?

— Não sei. Espero que sim . Preciso verificar um detalhe, m as não quero criar ilusões antes do tem po. Outra coisa…

O silêncio do outro lado do telefone significava que Froben estava à espera.

— Você lem bra se na discoteca de Yoshida havia algum LP de vinil?

— Isso eu posso responder com certeza. Não. Digo isso porque um dos m eus hom ens, que é apaixonado por essas coisas, notou que o equipam ento tinha um toca-discos, m as nas prateleiras só havia CDs. Fez até um com entário a respeito…

— Grande Froben. Não esperava m enos que isso de você.

— Certo. Se precisar de algum a coisa, estou aqui.

— Obrigado, Claude. É um am igo.

Desligou e ficou um m om ento pensando. Tinha chegado a hora de verificar se aquele filho da puta com etera um pequeno erro, o prim eiro, desde o com eço daquela história. Ou se o erro era dele, Frank, confundindo vaga-lum e com lanterna.

Abriu a gaveta da escrivaninha logo abaixo do tam po da m esa. Lá estava a cópia da fita VHS que tinham encontrado na Bentley de Yoshida. Sabia que Nicolas a tinha guardado ali, j unto com as fitas das gravações da rádio. Pegou a fita e enfiou no videocassete ligado à televisão. Ligou os aparelhos e apertou o play no controle rem oto do videocassete.

Na tela, surgiram as barras coloridas e depois a sequência. Nem que vivesse cem anos e visse aquelas im agens um a vez por dia, conseguiria fazê-lo sem estrem ecer. Reviu a figura de negro agitando-se com o punhal na m ão. Sentiu um nó na garganta e um a m ordida apertando seu estôm ago. E um a raiva tão grande que só se aplacaria no dia em que conseguisse pegá-lo.

Isso, estamos quase lá…

Tentou passar a fita rapidam ente, m as tinha m edo de que o detalhe lhe escapasse. Finalm ente a proj eção chegou ao ponto que desej ava. Deu um pequeno e contido grito de alegria.

Sim, sim, sim…

Parou a im agem apertando o botão de pausa. A coisa era tão pequena que, antes, sentia-se inseguro para afirm ar a alguém , com m edo de sofrer m ais um a desilusão. Mas agora estava ali, diante de seus olhos, e valia a pena ver se conseguia tirar algum a coisa dali. É verdade que, por enquanto, era um detalhe tão insignificante que não poderia ser superestim ado, m as era a única coisa que tinham em m ãos.

Observou atentam ente a cena parada na tela da TV. O assassino im óvel com o punhal levantado sobre Allen Yoshida. Sua vítim a olhava para ele com olhos esbugalhados, as m ãos e as pernas im obilizadas com aram e, a boca tapada com fita isolante, um a careta de dor e terror no rosto. Frank pensou que aquele hom em m orreria de novo cada vez que alguém visse aquele vídeo. E visto quem era, a cada vez seria um a m orte m erecida.

Naquele instante, a porta da sala se abriu e entrou Morelli. Parou na soleira, sem palavras ao vê-lo ali.

Frank notou que não estava surpreso, estava constrangido.

De algum m odo, sentiu-se culpado pelo desconforto do inspetor.

— Oi, Claude, desculpe se m e introm eti, m as não tinha ninguém e precisava m uito verificar um a coisa com certa urgência…

— Não, não tem problem a algum . Se estava procurando o delegado Hulot, ele está em reunião no salão, no andar de baixo. Os chefes tam bém estão lá.

Frank ficou desconfiado. Se estavam em reunião para ver em que pé estavam as investigações e para coordenar as próxim as ações, achou estranho que não o tivessem avisado. Sem pre se com portava de m aneira não invasiva, para não colocar Nicolas num a situação em baraçosa. Perm anecia sem pre um passo atrás dele e só tom ava a iniciativa quando esta era deixada em suas m ãos. Tudo isso para não atropelar o delegado aos olhos de ninguém : de seus superiores, m as sobretudo de seus subordinados, que eram , na realidade, para quem im portavam aquelas atitudes.

Quanto ao estado de espírito de Nicolas, j á era outra história. Tinha ficado m uito im pressionado com seu desabafo pela m anhã, na casa de Jean-Loup, m as entendia perfeitam ente, tanto no plano hum ano quanto no âm bito profissional, o porquê daquilo.

Eles, sim , eram as duas faces da m esm a m oeda. Quem era cara, quem era coroa, não tinha a m enor im portância. Entre eles não havia problem as.

Relacionou a reunião quase furtiva com a visita de Dwight Durham à sua casa. Provavelm ente, as autoridades do Principado pensavam da m esm a m aneira, m as do ponto de vista oposto. Sua presença ali, depois da intervenção da diplom acia am ericana, não era m ais relacionada a questões pessoais, quase um acordo entre cavalheiros, m as um a presença oficial.

Frank deu de om bros. Não tinha vontade de se m eter nas particularidades da diplom acia. Estava pouco se lixando. Tudo o que desej ava era pegar o assassino, trancá-lo num a cela e j ogar as chaves fora. Deixava a quem de direito decidir de quem seria o crédito.

Morelli tinha se recuperado do m om ento de im passe entre eles.

— Estou indo lá para baixo. Não quer vir?

— Acha que devo?

— Sei que m andaram ligar para você duas vezes, m as o telefone estava ocupado.

A coisa parecia plausível. Ficara bastante tem po no telefone com Cooper, e quando Durham chegou, tinha desligado o celular, que, aliás, usava m uito pouco. Ficava quase todo o tem po dentro de um a gaveta no Parc Saint-Rom an.

Frank se levantou da escrivaninha. Pegou a foto que tinha acabado de exam inar e retirou a fita do videocassete. Levou tudo consigo.

— Tem os com o ver a fita lá em baixo?

— Sim , tem os tudo o que é necessário.

Saíram da sala, percorreram o corredor em silêncio e pegaram a escada. O rosto de Frank era um a m áscara de pedra. Chegaram no andar de baixo e fizeram o m esm o percurso que tinham feito em cim a, na direção oposta. Diante da penúltim a porta à direita, Morelli bateu levem ente.

— Entre — disse alguém lá de dentro.

O inspetor em purrou a porta e entrou.

No grande salão pintado com tinta brilhante em dois tons de cinza, havia um bom núm ero de pessoas sentadas ao redor de um a longa m esa retangular. Nicolas Hulot, o dr. Cluny, o diretor da Sûreté, Roncaille e dois personagens que Frank nunca tinha visto antes.

Quando ele surgiu, fez-se um silêncio geral.

Frank ficou m ais desconfiado ainda. Houve a clássica pausa de quem é surpreendido com a boca na botij a. Frank pensou que estavam na casa deles e tinham todo o direito de fazer quantas reuniões quisessem , com ele ou sem ele. Mas o com portam ento geral confirm ava sua sensação. Nicolas olhava para todos os cantos da sala, sem coragem de fitá-lo nos olhos e tinha um ar bastante constrangido, com o Morelli um pouco antes. Frank avaliou a hipótese de que seu com portam ento fosse devido a algum outro m otivo. Na sua ausência, devia ter ouvido um belo serm ão sobre os resultados negativos das investigações até o m om ento.

Roncaille se recuperou prim eiro. Levantou-se e deu alguns passos em direção ao am ericano.

— Ah, Frank, boa-tarde, sente-se. Estávam os j ustam ente vendo em que pé estão as investigações enquanto esperávam os por você. Acho que não conhece o dr. Alain Durand, procurador-geral, que trata pessoalm ente desse caso…

Indicou um suj eito baixo com cabelos alourados e ralos, olhos pequenos e encovados por trás de lentes sem arm ação, sentado na cabeceira. Usava um elegante terno cinza que não conseguia lhe dar o aspecto que ele j ulgava ter. Cum prim entou Frank levem ente com a cabeça.

— E o inspetor Gottet, da Com puter Crim e Unit…

Dessa vez foi o hom em sentado à esquerda de Durand quem cum prim entou com a cabeça. Era j ovem , de cabelos escuros, bronzeado, e provavelm ente frequentava academ ias de ginástica nas horas livres, praias durante o verão e m áquinas de bronzear durante o inverno. Parecia m ais um yuppie que um policial.

Roncaille dirigiu-se às pessoas que tinha acabado de apresentar.

— Esse é Frank Ottobre, agente especial do FBI, agregado à polícia do Principado para as investigações do caso “Nenhum ”.

Frank foi sentar à direita de Cluny, do lado esquerdo da m esa, quase em frente a Nicolas. Buscou o olhar dele, m as não encontrou nada. Continuava a observar um ponto qualquer sob a m esa, com o se tivesse perdido algum a coisa.

Roncaille voltou a seu lugar.

— Bem , agora que estam os todos aqui, podem os prosseguir. Frank, o dr. Cluny, que exam inou as gravações dos telefonem as do indivíduo, ia com eçar seu relatório.

Foi a vez de Frank concordar em silêncio. Cluny aproxim ou a cadeira da m esa e abriu a caderneta de notas que tinha diante de si. Clareou a voz com o se estivesse com eçando um a aula na universidade.

— Depois de um exam e m enos superficial do que as análises que pude fazer durante os telefonem as, cheguei, grosso modo, às m esm as considerações. Trata-se de um suj eito extrem am ente com plexo, um tipo que, devo dizer, nunca encontrei antes. Há certas particularidades em seu modus operandi que o incluem com direitos plenos na casuística do serial killer. Por exem plo, a territorialidade, que o leva a agir única e exclusivam ente nos lim ites do Principado. O fato de privilegiar um a arm a branca, que perm ite o contato direto com a vítim a. Podem os pensar que a prática de esfolar as vítim as pode ser vista com o um ritual fetichista e, ao m esm o tem po, com o um overkilling no sentido estrito. Através do m assacre do cadáver, o assassino dem onstra sua com pleta suprem acia sobre a pessoa que decidiu atacar. O período de calm a entre os hom icídios tam bém faz parte do quadro geral. Portanto, até aqui tudo parece norm al…

— Porém ?… — disse Durand com um a voz grave, que soava absolutam ente incom patível com seu aspecto físico.

Cluny fez um a pausa teatral. Tirou os óculos e apertou a base do nariz, com o Frank j á o tinha visto fazer. Parecia ter um a habilidade especial para m anter a atenção sobre suas palavras. Recolocou os óculos e concordou com a cabeça em direção a Durand.

— Exato, aqui com eçam os “poréns”… O suj eito é dono de grande dom ínio verbal e de um a capacidade de abstração absolutam ente fora do com um . Usa im agens que às vezes são até poéticas, em bora am argas. Tam bém a definição que faz de si m esm o, “um e nenhum ”, se encaixa perfeitam ente nessas considerações. Além da inteligência aguda, deve ser um hom em de cultura bastante elevada. Estudos acadêm icos, em ciências hum anas, eu diria, talvez de nível universitário, ao contrário do perfil m édio do serial killer, representado em sua m aioria por expoentes da classe m édia baixa, de pouca cultura ou vivência escolar. São, na im ensa m aioria dos casos, pessoas com um quociente de inteligência bastante baixo. Mas tem um a outra coisa que m e deixa particularm ente perplexo…

Mais um a pausa. Frank ficou olhando o psiquiatra repetir a pantom im a dos óculos e do aperto na base do nariz. Durand aproveitou para lim par os seus.

Aplausos em cena aberta, Cluny. Muito bem, estamos à sua disposição, mas, por favor, continue. E trate de comprar lentes de contato de uma vez.

— O fato de que, no decorrer da conversa, ele fale quase com o se fosse coagido ao crim e, ao hom icídio. Se por trás de um distúrbio de personalidade desse tipo existem , com o substrato, vivências da vida com um , ou sej a, pai ou pais dom inadores, sevícias e hum ilhações sofridas ou coisas sem elhantes, isso faz parte do quadro norm al. Mas há um com portam ento que se verifica em casos de desdobram ento da personalidade, com o se duas pessoas convivessem ao m esm o tem po no suj eito. E, aqui, retornam os ao “um e nenhum ” de que j á falam os…

Frank pensava que todas essas considerações eram bobagens e ponto final.

Um belo exercício de estilo e nada m ais. Naquele caso específico, traçar o perfil do assassino poderia ser útil, m as não determ inante. Aquele suj eito não era apenas um hom em que agia, era tam bém um hom em que pensava, e pensava m uito, antes de agir. E de m aneira excepcional, além de tudo. Para pegá-lo tinham que conseguir ir além da lucidez dos seus pensam entos.

Não disse nada, por tem or de que um a sim ples constatação fosse com preendida com o adm iração.

Durand interveio e, pelo que disse, Frank foi obrigado a adm itir que não era um idiota. Sabia com o conduzir um a reunião daquele tipo.

— Senhores, estam os entre colegas e ninguém pode nos ouvir. Não se trata de um a com petição para ver quem é o m elhor. Pediria encarecidam ente que colocassem na m esa, sem pudores de nenhum tipo, qualquer perplexidade, m esm o as que parecerem m ais banais. Nunca se sabe de onde pode vir um a ideia. Vou com eçar. O que se pode dizer da relação do assassino com a m úsica?

Cluny deu de om bros.

— Esse é um outro aspecto controverso. “Um e nenhum ”, m ais um a vez. De um lado, há um a paixão evidente, na m edida em que parece conhecê-la e am á-la m uito. A m úsica deve ser um a espécie de refúgio prim ário para esse hom em , um a espécie de esconderij o m ental. Por outro lado, o uso desse m eio para fornecer indicações, indícios sobre sua próxim a vítim a, nos envolve num j ogo de destruição da m úsica, um a arm a com a qual ele nos desafia. Ele se sente superior a nós, em bora a pressão que o leva a fazer o que faz estej a baseada num a sensação de inferioridade e de frustração. Estão vendo? Mais um a vez, “um e nenhum ”…

Hulot levantou a m ão.

— Diga, delegado.

— Que finalidade poderia ter em sua opinião, à parte a m otivação psicológica, o fato de retirar um detalhe anatôm ico das vítim as? Quer dizer, vou tentar explicar m elhor. O que ele faz com a pele da cabeça desses infelizes? Para que poderia servir?

O silêncio caiu na sala. Todos j á tinham se colocado aquela questão algum as vezes. E agora que tinha sido form ulada em voz alta, aquela pausa significava que ninguém encontrara nem a som bra de um a resposta.

— Bem , sobre isso, com o cada um de nós, só posso levantar hipóteses e por enquanto todas elas seriam igualm ente válidas…

— Poderia ser alguém com um aspecto físico horrível, que se vinga de sua condição nas vítim as? — perguntou Morelli.

— Claro, é possível. No entanto, devem os ter em m ente que um aspecto físico desagradável ou m esm o m onstruoso cham a por si só bastante atenção. Um a aparência física negativa é a coisa que m ais m exe com a fantasia das pessoas, segundo a equação “feio igual m au”. Se houvesse um a espécie de Frankenstein em circulação, alguém j á teria denunciado. Um pessoa assim não passa despercebida.

— Mas m e parece que não devem os descartar esse cam inho a priori — interveio Durand com sua voz grave.

— Claro que não. Nenhum cam inho é descartável, infelizm ente.

— Obrigado, dr. Cluny.

Roncaille encerrou por ora a parte da análise psicológica e dirigiu-se ao inspetor Gottet, que até então ouvia tudo em silêncio.

— Sua vez, inspetor.

Gottet com eçou a falar de suas com petências com os olhos brilhando, anim ado pelo fogo sagrado da eficiência.

— Avaliam os todas as causas possíveis da im possibilidade de interceptação das ligações telefônicas do “ENI”.

Gottet olhou para ele. Frank teve vontade de rir e se conteve com dificuldade. Gottet era m esm o um fanático. “ENI” era um a sigla para “Elem ento Não Identificado”, bastante com um entre os policiais am ericanos, m as não ali.

— Acabam os de receber um novo sistem a de m onitoram ento das cham adas de telefonia m óvel, o DCS 1000, que é cham ado de “Carnivore”. Se a ligação vier de um celular, não haverá problem a…

Frank tinha ouvido falar do sistem a em Washington, quando ele ainda estava em fase de testes. Não sabia que j á estava em operação. Aliás, naquela altura dos acontecim entos havia m uita coisa que ele desconhecia. Gottet recom eçou sua exposição.

— No que diz respeito à telefonia fixa, podem os entrar diretam ente no com putador que m onitora a central telefônica da rádio, e verificar todos os acessos com um a busca de sinal, sej a os que chegam das centrais das em presas de telefonia, sej a os que, por essa ou outras vias, chegam via web…

Fez um a pausa teatral, m as sem obter os resultados m agnéticos de Cluny.

— Com o todos sabem , com os program as adequados e um a certa habilidade, é possível fazer ligações telefônicas via internet sem ser interceptado. A m enos que, do outro lado, estej a alguém igualm ente preparado, ou m ais. Por isso, conseguim os a colaboração de um hacker que m udou de lado. Agora é consultor free-lancer para a defesa contra hackers. Colabora eventualm ente com a polícia, em troca de fecharm os os olhos para algum as de suas antigas falcatruas. Tem os o m áxim o em m atéria de tecnologia disponível no m ercado aplicada a essa busca. Dessa vez, ele não vai escapar…

A intervenção de Gottet foi significativam ente m ais breve que a de Cluny, m esm o porque havia m enos a dizer sobre o assunto. O m istério da incapacidade de interceptar os telefonem as era um a m ancha na cam isa recém -lavada do departam ento. Todos arregaçariam as m angas até as axilas para conseguir tirá-la.

Durand passou os olhos pela assistência.

— Alguém teria m ais algum a coisa a dizer?

Hulot parecia ter se recuperado do constrangim ento anterior e readquirido todo seu sangue-frio.

— Estam os dando sequência às investigações sobre a vida particular das vítim as, m as não esperam os grande coisa nesse sentido. Tam bém continuam os a m onitorar a Rádio Monte Carlo. Se o suj eito ligar de novo e nos der outro indício, estam os prontos para intervir. Organizam os um batalhão especial de policiais à paisana, dentre os quais algum as m ulheres do nosso quadro fem inino, para vigiar os locais. Ao m esm o tem po, tem os à nossa disposição a unidade de com bate com atiradores de elite e equipam entos de visão noturna. Contratam os especialistas em m úsica que tam bém estão à disposição para nos aj udar a decifrar a m ensagem , se houver algum a. Um a vez decifrada, pretendem os m anter a pessoa apontada com o vítim a provável sob vigilância. Vam os esperar que o assassino com eta um erro, visto que até hoj e tem se m ostrado infalível.

Durand olhou para ele do fundo da m esa. Frank conseguiu distinguir que seus olhos eram cor de avelã. Dirigiu-se a todos e a nenhum em particular com sua voz de barítono.

— Senhores, é inútil lem brar o quanto é im portante que não com etam os m ais erros. Essa não é apenas um a investigação da polícia: está se transform ando em m uito m ais do que isso. Tem os que pegar esse suj eito o quanto antes ou a m ídia vai fazer picadinho de nós.

Além do Conselho de Estado, sem falar no príncipe em pessoa, pensou Frank.

— Quero ser inform ado de qualquer coisa, não im porta a hora. Até breve, senhores, conto com todos vocês.

Durand levantou e todos o im itaram . O secretário de Justiça dirigiu-se para a porta, seguido por Roncaille, que seguram ente queria se aproveitar de sua presença para m ais um exercício de relações públicas.

Morelli esperou que os dois se afastassem o suficiente para sair tam bém , depois de lançar a Hulot um olhar de plena solidariedade.

O dr. Cluny ficou de pé ao lado da m esa e estava recolhendo a caderneta com suas notas.

— Se precisarem de m inha presença na rádio, estou às ordens.

— Seria ótim o, doutor — disse Hulot.

— Então nos vem os m ais tarde.

Cluny tam bém deixou a sala. Frank e Nicolas ficaram sozinhos.

O delegado indicou com um gesto a m esa onde estavam sentados m inutos antes.

— Sabe que não tenho nada a ver com isso, não sabe?

— Claro que sim . Cada um tem seus problem as.

Frank pensava em Parker. Sentia-se culpado por ainda não ter falado sobre o general e Ry an Mosse com Nicolas.

— Se vier com igo a m inha sala, tenho um a coisa para você.

— Que coisa?

— Um a pistola. Um a Glock 20. É um a arm a que você conhece bem , acho eu.

Um a arm a. Frank pensava que nunca m ais precisaria de um a.

— Acho que não há necessidade.

— Eu tam bém preferia que não houvesse, m as nessa altura creio que todos tem os que estar prontos para qualquer eventualidade.

Frank ficou um segundo em silêncio. Passou a m ão no rosto, onde a barba j á estava criando um a som bra escura. Hulot notou sua perplexidade.

— O que houve, Frank?

— Nicolas, acho que encontrei algum a coisa…

— O que quer dizer?

Frank foi pegar o envelope e a fita que tinha deixado na m esa ao chegar.

— Trouxe isso aqui m as, no últim o m om ento, resolvi não dizer nada na frente de todo m undo, pois é um detalhe tão insignificante que precisa ser verificado antes de ser incluído nos ativos do balanço. Lem bra que falei que algum a coisa estava m e escapando? Algo que deveria lem brar, m as não conseguia localizar. Finalm ente descobri o que era. Um a discrepância entre o film e e as fotos da casa de Allen Yoshida, as que Froben trouxe.

— Com o assim ?

Frank retirou um a foto de dentro do envelope e a estendeu a Hulot.

— Olhe em cim a do m óvel. O do som , atrás da poltrona. O que tem em cim a?

— Nada.

— Exatam ente. E agora, olhe aqui…

Frank pegou a fita VHS e foi até a TV, um a Philips Com bi com videocassete em butido que estava na parede em frente à m esa.

Enfiou a fita, que ainda estava parada no ponto em que Frank apertara o botão de pausa. Voltou a parar a im agem . Indicou com a m ão um ponto da tela por trás das duas figuras em prim eiro plano.

— Aqui, está vendo? Em cim a do m esm o m óvel tem a capa de um disco. Trata-se de um LP de vinil. Na casa de Yoshida não havia discos, Froben confirm ou o fato. Nem um só disco. Na foto, não há sinal dessa capa. Isso significa que o assassino não resistiu à sua fixação por m úsica e trouxe de casa a trilha sonora do novo crim e. A im agem está m eio fora de foco por causa da qualidade da cópia, feita às pressas. Mas tenho certeza de que, m anipulando o original com a aparelhagem adequada, poderem os descobrir que LP é esse. O fato de que ele não o tenha abandonado lá m esm o quer dizer que o disco tem algum significado particular. Para ele ou num sentido m ais geral. Não podem os esquecer que o desgraçado tem um senso de hum or bem pronunciado, em bora m órbido. Acho que dificilm ente perderia a oportunidade de um últim o toque de sarcasm o, se pudesse. Repito, pode ser que não sej a um passo adiante, m as é a prim eira coisa que ficam os sabendo do assassino contra sua vontade. Em bora pequeno, é o prim eiro erro que com ete…

Houve um longo m om ento de silêncio. Frank o rom peu prim eiro.

— Tem algum m odo de analisar o VHS sem m uita publicidade? — perguntou a Hulot.

— Aqui no Principado, não, de j eito nenhum . Deixe ver… Bem , tem o Guillaum e, filho dos Mercier, um casal de am igos. Ele tem um a pequena em presa de produção. Faz videoclipes e coisas do gênero. Está com eçando, m as é m uito bom . Posso tentar com ele.

— É de confiança?

— É um bom rapaz. Era o m elhor am igo de Stéphane. Se eu pedir, vai m anter a boca fechada.

— Ótim o. Acho que vale a pena tentar m anipular o vídeo, m as tem que ser feito com m uita discrição.

— Tam bém acho. Quanto ao resto, você m esm o j á disse. Em bora pequena, é a única coisa que tem os…

Entreolharam -se e aquele olhar significava m uitas coisas. Eles sim eram realm ente as duas faces de um a m esm a m oeda e estavam no m esm o bolso. A vida não tinha sido generosa com nenhum dos dois. Tiveram a coragem de recom eçar, cada um a seu m odo. Até então, sentiam -se à m ercê dos acontecim entos que, m ais um a vez, estavam virando suas vidas de ponta-cabeça. Agora, graças a um detalhe descoberto quase por acaso, naquela sala cinzenta, suspensa no ar com o um a pipa ao sabor do vento, esvoaçava um a pequena esperança colorida.