Eu Mato

Giorgio Faletti · Capítulo 37 de 76

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Eu Mato

Capítulo 31

31

 

RENÉ COLETTI ESTAVA COM UMA TREMENDA vontade de fazer xixi.

Respirou profundam ente pelo nariz. A bexiga cheia provocava cãibras terríveis na barriga. Tinha a im pressão de estar num daqueles film es de ficção científica, em que os tubos da aeronave com eçam a soltar fum aça e aparece um a luz verm elha de perigo, enquanto um a voz m etálica repete sem parar: “Atenção, em três m inutos essa nave vai se autodestruir; atenção…”

Era norm al que a necessidade fisiológica chegasse no m om ento m ais inadequado, segundo a lógica destrutiva da casualidade que trata de aproveitar a oportunidade sem pre que dá para encher o saco dos seres hum anos.

Ficou tentado a descer do carro e fazer xixi em qualquer lugar, na penum bra, sem se im portar com as poucas pessoas que estavam na m arina ou do outro lado da rua. Olhou cobiçosam ente para o m uro à sua direita.

Acendeu um cigarro com o distração e soltou a fum aça predadora do Gitanes sem filtro pela j anela aberta. No cinzeiro do carro havia guim bas suficientes para testem unhar que sua espera j á durava m uito tem po. Esticou a m ão para desligar o rádio do carro, sintonizado na Rádio Monte Carlo, pois o que lhe interessava j á tinha acabado.

Estacionou o Mazda MX-5 na m arina, perto das Piscinas, com a dianteira do veículo voltada para o edifício em que ficava a sede da rádio que, naquele instante, devia estar cheia até a tam pa de policiais fervilhando com o feij ões num a panela. Tinha ouvido o program a e acom panhado o telefonem a do assassino com as orelhas em pé, sentado no carro, à espera. Na redação de seu j ornal, o France-Soir, m uitos colegas tinham feito a m esm a coisa e certam ente estavam à cata de inform ações, galopando pelas páginas da web ou qualquer outra fonte. Um m onte de cérebros funcionava a todo vapor naquele m om ento, tentando decifrar a nova m ensagem lançada no éter por “Ninguém ”, apelido criado pela m ídia im pressa. O nom e pegou e agora todo m undo o cham ava assim . Poder da m ídia. Sabe-se lá com o era cham ado pelos policiais, antes que aquele nom e tivesse sido im posto pela fantasia de um j ornalista.

Aos investigadores, a lógica; a eles, a im aginação. Mas não era certo que quem tinha um a fosse necessariam ente desprovido da outra.

Seu caso era um a evidente dem onstração disso, ou pelo m enos ele esperava que fosse.

O celular colocado no banco a seu lado com eçou a tocar. O toque, baixado da internet, era um a m úsica pop de Ricky Martin que sua neta tinha praticam ente im posto. Odiava aquela m usiquinha, m as nunca aprendera a usar o aparelho bem o bastante para poder trocá-la.

Fantasia e lógica, m as horror pela técnica.

Atendeu o celular.

Seus encanam entos teriam que aguentar m ais um pouco.

— Alô?

— Coletti, é Barthélem y.

— Diga lá.

— Tem os um a indicação. Um a sorte dos diabos. Giorgio Cassano, nosso correspondente em Milão, é am igo do cara que com pôs a m úsica. A que Ninguém apresentou na rádio. Telefonaram da Itália há dois m inutos. Vão nos dar algum tem po de vantagem antes de avisar a polícia.

Beleza. Mas vamos esperar que nenhum de nós arrisque a própria pele. E vamos esperar que eu não mije nas calças.

— E então?

— É “Nuclear Sun”. O autor é um italiano, um DJ cham ado Rolando Bragante, aliás, Roland Brant. Entendeu?

— Claro que entendi, não sou nenhum idiota. Mande um SMS com os dados, em todo caso. Nunca se sabe.

— Onde você está?

— Em baixo da rádio. Tudo sob controle. Até agora não aconteceu nada.

— Fique de olho. Se os tiras perceberem , vai dar m erda.

— Sei com o eles são.

— Boa sorte — cum prim entou lacônico Barthélem y.

— Para você tam bém . Avise se tiver novidades.

Desligou o telefone. Um DJ italiano com pseudônim o inglês. Um a m úsica de discoteca intitulada “Nuclear Sun”.

Que droga queria dizer aquilo?

Sentiu um espasm o no ventre. Decidiu-se. Jogou a guim ba pela j anela, abriu a porta e desceu do carro. Deu a volta, desceu dois degraus e foi se esconder na sem iobscuridade daquele trecho da rua, encoberto pela silhueta do carro. Aproveitou um a reentrância da parede, ao lado da porta de correr de um a loj a. Abriu a braguilha e se desafogou, com um suspiro de alívio. Tinha a im pressão de voar. Olhou o riacho am arelado de urina que descia com o um a cascatinha no terreno levem ente inclinado.

Abandonar-se, nesses casos, era um prazer quase sexual, iconográfico, era um a satisfação da parte física e lúdica do ser hum ano. Com o quando era m enino e, com o irm ão, fazia xixi na neve, desenhand…

Um instante. Um flash. A neve. O que a neve tinha a ver? Viu um a foto na capa de um j ornal, um a figura m asculina com roupa de esqui, fotografada na entrada de um ski-lift com um a bela j ovem a seu lado. Tinha neve, m uita neve. Teve um a intuição tão precisa que ficou sem fôlego.

Cacete! Era Roby Stricker. E se fosse ele, estava feito.

Suas evoluções fisiológicas não davam sinais de acabar. A excitação provocou um estrem ecim ento nervoso. Interrom peu o fluxo, correndo risco de suj ar as m ãos. Já tinha resolvido histórias em que o risco de suj ar as m ãos era quase garantido. Aquela não seria certam ente a m ais noj enta. Mas onde encontrar Roby Stricker agora?

Deu um a sacudida enérgica em seu pênis e enfiou-o de volta na cueca. Voltou correndo para o carro, sem se preocupar com o fato de não ter fechado a calça.

Tem um assassino à solta nessa cidade, René, disse consigo m esm o. Quem você acha que está se importando se sua braguilha está aberta ou não?

Sentou-se e pegou o celular. Ligou de novo para Barthélem y, na redação.

— Sou eu, Coletti, de novo. Preciso de um endereço.

— Vai.

— Roby Stricker. O sobrenom e se escreve S-t-r-i-c-k-e-r, com ck. Roby deve ser Roberto. Mora aqui em Montecarlo. Se for m esm o um a noite de sorte total, deve estar no catálogo telefônico. Se não, procure de algum a m aneira, m as ande logo.

O j ornal certam ente não era a polícia, m as eles tam bém tinham seus canais.

— Espere na linha um segundo.

Passaram -se alguns instantes, que pareceram infindáveis para Coletti, até m ais que o tem po passado com a bexiga cheia. Finalm ente, Barthélem y voltou ao aparelho.

— Bingo, m eu velho. Mora num condom ínio que se cham a Les Caravelles, Boulevard Albert Prem ier.

Coletti prendeu a respiração. Não conseguia acreditar em sua sorte. Ficava a exatam ente cem m etros do local em que estava estacionado.

— Ótim o, sei onde fica. A gente se fala.

— René, preste atenção, fique de olho. Não som ente pelos tiras. Ninguém é um suj eito perigoso. Já liquidou três pessoas.

— Vira a boca para lá, agourento. Tenho am or a m inha pele, pode deixar. E se essa história term inar do j eito que estou pensando, será um furo sensacional…

Desligou.

Por um segundo, ouviu a voz na rádio.

Eu mato…

Mesm o sem querer, estrem eceu. No entanto, a exaltação, a adrenalina j á estavam circulando e eram capazes de anular qualquer regra de prudência. Com o hom em , Coletti tinha m uitos lim ites, m as com o j ornalista conhecia o ofício e para exercê-lo do j eito que achava certo estava disposto a correr qualquer risco. Sabia reconhecer um a coisa grande quando se deparava com ela. Um a pista para um a notícia a ser seguida, a ser aberta com o um a ostra para m ostrar a todo m undo se continha um a pérola ou não. E dessa vez a pérola estava lá, grande com o um ovo de avestruz.

Cada um tem suas drogas e a sua era aquela.

Olhou para as vidraças ilum inadas da Rádio Monte Carlo. Havia vários carros da polícia estacionados no pátio diante da entrada. A luz giratória azul se acendeu e um a das viaturas partiu. Coletti relaxou. Era apenas o carro que escoltava Jean-Loup Verdier até sua casa. Já os tinha seguido algum as vezes e sabia o que iam fazer. Iriam até a casa do DJ, entrariam pelo portão e até-loguinho: os policiais ficariam de guarda, im possibilitando qualquer tentativa de aproxim ação.

Daria a m etade da fortuna de Bill Gates para poder entrevistar aquele hom em , m as não tinha com o, pelo m enos por enquanto. Estava tudo blindado, na entrada e na saída. Tinha vigiado aquela casa o suficiente para saber que era im possível.

Ultim am ente m uitas coisas pareciam im possíveis.

Tinha tentado de todos os m odos ser o enviado especial do j ornal ao Afeganistão durante a guerra. Sentia aquela história dentro dos ossos. Sabia que poderia contá-la m elhor que qualquer outro, com o j á fizera na Iugoslávia. Mas preferiram Rodin, talvez porque pensassem que era m ais j ovem e m ais fam oso, m ais disposto a correr riscos. Talvez houvesse algum a m anobra política por trás, algum a recom endação vinda não se sabe de onde e que ele desconhecia. O fato é que tinha se fodido.

Coletti abriu o porta-luvas e tirou sua câm era digital, um a Nikon 990 Coolpix. Colocou-a sobre o banco do carona e verificou tudo atentam ente, com o um soldado verifica sua arm a antes de um a batalha. As baterias estavam carregadas e tinha quatro cartões de 128 m ega. Daria para fotografar a Terceira Guerra Mundial, se fosse preciso. Desceu do Mazda sem se preocupar em trancá-lo. Escondeu a m áquina fotográfica sob o paletó, de m odo que não se notasse. Deixou o carro e as Piscinas para trás e foi na direção oposta. Algum as dezenas de m etros depois, viu-se diante da escada que subia para a Prom enade. Quando chegou na altura da rua, um carro particular, m as com as luzes da polícia no teto, saiu da Rascasse e passou em alta velocidade diante dele.

Conseguiu ver que havia duas pessoas no carro. Im aginou quem seriam . Certam ente, o delegado Hulot e o inspetor Morelli. Ou talvez o suj eito m oreno com o rosto bronzeado que tinha visto sair da casa de Jean-Loup Verdier naquela m anhã. Quando seus olhos se encontraram , tivera um a im pressão estranha.

Aquele era um hom em com o diabo no corpo. E ele conhecia bem os diabos, assim com o aqueles que os carregavam dentro de si. Talvez valesse a pena se inform ar m elhor sobre ele…

Coletti j á tinha descartado há tem pos a estratégia de seguir os carros da polícia.

Os tiras não eram estúpidos e logo perceberiam . Ele seria detido e podia dar adeus a seu furo de reportagem . Não podia com eter absolutam ente nenhum erro.

Naquela noite, j á tinham tido o alarm e falso do prim eiro telefonem a, para lá de furado. Era m uito provável que os tiras estivessem fulos da vida. Não queria estar no lugar de quem passou o trote, se o pegassem . Não era realm ente o caso de se m eter num a história daquelas.

Se a próxim a vítim a daquele m aníaco fosse realm ente Roby Stricker, eles o usariam com o isca e o único lugar onde poderiam fazê-lo seria na casa dele. Naquele m om ento, só precisava encontrar o lugar certo para ficar, um local de onde pudesse ver sem ser visto. Se suas deduções estavam corretas e se pegassem Ninguém , ele seria a única testem unha ocular e o único repórter a ter a foto da prisão.

Se conseguisse, aquela história valeria seu peso em plutônio.

Não havia praticam ente ninguém pelas ruas. Certam ente, toda a cidade tinha ouvido o program a da rádio, assim com o o novo telefonem a de Ninguém . Sabendo que havia um assassino à solta, não eram m uitos os que tinham vontade de sair despreocupadam ente para um passeio.

Coletti dirigiu-se para a entrada ilum inada de Les Caravelles. Quando chegou diante da porta envidraçada do condom ínio, deu um suspiro de alívio. A fechadura era norm al e não tinha código num érico. Coletti rem exeu os bolsos, com o um inquilino qualquer procurando suas chaves.

Tirou um a engenhoca que um de seus inform antes tinha lhe dado de presente. Um suj eito esperto que ele aj udara a sair de um a enrascada. Um suj eito que gostava de dinheiro e não se im portava com o m odo de obtê-lo, sej a o que ele lhe dava por suas dicas, sej a o que obtinha entrando em apartam entos cuj os m oradores tinham viaj ado.

Enfiou o aparelho na fechadura e a porta se abriu. Coletti entrou no hall do edifício de luxo e deu um a olhada ao redor. Espelhos, poltronas de couro, tapetes persas sobre o piso de m árm ore. Àquela hora estava abandonado, m as, com certeza, durante o dia era guardado por um porteiro rigoroso.

Sentiu os batim entos cardíacos se acelerando.

Não era m edo.

Era adrenalina pura. Era o paraíso na terra. Era seu trabalho.

À direita, no lado m ais curto do salão retangular, havia duas portas de m adeira. Um a delas exibia um a plaqueta de latão com a inscrição “Concierge”. A outra, do outro lado, levava provavelm ente para o subsolo. Não sabia qual era o andar de Roby Stricker, e acordar o porteiro àquela hora para pedir inform ações não parecia ser a m elhor tática. Mas podia pegar o elevador de serviço, ir até o últim o andar e descer as escadas até descobrir qual seria o m elhor lugar. Depois, encontraria um posto de observação perfeito, nem que tivesse que se pendurar em um a j anela, o que j á fizera antes.

O Reebok que estava usando não tinha feito barulho quando alcançou a porta para o subsolo. Forçou o trinco, esperando que não estivesse trancado. Tinha sua engenhoca, é verdade, m as cada segundo poupado era um segundo ganho. Deu um suspiro de alívio. A porta estava só encostada. Dentro era um breu total. Sob o reflexo das luzes do vestíbulo, viam -se as escadas que desciam confundindo-se na escuridão. Colocadas em intervalos regulares, as pequenas luzes verm elhas dos interruptores brilhavam com o olhos de gato.

Não podia acender a luz em hipótese algum a. Desceu os prim eiros dois degraus acom panhando a porta que se fechava. Agradeceu m entalm ente à eficiência de quem m antinha as dobradiças bem lubrificadas. Virou sobre si m esm o e com eçou a se m over às apalpadelas, buscando a parede com as m ãos. Desceu lentam ente os degraus, cuidando para não escorregar. Seu coração batia tão forte que não se espantaria se todo o edifício pudesse ouvir. Esticando o pé, percebeu que tinha chegado ao final da escada. Colocou um a m ão diante de si e, sem pre tateando a parede de pintura áspera, com eçou a avançar lentam ente. Rem exeu nos bolsos do paletó. Percebeu que, na excitação, tinha esquecido no carro, j unto com os cigarros, o isqueiro Bic de 3 liras, que agora poderia ser bastante útil. Mais um a vez, teve a confirm ação de que a pressa sem pre é inim iga da perfeição. Continuou a avançar às apalpadelas. Tinha dado apenas alguns passos naquela escuridão absoluta, quando sentiu um a chave de ferro apertar sua garganta e seu corpo ser violentam ente j ogado contra a parede.