Eu Mato

Giorgio Faletti · Capítulo 15 de 76

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Eu Mato

Capítulo 12

12

 

ATRÁS DOS VIDROS DA CABINE de direção, Laurent Bedon, o diretor, fez as contas ao contrário, elim inando um por um os dedos da m ão levantada. Depois apontou para Jean-Loup Verdier com o indicador.

Às suas costas, a luz verm elha avisando que estavam no ar acendeu-se.

O DJ aproxim ou levem ente a poltrona do m icrofone, seguro por um curto braço articulado e apoiado à sua frente sobre a m esa.

— Boa-noite a todos aqueles que nos ouvem agora e a todos que vão ouvir nossa voz até o fim do program a. Terem os m úsica e terem os a participação de ouvintes que vão nos contar suas vidas, que nem sem pre seguem o ritm o da m úsica que gostaríam os de ouvir…

Parou e retraiu-se levem ente. O mixer transm itiu a introdução arrepiante de “Born to be Wild”, do Steppenwolf.

Poucos segundos depois, a voz quente e persuasiva de Jean-Loup fundiu-se com a m úsica.

— Estam os aqui, estam os prontos, se puderm os aj udar em algum a coisa. A quem deu o coração e não encontrou outro coração, a quem errou e botou sal dem ais, a quem não vai ter descanso enquanto não descobrir onde é que enfiaram o açúcar, a quem corre o risco de m orrer afogado na pequena enxurrada de suas próprias lágrim as. Estam os aqui com vocês e, apesar dos pesares, continuam os vivos, com o vocês. Eu sou Jean-Loup Verdier e essa é a Rádio Monte Carlo. No ar: Voices.

Mais “Born to be Wild”. Outra vez a corrida das guitarras distorcidas descendo um a escarpa rochosa, levantando poeira e rem exendo o cascalho.

— Cacete, esse cara é bom !

Frank Ottobre, sentado ao lado de Laurent na cabine do diretor, não conseguiu im pedir que o com entário espirrasse de sua boca. O diretor virou para olhar para ele com um sorriso nos lábios.

— Não é?

— Não é surpresa que faça tanto sucesso. Tem um a voz e um j eito que batem diretam ente no estôm ago.

Barbara, m ixadora de áudio sentada à sua direita, ao lado da estação do diretor, fez um gesto para Frank, apontando suas costas. Ele girou a cadeira e na j anela de vidro da porta à prova de som viu que Hulot lhe fazia sinais.

Levantou-se e saiu para encontrá-lo fora do estúdio.

O delegado tinha o rosto cansado, o rosto de um hom em que com e e dorm e m al há algum tem po. Frank viu as olheiras, os cabelos grisalhos precisando de um a aj eitada e a gola da cam isa cercada pelos sinais da vida dura. Um hom em que nos últim os tem pos tinha visto e ouvido m uitas coisas que dispensaria de bom grado. Tinha 55 anos, m as parecia ter dez a m ais.

— Com o estão as coisas por aqui, Frank?

— Nada. O program a faz um sucesso extraordinário. O cara é um fenôm eno. Nasceu para fazer o que faz. Não sei quanto ganha, m as m erece cada tostão. No que nos interessa, nada. Silêncio absoluto.

— Quer um a Coca?

— Sou am ericano, m as m eus avós paternos eram sicilianos, Nicolas. Sou tradicionalm ente m ais ligado ao café do que à Coca-Cola.

— Um café, então?

Foi em busca da m áquina autom ática, no fundo do corredor. Hulot rem exeu os bolsos à procura de m oedas. Com um sorriso, Frank exibiu um cartão.

— O fato de ser do FBI im pressionou o diretor profundam ente. Som os convidados da rádio, pelo m enos para as bebidas.

Enfiou o cartão na m áquina e apertou um botão. Quando a m áquina parou, inclinou-se para pegar o copinho cheio de líquido escuro e ofereceu a Hulot. O delegado deu um gole. Achou o café horrível. Ou seria sua boca?

— Ah… estava esquecendo. Chegou o relatório da perícia caligráfica…

— E?

— Por que pergunta se j á sabe a resposta?

Frank sacudiu a cabeça.

— Não conheço os detalhes, m as em linhas gerais acho que sei o que vai m e dizer.

— Claro, esqueci que é do FBI: tem intuições fulm inantes e cartões grátis. A m ensagem não foi escrita à m ão.

— Não?

— Não. O filho da puta usou um a m áscara. Colou as letras num a cartolina e recortou. Trouxe consigo e, quando precisou, apoiou na m esa e regou com sangue. Mas com o sabia?

Mais um a vez, Frank sacudiu a cabeça.

— Já disse que não sabia. Mas achei estranho que o suj eito tivesse um cuidado m aníaco em não deixar vestígios para depois cair num erro tão grosseiro.

Hulot j ogou a toalha e, com um a careta de noj o, aproveitou para j ogar tam bém o café ainda pela m etade na lixeira. Olhou para o relógio com um suspiro.

— Bem , preciso passar em casa para ver se m inha m ulher ainda tem a m esm a cara. Deixei dois carros no estacionam ento, cada um com dois agentes. Um a m ais, nunca se sabe. Os outros estão a postos. Qualquer coisa, estarei em casa.

— O.K., se acontecer algum a coisa, eu ligo.

— Não devia dizer isso, m as estou contente que estej a aqui esta noite. E que estej a aqui, em geral. Tchau, Frank.

— Tchau, Nicolas. Mande um abraço para sua m ulher.

— Claro.

Frank ficou olhando o am igo se afastar, os om bros levem ente curvos sob o paletó.

Estavam de plantão na Rádio Monte Carlo havia três dias, à espera de que algum a coisa acontecesse, depois de fecharem um acordo com o diretor. Quando com unicaram sua intenção, sentados em sua sala, Robert Bikj alo fitou-os com os olhos sem icerrados, com o se os defendesse da fum aça pestilenta que em anava do cigarro que tinha entre os dedos. Avaliou a proposta do delegado Hulot enquanto sacudia um pouco de cinza da cam isa polo Ralph Lauren. Voltou para eles os olhos apertados, que o tornavam parecido com um a fuinha.

— Então acham que o tal suj eito vai ligar de novo?

— Não tem os certeza. É só um a previsão otim ista. Mas se ligar, gostaríam os de contar com sua colaboração.

Hulot e Frank estavam sentados na frente dele, em duas poltronas de couro. Frank tinha reparado que a altura das poltronas era cuidadosam ente calibrada para garantir que o ocupante da escrivaninha olhasse para os outros de cim a para baixo.

Bikj alo virou-se para Jean-Loup Verdier, sentado num sofá igual às poltronas, à esquerda da escrivaninha.

O DJ passou as m ãos nos cabelos escuros, bastante longos. Fitou Frank com os olhos verdes e interrogativos. Depois esfregou as m ãos um a na outra, num sinal de nervosism o.

— Não sou capaz de fazer o que m e pedem . Quer dizer, não sei com o m e com portar. Um a coisa é apresentar um program a, falar no telefone com pessoas norm ais, outra é falar com … com …

Frank entendeu que Jean-Loup tinha dificuldade em pronunciar a palavra “assassino” e interveio em seu socorro.

— Sei que não é fácil. Tam bém não é fácil para nós tentar entender o que um hom em desses pode ter na cabeça. Mas estarem os aqui, darem os todas as indicações possíveis e estam os preparados para qualquer eventualidade. Tam bém convocam os um especialista.

Virou-se e olhou para Nicolas, que até o m om ento tinha perm anecido em silêncio.

— Terá a assistência de um psiquiatra, o dr. Cluny, consultor da polícia que colabora conosco com o negociador, com andando os contatos com os crim inosos em caso de sequestro.

— Está bem . Se disserem o que devo fazer, estarei à disposição.

Jean-Loup fitou Bikj alo, com o se deixasse para ele a últim a palavra.

O diretor exam inava o filtro de papel do cigarro russo, dobrado segundo as instruções. Com eçou tergiversando.

— É verdade que é um a bela responsabilidade…

Frank adivinhou aonde ele queria chegar. Levantou-se da poltrona, subvertendo o estabelecido. Agora era ele quem olhava Bikj alo de cim a.

— Olhe, não sei se você tem um a visão clara da situação. Para esclarecer as coisas definitivam ente, acho que é interessante que vej a um a coisa.

Frank debruçou-se e extraiu algum as fotos 20x30 da bolsa de Hulot, pousada no chão ao lado da poltrona. Jogou-as sobre a escrivaninha.

— Estam os caçando um hom em capaz de fazer isso.

As fotos m ostravam os cadáveres de Jochen Welder e Arij ane Parker e o m assacre feito em suas cabeças. O olhar de Bikj alo pousou na im agem e ele em palideceu im ediatam ente.

Hulot sorriu por dentro.

Frank voltou a se sentar.

— Esse hom em ainda está por aí e acham os que pode voltar a fazer o que fez. Vocês são o único cam inho que tem os para pegá-lo. Não se trata aqui de um a estratégia para aum entar a audiência. É um a caça ao hom em que terá com o resultado a vida ou a m orte de certas pessoas.

Os olhos de Frank deixaram os olhos de Bikj alo m agnetizados, com o o olhar de um a serpente deixa por um instante o olhar da presa com a qual quer brincar. Pegou o m aço de cigarros na escrivaninha, exam inando-o com aparente curiosidade.

— Sem contar que, se essa história for resolvida graças a vocês, vai trazer um a popularidade para a rádio e para Jean-Loup que vocês não iam conseguir nem em m il anos.

Bikj alo relaxou. Em purrou as fotos na direção de Frank, tocando-as com a pontinha dos dedos, com o se queim assem . Encostou-se na poltrona com ar aliviado. A conversa estava voltando aos parâm etros que estava acostum ado a adm inistrar.

— Certo, se é para aj udar a lei, se é para ser útil, a Rádio Monte Carlo não vai atrapalhar. Voices é exatam ente isso, aliás. Um a aj uda para as pessoas que precisam . Mas tem um a coisa que gostaria de pedir em troca, se for possível…

Fez um a pausa. O silêncio de Frank incentivou-o a continuar.

— Um a entrevista exclusiva para Jean-Loup, assim que tudo estiver term inado. Antes de todo m undo. Aqui na rádio.

Frank olhou para Hulot, que concordou com um gesto quase im perceptível de cabeça.

— Negócio fechado.

Levantou-se de novo.

— Nossos técnicos j á estão chegando com o equipam ento para gram pear os telefones. E outras coisas que eles m esm os vão explicar em detalhes. Com eçam os hoj e m esm o.

— Certo. Nossos funcionários estarão à disposição para colaborar em tudo que for preciso.

A reunião tinha chegado ao fim . Todos se levantaram . Frank se viu diante do olhar um pouco perdido de Jean-Loup Verdier. Apertou seu braço, tranquilizador.

— Obrigado, Jean-Loup. O que está fazendo é ótim o. Tenho certeza de que vai se sair m uito bem . Está com m edo?

O DJ ergueu dois olhos m uito lím pidos, verdes com o a água do m ar.

— Sim , m orrendo de m edo.