Eu Mato

Giorgio Faletti · Capítulo 68 de 76

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Eu Mato

Décimo-primeiro carnaval

 

O HOMEM ESTÁ SEGURO EM SEU LOCAL SECRETO, naquela caixa de m etal e cim ento que alguém , há m uito tem po, escavou na terra por m edo de um a coisa que nunca aconteceu.

Desde que descobrira sua existência, quase por acaso, desde que entrara ali pela prim eira vez e entendeu do que se tratava e para que servia, tratou de m anter seu refúgio em pleno funcionam ento. A despensa está cheia de com ida enlatada e de garrafas de água m ineral. Há um sistem a sim ples m as eficiente de reciclagem de fluidos que perm ite, se necessário, que filtre e beba sua própria urina. A m esm a coisa vale tam bém para o ar, que é depurado por um circuito fechado à base de filtros e reagentes quím icos, o que torna desnecessário o acesso ao exterior. Seus estoques de com ida e água são suficientes para resistir e esperar por m ais de um ano.

Só sai de vez em quando, ao escurecer, com o único obj etivo de respirar ar puro e sentir o perfum e do verão apenas contrastado com cheiro da noite, que desde sem pre é seu hábitat natural. No j ardim , há um a grande m oita de alecrim e seu arom a agudo o faz pensar, sem razão aparente, no perfum e particular da lavanda. São tão distintos um do outro, m as aquele detalhe é o bastante para fazer a lem brança brotar em sua m ente, com o um disco desliza silencioso para o prato de um j ukebox, extraído entre todos os outros pelo braço m ecânico do seletor. É o conúbio da noite e do arom a, num a im agem com posta, além dos sons e cores, por um a sensação olfativa. Move-se na escuridão m ais com pleta por aquela casa que conhece de cor, silencioso com o só ele sabe ser. Às vezes desce para o terraço e, apoiado ao m uro, escondido pela som bra da casa, levanta a cabeça para observar as estrelas. Não tenta ler o futuro, contenta-se em adm irar seu relam pej ar lum inoso naquele fragm ento de presente. Não se pergunta o que será dele, deles. Não é desconsideração ou indiferença, apenas consciência.

Não se condena por ter com etido um erro. Era certo, desde o início, que cedo ou tarde acabaria por com eter algum . É a lei do acaso aplicada à vida efêm era dos seres hum anos, e alguém lhe ensinara, m uito tem po antes, que os erros são pagos. Não, não é bem isso. Alguém o obrigara a sentir na própria pele que os erros se pagam .

E ele, aliás, eles pagaram por todos os seus enganos. Cada vez de m aneira m ais dura, com um aum ento da punição sem pre crescente à m edida que eles tam bém cresciam , com um a m argem de erro cada vez m ais restrita, até atingir a intolerância m ais absoluta. Aquele hom em era inflexível, m as, em sua presunção, esquecera que ele tam bém era um hom em , nada m ais que um hom em . E esse erro custara a vida daquele hom em .

Ele sobrevivera e aquele hom em não.

Depois das breves saídas, volta ao esconderij o subterrâneo e espera. O m etal escuro de que é forrado contribui para fazer daquele lugar um am biente noturno, com o se a escuridão se infiltrasse pela porta a cada vez que a abria e se estendesse com o tinta sobre as paredes. É só um dos vários esconderij os que a noite tem à sua disposição para sobreviver à chegada da luz, m as ele atribui um significado diferente àquele fato. Ele o interpreta com o um a cum plicidade natural entre fugitivos.

Naquele isolam ento não sente o peso da espera nem o da solidão.

Tem a m úsica e a com panhia de Paso. Isso lhe basta.

Claro, Vibo e Paso.

Nem lem bra m ais o m om ento em que perderam seus verdadeiros nom es e aqueles dois apelidos sem significado brotaram de sua fantasia. Talvez fosse um a referência precisa, talvez a única referência precisa tenha sido a m ais absoluta casualidade. Um sim ples lam pej o da im aginação infantil, que, com o tal, não precisa de solicitações lógicas ou plausíveis.

Naquele m om ento, de olhos fechados, está ouvindo pela m ilionésim a vez “Stairway to Heaven”, do Led Zeppelin, num a rara versão live. Está sentado em sua cadeira de rodinhas e balança lentam ente o encosto, seguindo aquela m elodia que de certa form a evoca, degrau por degrau, um subida lenta e difícil até o céu.

A escada existe, o paraíso talvez não.

Na outra sala, o corpo perm anece estendido em seu ataúde de vidro, com o em anim ação suspensa, à espera do despertar ao fim de um a viagem que, no entanto, não term inará. Talvez ouça m úsica j unto com ele, talvez a perca de vez em quando, com pletam ente absorvido no encantam ento do novo rosto que usa, o últim o que lhe trouxe para satisfazer um a vaidade com preensível. Logo aquela im agem postiça tam bém vai se deteriorar, com o todas as outras. Então, terá que tom ar providências, m as ainda tem tem po e a voz de Robert Plant saindo das caixas é sua única prioridade.

A canção chega ao fim .

Ele se apoia no tam po de m adeira e estica o braço para apertar o botão de stop. Não quer continuar a ouvir aquele disco. Por enquanto, aquela única canção é suficiente. Quer ligar o rádio, sintonizar-se por algum tem po com as vozes provenientes do m undo exterior.

No silêncio sem pre um pouco atônito que se segue à m úsica, tem a im pressão de ouvir um a série ritm ada de golpes, com o se alguém lá fora batesse na superfície da porta provocando um fragor distante.

Levanta-se da cadeira e aproxim a-se da porta. Apoia a orelha e sente o frio do m etal na sua pele. A série de batidas se repete. Logo em seguida, um a voz grita algum a coisa do outro lado da porta. São palavras indistintas que chegam de um a distância intransponível, m as sabe m uito bem que aquelas palavras, praticam ente incom preensíveis, são para ele. Não pode entender, m as adivinha seu sentido. Certam ente, aquela voz o convida a abrir a porta de seu refúgio, a sair, a se render antes que…

Afasta o rosto do m etal com um sorriso. É esperto dem ais para não saber que aquelas am eaças não são vãs. Sabe que eles não têm m uita coisa a fazer para tentar desentocá-lo, m as sabe m uito bem tam bém que o pouco que puderem fazer, eles farão com certeza. O que eles não sabem é que nunca conseguirão pegá-lo. Não vivo, pelo m enos.

Nenhum a razão no m undo é capaz de convencê-lo a dar-lhes essa satisfação.

Abandona a porta e vai até a sala onde o corpo no caixão transparente parece ter acrescentado à sua im obilidade habitual um a carga de tensão vital. Um laivo de ansiedade parece pintada na pele sem expressão da m áscara que lhe cobre o rosto. Pensa que outrora aquele tipo de em oção aparecia no rosto do hom em a quem pertencia. Agora é apenas um a ilusão e nada m ais. Toda a em oção desvaneceu-se para sem pre no ar, j unto com o últim o suspiro.

Há um longo silêncio. O hom em tam bém fica silencioso, à espera. Passam -se diversos m inutos. Os m ortos têm a eternidade à disposição e para eles aquele espaço de tem po dura m enos que um nada. Para os vivos às vezes pode parecer tão longo quanto a vida inteira.

A voz na cabeça retorna e faz a pergunta que tem ia ouvir.

O que vai ser de mim, Vibo?

O hom em revê o cem itério de Cassis, o grande cipreste central, a fila de túm ulos de pessoas que nunca conseguiram ser um a fam ília para eles, apenas seu pesadelo. Não há fotos nos túm ulos, m as os rostos das pessoas que estão lá dentro são com o quadros recém -pintados nas paredes da m em ória.

— Creio que vai voltar para casa. E eu tam bém …

Oh…

Um a exclam ação sufocada, um sim ples m onossílabo que com preende todas as expectativas do m undo. Um apelo à liberdade, à luz do sol, ao m ovim ento das ondas do m ar, no qual poderão m ergulhar hom ens e em ergir m eninos. Há lágrim as que escorrem livrem ente dos olhos do hom em e descem ao longo do rosto até caírem no tam po de vidro em que está apoiado agora. São pobres e brilhantes lágrim as sem nobreza, m as têm a m esm a cor daquelas ondas.

O afeto que brilha em seus olhos é total, sem lim ites. Olha pela últim a vez o corpo de seu irm ão que usa o rosto de um outro hom em e o vê com o era, com o deveria ser: idêntico a ele, um espelho no qual veria refletido o próprio rosto.

Afasta-se alguns passos do caixão antes de conseguir se virar e dar as costas. Volta para a outra sala e fica um instante em pé diante da longa fila de m áquinas, gravadores e aparelhos dos quais a m úsica nasce.

Naquela altura, só há um a coisa a fazer. É sua única saída e o único m odo que lhe resta para im por um a nova derrota aos cães que ladram . Apura os ouvidos e tem a im pressão de ouvir suas patas raspando freneticam ente o outro lado da porta de m etal.

Sim , só há um a coisa a fazer e deve fazê-la j á.

Tira o CD do Zeppelin do aparelho de som , substituindo-o por um outro de heavy m etal.

Escolhe ao acaso, sem nem olhar de que grupo se trata. Coloca na bandej a e aperta o botão de play. O m ecanism o desliza silencioso para seu aloj am ento.

Com um gesto quase raivoso, coloca o volum e no m áxim o.

Parece que está vendo, com o num desenho anim ado, o im pulso m usical ser gerado no leitor de CD, atravessar a tom ada e os plugues, percorrer os fios de ligação, chegar às caixas Tanoy, cuj a potência extrapola o pequeno am biente em que estão colocadas, e sair de novo dos tweeters e dos woofers e…

De repente a pequena sala explode. Parece que através das caixas, o furor do ritm o e do m etal das guitarras tenta se transferir ao m etal das paredes para sacudi-las e fazê-las vibrar com um perverso efeito de ressonância.

No ribom bar dos trovões que a m úsica deve im itar, não pode m ais ouvir voz algum a. O hom em se apoia com as m ãos no tam po de m adeira e escuta por alguns instantes a batida de seu próprio coração. Bate tão forte que parece destinado a explodir, ele tam bém , sob o im pulso de todos os watts de que as Tanoy são capazes.

Só há um a coisa a fazer. Agora.

O hom em abre um a gaveta logo abaixo do tam po da m esa, à direita, e enfia a m ão sem olhar. Quando a retira, seus dedos apertam um a pistola.