Eu Mato
Capítulo 56
56
PIERROT PEGOU O COPO DE PLÁSTICO cheio de Coca-Cola que Barbara lhe estendeu e com eçou a beber com o se tivesse vergonha de que os outros o vissem fazê-lo.
— Quer m ais?
Pierrot sacudiu a cabeça. Devolveu o copo vazio e virou o rosto para a m esa onde estava organizando um pilha de CDs.
Gostava de Barbara, m as ao m esm o tem po ela o intim idava. O rapaz tinha um a quedinha por ela, feita sobretudo de olhares secretos, silêncios e fugas quando ela aparecia. Bastava que lhe dirigisse a palavra para que ficasse verm elho com o um pim então. Barbara tinha notado a existência daquele sentim ento havia tem pos. Era um am or, se é que podia ser definido assim , tipicam ente infantil, de acordo com o m odo de ser de Pierrot, m as que precisava ser respeitado, com o todos os sentim entos. Sabia o quanto a capacidade de am ar tinha força na alm a daquele rapazinho estranho que parecia eternam ente assustado com o m undo: tinha a candura e a sinceridade que se encontram no afeto das crianças e dos cães. Podia parecer um a com paração um tanto depreciativa, m as era a expressão de um afeto com pleto e sincero, um afeto que existe enquanto tal, sem exigir contrapartidas.
Certa vez, encontrou um a m argarida no mixer. Quando percebeu quem era o m isterioso adm irador que lhe oferecia um a sim ples flor do cam po, quase derreteu de ternura.
— Quer m ais um sanduíche? — perguntou às costas de Pierrot.
Mais um a vez, ele sacudiu a cabeça sem se virar. Era hora do alm oço e tinham encom endado um a travessa de sanduíches de vários tipos do Stars’n Bars. Depois da história de Jean-Loup, à parte as vozes e a m úsica que saíam dos m icrofones, as salas da Rádio Monte Carlo pareciam ter se transform ado no reino do silêncio. Todos andavam por ali com o se fossem figuras feitas de ar. A sede da em issora ainda estava tão sitiada pelos j ornalistas quanto o Forte Álam o pelo Exército m exicano. Todos os com ponentes do staff haviam sido seguidos, caçados, cercados. Cada um deles tinha se visto com um m icrofone debaixo do nariz, um a câm era de vídeo apontada para o rosto, um j ornalista em baixo da própria j anela. De fato, o que acontecera j ustificava plenam ente o interesse dos m eios de com unicação em relação a eles.
Jean-Loup Verdier, um dos protagonistas da Rádio Monte Carlo, revelou ser um assassino perigoso e psicopata e ainda estava foragido. Sua presença pairava com o espectro sobre o Principado de Mônaco. No dia seguinte à descoberta da identidade do culpado por aqueles hom icídios em série, graças à curiosidade m órbida das pessoas e à publicidade da m ídia, a audiência tinha praticam ente dobrado.
Robert Bikj alo, o Robert Bikj alo de outrora, teria dado um salto m ortal com parafuso ao ver os núm eros da audiência. Mas o atual fazia seu trabalho com o um robô, fum ava com o um turco e se exprim ia em m onossílabos, com o todo m undo na rádio, aliás. Raquel respondia ao telefone com a voz m ecânica de um a secretária eletrônica. Barbara não conseguia parar quieta um instante sem experim entar um a vontade irrefreável de chorar.
O próprio presidente só ligava quando era estritam ente necessário.
A esse estado de espírito som ou-se a notícia da m orte trágica de Laurent, dois dias antes, num a tentativa de assalto. Foi o golpe de m isericórdia no ânim o geral, acrescentando m ais desalento a pessoas que j á pareciam possuídas pelos fantasm as.
No entanto, o m ais atingido por toda aquela história era m esm o Pierrot.
O m enino refugiara-se num m utism o preocupante, respondendo às perguntas que lhe faziam apenas com sinais afirm ativos ou negativos. Quando estava na rádio, era um a presença silenciosa que realizava as tarefas que lhe cabiam com o se não estivesse ali. Ficava entocado no arquivo horas a fio, tanto que m ais de um a vez Barbara descera para ver se ele estava bem . Sua m ãe tam bém estava preocupada. Em casa, passava o tem po inteiro ouvindo m úsica no estéreo com os fones nos ouvidos, com o se servissem para isolá-lo com pletam ente do resto do m undo.
Não sorria m ais. E nunca m ais havia ligado o rádio.
A m ãe estava desesperada com aquela involução do com portam ento de Pierrot. Frequentar a Rádio Monte Carlo, sentir-se parte de algum a coisa, ganhar algum dinheiro (para deixá-lo ainda m ais orgulhoso, a m ãe fazia questão de destacar o quanto aquele dinheiro era im portante para as finanças dom ésticas) tinham para ele o significado de um a porta aberta para o m undo.
A am izade no lim ite da adoração por Jean-Loup havia escancarado essa porta. Agora, pouco a pouco, aquela porta estava sendo fechada e a m ulher tem ia que, um a vez com pletam ente fechada, ninguém entraria m ais. Nunca m ais.
Era im possível entender o que se passava em sua cabeça.
No entanto, todos, do prim eiro ao últim o, ficariam de boca aberta se pudessem ler seus pensam entos. Todos pensavam que sua tristeza e seu m utism o derivavam da descoberta de que seu am igo era na verdade o hom em m au, com o ele m esm o definia, que telefonava para a rádio de vez em quando com a voz dos diabos. Talvez sua alm a ingênua reagisse daquela form a ao ser obrigada a constatar que sua confiança tinha sido depositada em alguém que não m erecia.
Mas, ao contrário do que se pensava, sua confiança em Jean-Loup, sua am izade, não tinham sido nem m inim am ente atingidas pelos últim os acontecim entos e pelas revelações daquela gente sobre seu ídolo.
Ele o conhecia bem , tinha estado em sua casa, tinham com ido crepes com Nutella j untos e Jean-Loup tinha perm itido que provasse um copo de vinho italiano m uito bom que se cham ava “il Moscato”. Era doce e fresco e fizera sua cabeça girar um pouco. Tinham ouvido m úsica e Jean-Loup lhe em prestara alguns discos, daqueles de plástico preto, preciosos, para que os ouvisse em casa. Tinha feito um a cópia dos CDs que Pierrot preferia, com o Jefferson Airplane, Jeff Beck com a guitarra na ponte dos carros e os dois últim os do Nirvana.
Todas as vezes que estiveram j untos, nunca tinha ouvido Jean-Loup falar com a voz dos diabos, m uito pelo contrário…
Dizia coisas que faziam rir com sua bela voz igual à da rádio e às vezes o levava a Nice de carro para tom ar sorvetes do tam anho de um a m ontanha e ver as loj as de anim ais, ele e Jean-Loup, parados na frente das vitrines, olhando os filhotes expostos em seus recintos.
Jean-Loup sempre disse que eles dois eram unha e carne e sempre dem onstrou que isso era verdade. Portanto, se Jean-Loup sem pre lhe dizia a verdade, isso significava um a coisa m uito sim ples: eram os outros que m entiam .
Todos perguntavam o que tinha e tentavam fazê-lo falar. Mas não queria dizer a ninguém , nem m esm o à m ãe, que a causa principal de sua tristeza era o fato de não tê-lo visto nunca m ais desde que aquelas coisas aconteceram . E que não sabia o que fazer para aj udá-lo. Talvez estivesse escondido em algum lugar naquele m om ento, talvez tivesse fom e e não havia ninguém para levar com ida para ele, nem um pouco de pão com Nutella.
Sabia que os policiais procuravam por ele e que, se o pegassem , iam colocá-lo na prisão. Pierrot não tinha um a ideia m uito precisa do que fosse um a prisão. Só sabia que lá ficavam as pessoas que tinham feito coisas feias e que não poderiam sair nunca m ais. E se não deixavam os que estavam lá dentro sair, significava que tam bém não deixavam os que estavam aqui fora entrar e, portanto, ele nunca m ais poderia ver Jean-Loup.
Talvez os policiais pudessem visitar quem estava na prisão. Antes, ele tam bém era um policial, um policial no horário. Foi o delegado quem lhe disse, aquele de cara sim pática que não tinha encontrado m ais e alguém contou que estava m orto. Mas agora, depois da confusão que tinha provocado, talvez ele não fosse m ais um policial no horário e talvez tivesse que ficar fora da prisão, sem poder ver Jean-Loup.
Pierrot virou a cabeça e viu que Barbara estava indo para a sala de direção. Ficou olhando seus cabelos ruivos m exendo com o se dançassem sobre o vestido preto quando ela andava. Gostava de Barbara. Não com o de Jean-Loup, m as diferente: quando seu am igo falava com ele ou botava a m ão em seu om bro, não sentia aquele calor que saía do estôm ago com o se tivesse bebido um a taça de chá quente de um só gole.
Com Barbara era diferente, não sabia o que era, m as sabia que gostava dela. Um dia, colocara um a flor em seu mixer, para dizer isso. Pegara um a m argarida de um vaso na rua e botara sobre o aparelho quando não tinha ninguém olhando. Num certo m om ento, acalentou esperanças de que ela e Jean-Loup se casassem ; assim podia ver os dois quando fosse à casa dele.
Pierrot recolheu a pilha de CDs e cam inhou em direção à porta. Raquel abriu a fechadura autom ática, com o sem pre fazia quando o via com as m ãos ocupadas. Pierrot saiu para o saguão e cham ou o elevador apertando o botão com o nariz. Nunca tinha deixado ninguém ver aquele seu m odo de cham ar o elevador. Certam ente ririam dele, m as com o o nariz estava ali, bem no m eio da cara sem fazer nada, bem que podia aj udar quando tinha as m ãos ocupadas…
Abriu a grade do elevador com o cotovelo e fechou da m esm a m aneira. Lá dentro, não dava para usar o nariz porque os botões tinham outra form a. Foi obrigado a um a autêntica acrobacia, apertando os CDs contra o queixo para conseguir apertar o térreo com um dedo.
O elevador com eçou a se m over de cim a para baixo. A m ente de Pierrot j á tinha feito isso havia m uito tem po, à sua m aneira m eio casual, seguindo um a lógica que, de algum m odo, do seu m odo, seguia um percurso absolutam ente linear.
Tinha tom ado um a decisão seguindo um raciocínio absolutam ente indiscutível.
Jean-Loup não podia vir até ele? Pois então ele iria até Jean-Loup.
Tinham estado m uitas vezes em sua casa e o am igo havia lhe contado que tinha um a chave de reserva para entrar em casa escondida num lugar secreto, que de agora em diante só os dois conheceriam . Estava grudada com silicone em baixo da caixa de correio, por trás do portão. Pierrot não sabia o que era silicone, m as sabia m uito bem o que era um a caixa de correio. Ele e sua m ãe tam bém tinham um a, na casa de Mentone, e não era um a casa bonita com o a de Jean-Loup.
Quando a visse, certam ente reconheceria.
Lá em baixo, no quarto, estava sua m ochila Invicta, um presente do próprio Jean-Loup. Tinha colocado um pouco de pão e um vidro de Nutella, surrupiado da despensa de casa. Não tinha vinho “il Moscato”, m as pegou um a latinha de Coca-Cola e um a de Schweppes e achou que daria no m esm o. Se o am igo estava escondido em algum lugar da casa, apareceria com certeza ao ver que era ele quem estava cham ando. Na verdade, quem m ais poderia ser? Só eles dois sabiam onde estava a chave secreta.
Ficariam j untos e com eriam chocolate com Coca-Cola e, se fosse capaz, daquela vez ele diria a Jean-Loup algum a coisa que o fizesse rir, em bora não pudesse levá-lo até Nice para ver os filhotes que brincavam nos boxes da vitrine.
Além disso, se Jean-Loup não estivesse lá, poderia cuidar de seus discos, os pretos, de plástico vinil. Tinha que lim pá-los, verificar se a um idade não estava estragando as capas, arranj á-los bem em fila do lado certo para evitar que envergassem , senão quando ele voltasse estariam todos arruinados. Tinha que cuidar das coisas do am igo, senão que espécie de am igo seria ele?
Quando o elevador chegou ao térreo, Pierrot sorria.
Besson, m ecânico do revendedor de m otores para barcos que funcionava no andar em baixo da rádio, estava esperando o elevador e abriu a porta. Deparou-se com o rapaz bem ali, de pé no elevador, com os cabelos espetados na cabeça que despontava atrás de um a pilha de CDs apertada entre os braços.
Ao ver seu sorriso, sorriu tam bém .
— Nossa, Pierrot, você parece a pessoa m ais ocupada de Montecarlo. Se eu fosse você, pediria um aum ento de salário.
O rapazinho não tinha a m enor ideia do que fosse pedir um aum ento de salário. Em todo caso, naquele m om ento, aquilo estava a m ilhares de quilôm etros de seu centro de interesses.
— É, vou fazer isso am anhã… — respondeu evasivo.
Besson, antes de entrar no elevador, abriu a porta à esquerda que dava para o arquivo.
— Cuidado com a escada — disse enquanto acendia a luz.
Pierrot fez m ais um de seus costum eiros acenos de cabeça e com eçou a descer os degraus. Quando chegou à porta do arquivo, em purrou com o pé a porta que tinha deixado encostada. Pousou sua carga em cim a da m esa j unto à parede, na frente da fila de prateleiras cheias de discos e CDs. Pela prim eira vez desde que trabalhava na Rádio Monte Carlo, não guardou os CDs que trouxe lá de cim a im ediatam ente em seus devidos lugares.
Pegou a m ochila e colocou nas costas, com o m ovim ento fácil que seu am igo Jean-Loup tinha lhe ensinado. Desligou a luz e fechou a porta à chave, com o fazia toda tarde antes de ir para casa.
Só que agora não estava indo para casa. Subiu as escadas e chegou à entrada do edifício, um longo corredor que levava a um a porta de vidro. Depois dela, estava o porteiro, a cidade, o m undo. Escondido em algum lugar, estava seu am igo, que precisava dele.
Pela prim eira vez em sua vida, Pierrot fez um a coisa que nunca pensou em fazer.
Em purrou a porta, deu um passo adiante e preparou-se para enfrentar o m undo sozinho.