Eu Mato

Giorgio Faletti · Capítulo 19 de 76

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Eu Mato

Capítulo 16

16

 

ALLEN YOSHIDA ASSINOU O CHEQUE e o entregou ao encarregado do bufê.

Tinha trazido de Paris, especialm ente para a festa em sua casa, um a equipe com pleta de seu restaurante preferido, Le Pré Catelan, no Bois de Boulogne. Custara os olhos da cara, m as valera a pena. Ainda tinha na boca o gosto requintado da sopa de rãs e pistache que fazia parte do esplêndido cardápio daquela noite.

— Obrigado, Pierre. Estava soberbo, com o sem pre. Vai notar que acrescentei ao valor do cheque um a gratificação para vocês.

— Eu que agradeço, sr. Yoshida. Foi generoso com o sem pre. Não se incom ode em acom panhar-m e. Conheço o cam inho. Boa-noite.

— Boa-noite, m eu caro.

Pierre inclinou-se ligeiram ente e Yoshida respondeu da m esm a m aneira. O hom em partiu cam inhando silenciosam ente até desaparecer atrás da porta de m adeira escura. Yoshida esperou até ouvir o barulho do m otor do carro. Pegou um controle rem oto na m esa e apontou para um painel de m adeira na parede à esquerda. O painel se abriu suavem ente exibindo um a série de telas interligadas a câm eras do circuito fechado de televisão colocadas em diversos pontos da casa. Viu o carro de Pierre sair pelo portão de entrada e os hom ens da segurança fechando-o às suas costas.

Estava só.

Atravessou o grande salão que ainda exibia os sinais da festa por todo lado. O pessoal do bufê tinha retirado o que era de sua com petência e desaparecido discretam ente, com o de hábito. A criadagem chegaria no dia seguinte para term inar o trabalho. Allen Yoshida não gostava de ter gente em casa. As pessoas a seu serviço chegavam de m anhã e iam em bora à noite. Em caso de necessidade, pedia a algum deles que ficasse ou contratava pessoal extra. Preferia ser o único patrão de suas noites, sem m edo de que ouvidos e olhos indiscretos ficassem sabendo de algum a coisa que queria só para si.

Saiu para o j ardim através das enorm es portas envidraçadas abertas para a noite. Do lado de fora, um elaborado j ogo de luzes criava efeitos de som bra entre plantas de troncos altos, m oitas e aleias floridas, m érito de um paisagista que m andara vir da Finlândia. Soltou a gravata-borboleta do sm oking Arm ani e desabotoou a cam isa branca. Esticando os pés, tirou os sapatos de verniz sem desam arrá-los. Inclinou-se e tam bém tirou as m eias de seda, j ogando-as para trás. Am ava a sensação dos pés descalços sobre a relva úm ida. Foi para a piscina toda ilum inada à flor-d’água, que de dia parecia acabar diretam ente no m ar e que, naquele m om ento, parecia um a enorm e água-m arinha engastada na escuridão da noite.

Estendeu-se num a espreguiçadeira de teca à beira da piscina e esticou as pernas. Olhou ao redor. No m ar, poucas luzes naquela noite de lua m inguante. Diante dele, além do prom ontório na contraluz, adivinhava-se o brilho de Montecarlo, de onde tinha vindo a m aioria dos convidados daquela noite; à esquerda, a casa.

Virou-se para olhá-la. Am ava aquela casa e considerava-se um privilegiado por ter conseguido adquiri-la. Adm irou as linhas de estilo retrô, a elegância da construção unida a um rigor funcional que era fruto do gênio do arquiteto que proj etara a casa para a diva da época, Greta Garbo. Quando a com prou, estava fechada havia anos e ele entregara a reform a a um arquiteto contem porâneo tão genial quanto o prim eiro: Frank Gehry, responsável pelo proj eto do Museu Guggenheim de Bilbao.

Deu-lhe total liberdade, pedindo apenas que m antivesse inalterado o espírito da casa. O resultado era extraordinário, a classe absoluta unida à m ais avançada tecnologia. Um a residência que deixava todo m undo de boca aberta, exatam ente com o tinha acontecido com ele da prim eira vez que entrara ali. Pagara sem titubear a quantia exigida, com um núm ero de zeros tão grande que parecia infinito.

Apoiou-se na espreguiçadeira, m ovendo a cabeça para relaxar as articulações da nuca. Enfiou a m ão no bolso e retirou um tubinho de ouro. Tirou a tam pa e deixou cair um a pitada de um pó branco no dorso da m ão. Aproxim ou a m ão do nariz e aspirou a cocaína diretam ente dali, passando em seguida dois dedos nas narinas para rem over vestígios do pó.

Tudo a seu redor revelava sucesso e poder. Contudo, Allen Yoshida não tinha ilusões. Recordava m uito bem que seu pai quebrava a espinha descarregando de dentro de vagões frigoríficos caixas de peixe fresco chegado da costa, para depois recarregá-las em sua picape e entregar nos restaurantes j aponeses da cidade. Lem brava que quando voltava para casa era precedido por um cheiro de peixe que, não im portava o quanto se lavasse, não saía de suas m ãos. Recordava a casa desm ilinguida em que m oravam , num bairro igualm ente desm ilinguido de Nova York, e que desde sem pre seus pais diziam que precisava de reform as no teto e nos encanam entos. Ainda tinha nos ouvidos o gorgolej o dos velhos canos a cada vez que abriam a torneira e a golfada de água ferruginosa saía. Para se lavar, era preciso esperar alguns m inutos até que ficasse transparente.

Tinha crescido ali, filho de um j aponês e um a am ericana, preso entre as duas culturas, um gaijin para a m entalidade estreita da com unidade j aponesa e um am arelo para os am ericanos brancos. Para todos os outros — negros, porto-riquenhos, italianos — era apenas m ais um m enino m estiço pelas ruas da cidade.

Sentiu o choque radiante da cocaína que entrava na circulação. Passou um a m ão pelos cabelos bastos e brilhantes com o seda.

Há m uito tem po não tinha ilusões. Nunca tivera. Todas as pessoas que tinham estado em sua casa naquela noite não teriam dado um passo se ele não tivesse se tornado o que era. Se não representasse os m ilhões de dólares que representava. Nenhum deles se interessava em saber se ele era um gênio ou não. O que interessava era que seu gênio tinha frutificado num a fortuna pessoal que o incluía entre os dez hom ens m ais ricos do m undo.

O resto pouco contava e não im portava a ninguém . Um a vez tendo-se chegado ao resultado, ninguém queria saber com o ele tinha sido alcançado. Para todos, ele era o brilhante criador de Sacrifiles, o sistem a operacional que brigava com a Microsoft no m ercado m undial da inform ática. Tinha 18 anos quando o lançara e criara a Zen Electronics, graças ao financiam ento de um banco que acreditara no proj eto, depois que ele tinha dem onstrado a um grupo de investidores adm irados a sim plicidade operacional de seu sistem a.

Billy La Ruelle deveria estar ali com ele. Billy La Ruelle, seu am igo do peito, estudante com o ele na escola de inform ática, chegara um belo dia em sua casa com a ideia genial de um sistem a operacional revolucionário para am bientes DOS. Trabalharam no m ais absoluto segredo durante m eses, nas casas dos dois, passando até as noites com seus com putadores ligados em rede. Infelizm ente, Billy tinha caído do telhado no dia em que saíram para consertar a antena da televisão, antes da partida decisiva do play-off entre o Chicago Bulls e o Lakers. Escorregara no plano inclinado com o um trenó no gelo e ficara pendurado na calha. Allen ficara olhando im óvel, sem fazer nada, enquanto Billy im plorava aj uda. Seu corpo estava suspenso no vazio e dava para ouvir o rangido sinistro da calha cedendo pouco a pouco a seu peso. Via os nós de seus dedos brancos no esforço de perm anecer agarrado à lâm ina da calha e, com ela, à vida.

Billy caiu com um grito, olhando para ele desesperado, com os olhos esbugalhados. Espatifou-se com um som surdo no asfalto diante da garagem , o pescoço dobrado num ângulo im possível. Ironicam ente, o pedaço de calha que se soltara tinha ido cair exatam ente na cesta de basquete pendurada no m uro da casa, onde ele e Billy j ogavam nos intervalos do trabalho. Enquanto a m ãe de Billy saía de casa gritando, ele descera até o quarto do am igo, descarregara em alguns disquetes tudo o que havia no com putador e apagara o disco rígido, de m odo que não restasse nenhum vestígio.

Enfiara os disquetes no bolso traseiro dos j eans e correra para o pátio, para perto do corpo sem vida de Billy.

A m ãe estava sentada no chão com a cabeça do filho apoiada nas pernas e falava com ele acariciando seus cabelos. Allen Yoshida chorara suas lágrim as de crocodilo. Aj oelhara-se a seu lado, sentindo a consistência dura dos disquetes esticando o bolso das calças. Um vizinho tinha cham ado um a am bulância, que chegara a toda velocidade, precedida por um a sirene que soava estranham ente igual ao lam ento da m ãe de Billy, e parara com um rangido de pneus e freios. Alguns hom ens desceram e, sem pressa, levaram o corpo de seu am igo coberto por um pano branco.

Um a velha história. Um a história a ser esquecida. Agora, seus pais m oravam na Flórida e seu pai tinha finalm ente conseguido tirar o fedor de peixe das m ãos. Ou quem sabe, graças aos dólares do filho, todos estavam dispostos a considerar que se tratava de um perfum e. Yoshida arcara com os custos de um a desintoxicação para a m ãe de Billy por consum o excessivo de álcool, e com prara para ela e o m arido um a casa num bairro residencial, onde viviam sem problem as graças ao dinheiro que ele enviava m ensalm ente. Certa vez, quando se encontraram , a m ãe de seu am igo tinha beij ado suas m ãos. Por m ais que as lavasse, por m uito tem po sentiu aquele beij o queim ando sua pele.

 

* * *

 

Levantou-se da cadeira e voltou para a casa. Tirou o paletó e j ogou-o nas costas, segurando-o com um a das m ãos. Sentiu a um idade da noite im pregnando o tecido leve da cam isa, que aderia à pele.

Arrancou um a gardênia de um a m oita florida e levou ao nariz. Apesar do nariz anestesiado pela cocaína, conseguia perceber seu perfum e delicado.

Retornou ao salão e tirou o controle do bolso do paletó. Apertou um botão e as vidraças blindadas se fecharam sem fazer barulho, deslizando nos trilhos perfeitam ente lubrificados. Apagou as luzes da m esm a m aneira, deixando acesas apenas algum as lâm padas em butidas nas paredes.

Agora estava só, finalm ente. Era o m om ento de dedicar um pouco de tem po a si m esm o e a seu prazer. A seu prazer secreto.

As m odelos, os banqueiros, as estrelas pop, os atores que enchiam seus salões não passavam de m anchas de cor num m uro branco, rostos e palavras que seriam esquecidos com a m esm a desenvoltura com que tentavam se fazer notar. Allen Yoshida era um hom em bonito. Herdara da m ãe am ericana as proporções e o físico longilíneo dos ianques, e do pai, o corpo enxuto e definido dos orientais. Seu rosto era um a m istura das duas raças num a harm onia refinada de traços que tinham aquela arrogância de todas as casualidades. Seu dinheiro e sua aparência atraíam o m undo. Sua solidão o enchia de curiosidade.

As m ulheres, sobretudo, exibiam seios e olhares e corpos carregados de prom essas m uito sim ples de verificar naquela busca obsessiva por contatos que era a vida. Rostos tão abertos e tão fáceis de ler que antes m esm o de com eçar j á se via a palavra “fim ”.

Para Allen Yoshida, o sexo era o prazer dos im becis.

Do salão passou por um breve corredor que levava à cozinha e à sala de j antar. Parou diante de um a placa curva de rádica. Apertou um botão à direita e o painel deslizou sobre a parede.

Diante dele, um a escada que descia.

Desceu-a tom ado por um a leve im paciência. Tinha um a nova fita para ver, um vídeo inédito entregue no dia anterior. Ainda não tinha tido tem po de vê-lo da m aneira com o gostava, com odam ente sentado em sua saleta de proj eção, com m onitor de plasm a, apreciando cada instante da film agem e bebendo cham panhe gelado.

Quando perm itira que Billy La Ruelle caísse do telhado, Allen Yoshida não tinha se transform ado apenas num dos hom ens m ais ricos do m undo. Tinha descoberto um a outra coisa que m udaria sua vida. Ver os olhos esbugalhados e o rosto aterrorizado de seu am igo enquanto pendia no vazio, sentir o desespero em sua voz enquanto pedia aj uda, lhe dera prazer.

Só percebera depois, quando tirara a roupa para tom ar banho e descobrira as cuecas suj as de esperm a. Naquele m om ento trágico que causara a m orte do am igo, ele tivera um orgasm o.

Desde então, desde o preciso instante daquela descoberta, tinha tom ado sem rem orso a estrada de seu prazer, da m esm a form a com o tom ara a estrada da riqueza.

Sorriu. O sorriso foi com o um a teia de aranha lum inosa sobre o rosto indecifrável. Era verdade que o dinheiro com pra tudo. A cum plicidade, o silêncio, o crim e, a vida e a m orte. Por dinheiro os hom ens estavam dispostos a m atar, a provocar sofrim ento e a sofrer. Ele sabia disso m uito bem , a cada vez que tinha que desem bolsar o preço exorbitante de um a nova fita para sua coleção.

Eram vídeos autênticos, que m ostravam a tortura e a m orte de hom ens, m ulheres e até crianças, pegos ao acaso nas ruas, levados para locais seguros e film ados enquanto eram subm etidos a todo tipo de sevícias, antes de serem m ortos sob o olhar indiferente de um a câm era de vídeo.

Tinha verdadeiras preciosidades em sua cinem ateca. Um a adolescente enrolada lentam ente em aram e farpado antes de ser queim ada viva. Um hom em negro, cuj a pele fora totalm ente retirada, até se transform ar num a única m ancha verm elha de sangue. Seus gritos de dor eram m úsica para os ouvidos de Yoshida, que degustava o vinho gelado enquanto esperava o clím ax de seu prazer.

E era tudo verdade.

No fundo da escada encontrava-se um a am pla sala ilum inada. À sua esquerda, duas m esas de sinuca Herm elin, um a tradicional e um a am ericana, construídas especialm ente para ele na Itália. Pendurados à parede, os tacos e tudo que era necessário para o j ogo. Havia poltronas e sofás ao redor de um m óvel que escondia um bar, um dos m uitos espalhados pela casa.

Passou por eles e parou diante da parede em frente, coberta por outro painel de rádica. À direita, num pedestal de m adeira de cerca de um m etro e m eio, havia um grupo m arm óreo do período helenístico representando um a Vênus brincando com Eros, ilum inada pela lâm pada halógena pendurada no teto.

Não deu atenção à delicadeza da obra, à tensão entre os dois personagens que o escultor tinha conseguido transm itir com sua arte. Pousou as m ãos na base da estátua e em purrou. A cobertura de m adeira girou sobre si m esm a, m ostrando o interior oco da base. Encaixado no fundo, havia o m ostrador de um a fechadura digital.

Yoshida digitou o código alfanum érico que só ele conhecia, e o painel de rádica deslizou suavem ente para o lado, desaparecendo parcialm ente na parede da esquerda.

Além da abertura ficava seu reino. Lá estava o prazer que esperava por ele, secreto com o o prazer devia ser para se tornar absoluto.

Estava para ultrapassar a soleira da porta quando sentiu um violento golpe na nuca, um lam pej o de dor e, im ediatam ente, o alívio da escuridão.