Eu Mato

Giorgio Faletti · Capítulo 73 de 76

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Eu Mato

Capítulo 62

62

 

O CARRO COM O EMBLEMA DA SÛRETÉ PUBLIQUE de Montecarlo deslocou-se para a direita e, a toda velocidade, pegou a saída para a autoestrada que descia para o aeroporto de Nice. Frank tinha dito a Xavier que era um a questão de vida ou m orte e o agente estava interpretando essa declaração ao pé da letra. Apesar da sirene ligada, ouviu distintam ente os pneus cantando no asfalto quando a força centrífuga os em purrou para fora da curva. Chegaram a um trevo com sinais evidentes de obras em curso. Frank pensou que o fato de estarem num carro da polícia não os isentava das leis m ais elem entares da física, um a das quais prevê que dois corpos não podem ocupar o m esm o lugar no espaço. Tem eu que daquela vez, apesar de todo seu talento, Xavier não conseguiria m anter o carro na pista, atropelaria os cavaletes de plástico branco e verm elho e eles cairiam no despenhadeiro atrás deles, em m eio à vegetação do leito pedregoso do rio Var. Porém , m ais um a vez, seu piloto preferido o surpreendeu. Num a guinada brusca do volante, deu um a derrapada controlada e com um cavalo de pau cinem atográfico chegou ao fim da curva.

Frank viu o corpo de Morelli relaxar quando entendeu que tinham sobrevivido. Percorreram um a breve reta e Xavier com eçou a dim inuir. Desligou a sirene quando entraram na pista de acesso ao Term inal 2, com um cartaz indicando a área de desem barque de bagagens e passageiros, onde só era perm itido ficar alguns m inutos, num a operação batizada de Kiss and Fly.

Frank sorriu consigo m esm o com a ironia da definição.

Kiss and Fly, beij e e voe.

Mas não acreditava que Parker quisesse beij á-lo antes de partir.

Em vez de seguir o percurso norm al, na m etade da curva à esquerda, pararam diante de um acesso reservado, protegido por um a barreira e dois seguranças do Aeroporto Côte d’Azur. Ao ver o em blem a da polícia, eles levantaram a barreira em frente ao term inal de em barque internacional.

Morelli virou-se rapidam ente para o m otorista.

— Se continuar guiando desse j eito quando voltarm os, prom eto que o próxim o volante que vai m anobrar será o de um cortador de gram a. As em presas de j ardinagem recebem m uito bem os ex-policiais…

Frank sorriu e esticou-se no banco traseiro para apoiar a m ão solidária no om bro do policial.

— Não se preocupe, cam peão. Morelli late, m as não m orde.

O celular de Frank com eçou a tocar. Já im aginava quem seria. Enfiou a m ão no bolso do paletó e retirou o aparelho. O toque era tão im perioso que se espantou quando ele não queim ou seus dedos, com o se a cam painha tivesse um a conotação térm ica, além da sonora.

— Alô?

— Alô, Frank? É Froben. Onde você está?

— Do lado de fora do aeroporto. Estou descendo do carro agora.

Na voz do delegado não havia um sim ples alívio, m as um autêntico refrigério.

— Menos m au. Nosso am igo está soltando raios e trovoadas. Daqui a pouco vai declarar guerra à França sozinho. Nem lhe conto o que tive que inventar para m antê-lo quieto…

— Acredito. Mas garanto que não é um sim ples capricho. Na verdade, você fez um dos m aiores favores que alguém j á m e fez em toda m inha vida.

— O.K., am ericano, daqui a pouco vou com eçar a chorar de em oção e lá se vai o celular banhado em lágrim as. Pode parar com essa tentativa tosca de m e enrolar e venha tirar essa batata quente das m inhas m ãos.

Frank abriu a porta do carro. A voz de Morelli o deteve quando j á estava de pé no asfalto.

— Esperam os por você?

— Não, podem ir. Eu m e viro para voltar.

Estava quase saindo quando parou. A pressa não pode apagar a gratidão.

— Ah, Claude…

— Sim ?

— Muito obrigado. A vocês dois.

Morelli olhou para ele por cim a do banco da frente.

— Não tem de quê. Ande logo, tem gente esperando por você….

Antes de descer, Frank deu um a olhadela cúm plice em Xavier.

— Aposto m il euros contra um cartão de visita de Roncaille que não consegue voltar em m enos tem po do que levam os para chegar aqui…

Fechou a porta com um largo sorriso, sob os im propérios de Morelli. Mas quando ouviu o m otor do carro que partia, o sorriso j á tinha desaparecido de seu rosto.

A captura de Jean-Loup, o fim daquele pesadelo, colocara os hom ens da Sûreté Publique de Montecarlo num a espécie de atm osfera pré-natalina fora de hora. Sem guirlandas, luzes e presentes, pois todos os m ortos que aquele hom em sem eara em seu cam inho vetavam qualquer tipo de festa. Mas vê-lo chegar à central algem ado tinha sido, em pleno verão, com o um belo presente para colocar na árvore. Se alguém pensara que Nicolas Hulot não estava lá para partilhar aquele m om ento, guardara a lem brança para si. O fato de que a prisão tinha sido fruto de um a intuição genial de Frank, que ele levara a cabo sozinho, fizera crescer de m aneira desm esurada a consideração de todos para com ele, ou até m esm o fizera nascer a estim a onde antes não existia. Ele distribuíra sorrisos quando devia, apertara as m ãos que lhe estendiam j unto com as congratulações, fizera parte de um a alegria que não conseguia viver profundam ente. Mas aderira ao clim a geral. Não quisera, por assim dizer, fazer o papel do único hom em que não ri na foto do grupo.

Mas tinha feito um gesto que parecia estar se transform ando num ritual naquele dia. Olhara o relógio. E pedira um carro para chegar o m ais rápido possível ao aeroporto de Nice.

Agora atravessava a calçada com passo veloz. A porta de vidro do term inal reconheceu sua pressa e abriu-se docilm ente à sua passagem . Logo depois da entrada, a figura fam iliar de Froben o recebeu. O delegado bufou teatralm ente e fez o gesto de quem lim pa o suor da testa com a m ão.

— Nem im agina com que prazer o vej o.

— Nem im agina o quanto im agino.

Frank tinha respondido no m esm o tom e am bos estavam sendo sinceros.

— Tive que dar saltos m ortais para convencer nosso hom em de que um a intervenção oficial não seria necessária. Na prática, tive que segurá-lo quando j á estava discando o núm ero do presidente dos Estados Unidos em pessoa. Sabe com o é… Perderam o prim eiro avião, m as o próxim o voo parte dentro de um a hora. Posso garantir que o general Parker é um péssim o cliente num caso com o esse.

— Não im porta o que m e contar sobre Parker, posso garantir que acredito. Na verdade, eu é que posso lhe contar certas coisas sobre ele que lhe fariam ficar de queixo caído.

Enquanto conversavam , cam inhavam rapidam ente, um ao lado do outro em direção ao setor do aeroporto onde Froben havia instalado a fam ília Parker. Chegaram à barreira de controle. O delegado m ostrou o distintivo aos agentes de serviço nos detetores de m etal. Um policial uniform izado indicou um a passagem lateral para que evitasse a fila de passageiros que esperavam para passar suas bagagens de m ão. Dobraram à esquerda, na direção dos portões de em barque.

— A propósito de coisas incríveis, com o vai nossa outra história? Estou enganado ou tem os novidades?

— Está falando de Ninguém ?

— Exatam ente.

— Conseguim os pegá-lo — disse Frank com voz neutra.

O delegado olhou para ele estupefato.

— Quando?

— Um a hora atrás, m ais ou m enos. Nesse exato m om ento, j á está preso.

— E você fala assim ?

Frank virou-se para Froben e fez um gesto vago com a m ão.

— Acabou, Claude. Capítulo encerrado.

Não pôde acrescentar m ais nada, pois nesse m eio-tem po tinham chegado à porta de um a saleta reservada, guardada por um agente.

Frank parou diante daquela porta que escondia o general Nathan Parker, Helena e Stuart. Um era um a parte incôm oda de seu presente, os outros dois, um a parte do futuro. Ficou olhando para a porta com o se fosse transparente e pudesse ver o que as pessoas estavam fazendo lá dentro. Froben se aproxim ou e pousou a m ão em seu om bro.

— Precisa de aj uda, Frank?

Percebeu um leve tom protetor na voz dele. A sensibilidade daquele suj eito contrastava com sua aparência de estivador.

— Não, obrigado. Você j á m e deu toda a aj uda de que precisava. Agora preciso m e virar sozinho.

Frank Ottobre respirou profundam ente e abriu a porta.

A saleta era um a das tantas salas VIPs im pessoais e confortáveis que se encontram nos aeroportos, à disposição dos passageiros da classe executiva. Poltronas e sofás de couro, tons pastel nas paredes, carpete no chão, um self-service espartano de um lado, reproduções de Van Gogh e Matisse j unto com alguns cartazes de com panhias aéreas em m olduras de aço escovado. Havia um a sensação de precariedade que geralm ente se percebe em am bientes do gênero, com o se todas aquelas chegadas e partidas deixassem no ar, apesar do conforto, um a atm osfera de desolação.

Helena estava sentada num sofá, folheando um a revista. Stuart estava sentado a seu lado, distraído com um a versão portátil de videogam e. Diante deles, num a m esinha baixa de m adeira com tam po de vidro, dois copos de plástico e um a latinha de Fanta.

O general Parker estava de pé, de costas, do outro lado da sala. Olhava fixam ente para um a reprodução de Dalí pendurada na parede, as m ãos cruzadas nas costas.

Ao ouvir o rum or da porta se abrindo, virou a cabeça. Olhou para Frank com o olham os para alguém que não vem os há m uito tem po, ganhando tem po para vasculhar a m em ória à cata da ligação entre aquele rosto, um nom e e um lugar.

Helena ergueu a cabeça da página que estava lendo e seu rosto se ilum inou ao vê-lo. Frank agradeceu ao destino por ter lhe reservado a luz daquele olhar. Não teve tem po de gozar plenam ente seu sorriso. A raiva de Parker explodiu e chegou com o um a nuvem carregada cobrindo o sol. Em dois passos, j á estava entre eles. Em seu rosto, o ódio ardia m ais que as labaredas de um incêndio.

— Devia ter adivinhado que você estava por trás disso tudo. Acho que este vai ser seu últim o, definitivo erro. Já avisei um a vez. Agora estou confirm ando. Você está acabado. Em sua estupidez, deve estar pensando que são palavras ao vento. Assim que voltar para os Estados Unidos, darei um j eito para que não sobrem nem m igalhas de você, darei um j eito…

Frank fitou o rosto congestionado do hom em que estava diante dele com sua m elhor cara de indiferença. Por dentro, sentia as ondas enorm es de um m ar em ressaca batendo furiosas, fazendo ranger a estreita plataform a de m adeira do cais. Apesar disso, a voz com que o interrom peu era tão calm a que conseguiu irritar ainda m ais o adversário.

— Se eu fosse o senhor, trataria de m e acalm ar, general. Na sua idade, apesar de suas excelentes condições de saúde, o coração é um órgão que exige um a certa prudência. Não creio que queira correr o risco de um enfarte, livrando-m e de sua presença de m odo tão agradável.

O que passou pelo rosto do velho soldado foi com o m il bandeiras trem ulando, cada um a delas m ovida por um vento de guerra. Frank viu com prazer que além do ódio, da ira e da incredulidade, a som bra de um a dúvida apareceu por um segundo no fundo daqueles im placáveis olhos azuis. Talvez estivesse com eçando a se perguntar de onde Frank retirava forças para lhe falar daquela form a. Mas foi só um lam pej o e o olhar de Parker logo foi coberto pela desdenhosa onipotência de sem pre. Adequou-se às m aneiras de Frank e sua voz tam bém se acalm ou. Os cantos de sua boca desenharam um sorriso de satisfação.

— Não, sinto decepcioná-lo, m eu j ovem . Para sua infelicidade, m eu coração é firm e com o um a rocha. É o seu, ao contrário, que parece envolvido em fibrilações que não lhe dizem respeito. E esse foi m ais um de seus erros. Minha filha…

Frank o interrom peu de novo. Não era um a coisa à qual o general Nathan Parker estivesse habituado.

— No que diz respeito a sua filha e a seu neto…

Frank fez um a pequena pausa depois da palavra “neto”, abaixando o tom de voz de m odo que o m enino não pudesse ouvir. Stuart acom panhava a discussão atônito, sentado no sofá com as m ãos no colo. O brinquedo eletrônico, com pletam ente esquecido, continuava a em itir um desconsolado bip bip bip…

— …no que diz respeito a sua filha e a seu neto, com o eu dizia, devo aconselhá-los a darem um passeio no duty-free do aeroporto. Talvez sej a m elhor que o assunto que tem os a discutir fique entre nós.

— Não tem os nada a discutir, agente Ottobre. E m inha filha e m eu neto não têm que ir a nenhum m aldito duty-free. É você que vai sair por aquela porta e desaparecer para sem pre de nossas vidas. Nós vam os entrar num avião direto para os Estados Unidos. Repito que…

— General, o senhor talvez não tenha entendido que um blefe m uito repetido deixa de funcionar. Mais cedo ou m ais tarde vai encontrar alguém com um j ogo m uito m elhor que o seu e que vai pedir para ver. E vai vencer. Não m e im porto nem um pouco com o senhor. Se o visse queim ando vivo não lhe daria nem o prazer de m ij ar em sua pessoa. Se prefere que eu diga o que tenho a dizer diante deles, vou fazê-lo. Saiba que são coisas que não vão perm itir que volte atrás. Se quer correr o risco…

A voz de Frank ficou tão baixa que Helena não conseguiu ter certeza de que continuava falando. Perguntou-se o que teria dito para fazer seu pai em udecer daquela form a. Frank olhou para ela e fez um leve gesto afirm ativo com a cabeça. Helena se levantou do sofá e pegou o filho pela m ão.

— Venha, Stuart, vam os dar um a volta. Acho que encontrarem os um m onte de coisas interessantes lá fora.

O m enino seguiu sem resistência. Com o a m ãe, vivia na casa do general Parker: não estava habituado a receber conselhos, só ordens. O único rum or que deixaram para trás foi o da porta se fechando.

Frank sentou-se no sofá, no lugar onde Helena estivera sentada pouco antes. O calor que seu corpo tinha deixado no revestim ento de couro estava quase intacto, e aquele calor tornou-se seu.

Indicou a poltrona diante dele.

— Sente-se, general.

— Não venha m e dizer o que tenho que fazer!

Frank percebeu um a pequena nota de histeria na voz de Parker.

— Trate de cuspir seus devaneios de um a vez. Tem os um avião em …

O general olhou a hora. Frank sorriu por dentro. Devia ser um gesto habitual para ele tam bém , até aquele m om ento. Notou que precisava afastar o m ostrador dos olhos para poder enxergar.

Parker tirou os olhos do relógio.

— …nosso avião parte em m enos de m eia hora.

Frank sacudiu a cabeça,

Negativo, senhor.

— Sinto contrariá-lo, general. Não é nosso avião: é seu avião.

Parker olhou para ele com o se tivesse dificuldade em acreditar no que acabara de ouvir. Em seu rosto, foi se desenhando lentam ente aquela expressão de surpresa diante de um a piada, um segundo antes de entender seu sentido. Mas de repente, explodiu num a gargalhada. Frank viu com satisfação que era um a risada sincera e im aginou o prazer que teria ao apagá-la de sua boca.

— Pode rir se isso lhe dá prazer. Mas isso não m uda o fato de que partirá sozinho e de que sua filha e seu neto ficarão aqui, na França, com igo.

Parker sacudiu a cabeça, com a com iseração que se usa diante dos absurdos de um idiota.

— Está ficando com pletam ente doido.

Frank sorriu e relaxou no sofá. Cruzou as pernas e apoiou um braço no encosto.

— Sinto contrariá-lo m ais um a vez. Acho que até j á fui doido. Mas estou curado. Infelizm ente para o senhor, nunca estive tão consciente quanto neste m om ento. Vej a bem , general, estava tão preocupado em m ostrar os erros que eu estava com etendo que não se preocupou com os seus, os quais foram realm ente m uito graves.

O general olhou para a porta e deu dois passos naquela direção. Frank cortou qualquer iniciativa na raiz.

— Não virá nenhum a aj uda de lugar nenhum . Eu não o aconselharia a envolver a polícia daqui, se era o que estava pensando. E se está esperando pela chegada do capitão Mosse, saiba que neste m om ento ele deve estar estendido na m esa de um necrotério, com a garganta cortada.

O general virou a cabeça de chofre.

— O que está dizendo?

— Eu bem que avisei. Por m ais que alguém sej a bom , vai sem pre encontrar alguém m elhor. Seu lam be-botas era um ótim o soldado, m as tem o lhe inform ar que Ninguém , o hom em que ele deveria m atar, é um lutador m uito m elhor. Livrou-se de Mosse com a m esm a desenvoltura com que Mosse pensava se livrar dele.

Diante da notícia, Parker precisou se sentar. Sobre o rosto bronzeado tinha surgido de repente um leve tom de cinza.

— Em todo o caso, no que se refere ao assassino de sua filha, saiba que está preso e não existe o risco de que aconteça o que tem ia. Ele irá para um m anicôm io j udiciário de onde não sairá nunca m ais.

Frank concedeu-se um a pequena pausa. Sentou-se na beirada do sofá e fitou com atenção o hom em sentado em silêncio a sua frente. Não conseguia adivinhar que pensam entos cruzavam a m ente dele naquele m om ento. Por outro lado, não tinha absolutam ente nenhum interesse em tentar descobrir. A única coisa que desej ava era pôr um ponto final naquela história o m ais rápido possível e ver o general pelas costas enquanto percorria o finger que o levaria do aeroporto ao avião.

Sozinho.

— Acho que será m elhor com eçar do início, general. E o início é ligado a m im , não ao senhor. Acho que não devo m e alongar m uito a respeito de m inha história. Já a conhece bem dem ais, não é m esm o? Sabe de tudo a m eu respeito, sabe de m inha m ulher e de seu suicídio, depois que escapei por m ilagre de um a explosão enquanto investigava sobre Jeff e Osm ond Larkin, dois traficantes que controlavam um m ercado de duzentos ou trezentos m ilhões de dólares por ano. Saí da experiência destruído. Enquanto tentava voltar à tona do fundo do poço em que tinha m ergulhado, vim para cá e fui envolvido, a contragosto, na investigação sobre um serial killer. Um assassino feroz com o um tubarão, cuj a prim eira vítim a foi, infelizm ente, exatam ente a sua filha, Arij ane. E aí entra o senhor. Chega a Montecarlo enlouquecido de dor e de desej o de vingança…

Parker tom ou aquelas palavras com o se fossem um questionam ento de sua dor de pai.

— O que teria feito se alguém m atasse sua m ulher daquela m aneira?

— A m esm íssim a coisa que o senhor disse que queria fazer. Não teria paz até conseguir liquidar seu assassino com m inhas próprias m ãos. Mas seu caso é diferente…

— O que pretende dizer, palhaço? O que pode saber sobre os sentim entos de um pai por um a filha?

Parker falou instintivam ente, sem pensar. Mas percebeu im ediatam ente o tam anho do erro que tinha com etido ao pronunciar aquelas palavras. Frank sentiu o im pulso de pegar a Glock no coldre da cintura e de acertar sua cabeça exatam ente naquele instante, de m andar sua m assa cinzenta dar um toque naïf aos cartazes das paredes daquela sala im pessoal. Pensou que o esforço que fez para se dom inar ia lhe custar dez anos de vida.

Respondeu. E o hálito de sua boca era gelado.

— É verdade, general, ignoro quais sej am os sentim entos de um pai por um a filha, m as conheço perfeitam ente quais são os seus sentim entos por um a filha. O senhor m e dá noj o, general Parker, literalm ente noj o. E j á lhe disse que não passa de um a criatura desprezível e que o esm agaria com o um a barata. Em sua presunção, em seu delírio de onipotência, foi o senhor quem não quis acreditar…

A som bra de um sorriso passou sobre o rosto de Parker. Talvez considerasse a reação que tinha provocado em Frank com o um a pequena vitória pessoal.

— Se não for m uita curiosidade, poderia m e explicar o que pretende fazer para alcançar seus obj etivos?

Frank tirou um grande envelope am arelo do bolso interno do paletó e j ogou-o no tam po de vidro da m esinha entre eles.

— Aqui está. Tudo o que vou lhe dizer é confirm ado pelo que está no envelope. Agora, se m e perm ite, pretendo continuar…

Parker fez um gesto com as m ãos, convidando-o a prosseguir.

Ainda com a m ente agitada, Frank teve que fazer um esforço para se acalm ar e dar sequência à exposição ordenada dos fatos.

— Com o estava dizendo, o senhor chegou a Montecarlo arrasado pela m orte de sua filha e pelo m odo bárbaro com o tinha sido assassinada, m anifestando em term os m uito pouco reservados, perm ita-m e dizer, o desej o de colocar pessoalm ente as m ãos em seu assassino. Tão pouco reservado que levantou algum as suspeitas.

Fez um a pausa, depois escandiu, quase separando em sílabas, as palavras seguintes.

— Mas suas intenções estavam a centenas de quilôm etros disso. O que lhe interessava era exatamente o contrário, era que o tal serial killer continuasse a matar.

Parker saltou de pé, com o se tivesse topado com um a cobra na poltrona.

— Agora tenho certeza. Você é um louco furioso e deveria estar preso na m esm a cela que o outro.

Frank fez um sinal para que o general se sentasse novam ente.

— Seus m alabarism os dialéticos m e lem bram os esforços de um rato preso dentro de um garrafão. Perfeitam ente inúteis. Ainda não entendeu, Parker? Não entendeu que sei tudo sobre você e seu nada saudoso capitão Mosse?

— Sabe de tudo? Tudo o quê?

— Se fizer a gentileza de não m e interrom per m ais, conseguirá saber antes de pegar seu avião. Para que entenda bem , darem os um passo atrás e voltarem os à m inha história, aos dois traficantes de que falei. Um deles, Jeff, foi m orto num tiroteio no m om ento em que foram capturados. Que descanse em paz. O outro, Osm ond, acabou na prisão. Mas a sequência das investigações sobre os dois cavalheiros fez o FBI acreditar que eles dispunham em seus negócios da colaboração de alguém bem lá em cim a, alguém que, apesar de todos os esforços, não houve m odo de identificar…

O rosto de Nathan Parker havia se transform ado num a m áscara de pedra. Sentou-se na poltroninha de couro e cruzou as pernas, com os olhos sem icerrados, à espreita. Aquilo não era m ais um a briga de galos num galinheiro. Era o m om ento em que Frank estava colocando suas cartas na m esa, um a a um a, e, por enquanto, o general parecia apenas curioso para conhecê-las.

Frank não via a hora de transform ar aquela curiosidade na incrédula certeza da própria derrota.

— Àquela altura dos fatos, trancafiado na prisão, o único contato de Osm ond com o resto do m undo era seu representante legal, um advogado desconhecido de Nova York, que apareceu do nada para agitar as coisas. Surgiu então a suspeita de que o tal advogado, um certo Hudson McCorm ack, fosse bem m ais que um sim ples defensor. Levantou-se a hipótese de que ele fosse o contato com o exterior que a prisão interditava a seu cliente. Meu parceiro no FBI, que estava com igo na investigação sobre os Larkin, m e enviou um e-m ail com a foto de McCorm ack porque, vej a que sorte, o personagem em questão estava chegando bem aqui, em Montecarlo. Estranha a vida, não é m esm o? A versão oficial era de que viria para participar de um a regata, m as o senhor sabe m uito bem que as coisas oficiais podem esconder coisas oficiosas m uito m ais significativas…

O general levantou as sobrancelhas.

— Faria a cortesia de m e explicar o que tenho a ver com toda essa história de polícia e ladrão?

Frank inclinou-se sobre a m esinha e tirou do envelope a foto que Cooper havia lhe m andado, tirada num bar. Em purrou-a com o dedo para o outro lado da m esa, até deixá-la diante de Parker. Aquele gesto lem brava a noite da prisão de Mosse, quando tinha lhe m ostrado a foto do cadáver de Roby Stricker.

— Apresento-lhe o recém -falecido advogado Hudson McCorm ack, representante legal de Osm ond Larkin e últim a vítim a de Jean-Loup Verdier, o serial killer m ais conhecido com o Ninguém .

O velho dirigiu à foto um olhar distraído e logo levantou os olhos.

— Só o conheço porque vi as fotos que saíram nos j ornais. Antes, nem sabia que existia.

— É m esm o? Estranho, general. Está vendo essa pessoa de costas, sentada à m esa com Hudson McCorm ack? Não dá para ver o rosto, é claro. Mas o local está cheio de espelhos…

O tom de voz de Frank m udou, com o se sua m ente estivesse divagando a respeito de um a reflexão pessoal.

— Não tem ideia da im portância que os espelhos tiveram em toda essa história… Os espelhos têm o péssim o hábito de refletir o que está diante deles.

— Sei com o funciona um espelho. Cada vez que um deles fica na m inha frente, vej o o hom em que vai transform á-lo num m ontinho de cinzas.

Frank sorriu, conciliador.

— Meus cum prim entos pelo hum or, general. Um pouco m enos pela sua presum ida habilidade estratégica e pela escolha de seus hom ens. Mas com o estava dizendo, o local onde esta foto foi tirada tem m uitos espelhos. Graças à aj uda de um rapazinho esperto, muito esperto, consegui descobrir, por m eio da am pliação do j ogo de espelhos, a identidade da pessoa que está sentada com Hudson McCorm ack naquela m esa. E vej a só de quem se trata…

Frank tirou outra foto do envelope. Jogou-a na m esa sem sequer olhar. Dessa vez, foi Parker quem pegou a foto e ficou longam ente com ela diante dos olhos.

— Não se pode dizer que o capitão Ry an Mosse fosse um suj eito fotogênico. Mas não era de um m odelo que precisava, não é, Parker? Precisava de um hom em que fosse exatam ente o que o capitão era: um a espécie de psicopata fiel até o fanatism o, disposto a m atar quem quer que o senhor quisesse elim inar, com um sim ples gesto seu.

Inclinou-se levem ente na direção de Nathan Parker. Havia um tom irônico em sua voz, absolutam ente não por acaso.

— General, sua expressão incrédula indica que pretende negar que essa pessoa na foto com Hudson McCorm ack sej a Ry an Mosse?

— Não, não penso em negar. Trata-se efetivam ente do capitão Mosse. No entanto, essa foto só prova que ele conhecia o tal advogado de quem falou. O que isso tem a ver com igo?

— Vam os chegar lá, vam os chegar lá…

Dessa vez foi Frank quem olhou o relógio. E sem precisar afastá-lo dos olhos.

— Penso que tam bém preciso andar rápido. Por causa do horário dos aviões que partem , tentarei ser o m ais sucinto possível. As coisas se passaram da seguinte form a. O senhor e Mosse fizeram um acordo com Laurent Bedon, diretor do program a da Rádio Monte Carlo. Aquele pobre infeliz precisava de dinheiro m ais do que do ar que respirava e não deve ter sido difícil convencê-lo. Dinheiro, de que o senhor dispõe em abundância, em troca de todas as inform ações que Laurent conseguisse obter sobre as investigações. Um espião, com o em toda guerra que se preze. E por isso, logo depois do telefonem a do assassino, quando chegam os para identificar Roby Stricker com o vítim a possível, Mosse j á estava lá. Depois o rapaz foi m orto e m eu desej o de que Ry an Mosse fosse o culpado foi tão forte que m e fez com eter um erro. Me fez esquecer a prim eira regra de um policial: exam inar todos os elem entos à disposição, de todos os pontos de vista. Pense na ironia da sorte. Um reflexo num espelho levou Nicolas Hulot a com preender quem era o verdadeiro assassino e o m esm o detalhe fez com que eu entendesse tam bém . Com o as coisas parecem sim ples depois, não é m esm o?…

Frank passou as m ãos nos cabelos. O cansaço com eçava a se fazer sentir, m as não era o m om ento de relaxar, ainda não. Mais tarde, teria todo o tem po do m undo para descansar e tam bém a com panhia certa para fazê-lo da m elhor m aneira.

— Deve ter se sentido um pouco perdido com seu cão de fila na prisão, não foi? Um obstáculo indesej ado. Quando Ninguém foi finalm ente identificado, a inocência de Mosse foi provada e ele foi solto. Deve ter sentido um certo alívio, creio eu. Nada estava perdido. Ainda tinha todo o tem po do m undo para resolver seus problem as pessoais, ainda m ais com o golpe de sorte que lhe caiu do céu…

Frank foi obrigado a reconhecer, m esm o a contragosto, o controle que o general Nathan Parker tinha de suas em oções. Estava sentado diante dele, im passível, sem nem piscar. Talvez alguém o tenha encontrado no passado e pensado com seus botões que não gostaria de tê-lo com o inim igo. Foi exatam ente o que aconteceu com Frank: teve que enfrentá-lo e agora não via a hora de livrar-se do general.

Não estava exultante, sentia apenas um a profunda sensação de vazio. Percebeu com espanto que aquilo que desej ava m ais que tudo não era o gosto, bastante hum ano, de vencê-lo. Seu m aior prazer seria nunca m ais ser obrigado a vê-lo diante de seus olhos.

Continuou sua exposição dos fatos.

— Vou explicar em que consistiu exatam ente o golpe de sorte de que falei. Ninguém foi identificado, m as conseguiu fugir. No m eio daqueles acontecim entos caóticos, deve ter sido um a coisa quase im possível de acreditar. O capitão Mosse à sua disposição novam ente e o assassino escondido em algum lugar, nas barbas da polícia e livre para matar mais uma vez.

Frank olhou para o dorso de sua m ão. Recordava perfeitam ente a época em que estender a m ão significava apenas colocar em evidência o trem or que a sacudia. Agora sua m ão estava firm e, sólida. Podia fechar o punho com a certeza de que o general Parker estava preso lá dentro.

— De fato, um pouco depois Ninguém fez um novo telefonem a ao agente Frank Ottobre. Não agiu da m esm a form a, porém . Dessa vez, ligou de um celular e não teve necessidade de m ascarar a própria voz. Para quê, afinal de contas? Todos j á sabiam m uito bem quem ele era: Jean-Loup Verdier, o DJ da Rádio Monte Carlo. O celular com que o telefonem a foi feito, um anônim o telefone pré-pago, foi abandonado num banco em Nice, de onde partiu a ligação. Conseguim os localizá-lo com um sistem a de rastream ento m óvel via satélite e recuperá-lo em seguida. O aparelho, além das im pressões digitais do m enino que o encontrou, não possuía quaisquer outras im pressões. E isso foi um dado estranho…

Olhou para Parker com o se ainda não tivesse a resposta para a pergunta que o general lhe fizera.

— Por que Ninguém se preocupou em apagar suas im pressões se todos j á conheciam sua verdadeira identidade? No calor do m om ento, não dei im portância ao fato, m esm o porque a atenção de todos estava concentrada no significado do telefonem a. O assassino confirm ava sua intenção de fazer m ais vítim as, apesar de ter toda a polícia em seus calcanhares. E foi o que aconteceu. Hudson McCorm ack foi encontrado m orto com o rosto sem pele no carro de Jean-Loup Verdier, abandonado na frente do com ando da Sûreté Publique. Todos ficaram horrorizados diante do novo crim e. Todos se perguntaram a m esm a coisa. Será que nunca conseguirem os pegar essa criatura diabólica que continua inexoravelm ente a m atar e a desaparecer no nada com o se fosse um fantasm a?

Frank se levantou do sofá. Sentia-se tão cansado que quase se espantou quando as j untas não rangeram . Estranham ente, seu j oelho parecia ter lhe dado um a trégua. Deu alguns passos pela sala e ficou de costas para o general, que perm aneceu sentado im óvel em sua poltrona. O hom em não se virou para segui-lo com os olhos.

— Acho que foi a m orte de Laurent Bedon que m e deixou com a pulga atrás da orelha. Um a m orte totalm ente acidental, um hom em assassinado durante um a tentativa de roubo banal e am adora. Mas m e deixou um a ponta de suspeita. E as suspeitas são com o m igalhas no colchão, general: enquanto não se livrar delas, não consegue dorm ir. E tudo com eçou com isso. A m orte daquele infeliz do Bedon foi o elem ento desencadeador, o m otivo pelo qual pedi que m eu am igo exam inasse a foto, para acabar descobrindo que o hom em sentado num bar de Nova York com Hudson McCorm ack era Ry an Mosse. E foi por isso tam bém que pedi a esse m esm o am igo que exam inasse igualm ente a fita com a gravação do telefonem a que recebi pessoalm ente de Ninguém . Sabe o que descobrim os? Vou lhe dizer, m esm o sabendo que está cansado de saber. Apuram os que se tratava de um a m ontagem . O que a técnica não faz hoj e em dia, não é m esm o? Pode ser

um a aj uda im prescindível, m as deve ser usada cum grano salis,* se m e perm ite a citação. E portanto, analisam os a m ensagem palavra por palavra, descobrindo que continha expressões repetidas várias vezes: “lua”, “cães”, “falar com igo”. E a análise da entonação dem onstrou que cada um a dessas palavras era pronunciada sempre da mesma, idêntica forma. O gráfico vocal de cada um a, sobreposto ao da outra, casava perfeitam ente. E fui inform ado de que isso não se verifica nunca, assim com o não existem dois flocos de neve ou duas im pressões digitais idênticas. Isso significa que essas palavras foram copiadas e coladas num a fita, um a depois da outra, form ando a m ensagem desej ada. E que a fita resultante foi usada no telefonem a que recebi. Foi Laurent, não foi? Foi ele quem lhe entregou a fita das transm issões com a voz de Jean-Loup com m aterial suficiente para que pudesse obter o que pretendia. Depois disso, o que m ais poderia dizer?

Continuou com o se o que ia dizer em seguida fosse com pletam ente inútil, com a expressão de quem explica o óbvio a alguém que teim a em não querer entender.

— Depois do telefonem a, Mosse foi até a casa de Jean-Loup Verdier, pegou seu carro, m atou Hudson McCorm ack, aplicou-lhe o m esm o tratam ento que Ninguém reservava às suas vítim as e deixou o carro com o cadáver na porta da central.

Frank parou diante de Parker. Intencionalm ente, para obrigar o velho a levantar a cabeça para encará-lo enquanto tirava suas conclusões. Naquele instante, naquela saleta im pessoal de aeroporto, ele era o j úri e seu veredicto era im placável.

— Era esse seu verdadeiro objetivo, Parker. Elim inar qualquer ligação entre o heroico e poderoso general Nathan Parker e Jeff e Osm ond Larkin, aos quais dava cobertura e proteção em troca de um razoável percentual de seus lucros. Aposto que cada vez que o insigne general Parker participou de um a guerra em algum lugar do m undo, não defendeu apenas os interesses de seu país, m as aproveitou para tratar tam bém dos seus… Não sei por que m otivo fez isso e não m e interessa saber. É um problem a seu e de sua consciência. À luz dos fatos, duvido que tenha algum a. O pobre McCorm ack, seu contato com Osm ond Larkin, um pobre infeliz que se m eteu num j ogo alto dem ais para ele, sabia além da m edida, o suficiente para lhe causar problem as se resolvesse falar. E era o que ele faria, com certeza, se as coisas com eçassem a andar m al. Por isso, você resolveu m atá-lo de m odo que a culpa recaísse sobre o serial killer que j á tinha m atado várias pessoas de um a m esm a m aneira. Mesm o que Ninguém fosse preso e se declarasse inocente no assassinato do advogado, quem acreditaria nele? Pronunciar essa palavra m e faz rir: ninguém. Talvez Hudson McCorm ack tenha lhe trazido um a m ensagem de seu cliente. É um a curiosidade que o senhor poderia m atar, nessa altura dos fatos. Creio, m as é um a sim ples suposição, que Osm ond Larkin am eaçou dar com a língua nos dentes se não o tirasse im ediatam ente da prisão. Posso considerar que o fato de que foi m orto durante um a sim ples briga entre os presos sej a um a coincidência, m as acho que essa história j á tem coincidências dem ais…

Frank sentou-se novam ente no sofá, presenteando seu adversário com um a expressão de alguém que, m ais que qualquer um , está surpreso com suas próprias palavras.

— Quantas coincidências, não é m esm o? Com o a de Tavernier, o proprietário da casa que alugou. Quando estava indo em bora, o velho tagarela tam bém lhe contou a história do abrigo antiatôm ico construído por seu irm ão para a esposa. E o senhor entendeu onde Jean-Loup estava escondido e m andou Mosse dar um j eito nele. Um a vez elim inada a últim a testem unha, o círculo se fechava. Todas as bocas que poderiam entoar o coro estariam fechadas, um a por um a. E quer saber de um a coisa engraçada?

— Não, m as acho que vai dizer assim m esm o.

— Realm ente. Pouco antes de vir para cá, soube que o delinquente que m atou Laurent Bedon foi preso. Trata-se de um sim ples batedor de carteiras que depenava as pessoas que saíam dos cassinos com algum dinheiro no bolso.

— E qual seria a graça, então?

— Que m inhas prim eiras suspeitas tenham sido causadas pela única m orte que pode ser definida com o um acidente e não com o um hom icídio propriam ente dito. Um delito que, no início, atribuí à sua pessoa e do qual, ao contrário, o senhor é absolutam ente inocente.

Parker recostou-se por um instante, com o se refletisse sobre tudo aquilo que Frank acabara de dizer. Frank não tinha ilusões. Era só um a pausa, não um a rendição. Era o j ogador de xadrez dando um tem po antes do contragolpe, depois de ter ouvido o adversário dizer “xeque”.

Parker fez um gesto vago com a m ão.

— Isso são apenas suposições, não tem com o provar com toda a segurança nada do que disse.

Lá estava o contragolpe que Frank esperava. Sabia que o general não estava totalm ente enganado. Tudo o que tinha nas m ãos era um a série de indícios significativos, m as nenhum deles relevante o bastante para se transform ar num a prova capaz de sustentar um processo. Todas as testem unhas estavam m ortas e a única viva, Jean-Loup Verdier, não era exatam ente aquilo que se costum a cham ar de testem unha confiável. Mas aquele era seu blefe e cabia ao general pagar para ver que cartas ele tinha realm ente. Abriu os braços num gesto que significava “pode ser”.

— Talvez as coisas sej am m esm o com o disse. Mas talvez não. Dispõe dos m eios para pagar advogados capazes de tirá-lo dessa encrenca sem acabar num a prisão. Mas quanto ao escândalo, a coisa m uda de figura. Um a absolvição por insuficiência de provas serve apenas para evitar a estada num a cela, não as dúvidas sobre a culpa. Pense bem … Acredita m esm o que o presidente dos Estados Unidos ainda vai querer ouvir o parecer de um conselheiro m ilitar suspeito de ter dado a m esm a consultoria a traficantes de droga?

O general Parker olhou para ele longam ente, sem falar. Passou a m ão pelos cabelos brancos cortados rente. Seus olhos azuis tinham perdido o brilho guerreiro e transform aram -se finalm ente nos olhos de um ancião. Sua voz, no entanto, ainda se m ostrava estranham ente enérgica.

— Acho que entendi onde pretende chegar…

— Acha?

— Se não quisesse algum a coisa de m im , a essa hora j á teria m e denunciado ao FBI. Não teria vindo aqui sozinho, m as com um exército de policiais. Tenha, portanto, a coragem de ser explícito.

Frank pensou que a reputação de Parker não era inj ustificada. Sabia m uito bem que estava derrotado, m as com o todos os soldados dignos desse nom e, tinha identificado um a possibilidade de fuga e estava tentando usá-la.

— Muito m ais que explícito, general. Serei lapidar. Se dependesse de m im , não teria dó nem piedade do senhor. Penso que é um verm e e gostaria de pendurá-lo num gigantesco anzol e j ogá-lo num braço de m ar infestado de tubarões. É exatam ente o que eu faria. Há algum tem po eu disse que todos os hom ens têm seu preço, m as o senhor não conseguiu descobrir o m eu. Pois agora vou lhe dizer qual é o m eu preço. Helena e Stuart em troca do m eu silêncio.

Frank fez um a pausa.

— Com o vê, general, tinha razão pelo m enos num a coisa. De todo m odo, som os feitos da m esm a m atéria, nós dois.

O velho dobrou a cabeça um instante.

— E se…

Frank sacudiu a cabeça.

— A proposta não é negociável. É pegar ou largar. E isso não é tudo…

— O que quer dizer?

— Quero dizer que vai voltar para os Estados Unidos e se dar conta de que está velho dem ais e cansado dem ais para a vida m ilitar. Pedirá dem issão. Alguns vão tentar dissuadi-lo, m as o senhor se m ostrará irredutível. Parece j usto que um hom em com o o senhor, um soldado que tanto fez pelo país, um pai m arcado pela tragédia goze os últim os anos de sua vida na m ais santa paz.

Parker olhou fixam ente para ele. Frank esperava ver qualquer coisa em seu rosto, m enos aquela curiosidade que surgiu de repente.

— E vai m e deixar livre assim , sem fazer nada? Onde foi parar sua consciência, agente especial Frank Ottobre?

— Exatam ente onde foi parar a sua. Mas creio que o peso que m inha consciência é obrigada a suportar é infinitam ente m enor que o seu.

O silêncio que caiu entre eles foi m uito eloquente. Não havia m ais nada a dizer. Naquele m om ento, com aquele timing que só a casualidade pode ter, a porta se abriu e a cabeça de Stuart despontou na sala.

— Oh, Stuart, venha, pode entrar, j á acabam os nossa conversa de hom em para hom em …

Stuart entrou correndo, seguido pela figura esbelta de Helena. Stuart não podia entender, ela não conseguia entender. Foi Nathan Parker quem lhe deu a notícia, indiretam ente, falando com um m enino que pensava ser seu neto e que, no entanto, era seu filho. O velho se aj oelhou diante dele sem esforço aparente e pousou as m ãos em seus braços.

— Stuart, tenho um a novidade para você. Lem bra quando lhe disse que voltaríam os im ediatam ente para os Estados Unidos?

O m enino fez um sinal afirm ativo com a cabeça que lem brou a Frank o m odo ingênuo de Pierrot se com unicar. O general apontou para Frank.

— Pois bem , falei um pouco com m eu am igo aqui, e creio que não vai ser necessário que voltem com igo, você e sua m ãe. Tenho m uita coisa para resolver em casa e acho que não poderem os nos ver m uito, por um bom tem po. Gostaria de ficar e esticar as férias?

O m enino arregalou os olhos, incrédulo.

— É verdade, vovô? Será que podem os ir à Euro Disney ?

Parker olhou para Frank, que fez um sinal afirm ativo piscando os olhos de form a quase im perceptível.

— Claro, Disney e um m onte de outros lugares…

Stuart levantou os braços e deu um pulo.

— Oba!

Correu para abraçar a m ãe, que o recebeu com um a cara que parecia esculpida em pedra de tanta incredulidade. Seu olhar atônito passava de Frank para o pai, com o quem recebeu um a notícia boa, m as que exige um certo tem po para ser processada.

Com gritos agudos, Stuart derram ou sobre ela toda sua alegria.

— Mam ãe, vam os ficar. Vovô falou. Vam os à Disney, vam os à Disney …

Helena tentou acalm á-lo colocando a m ão em sua cabeça, m as Stuart parecia irrefreável. Com eçou a dançar pela sala, repetindo as m esm as palavras com o um refrão interm inável.

Bateram na porta.

— Entre — disse Parker, levantando-se. Até o m om ento, tinha assistido assim , aj oelhado no chão, à alegria de Stuart. Frank pensou que aquela era exatam ente sua condição atual. Um hom em de j oelhos.

O rosto de Froben despontou no vão da porta.

— Desculpem …

— Entre, Froben, pode entrar.

Havia um certo e com preensível em baraço estam pado no rosto do delegado. Viu com alívio que a atm osfera era tensa, m as não havia nenhum a guerra no ar. Ou pelo m enos, não havia m ais. Dirigiu-se a Parker.

— General, peço desculpas pelo incôm odo e pela im perdoável espera. Queria lhe dizer que seu voo acabou de ser anunciado. Já providenciam os o em barque do féretro e quanto às bagagens…

— Obrigado, delegado. Mas os planos m udaram um pouco nessas últim as horas. Minha filha e m eu neto vão ficar. Se puder fazer o favor de em barcar apenas m inhas m alas, ficarei m uito grato. São apenas duas Sam sonites rígidas, azuis.

Froben inclinou a cabeça. Frank achou o gesto parecido com o de um m ordom o de com édia inglesa.

— É o m ínim o que posso fazer para que m e desculpe, general.

— Muito obrigado. Já estou indo.

— Certo, lem bre-se que o portão de em barque é o dezenove.

Froben deixou a sala com o alívio incrédulo de quem saiu de um acidente de carro sem um único arranhão.

Parker falou novam ente com Stuart.

— O.K., preciso ir. Com porte-se, hein. Roger?

O m enino ficou im ediatam ente em posição de sentido e fez continência, com o se fosse um a brincadeira particular dos dois. Parker abriu a porta e saiu sem se dignar a dirigir um a palavra ou um olhar à filha.

Frank se aproxim ou de Helena e afagou seu rosto com a m ão. Teria enfrentado um exército de generais Parker só para encontrar o que viu em seus olhos.

— Com o conseguiu?

Frank sorriu.

— Cada coisa a seu tem po. Ainda tenho um a coisa a fazer. Dois m inutinhos e estarei de volta. Quero m e assegurar de um a últim a coisa…

Saiu pela porta e procurou com os olhos a figura de Nathan Parker. Ele estava se afastando pelo corredor, ao lado de Froben, que o acom panhava até o em barque. Alcançou-os um m inuto antes de o general entrar no finger de seu avião. Era o últim o passageiro. Sua condição privilegiada tinha lhe concedido o benefício de um a pequena espera suplem entar.

Quando o viu chegar, Froben se afastou discretam ente.

Parker falou com ele quase sem se virar.

— Não m e diga que sentiu um desej o irrefreável de m e cum prim entar.

— Não, general. Queria sim plesm ente ter certeza de que estava indo em bora e tam bém fazer um a últim a consideração.

— Que consideração?

— O senhor m e disse várias vezes que eu era um hom em acabado. Gostaria sim plesm ente de destacar que o senhor é um hom em acabado. Não m e im porta que todos j am ais saibam disso…

Os dois se olharam . Olhos negros contra olhos azuis. Olhos de dois hom ens cuj o ódio recíproco nunca teria fim .

— Am bos sabem os e isso é suficiente para m im .

Sem um a palavra, Nathan Parker virou, atravessou a barreira e seguiu pelo corredor. Não era m ais um soldado, não era m ais um hom em , era só um velho. Tudo o que deixava atrás de si não seria m ais problem a seu. O verdadeiro problem a seria o que tinha pela frente. Enquanto descia em direção à entrada do avião, sua figura foi recebida e refletida por um espelho na parede.

Um a coincidência, talvez, um a das m uitas.

Mais um espelho…

Com esse pensam ento na cabeça, Frank ficou ali, em pé, seguindo Parker com os olhos até quando dobrou um a esquina e o espelho transform ou-se num a tela vazia.

 

* A expressão latina “com um a pitada de sal” significa que aquilo que se fala deve ser visto com reservas, com parcim ônia. (N. da T.)