Eu Mato

Giorgio Faletti · Capítulo 27 de 76

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Eu Mato

Capítulo 22

22

 

FRANK E HULOT CHEGAM À PRAÇA central de Eze Village, deixando à esquerda a butique de Fragonard, o fabricante de perfum es. Frank lem brou com um aperto no coração que Harriet tinha feito um estoque de essências em sua últim a viagem à Europa. Reviu seu corpo esbelto e firm e sob o tecido leve do vestido de verão, estendendo o pulso para receber o borrifo de água-de-colônia para um teste. Viu com o esfregava o local com a m ão esperando que o líquido evaporasse antes de sentir, quase com surpresa, o arom a com binado da pele com o perfum e.

Usava um daqueles perfum es no dia em que…

— Está aqui ou preciso ir buscá-lo em outro lugar?

A voz de Nicolas apagou abruptam ente as im agens que Frank tinha diante dos olhos. Percebeu que estivera longe dali.

— Não, estou aqui. Só um pouco cansado, m as estou.

Na verdade, o m ais cansado ali era Nicolas. Tinha olheiras sob os olhos verm elhos de quem passou um a noite em claro e precisa desesperadam ente de um banho m orno e de um a cam a fresca, nessa ordem . Frank tinha ido para o Parc Saint-Rom an e dorm ido algum as horas à tarde, m as Hulot ficara na sala preparando toda a burocracia que um a investigação policial exige. Quando o deixou na central, Frank pensou que, no dia em que não fossem obrigados a perder m etade de seu tem po preenchendo papelada, os policiais poderiam salvar as pessoas honestas dos crim inosos e ao m esm o tem po as florestas da Am azônia.

Agora, ia j antar na casa de Nicolas, com sua m ulher, Céline. Virando à esquerda, deixaram para trás o estacionam ento, os restaurantes e as loj as de suvenires e pegaram a rua que levava à parte alta da cidade. Um pouco abaixo da igrej a que dom ina Eze ficava a residência de Nicolas Hulot, um a casinha clara de telhado escuro, construída na borda do vale, de um a form a tal que Frank sem pre se perguntava que expedientes o arquiteto que fez o proj eto usara para im pedi-la de sucum bir à força da gravidade e precipitar-se, rolando, ribanceira abaixo.

Estacionaram o Peugeot na vaga reservada e Frank ficou ao lado de Nicolas enquanto ele abria a porta. Entraram em casa. Frank perm aneceu de pé no corredor olhando ao redor. Nicolas fechou a porta atrás deles.

— Céline, chegam os.

A cabeça castanha da sra. Hulot despontou na porta da cozinha, no fundo do corredor.

— Oi, am or. Oi, Frank, vej o que continua tão bonitão quanto eu m e lem brava. Com o vai?

— Um caco. A única coisa que pode dar j eito em m im é sua com ida. E a j ulgar pelo perfum e, parece que tenho ótim as chances de cura.

A sra. Hulot deu um sorriso que ilum inou seu rosto bronzeado. Saiu da cozinha enxugando as m ãos num pano de prato.

— Está quase pronto. Nic, ofereça um a bebida a Frank enquanto esperam . Estou um pouco atrasada. Perdi m uito tem po hoj e arrum ando o quarto de Stéphane, com o de hábito. Já disse m il vezes que ele precisa ser um pouco m ais organizado, m as não tem j eito. Quando sai de casa, o quarto fica sem pre na m aior bagunça.

A m ulher deu m eia-volta, retornando à cozinha num esvoaçar de saias. Frank e Nicolas entreolharam -se. Nos olhos do delegado passou a som bra de um a dor que nunca teria fim .

Stéphane, o filho de 20 anos de Celine e Nicolas Hulot, m orrera em consequência de um acidente de carro, alguns anos antes, depois de perm anecer um longo tem po em com a. Depois de tudo aquilo, a m ente de Céline se recusou a aceitar a m orte do filho. Continuou a ser a m esm a m ulher de antes, doce, inteligente e esperta, sem perder nada da antiga personalidade. Sim plesm ente se com portava com o se Stéphane continuasse a dividir o cotidiano com eles, em vez de ser um a fotografia e um nom e num a lápide no cem itério. Os m édicos consultados desistiram depois de algum as sessões, aconselhando Hulot a não contrariar a inofensiva m ania da m ulher, considerando que, em geral, costum ava ser apenas um cam inho providencial para evitar danos psicológicos m aiores.

Frank conhecia o problem a de Céline Hulot e se adaptara à situação desde a prim eira vez que estivera na Europa, alguns anos antes. Harriet tinha feito o m esm o quando passaram férias j untos em Côte d’Azur.

Depois da m orte de Harriet, a am izade entre ele e Hulot ficara ainda m ais sólida. Um conhecia o sofrim ento do outro e foi j ustam ente esse vínculo que levou Frank a aceitar seu convite para voltar ao Principado de Mônaco.

Hulot tirou o paletó e pendurou num cabide Thonet encostado na parede da esquerda. Toda a casa era decorada com m óveis de m odernariato, frutos de cuidadosa pesquisa, que rem etiam agradavelm ente à época em que a casa tinha sido construída.

Guiou Frank até o salão, que se abria com duas portas envidraçadas para um am plo terraço que dom inava toda a costa.

Do lado de fora, a m esa j á estava posta com esm ero, ostentando um arranj o de flores am arelas e roxas no centro da toalha im aculada. Havia um a atm osfera caseira, de coisas sim ples m as escolhidas cuidadosam ente, com am or por um a vida tranquila, sem ostentações. Havia o laço indissolúvel entre Nicolas e a m ulher, a dor pelo filho que j á não estava m ais lá, o lam ento por tudo o que podia ter sido m as não foi.

Frank podia sentir tudo isso no ar. Era um estado de espírito que conhecia perfeitam ente, aquela sensação de perda que a vida carrega inevitavelm ente consigo nos lugares que toca com a m ão pesada da dor. No entanto, estranham ente, em vez de angústia, Frank encontrava um pouco de paz naquele lugar, nos olhos vivos de Céline Hulot, que teve a coragem de sobreviver ao filho m orto refugiando-se no porto tranquilo de sua loucura inocente.

Frank sentia invej a e tinha certeza de que o am igo sentia o m esm o. Para ela, os dias não eram núm eros que um a m ão apagava de um calendário dia após dia, para ela o tem po não era a espera interm inável por alguém que nunca chegaria. Céline tinha o sorriso feliz de quem está num a casa vazia, m as sabe que as pessoas que am a retornarão em algum as horas.

— O que quer beber, Frank?

— O perfum e no ar conta histórias de com ida francesa. O que acha de um aperitivo francês? Arriscaria até m esm o um Pastis.

— Perfeito!

Nicolas cam inhou até o bar e com eçou a m anipular copos e garrafas. Frank saiu para a varanda e ficou de pé, adm irando a vista. De lá, dom inava-se um longo trecho da costa, as enseadas e reentrâncias, os prom ontórios que acabavam no m ar com o dedos apontando para o horizonte. O verm elho daquele pôr do sol era, para todos os dem ais, a prom essa de um outro dia azul que não se cum priria para eles.

Talvez aquela história o tivesse m arcado para sem pre, m as o título de um álbum de Neil Young veio à m ente de Frank: Rust Never Sleeps.

A ferrugem nunca dorm e.

Diante de seus olhos espraiavam -se todas as cores do paraíso. Água azul, m ontanhas verdes im ersas no m ar, o ouro verm elho do céu num pôr do sol tão lindo que partia o coração.

Mas para pisotear o chão, lá estavam eles, os hom ens dessa terra, iguais aos hom ens de centenas de outros lugares, em guerra contra tudo e todos, com um único ponto em com um : a desesperada tentativa de destruir absolutam ente tudo.

Nós somos a ferrugem que nunca dorme.

Ouviu Nicolas às suas costas. Virou-se e ele estava a seu lado com dois copos na m ão, cheios de um líquido opaco e leitoso. O gelo tilintou contra o vidro quando Nicolas lhe estendeu o aperitivo.

— Aqui está, sinta-se francês por um gole ou dois, depois volte a ser am ericano: para m im , você é m ais útil assim .

Frank levou o copo aos lábios, sentindo no nariz e na boca o perfum e penetrante do anis. Beberam com calm a, em silêncio, um ao lado do outro, sozinhos e determ inados diante de algum a coisa que parecia não ter fim . Tinha se passado um dia desde a descoberta do cadáver de Yoshida e nada acontecera. Um dia gasto inutilm ente à caça de um indício, um rastro. Um a atividade frenética que parecia um a corrida desabalada num a estrada que se perdia de vista no horizonte. Um a trégua. Era o que desej avam . Um único, breve instante de trégua. Contudo, m esm o naquele m om ento, no m om ento em que eram apenas os dois e m ais ninguém , havia um a presença entre eles e não encontravam um a form a de exorcizá-la.

— O que vam os fazer, Frank?

O am ericano ganhou tem po e bebeu m ais um gole.

— Não sei, Nicolas. Realm ente não sei. Não tem os quase nada nas m ãos. Notícias de Ly on?

— A análise da prim eira fita deu substancialm ente os m esm os resultados que Clavert j á tinha relatado em Nice. Portanto, sinto a m esm a desesperança em relação à segunda. Cluny, o psiquiatra, disse que vai m e m andar o relatório am anhã. Tam bém m andei um a cópia do vídeo que encontram os no carro para ver se conseguim os algum a indicação antropom órfica, m as é com o você disse, daí não vai sair m uita coisa…

— Novidades de Froben?

— Nenhum a. Não acharam nada na casa de Yoshida. Todas as im pressões na sala onde ele foi m orto eram dele. As im pressões de pés no pavim ento indicam a m esm a m edida que j á tínham os encontrado no barco de Jochen Welder: tem os portanto o pequeno consolo de saber que o assassino calça 43. Os cabelos na poltrona são do m orto, o sangue é de seu grupo: O negativo.

— Seus hom ens descobriram algum a coisa na Bentley ?

— A m esm a coisa. Im pressões de Yoshida por todo lado e, no volante, m ais algum as que estam os com parando com as digitais dos seguranças que dirigiam o carro. Mandei fazer um a perícia caligráfica da escrita no encosto do banco, m as, não sei se notou, é m uito parecida com a prim eira. Igual, eu diria.

— É.

— A única coisa que tem os é a esperança de que aquele m aníaco continue a telefonar para Jean-Loup Verdier e que com eta finalm ente algum erro que nos perm ita pegá-lo.

— Acha que é o caso de botar o rapaz sob proteção?

— Para evitar qualquer problem a, j á coloquei. Ele m e telefonou e disse que sua casa está perm anentem ente cercada de j ornalistas. Pedi que não falasse com eles e aproveitei para colocar um carro com dois agentes de guarda. Oficialm ente para acom panhá-lo na ida e na volta da rádio sem que caia nas garras dos j ornalistas. Na verdade, fico m ais seguro assim , m as preferi não dizer nada a ele, para não assustá-lo. Quanto ao resto, tudo o que podem os fazer é continuar de olho na rádio, com o estam os fazendo.

— Bem . E as vítim as?

— Estam os investigando com a polícia alem ã e com seus colegas do FBI. Estam os vasculhando a vida deles, m as por enquanto não descobrim os nada. Três pessoas fam osas, dois am ericanos e um europeu, pessoas de vida intensa m as sem nenhum ponto em com um , à parte esses que conhecem os. Não há absolutam ente nada que possa ligá-los, exceto o fato de terem sido m ortos barbaram ente pelo m esm o assassino.

Frank acabou seu Pastis e colocou o copo na am urada de ferro batido da varanda. Parecia perplexo.

— O que houve, Frank?

— Nicolas, nunca lhe aconteceu de ter algum a coisa em m ente sem saber exatam ente o quê? Com o quando quer se lem brar de algum a coisa, sei lá, o nom e de um ator que você conhece m uito bem m as que naquele m om ento, por m ais que tente, não consegue lem brar?

— Claro, j á m e aconteceu m il vezes, no passado. Depois, na m inha idade essas coisas entram na ordem do dia.

— É algum a coisa que vi ou ouvi, Nicolas. Algo que deveria recordar, m as que não m e vem à cabeça. E estou ficando m aluco, pois sinto que é um detalhe im portante….

— Espero que se lem bre o m ais rápido possível, não im porta o que sej a.

Frank se virou, dando as costas para a esplêndida vista, com o se ela o distraísse de seus pensam entos. Apoiou o dorso contra a am urada e apertou os braços sobre o peito. Em seu rosto, lia-se todo o cansaço de um a noite insone e a febre da energia nervosa que o m antinha de pé.

— Vam os ver, Nicolas. Tem os um assassino que gosta de m úsica, um conhecedor que, antes de cada hom icídio, telefona para um DJ que apresenta um program a de sucesso na Rádio Monte Carlo para avisar de suas intenções. Deixa um indício m usical que não é entendido com o tal e logo em seguida m ata duas pessoas: um hom em e um a m ulher. Encontram os os corpos num estado horripilante e de um a form a que tem um certo sabor de zom baria. Com o assinatura dos crim es, a expressão “Eu mato…” desenhada com sangue. Não deixa vestígios de nenhum tipo. É um hom em frio, astuto, preparado e im piedoso. Cluny fala de um a inteligência superior à m édia. Eu m e arriscaria a dizer muito superior à m édia. É tão seguro de si que, no segundo telefonem a, dá um outro indício, sem pre ligado à m úsica, que tam bém não conseguim os decifrar. E m ata de novo. De m odo ainda m ais im piedoso que antes, num contexto que tem um ar de ato de j ustiça, m as com um resquício de sarcasm o ainda m ais pronunciado. A fita com a m úsica no carro, o vídeo com a film agem do assassinato, a reverência, a m esm a expressão da outra vez. Nenhum dos cadáveres apresenta sinais de violência sexual, portanto não se trata de um necrófilo. Mas arranca toda a pele da cabeça das três vítim as. Por quê? Qual é o porquê desse tratam ento?

— Não sei, Frank. Espero que o relatório de Cluny nos dê algum a indicação nesse sentido. Já quebrei a cabeça, m as não consigo nem form ular um a hipótese plausível.

— Tem os que descobrir isso a qualquer custo, Nicolas. Se conseguirm os descobrir o m otivo pelo qual faz isso, tenho quase certeza de que saberem os quem ele é e onde encontrá-lo!

A voz de Céline chegou acim a daqueles discursos cheios de som bra, m ais densos que a escuridão que havia algum tem po tinha descido sobre eles.

— Agora, chega de trabalho.

A m ulher colocou no centro da m esa um a travessa cheia de com ida fum egante.

— Aqui está! Um a bouillabaisse. Prato único, m as em quantidade industrial. Frank, se não repetir pelo m enos um a vez, vou m e sentir pessoalm ente ofendida. Nicolas, você cuida do vinho, por favor?

Frank descobriu que estava com fom e. Diante da sopa de peixe da sra. Hulot, os sanduíches que tinha engolido no escritório quase sem sentir o gosto pareciam um a lem brança distante. Sentou-se à m esa e estendeu o guardanapo sobre os j oelhos.

— Dizem que a com ida é a verdadeira cultura dos povos. Se for assim , diria que sua bouillabaisse está declam ando poesias im ortais.

Céline riu, ilum inando com a luz de seu sorriso o belo rosto m oreno de m ulher m editerrânea. As rugas finas em torno dos olhos, em vez de dim inuir, aum entavam seu fascínio.

— Você não passa de um adulador dissim ulado, Frank Ottobre. Mas devo dizer que é sem pre agradável ouvir essas coisas.

Hulot observava Frank por cim a das cores das flores no centro da m esa. Sabia o que tinha no espírito e, apesar de tudo, por afeto a Céline e a ele, conseguia ser delicado e gentil com naturalidade, com o poucas pessoas no m undo. Ignorava o que Frank estava procurando, m as desej ou que encontrasse logo, fosse o que fosse, para poder ter um pouco de paz.

— Você é um rapaz de ouro, Frank — disse Céline, erguendo o copo em sua direção, com o se brindasse em sua hom enagem . — E sua esposa é um a m ulher de sorte. Sinto que não tenha vindo com você dessa vez. Mas terem os um a próxim a. Vou levá-la às com pras e darem os um golpe duro em sua pensão.

Frank nem piscou, m antendo o m esm o sorriso nos lábios. Um a som bra passou velocíssim a diante de seus olhos, m as diluiu-se rapidam ente no calor daquela m esa. Levantou o copo e respondeu ao brinde de Céline.

— Claro. Sei que não está falando sério. É esposa de policial e com certeza sabe m uito bem que depois do terceiro par de sapatos configura-se o crim e de abuso de incapaz.

Céline riu de novo e o m om ento passou. Um a a um a, as luzes da costa foram se acendendo, assinalando os confins entre a terra e o m ar no m eio da noite. Perm aneceram ali, com endo aquela com ida m aravilhosa e bebendo um bom vinho, num a varanda suspensa na escuridão, cuj a luz cor de âm bar m arcava os lim ites entre eles e a som bra.

Eram dois hom ens, duas sentinelas guardando um m undo em guerra, onde as pessoas m atavam e m orriam , rebocados durante um a hora por aquela m ulher em paz com seu m undo gentil onde ninguém podia m orrer.