Eu Mato

Giorgio Faletti · Capítulo 35 de 76

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Eu Mato

Sexto carnaval

 

EM SEU POSTO DISTANTE DO MUNDO, o hom em ouve m úsica.

No ar, flutuam as notas do Minueto da Sinfonia nº 5, de Franz Schubert. Fechado em sua caixa de m etal, o hom em ouve, com partilha as volutas dos arcos e im agina a dança dos braços dos instrum entistas, a concentração dos m úsicos durante a interpretação da sinfonia. Agora, sua im aginação voa sobre eles com o no m ovim ento de um a grua cinem atográfica m ovendo-se no espaço e no tem po. De repente, não está m ais em seu esconderij o secreto, m as num grande salão com paredes e abóbadas cobertas de afrescos, ilum inado do alto pela luz de centenas de velas suspensas em enorm es candelabros. Volta os olhos para a direita, num enquadram ento subj etivo m uito nítido, tão verossím il que parece real. Sua m ão aperta a m ão de um a m ulher que se m ove ao lado dele, com ele, no ritm o sinuoso da dança, feita de passos elegantes, pausas e reverências ensaiadas e reensaiadas tantas vezes que se tornaram fluidos com o o vinho que desliza num a taça. A m ulher não é capaz de resistir a seu olhar fixo, que prom ete a criação do m undo e sua destruição. De vez em quando lança os olhos velados por longos cílios para os espectadores, quase buscando um a confirm ação para a incrédula consciência de ter sido a escolhida. Há adm iração e invej a nos olhos de todos aqueles que, de pé ao redor do salão, os veem dançar.

Ele sabe que naquela noite ela será sua.

No clarão incerto do quarto, à luz bruxuleante de um a vela, m esclada às rendas e franj as do dossel da cam a, ele a verá surgir do em aranhado de seda que a envolve com o um botão de rosa que desabrocha.

São os direitos do rei.

Mas nada disso conta agora. Agora dançam e são belíssim os. E serão ainda m ais belos, quando…

Você está aí, Vibo?

A voz chega, gentil com o sem pre, ansiosa com o só aquela voz sabe ser. Seu sonho, a im agem que criou diante dos olhos fechados, se desfaz, com o a película de um film e quando queim a.

É a volta, a presença do outro, a incum bência, a responsabilidade. Era apenas um segundo de pausa, m as se desvaneceu com o um floco de neve prim averil. Não há espaço para sonhos, nunca houve, nunca haverá. Nos velhos tem pos, eles podiam sonhar, quando viviam na grande casa entre as colinas, quando conseguiam escapulir para longe dos cuidados obsessivos daquele hom em que queria que fossem hom ens, enquanto eles só desej avam ser m eninos. Quando desej avam correr e não m archar. Mas m esm o então, havia um a voz capaz de quebrar qualquer encanto que sua im aginação tivesse sido capaz de criar.

— Sim , estou aqui, Paso.

O que está fazendo? Não ouvi mais nada.

— Estava apenas pensando…

O hom em deixa que a m úsica prossiga e sej a o últim o apêndice de suas pobres m iragens. Nunca haverá aquela dança com um a m ulher belíssim a, para ele, para eles. Levanta-se e vai até o outro quarto, onde um corpo sem vida j az em seu esquife de vidro.

Aperta o interruptor da luz. Um reflexo se acende num ângulo do caixão transparente, m as se apaga quando ele se aproxim a e m uda de perspectiva. Um outro se acende, m as eles são sem pre e unicam ente os m esm os. Pobres, pequenas m iragens. Já sabe o que vai encontrar. Outra ilusão partida, outro espelho m ágico despedaçado a seus pés.

Aproxim a-se do corpo nu estendido lá dentro, lentam ente, desliza o olhar pelos m em bros ressequidos que têm a cor do pergam inho velho, dos pés até a cabeça coberta por aquele que havia bem pouco tem po era o rosto de um outro hom em .

Sente um aperto no coração.

Nada é para sem pre. A m áscara j á apresenta os prim eiros sinais de deterioração. Os cabelos estão ressecados e opacos. A pele está toda m anchada e com eça a enrugar. Dentro em breve, apesar de seus cuidados, estará igual à pele do rosto que esconde. Olha aquele corpo com infinita ternura, com os olhos delicados de um afeto que nada pode apagar.

Desconsolado, m ostra toda sua revolta contraindo os m axilares.

Não é verdade que o destino é inelutável. Não é verdade que só podem os ser espectadores das m udanças do tem po e dos acontecim entos. Ele pode m udar, ele deve m udar aquela inj ustiça eterna, ele pode rem ediar as coisas erradas que o destino distribui prodigam ente naquele covil de serpentes que é a vida dos hom ens. Ao acaso, sem olhar, sem querer saber se vai destruir um a existência ou fadá-la às trevas eternas.

A treva significa escuridão. A escuridão significa noite. E a noite significa que a caçada tem que continuar.

O hom em sorri. Pobres, estúpidos cães. Latidos e dentes arreganhados para esconder o m edo. Olhos nictalópicos tentando esquadrinhar as trevas, a escuridão, a noite para descobrir de onde vai chegar a caça que se transform ou em caçador.

Ele é um e nenhum . Ele é o rei.

O rei não tem perguntas, só respostas. O rei não tem curiosidade, só certezas.

Deixa a curiosidade para os outros, para todos que a desej am , todos aqueles que de algum a form a a têm nos olhos, nos gestos bruscos, na pressa, na ânsia de vida que às vezes é tão densa que é possível respirá-la. A vida tem um cheiro tão com plexo e, no entanto, é m uito fácil de reconhecer.

O cheiro da vida está nos ônibus no verão, cheios de gente com axilas dem ais e m ãos dem ais. Está no cheiro de com ida e m ij o de gato que em certos becos gruda nas narinas. Está no cheiro agudo da ferrugem e da m aresia que devoram o m etal, no cheiro de desinfetante e no perfum e áspero da pólvora.

Tam bém e sobretudo ali, no presságio da dissolução, há duas perguntas eternas: “quando?” e “onde?”.

Quando acontecerá aquele últim o suspiro, preso com um esgar de anim al, com dentes apertados para não deixá-lo sair, pois não haverá um outro depois, nunca m ais? Quando, em que hora do dia ou da noite, fixada num relógio sem corda, acontecerá aquele últim o segundo e não m ais um outro, deixando o resto do tem po ao m undo que prossegue em outros giros e outras corridas? Onde, em que leito, banco de carro, elevador, praia, poltrona, em que quarto de hotel o coração sentirá aquela últim a dor aguda e a espera interm inável, curiosa e inútil por um a outra batida, depois do intervalo que se faz cada vez m ais longo, ainda m ais longo, infinito? Às vezes tudo é tão rápido que aquele últim o estrem ecim ento é finalm ente a calm a, m as não a resposta, pois naquele lam pej o que cega não há tem po para com preendê-la, às vezes nem m esm o para ouvi-la.

O hom em sabe o que deve fazer. Já o fez e vai fazê-lo de novo, enquanto for necessário.

Há tantas m áscaras lá fora, carregadas por pessoas que não m erecem nem aquela nem qualquer outra aparência.

O que houve, Vibo? Por que está me olhando assim? Tem alguma coisa errada?

O hom em é tranquilizador, sua boca sorri, seus olhos cintilam , sua voz protege.

— Não, Paso, absolutam ente nada. Estou só olhando: você está lindo. E logo vai ficar ainda m ais bonito.

Oh, não! De verdade? Não vai me dizer que…

O hom em cobre suas intenções com um terno segredo.

— Stop. Proibido falar. Segredo dos segredos, lem bra?

Ah, é um segredo dos segredos? Então só podemos dizer na lua cheia…

O hom em sorri diante da lem brança de suas brincadeiras de criança. Nos poucos m om entos em que aquele hom em não vinha m acular suas fantasias com o único j ogo que tinham perm issão para j ogar.

— Isso m esm o, Paso. E a lua cheia j á está chegando. Logo, logo…

O hom em se volta e vai em direção à porta. Na outra peça, a m úsica acabou. Agora é um silêncio que parece ser a continuação natural daquela m úsica.

Onde vai, Vibo?

— Já volto, Paso.

Vira-se com um sorriso para olhar aquele corpo estendido no esquife de vidro.

— Preciso dar um telefonem a prim eiro…