Eu Mato

Giorgio Faletti · Capítulo 44 de 76

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Eu Mato

Capítulo 37

37

 

AO CHEGAR À CASA DOS MERCIER, em Eze-sur-Mer, encontraram Guillaum e Mercier esperando por eles no j ardim . Assim que viu o Peugeot do outro lado do portão, apontou o controle rem oto que tinha na m ão e os portões com eçaram a se abrir lentam ente. Às suas costas, via-se um a casa branca de um andar só, telhado escuro, j anelas de m adeira azul, de aparência vagam ente provençal, não requintada dem ais, m as sólida e funcional.

O j ardim era grande o suficiente para ser considerado um pequeno parque. À direita, além da casa, na extrem idade, havia um grande pinheiro circundado por m oitas m ais baixas de sem pre-vivas. Além da som bra da árvore, um a fileira de lantanas brancas e am arelas em plena floração circundava um lim oeiro, cuj os frutos encontravam -se em avançado processo de m aturação. Ao redor de toda a propriedade corria um a cerca de loureiros que, ultrapassando a grade enfiada no m uro baixo, cobria a vista do exterior.

Por todo lado, viam -se aleias e m oitas de arbustos em flor, lindam ente alternados com um gram ado inglês cruzado por cam inhos de pedra iguais às que pavim entavam o pátio onde Guillaum e esperava por eles.

Dava a im pressão de serenidade e solidez econôm ica e fam iliar, de bem -estar sem qualquer necessidade da ostentação que, sob vários pontos de vista, era um must em Côte d’Azur.

Assim que ultrapassaram o portão, Hulot dobrou à direita e foi estacionar o carro sob um telhadinho de m adeira lam inada onde j á estavam um pequeno Fiat e um a m oto de alta cilindrada, um a BMW de enduro.

Guillaum e veio até eles cam inhando com passos decididos. Era um rapaz atlético, cuj o rosto, se não era bonito, era m uito sim pático, e com o bronzeado típico de quem pratica esportes ao ar livre. Os braços m usculosos com os pelos dourados pelo sol que despontavam das m angas da cam iseta eram testem unho evidente disso. Usava cam iseta e berm udas verde-m ilitar, com bolsos aplicados nas laterais e sapatos am arelos de velej ador calçados sem m eias.

— Oi, Nicolas.

— Oi, Guillaum e.

O rapaz apertou a m ão do delegado.

Nicolas indicou com um sinal de cabeça a presença de seu acom panhante.

— Esse senhor silencioso às m inhas costas se cham a Frank Ottobre e é um agente especial do FBI.

Guillaum e estendeu a m ão, arrem edando com a boca um a espécie de assovio silencioso.

— Ora, então vocês do FBI tam bém existem na vida real. Prazer em conhecê-lo.

Enquanto apertava a m ão do rapaz, Frank sentiu-se instintivam ente aliviado. Fitou-o nos olhos, escuros e profundos no rosto em que o sol tinha feito aflorar um véu de sardas. Soube im ediatam ente que Guillaum e era a pessoa certa para o que precisavam . Não sabia se era m esm o bom em seu trabalho, m as entendeu que ficaria de boca fechada se pedissem adequadam ente, explicando a im portância e a gravidade da situação.

— Pois é, nos Estados Unidos som os parte integrante dos film es e da paisagem . E agora, estão com eçando a nos exportar tam bém , com o testem unha a m inha presença aqui na Côte d’Azur.

Guillaum e sorriu com a brincadeira, m as seu sorriso apenas m ascarava a curiosidade que a presença daqueles dois hom ens em sua casa despertava. Era um sorriso que aliviava a expectativa, m as não a essência. Provavelm ente, tinha intuído que havia algum a coisa de m uito grave por trás do fato de Nicolas Hulot estar ali com o policial e não com o am igo da fam ília.

— Obrigado por ter concordado em nos aj udar.

Guillaum e fez um gesto com os om bros, um a espécie de não-há-de-quê, e foi na frente, indicando o cam inho aos dois.

— Não estou tão ocupado no m om ento. Tenho que editar dois docum entários de m ergulho: é sim ples, não dá m uito trabalho. E depois, não poderia negar nada a esse hom em aqui…

Indicou com o polegar da m ão direita o delegado que o seguia.

— Disse que seus pais estão fora?

— Fora? Fora de prum o, isso sim . Depois que m eu pai parou de trabalhar, os dois velhinhos sopraram as cinzas e descobriram que as brasas da paixão ainda queim am . Já estão na segunda viagem de lua de m el, acho eu. Da últim a vez que ligaram , estavam em Rom a. Devem retornar am anhã.

Continuaram ao longo da trilha de pedras que atravessava o gram ado de um verde com ovente, até chegarem diante da entrada da dépendance. À direita, um quiosque da m esm a m adeira lam inada, com cobertura de lona azul, hospedava um a m esa para refeições ao ar livre. Na m esa de ferro batido viam -se os restos de um j antar que certam ente rem ontava à noite anterior.

— Quando os gatos saem , os ratos aproveitam , hein?

Guillaum e seguiu o olhar de Nicolas e deu de om bros.

— Ah, recebi uns am igos ontem à noite e a faxineira ainda não apareceu hoj e…

— Am igos? Pois sim … Sou policial, pensa que não percebi que a m esa estava posta para dois?

O rapaz abriu os braços num gesto que não negava a possibilidade.

— Ora, m eu velho, não bebo, não j ogo, não fum o e não cedo à tentação dos paraísos artificiais. Poderia m e deixar pelo m enos um divertim ento?

Em purrou a porta de m adeira diante da qual estavam parados e convidou-os a entrar. Seguiu os dois, fechando a porta corrediça às suas costas. Assim que entrou, Hulot estrem eceu dentro do leve paletó de verão.

— Está bem fresquinho aqui.

Guillaum e indicou com a m ão o equipam ento que ocupava a parede em frente às vidraças que davam para o j ardim , sob o qual ronronavam a pleno vapor dois condicionadores de ar.

— Esses aparelhos eletrônicos são um pouco sensíveis ao calor, por isso sou obrigado a botar o ar-condicionado para funcionar a todo vapor. Se tem problem a de reum atism o, posso pegar o anoraque do m eu pai.

De um salto, Nicolas agarrou-o pelo pescoço e dobrou-o para a frente, sorrindo enquanto apertava sua cabeça num abraço brincalhão.

— Mais respeito pelos m ais velhos ou vai acabar ouvindo o estalo do seu pescoço quebrando, e não da m inha artrite.

Guillaum e levantou os braços em sinal de rendição.

— Chega, chega. Eu m e rendo…

Quando Hulot o soltou, Guillaum e caiu ofegante sobre um a cadeira de couro com rodinhas que ficava na frente das m áquinas. Aj eitou os cabelos despenteados pelo delegado e indicou para os dois um sofá encostado na parede entre duas vidraças. Apontou um dedo acusador contra Nicolas.

— Fique sabendo que só m e rendi porque a consideração por seus cabelos grisalhos m e im pede de reagir à altura.

Hulot se sentou e desabou contra o encosto do sofá, evidenciando sua falta de ar.

— Ainda bem , porque devo dizer cá entre nós que você acertou nessa história de reum atism o…

Guillaum e deu m eia-volta com a cadeira, m as virou-se de novo para Frank e Hulot. Sua expressão se tornou séria de repente.

Ótimo, pensou Frank, o rapaz tem senso de medida.

Ficou ainda m ais convencido de que tinham encontrado a pessoa certa. Agora só faltava esperar que Guillaum e fosse tão bom em seu trabalho quanto Nicolas tinha dito. E esperar m ais um m onte de coisas. Agora que tinha chegado aos finalm entes, Frank percebeu que os batim entos de seu coração estavam acelerados. Olhou um instante para os reflexos do sol brincando sobre a superfície da piscina, além das j anelas. A paz daquele lugar fazia tudo parecer distante, m uito distante…

Sua história, a história de Helena, a história de um general que não quer perder nenhum a guerra, a nenhum custo, a história de um delegado sem outras am bições a não ser encontrar um a boa razão para sobreviver à perda do filho, a história de um assassino insaciável que devia ser um a tram a de loucura e ferocidade, para levá-lo a ser o que era.

E pensar que tudo seria tão fácil se apenas…

Estrem eceu e retornou à sala. Sua voz m al se sobrepunha ao ronronar dos condicionadores.

— Tem acom panhado a história de Ninguém , por acaso?

Guillaum e fez o encosto da cadeira balançar.

— Você quer dizer os hom icídios do Principado? E quem não acom panha? Toda noite estou lá, sintonizado na Rádio Monte Carlo ou na Europe 2. Acho que devem estar com um a audiência estratosférica…

Frank olhou de novo para o j ardim . À direita, um a brisa bem vigorosa fazia os loureiros sussurrarem contra as grades do m uro. Percebeu que não era vento, m as o ventilador externo dos condicionadores de ar.

Virou e fitou sem reservas o rosto de Guillaum e.

— Pois é. Já m orreram cinco pessoas. Quatro delas desfiguradas de m odo horripilante. E nessa história, não saím os bem na foto e ainda não tem os a m ais rem ota ideia de quem possa ser o assassino, nem de com o pegá-lo. À parte alguns indícios que ele m esm o forneceu de livre e espontânea vontade, esse louco varrido não deixou a m enor pista atrás de si, a não ser um pequeno detalhe…

Seu silêncio passava a palavra a Nicolas. O delegado arrastou o traseiro para a beira do sofá e estendeu a Guillaum e um a fita VHS que tirou do bolso do paletó.

— Essa é a única, a verdadeira pista que tem os. Tem um a coisa nessa fita que gostaríam os que você exam inasse. É extrem am ente im portante, Guillaum e. Tão im portante que a vida de outros seres hum anos pode depender do que extrairm os dela. Por isso precisam os de sua aj uda e de sua discrição. Um a discrição extrem a, não sei se m e fiz entender.

Concordando, Guillaum e pegou a fita das m ãos de Hulot e a segurou com a ponta dos dedos com o se fosse explodir de um a hora para outra.

— O que há nessa fita?

Frank olhou para ele atentam ente. Não havia nenhum traço de ironia na voz do rapaz.

— Já vai ver. Mas devo avisar que não será um espetáculo agradável. Estou falando para que vá se preparando.

Guillaum e não disse nada. Levantou e fechou as cortinas das j anelas para proteger as telas do reflexo do sol. Um a lum inosidade cor de âm bar espalhou-se pela sala. Voltou a se sentar na poltrona e acionou um a tela de plasm a e o m onitor do com putador. Enfiou a fita num videocassete à sua esquerda e apertou um botão. Na tela diante dele, apareceram prim eiro as barras coloridas, depois as prim eiras im agens.

Quando Guillaum e chegou à cena do assassinato de Allen Yoshida, Frank resolveu deixá-lo ver todo o vídeo. Poderia ir diretam ente para o ponto que lhe interessava sem m ais explicações, m as agora que o conhecia, queria que o rapaz entendesse com quem estavam lidando e o quanto seu papel naquela história era im portante. Ficou se perguntando o que poderia passar pela cabeça de Guillaum e enquanto via o film e, se encontrava dentro de si o m esm o horror de quando o assistiu pela prim eira vez. Mesm o a contragosto, teve que adm itir que aquela fita registrava um a espécie de diabólica obra de arte, feita para destruir e não para criar, e que, no entanto, não deixava de transm itir em oção.

Depois de um m inuto de proj eção, Guillaum e esticou a m ão e apertou o botão de pausa. O assassino e sua vítim a ensanguentada pararam na posição que o acaso e um a m áquina tinham designado para eles.

Virou-se e encarou-os com os olhos arregalados.

— Mas… isso é um film e ou é tudo verdade? — perguntou com um fio de voz.

— Infelizm ente, é tudo verdade, cem por cento. Eu disse que não era um espetáculo agradável de se ver.

— É, m as essa carnificina supera qualquer im aginação. Com o é possível um a coisa dessas?

— É possível, é possível. Infelizm ente é realidade, com o você m esm o pode ver. E nós estam os j ustam ente tentando pôr um fim nessa carnificina, com o você disse.

Frank viu que a cam iseta do rapaz tinha duas m anchas escuras nas axilas que não estavam ali antes. A tem peratura da sala excluía a possibilidade de que as m anchas de suor fossem provocadas pelo calor. Tratava-se quase com certeza de um a reação nervosa ao que tinha acabado de ver.

A morte é fria e quente ao mesmo tempo. A morte é suor e sangue. A morte é, infelizmente, a única maneira verdadeira que o destino escolheu para nos lembrar sem cessar que a vida existe. Vamos, rapaz, não nos decepcione.

Com o se tivesse ouvido seus pensam entos, Guillaum e voltou a girar sua cadeira, que fez um leve ruído. Ele se encostou, com o se o gesto o aj udasse a se defender, a afastar-se das im agens que teria que continuar a ver. Apertou de novo o botão de pausa e as figuras deixaram a im obilidade que as fixara por alguns instantes e recom eçaram a se agitar diante de seus olhos, até a m ordaz reverência final e estática que indicava o fim da gravação. Guillaum e parou a fita.

— O que querem que eu faça? — perguntou sem se virar.

Sentia-se pelo tom de voz que preferia não estar ali, não ter visto aquela dança da m orte e aquela reverência com que o assassino parecia pedir aplausos a um público de danados.

Frank se aproxim ou, colocando-se às costas do rapaz sentado em sua cadeira.

— Volte a fita, m as de m odo que a gente vej a as im agens.

Guillaum e girou um botão e as im agens com eçaram a passar rapidam ente de trás para a frente. Apesar da velocidade da proj eção ao contrário, que em geral transform a os m ovim entos hum anos em caricatura côm ica, a dram aticidade daquelas tom adas perm anecia inalterada.

— Aí, dim inua, aí… pode parar.

Ao toque prudente dos dedos de Guillaum e, a proj eção parou alguns fotogram as depois do que queriam .

— Pode adiantar lentam ente m ais um pouquinho?

Guillaum e m anobrou suavem ente o botão e o film e avançou quadro a quadro, com o um a série de fotografias se sobrepondo lentam ente.

— Stop!

Frank ficou ao lado de Guillaum e e indicou um ponto na tela, tocando-o com o indicador.

— Aqui, nesse ponto, em cim a do m óvel, tem um a coisa que parece ser um a capa de disco. Não dá para ver direito. Pode isolar a im agem e am pliar de m odo que dê para ler o que está escrito?

Guillaum e deslocou-se de lado até ficar na frente do teclado do com putador, à direita, com os olhos fixos no ponto indicado por Frank.

— Hum … Posso tentar. Essa fita é original ou é um a cópia?

— É original.

— Melhor. O VHS não é o m áxim o com o suporte, a m enos que sej a original. Prim eiro, é preciso digitalizar a im agem . Perde-se um pouco de qualidade na passagem , m as depois posso trabalhar m elhor.

Sua voz era firm e e tranquila. Agora que tinha entrado em sua área de atuação, Guillaum e parecia ter superado o choque do que tinha assistido. Com eçou a clicar o m ouse. No m onitor, apareceu a m esm a im agem que estava na tela diante de Frank. Guillaum e ficou um tem po digitando no teclado e a figura ficou m ais nítida.

— Aqui está. Agora vam os ver o que acontece se derm os um zoom naquela parte.

Abriu com o cursor um quadrado tracej ado que continha a parte indicada por Frank. Apertou um a tecla e a tela foi coberta por um a espécie de m osaico eletrônico absolutam ente sem sentido.

— Não dá para ver nada.

O com entário escapou quase sem querer da boca de Frank, que se arrependeu im ediatam ente. Guillaum e virou-se para ele, levantando as sobrancelhas.

— Calm a, hom em de pouca fé. Só estam os com eçando a trabalhar.

Continuou digitando m ais uns dez segundos e no m onitor apareceu a capa escura de um disco, nítida o suficiente para que se pudesse distinguir a im agem . No centro da figura, a silhueta de um hom em tocando trom pete, um a som bra na contraluz, inclinada para trás na tensão do m úsico que tenta um a nota im possível, para o prazer de seus ouvintes e dele próprio. Era o m om ento suprem o em que o artista esquece o lugar e o tem po e vai em busca apenas da m úsica, de quem é vítim a e algoz ao m esm o tem po. Em baixo havia algo escrito em branco.

Robert Fulton — “Stolen Music”

Frank leu em voz alta o que via na tela, com o se fosse o único capaz de fazê-lo naquela sala.

— Robert Fulton. “Stolen Music”. Música roubada. O que significa?

— Não faço a m enor ideia. E você, Guillaum e, conhece esse disco?

A voz de Nicolas os surpreendeu. Enquanto Guillaum e m exia no com putador, ele se levantou do sofá e colocou-se às suas costas sem que percebessem .

O rapaz continuou a olhar para a im agem do m onitor.

— Nunca vi antes. E nunca ouvi falar desse Robert Fulton. Mas assim , à prim eira vista, diria que se trata de um LP de j azz, bem antigo, e devo dizer que é um tipo de m úsica que não conheço m uito.

Nicolas sentou de novo no sofá. Frank passou a m ão no queixo. Deu alguns passos de um lado para o outro, com os olhos sem icerrados. Quando com eçou a falar, dava para ver que estava pensando em voz alta, que era o m onólogo de um hom em que cam inha com um a lanterna pendurada nas costas.

— “Stolen Music”, Robert Fulton. Por que Ninguém quis ouvir essa m úsica durante o hom icídio? Por que levou o disco consigo depois? O que ele tem de especial?

Um silêncio feito de perguntas sem respostas caiu sobre a sala, o silêncio do qual a m ente se alim enta enquanto devora distâncias infinitas na busca de um a indicação, um a pista, um sinal, o silêncio dos olhos fixos à procura de um ponto que, em vez de se aproxim ar, se afasta cada vez m ais.

Em sua cabeça se agitava o espectro sinistro de um déjà-vu: seus rostos atônitos diante da capa m uda de um disco num vácuo dram ático, quando o som de um telefone rom pia o silêncio ignorante para anunciar outro hom icídio…

O barulho dos dedos de Guillaum e no teclado decretou o fim daquele m om ento de pausa, perturbado apenas pelo sopro indiferente dos condicionadores de ar.

— Aqui talvez haj a algum a coisa…

Frank virou a cabeça bruscam ente em sua direção, com o um hipnotizado que acabou de ouvir o estalar de dedos que vai tirá-lo do transe em que estava.

— O quê?

— Um instante, deixe ver…

Rebobinou a fita até o com eço e recom eçou a exam iná-la bem lentam ente, bloqueando as im agens de vez em quando e utilizando o zoom para destacar algum detalhe que o interessava.

Apesar do frio am biente, Frank sentia as têm poras pulsando. Não entendia o que Guillaum e estava procurando, m as não im portava o que fosse, queria que andasse rápido, m uito m ais rápido do que estava andando.

O rapaz parou a im agem no ponto em que o assassino estava inclinado sobre Allen Yoshida, num a atitude que, em outra situação, podia ser interpretada com o confidencial. Provavelm ente estava sussurrando algum a coisa em seu ouvido e Frank lam entou que o film e não tivesse som , m esm o que Ninguém fosse esperto dem ais para deixar escapar um a am ostra de sua voz ao natural, ainda que sua voz viesse filtrada pela tram a do tecido da touca.

Sentou-se ao com putador e transferiu para o m onitor de cristal líquido a im agem que havia congelado na tela. Com o cursor selecionou um pedaço da tela e digitou algum a coisa. Apareceu um a m ancha com o a que tinham visto antes, a qual parecia com posta de vários ladrilhos coloridos dispostos à revelia pela im aginação de um artista bêbado.

— Isso que estão vendo são pixels. São com o pequenos m osaicos que com põem a im agem , um a espécie de quebra-cabeça, em resum o. Se am pliarm os m uito fica confuso, não dá para distinguir nada. Mas nós…

Com eçou a digitar freneticam ente no teclado, alternando as teclas com o m ouse.

— Tenho um program a que exam ina os pixels danificados pela am pliação e trata de reconstruí-los. Não é por nada que essa geringonça custa um a fortuna. Vam os, querida, não m e decepcione…

Apertou Enter no teclado. A im agem ficou um pouco m ais clara m as perm aneceu confusa e indefinida.

— Não, porra! Vam os ver quem é m ais esperto, eu ou você!

Guillaum e aproxim ou bruscam ente a cadeira do m onitor, am eaçador. Passou a m ão pelos cabelos e voltou a posicionar os dedos no teclado. Digitou furiosam ente durante um a dezena de segundos, depois levantou e com eçou a m anipular alguns equipam entos suspensos sobre pequenas prateleiras à sua frente, fazendo relam pej ar as luzinhas verdes e verm elhas.

— Aí, se eu vi bem …

Voltou a sentar na cadeira e deslocou-a novam ente para a frente da tela cuj a im agem tinha congelado. Apertou alguns botões e apareceram duas im agens lado a lado, a que serviu para retirar a capa do disco e a que estava exam inando agora. Tocou a prim eira com o dedo.

— Aqui, estão vendo? Verifiquei e essa é a única im agem em que se vê a capa do disco por inteiro, m as não com pletam ente porque, com o podem ver, ela aparece parcialm ente coberta, no alto à esquerda, pela m anga do hom em com o punhal. Não dá para notar na am pliação porque a cor da roupa é a m esm a da capa. Mas nas duas paredes opostas da sala há vários espelhos e o reflexo do disco salta de um para o outro. Tive a im pressão de ver um a leve diferença crom ática em relação à que tirei diretam ente do vídeo…

Guillaum e deslizou os dedos pelas teclas novam ente.

— E tive a im pressão de que, na im agem refletida no espelho, a que podem os ver por inteiro, aqui no alto à esquerda, havia um a etiqueta colada na capa…

Apertou a tecla de envio com o dedo cuidadoso de quem está lançando um m íssil para destruir o m undo. Lentam ente, diante de seus olhos, a m ancha confusa no m onitor se recom pôs e ganhou form a. Sobre um fundo dourado, surgiu um a escrita escura, levem ente distorcida e desfocada, m as legível.

— A etiqueta da loj a que vendeu o disco, por exem plo. Aqui está. Disque à Risque, Cours Mirabeau não sei quê, Aix-en-Provence. Não dá para ler o núm ero da loj a. E nem o do telefone. Sinto m uito, m as terão que encontrá-los sozinhos.

Havia um a nota de triunfo na voz de Guillaum e. Virou-se para Hulot com um gesto que lem brava um acrobata ao cum prim entar o público depois de um salto m ortal triplo.

Frank e Nicolas estavam sem palavras.

— Guillaum e, você é um fenôm eno!

O rapaz deu de om bros e sorriu.

— Não precisa exagerar, sou sim plesm ente o m elhor que existe no m ercado.

Frank sentou-se na cadeira e debruçou-se ligeiram ente sobre a tela. Depois de tantas tentativas sem resultado, finalm ente tinham algum a coisa. Depois de tanto vagar no m ar, havia, lá longe no horizonte, um a linha escura que podia ser a terra, m as tam bém um am ontoado confuso de nuvens. Estavam olhando para ela com o olhar m edroso de quem tem e o alarm e falso de um a nova ilusão.

Nicolas se levantou do sofá.

— Pode im prim ir essa im agem ?

— Claro, não tem problem a. Quantas cópias?

— Acho que quatro seriam suficientes para qualquer eventualidade.

Guillaum e digitou algum a coisa no teclado do com putador e a im pressora entrou em funcionam ento com um estalido seco. Enquanto as folhas iam caindo na bandej a, um a a um a, sentou-se na cadeira.

Frank parou na frente do rapaz e buscou seu olhar, pensando que às vezes as palavras não têm m uita serventia com certas pessoas.

— Você não tem ideia do que fez por nós e para m uitas outras pessoas hoj e. Tem algum a coisa que nós possam os fazer por você?

Guillaum e virou de costas, sem falar. Tirou a fita do videocassete, voltou-se e entregou-a a Frank segurando-a com firm eza, sem esconder o olhar.

— Só um a coisa. Prendam o hom em que fez tudo isso.

— Pode apostar nisso. E será m érito seu tam bém .

Ao pegar as cópias da bandej a da im pressora, a voz de Nicolas tinha, pela prim eira vez em m uito tem po, um a entonação assertiva.

— Muito bem , acho que agora tem os m uito a fazer. Muito a fazer. Não há necessidade de nos acom panhar, se precisa trabalhar. Sei com o sair desse lugar.

— Certo, podem ir, então. Por hoj e, chega de trabalho para m im . Vou fechar a barraca e dar um a volta de m oto. Depois de tudo o que vi, não tenho vontade nenhum a de ficar aqui sozinho…

— Tchau, Guillaum e. E m ais um a vez, obrigado.

Lá fora, foram recebidos pelo calor de um pôr do sol naquele j ardim que, depois da crueza das im agens que tinham acabado de rever, parecia encantado. A brisa tépida do início de verão soprava do m ar por sobre as m anchas coloridas das aleias, o verde brilhante da gram a e o verde m ais escuro da sebe de loureiros.

Frank percebeu que, por um a estranha casualidade crom ática, nenhum a das flores era verm elha, a cor do sangue. Aceitou o fato com o um bom augúrio e sorriu.

— Está rindo de quê? — perguntou Nicolas.

— Um pensam ento bobo. Não ligue. Talvez um pálido raio de otim ism o depois da pista que Guillaum e acabou de nos dar.

— É um ótim o rapaz…

Frank ficou em silêncio. Sabia que o discurso ainda não tinha acabado.

— Era o m elhor am igo do m eu filho. Eram m uito parecidos. Toda vez que vej o Guillaum e, não consigo evitar de pensar que, se Stéphane estivesse vivo, m uito provavelm ente seria um a pessoa com o ele. É um m odo m eio torto de continuar a sentir orgulho de m eu filho…

Frank desviou o olhar para não ver nos olhos de Nicolas o brilho das lágrim as que percebia na voz do am igo.

Percorreram em silêncio o breve cam inho até o carro. Quando entraram , Frank pegou as cópias que o delegado havia pousado sobre o painel e com eçou a exam iná-las para dar-lhe tem po para se recuperar. Enquanto Hulot ligava o carro, voltou a colocá-las onde estavam e apoiou-se no encosto do banco.

Estavam colocando o cinto de segurança quando percebeu que estava m uito anim ado.

— Conhece Aix-en-Provence, Nicolas?

— Nem um pouco.

— Então é m elhor com prar um m apa quando chegar lá. Acho que vai ter que fazer um a pequena viagem , m eu caro am igo.