Eu Mato

Giorgio Faletti · Capítulo 1 de 76

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A Davide e Margherita

Pela estrada segue

a m orte, coroada

de m urchas flores de laranj eira.

Canta e canta

um a canção

em sua branca guitarra

e canta e canta e canta.

 

FEDERICO GARCÍA

LORCA

PRIMEIRO CARNAVAL

 

O HOMEM É UM E NENHUM.

Há anos, carrega a cara grudada na cabeça e a som bra presa aos pés e ainda não conseguiu descobrir qual das duas pesa m ais. Algum as vezes, experim enta o im pulso irrefreável de arrancá-las, pendurar num prego qualquer e ficar ali, sentado no chão, com o um a m arionete cuj os fios um a m ão caridosa se encarregou de cortar.

Às vezes o cansaço apaga tudo, inclusive a possibilidade de entender que o único m odo válido de seguir a razão é partir num a corrida desenfreada pelo cam inho da loucura. A seu redor, tudo é um a sequência contínua de caras e som bras e vozes, pessoas que não se questionam de m odo algum , que aceitam passivam ente um a vida sem respostas para o tédio ou a dor da viagem , contentando-se em m andar alguns estúpidos cartões-postais de vez em quando.

Onde ele está há m úsica, há corpos que se m ovem , bocas que sorriem , trocas de palavras. Ele está entre eles, um a m ais, pela curiosidade de saber quem conseguirá, dia após dia, ver desbotar m ais essa fotografia.

O hom em se apoia a um a coluna e pensa que são todos inúteis.

Diante dele, do outro lado da sala, um a na frente da outra num a m esa próxim a da enorm e vidraça que dá para o j ardim , estão sentadas duas pessoas: um hom em e um a m ulher.

À m eia-luz, ela é diáfana e doce com o a m elancolia, tem cabelos negros e os olhos são verdes, tão lum inosos e grandes que dá para ver dali. Ele só tem olhos para a sua beleza e fala a seu ouvido, para se fazer ouvir acim a do barulho da m úsica. Estão de m ãos dadas e ela ri às palavras do com panheiro, j ogando a cabeça para trás ou escondendo o rosto na concavidade de seu om bro.

Há pouco ela se virou, talvez atraída de algum a m aneira pelo fixo olhar do hom em apoiado a um a coluna, talvez à procura da origem de um m al-estar distante. Seus olhos se cruzaram , m as os dela passaram indiferentes sobre seu rosto, com o sobre o resto do m undo que a cercava. Voltou a oferecer o m ilagre daquele olhar ao hom em que está com ela e que lhe devolve o m esm o olhar, im perm eável a qualquer m ensagem externa à sua presença.

São j ovens, belos, felizes.

O hom em apoiado a um a coluna pensa que logo estarão m ortos.