Eu Mato

Giorgio Faletti · Capítulo 70 de 76

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Eu Mato

Capítulo 59

59

 

FRANK E MORELLI VIRAM A MACA saindo pela porta da garagem e seguiram com os olhos os hom ens que a colocavam na am bulância. Nela, coberto com um tecido escuro, estava o corpo que encontraram no abrigo, o cadáver ressequido de um hom em sem rosto que usava com o m áscara o rosto de um outro hom em , m orto para que ele pudesse tê-lo.

Depois que Frank saiu com pletam ente aturdido, todos os hom ens, um por um , entraram no bunker e saíram com a m esm a expressão de repulsa estam pada no rosto. A visão do corpo m um ificado estendido em seu esquife de vidro, tendo sobre o rosto a m áscara m urcha da últim a vítim a de Ninguém , era um espetáculo capaz de abalar até a m ente m ais sólida. Era um espetáculo que cada um deles teria diante dos olhos, dia e noite, ainda por m uito tem po.

Ainda agora, Frank não conseguia acreditar no que tinha visto. E não conseguia se livrar de um a sensação desagradável, do desej o de lavar-se por um tem po infinito, com o se precisasse desinfetar o corpo e a m ente do m al em estado puro que flutuava naquele lugar. Sentia um a espécie de m al-estar por dentro só por ter respirado aquele ar, com o se estivesse im pregnado pela loucura sob a form a de um vírus tão contagioso que poderia infectar qualquer um que se aproxim asse e torná-lo capaz de com eter as m esm as ações, dom inado pela m esm a patologia.

Mas Frank não conseguia parar de se perguntar um a coisa.

Por quê?

Aquela pergunta continuava a girar em sua cabeça com o se possuísse o segredo do m oto-perpétuo, em bora percebesse que a resposta para ela não tinha im portância, não ainda.

Quando entrou no abrigo, assim que passou da porta, com eçou a exam inar tudo, de cim a a baixo, avançando em m eio à fum aça, com a pistola em punho e o coração batendo tão forte que quase o im pedia de ouvir a m úsica que explodia nas caixas de som . Desligou o som e restou apenas o sopro ofegante de sua respiração ecoando na m áscara contra gases. Além da presença im óvel daquele corpo estendido em sua m onstruosa vaidade num caixão transparente, só encontrou salas vazias.

Ficou observando o cadáver por um longo m inuto, com o se estivesse hipnotizado, percorrendo sua piedosa nudez com os olhos, sem conseguir afastá-los daquele espetáculo de m orte sublim ada por um a horrenda im aginação doente e genial. Fitou longam ente o rosto coberto por aquela espécie de m áscara m ortuária, que o tem po e a natureza conduziam lentam ente ao aspecto do resto do corpo. No pescoço do cadáver, algum as gotas de sangue coagulado caídas das bordas talhadas testem unhavam a precariedade daquela escabrosa tentativa de transplante.

Era esse, portanto, o obj etivo de todos aqueles hom icídios? Toda aquela gente m orta apenas para dar a um m orto a ilusão de estar vivo? Que sanguinária idolatria pagã poderia ter inspirado aquela m onstruosidade? Qual poderia ser a explicação, se é que havia algum a, para um ritual fúnebre que exigia o sacrifício de tantas pessoas inocentes?

Esta é a verdadeira loucura, pensou consigo m esm o, a capacidade de alimentar-se de si mesma para gerar apenas e sempre mais loucura.

Quando conseguiu acordar e afastar os olhos daquela visão, saiu do pesadelo para perm itir que os hom ens que esperavam lá fora entrassem tam bém .

O barulho das portas da am bulância que se fechavam trouxe Frank de volta. A figura longilínea de Roberts despontou por trás do veículo, vindo em sua direção. Às suas costas havia um carro da polícia esperando com o m otor ligado e a porta traseira aberta. Ele tinha aquela expressão de quem esteve num lugar onde preferia nunca ter estado. Com o todos os outros, aliás.

— Bem , j á estam os indo — disse com um a voz sem cor.

Frank e Morelli apertaram sua m ão e, ao cum prim entá-lo, não perceberam que tinham a m esm a voz. O delegado não conseguia encará-los. Em bora tivesse vivido aquela história de m aneira bem m ais superficial, em bora não estivesse envolvido desde o início com o eles, tinha nos olhos a m esm a e cansada desilusão. Afastou-se com seu andar desengonçado, que agora incluía tam bém um a sensação de fraqueza que toda queda repentina da tensão nervosa produz. Talvez ele tam bém não visse a hora de voltar à sua vidinha de sem pre, às suas histórias de m iséria ou ganância cotidiana, a hom ens e m ulheres que m atavam por ciúm e, por cobiça de dinheiro, por acaso. Loucuras que duravam um segundo e não para sem pre, loucuras que não era obrigado a carregar penduradas em suas lem branças, com o troféus m acabros, pelo resto da vida. Talvez ele tam bém , com o todos, só tivesse um único desej o: afastar-se daquela casa o m ais rápido possível e tentar esquecer que ela existia.

Ouviu-se o portão se fechando, o barulho do m otor e logo depois a aceleração do carro que desaparecia na ram pa do pátio que levava até a rua.

Gavin e seus hom ens j á tinham partido havia algum tem po, assim com o Gachot e sua unidade. Pegaram a descida para a cidade em seus furgões azuis carregados de hom ens, arm as, aparelhagens sofisticadas e daquela sensação banal e ordinária de fracasso que une desde sem pre os exércitos, grandes e pequenos, depois de um a derrota.

O próprio Morelli tinha m andado a m aioria de seus hom ens de volta para a central. Dois ou três ainda estavam por ali para m onitorar as últim as operações e para, enfim , escoltar a am bulância até o necrotério.

* * *

 

As barreiras j á haviam sido rem ovidas das ruas adj acentes e a longa fila de carros nos dois sentidos ia dim inuindo pouco a pouco, com a aj uda de alguns policiais que controlavam o trânsito e im pediam que os curiosos parassem para m eter o nariz. O engarrafam ento que se form ou im pedira os abelhudos profissionais, os j ornalistas, de chegarem a tem po. Quando chegaram , j á estava tudo acabado, m esm o porque não havia nada de novo para saber: dessa vez, os representantes da m ídia só tinham m esm o a decepção para dividir com a polícia. Frank delegou a Morelli a tarefa de falar com eles, e o inspetor despachou-os rapidam ente e da m elhor form a. E, além do m ais, sem m uito esforço.

— Já vou, Frank. E você?

Frank olhou o relógio. Pensou em Nathan Parker esperando furioso no aeroporto de Nice. Acalentara a ilusão de ir a seu encontro envergando com o um a roupa nova o alívio de ter arquivado definitivam ente aquela história sinistra. Queria que tudo tivesse acabado, m as nada havia chegado ao fim .

— Pode ir, Claude. Eu j á vou tam bém .

Olharam -se e o inspetor sim plesm ente acenou. Usavam o m ínim o possível de palavras, pois am bos sentiam que elas eram insuficientes. Morelli se afastou a pé pela ram pa da saída, até chegar ao carro que o esperava na rua. Frank o viu desaparecer depois da pequena curva da rua, escondido pela folhagem de um lentisco.

A am bulância deu m archa a ré e com eçou a m anobrar para sair do pátio. O hom em sentado ao lado do m otorista passou os olhos inexpressivos por ele através da j anela. Não parecia nem um pouco im pressionado por aquilo que carregavam no veículo. Mortos há um a hora, há um ano ou há um século, o que transportavam eram sem pre cadáveres. Era m ais um a viagem com o tantas outras. Sobre o painel havia um j ornal esportivo dobrado. Enquanto o furgão branco partia, a últim a visão de Frank foi o gesto fugaz da m ão de Morelli se alongando para pegá-lo.

Ficou em pé sozinho no m eio do pátio, sob o sol daquela tarde de verão, sem conseguir sentir seu calor. Havia no ar a indolência m elancólica de um circo sendo desm ontado, quando a escuridão e as luzes nos olhos não protegem m ais a vista da realidade. Sobrava apenas o lixo cheio de lantej oulas e de excrem entos de anim ais. Não havia m ais acrobatas e m ulheres com roupas coloridas, não havia m ais m úsica e aplausos do público, só um palhaço de pé sob o sol.

E não há nada m ais triste que um palhaço que não faz rir…

Apesar da lem brança de Helena, Frank não conseguia se decidir a ir em bora daquela casa. Sentia que havia algum a coisa que parecia evidente, m as que de evidente não tinha nada. Com o acontecera até então, era tudo um a questão de detalhes. De porm enores. O detalhe da capa do disco no vídeo, o reflexo da m ensagem deixada por Stricker no espelho, um a escrita que de trás para a frente ganhava um significado totalm ente diferente…

Frank se obrigou a raciocinar friam ente.

Durante todo o período em que estivera sob escolta, Jean-Loup convivera dia e noite com policiais dentro de casa. Com o tinha feito para fugir enganando a vigilância? Todos os hom icídios aconteceram à noite, portanto, era claro que nenhum policial, a m enos que houvesse algum m otivo bem fundam entado, entraria na casa num m om ento em que se supunha que ele estivesse dorm indo. Principalm ente, depois do estresse de falar ao telefone com um assassino.

Por esse lado, Jean-Loup estava seguro. Mas a garantia acabava por ali.

À esquerda da propriedade, ao lado do portão, havia um a espécie de aterro que dava para um precipício. Era um a descida tão íngrem e que podia excluir aquele cam inho. Perigoso dem ais, considerando-se o fato de que o traj eto teria que ser feito à noite e sem o auxílio de um a lanterna.

Podia pegar o cam inho do j ardim . Nesse caso, para chegar à rua, precisava sair da sala de estar para a frente da casa, pelo lado da piscina, pular a cerca e atravessar o j ardim da casa gêm ea, onde Parker estava hospedado.

Se fizesse isso, m ais cedo ou m ais tarde alguém acabaria notando. De um lado, havia policiais bem treinados, por m ais que aquele trabalho fosse entediante. Do outro, Ry an Mosse e Nathan Parker, duas pessoas que certam ente dorm iam com um dos olhos aberto. Poderia passar um a vez, m as um dia aquele vaivém noturno teria sido descoberto.

E essa teoria tam bém fazia água, se não de todo, pelo m enos em diversos pontos.

Todos estavam convencidos de que havia um a outra saída no abrigo. A lógica arquitetônica apontava forçosam ente para isso. No caso de um a explosão, a casa poderia desm oronar e os escom bros poderiam fechar a saída para os ocupantes do abrigo, cuj a existência era ignorada por quase todos. Contudo, depois de um a revista m inuciosa do abrigo subterrâneo, não encontraram nenhum sinal dela.

No entanto…

Frank consultou o relógio m ais um a vez. Passou pela sua cabeça, e ele não a achou nada engraçada, a ideia de que se continuasse assim acabaria consum indo o vidro do relógio de tanto olhar. Enfiou as m ãos nos bolsos do paletó. Sentiu de um lado as chaves do carro e do outro volum e do celular. Im aginou Helena sentada num a cadeira do aeroporto, as pernas cruzadas, olhando de um lado para o outro com a expectativa de reconhecê-lo entre as pessoas.

Teve vontade de m andar Nathan Parker às favas e ligar para ela, se é que seu celular estava ligado. Por um instante, deixou-se levar pelo fascínio daquela tentação, depois resolveu que era m elhor não fazê-lo. Não queria trair Helena e alertar o general. Queria que ele ficasse ali, furioso com o m undo inteiro, m as não desconfiado, enquanto buscava um a m aneira de surgir diante dele e, finalm ente, falar…

Tirou as m ãos dos bolsos, abriu-as e ficou as abrindo e fechando até sentir a tensão dim inuir. Em seguida, Frank Ottobre atravessou o pátio e voltou ao bunker.

Parou diante da porta exam inando aquele pequeno am biente escondido sob a terra, o reino de Ninguém . Na penum bra, destacavam -se os pontos lum inosos dos leds verm elhos e verdes e os m ostradores dos aparelhos eletrônicos que estavam ligados. De repente, todas as histórias que seu pai lhe contava quando era pequeno voltaram à m em ória. Histórias de fadas e gnom os, nas quais tam bém surgiam ogros que viviam em pavorosos m undos subterrâneos, dos quais só saíam para raptar as criancinhas de seus berços e encerrá-las para sem pre em suas tocas.

Só que ele não era m ais criança e aquilo não era um a fábula. E se fosse, ainda não havia chegado a seu final feliz.

Deu alguns passos adiante e acendeu a luz. Apesar da exigência de espaços reduzidos, aquele bunker era bastante am plo. A paranoia da tal m ulher, seus m edos em relação ao futuro do m undo, deviam ter custado um a bela cifra ao m arido, m esm o há trinta anos. A estrutura era quadrada e subdividida em três am bientes.

À direita, havia um a pequena peça que servia ao m esm o tem po de despensa e banheiro. Encontraram todo tipo de alim entos em lata arrum ados em perfeita ordem nas estantes de m adeira diante dos sanitários, j unto com reservas de água que lhe perm itiriam resistir ad eternum a qualquer cerco.

Ao lado, ficava a sala em que o corpo j azia em seu caixão de vidro, alinhado com um a cam a de viúva bastante espartana. O pensam ento de Jean-Loup dorm indo ao lado daquele cadáver lhe deu um calafrio, com o se um hálito m aligno chegasse de repente por trás dele. Precisou reprim ir o im pulso de se virar e olhar para trás.

Frank passou os olhos da esquerda para a direita pela sala retangular em que se encontrava, na qual se abriam as portas do quarto de dorm ir e da despensa-banheiro. Com eçou a fechar e a abrir os olhos em intervalos regulares e a proj etar em sua m ente as im agens da sala com o se fossem diapositivos.

 

Clic.

Um detalhe.

Clic.

Buscar um detalhe.

Clic.

O que não está batendo? Há alguma coisa estranha nesta sala.

Clic.

Uma coisinha mínima, uma pequena incongruência…

Clic.

Você sabe o que é, já viu, já registrou…

Clic, clic, clic…

 

A sala aparecia e desaparecia com o sob o efeito de um a luz estroboscópica. Continuou a abrir e fechar os olhos com o se o que procurava fosse surgir quase por m agia naquela sala. Obrigou seu pensam ento a seguir a velha fórm ula que quase sem pre dava bons resultados.

 

A parede à esquerda.

As estantes do alto cheias de gravadores e aparelhos eletrônicos que Jean-Loup usava para filtrar sua voz, transformando-a na voz de Ninguém.

As duas caixas Tanoy colocadas de modo a otimizar o efeito estereofônico.

Um sofisticado leitor de CDs e mini discs.

Um masterizador.

Uma prateleira para as fitas de música e um leitor DAT.

O prato do toca-discos, para os velhos 33 rotações.

Os discos, organizados na prateleira logo embaixo, que se projetava de modo a formar também um tampo de apoio.

À esquerda, os LPs de vinil, à direita os CDs.

No centro, o vão que servia de escrivaninha.

No tampo, um pequeno m ixer, um computador Macintosh G4 que comandava a aparelhagem de gravação.

Ao fundo, perto da parede, um aparelho negro que parecia ser outro pequeno leitor de CDs.

A parede em frente.

Uma estante de metal, embutida na própria parede, vazia.

A parede à direita.

As portas dos outros aposentos e no meio uma mesa de madeira e uma pequena lâmpada fluorescente.

 

Frank parou de repente.

…outro pequeno leitor de CDs.

Frank foi até o fundo da sala e exam inou atentam ente o aparelho na prateleira de m adeira. Não era nenhum m aníaco por aparelhagens de som , m as à luz de seus conhecim entos parecia ser um m odelo bastante com um , de m etal preto, com um pequeno m ostrador na frente, e não parecia nem m uito recente. Frank viu que dois fios saíam por trás e entravam num buraco feito na base da prateleira.

Em cim a do aparelho, escrita sobre o m etal com um pilot branco, havia um a série de núm eros. Alguém tinha tentado apagá-los sem m uito sucesso, pois ainda eram legíveis.

 

1-10

2-7

3-4

4-8

 

Achou estranho. Parecia ser um lugar um pouco insólito para se anotar algum a coisa…

Apertou o botão de ej eção e o carrinho saiu sem rum or à esquerda do m ostrador. Continha um CD. Não era um original, m as um a cópia m asterizada. Na superfície dourada havia um a inscrição em letra de im prensa, sem pre com um pilot, dessa vez verm elho.

Robert Fulton — “Stolen Music”.

Mais um a vez esse m aldito disco. Frank pensou que aquela m úsica o perseguia com o um a m aldição. Com eçou a refletir. Era natural que Jean-Loup tivesse feito um a cópia digital do disco, para poder ouvir sem correr o risco de danificar o original. Mas então, por que resolveu levar o LP de vinil quando m atou Allen Yoshida? Aquilo podia ter um significado sim bólico, claro, m as o m otivo tam bém podia ser outro, qualquer um …

Frank virou-se para olhar o m oderníssim o CD-play er que estava entre a aparelhagem às suas costas e voltou a pousar os olhos sobre o leitor bem m ais m odesto que tinha diante dos olhos.

E se perguntou um a coisa.

Por que alguém que tem um CD-play er com o aquele à disposição usaria essa porcaria para ouvir m úsica?

Havia m il respostas para aquela pergunta e cada um a delas era plausível. No entanto, Frank sabia que nenhum a era a resposta certa. Apoiou a m ão sobre o m etal preto do aparelho e percorreu com os dedos o traçado branco dos núm eros com o se esperasse que fossem em alto-relevo.

Um a hipótese é um a viagem que pode durar m eses, anos, às vezes a vida inteira. A intuição que a avalia percorre o cérebro na velocidade de um raio e o efeito é im ediato.

Um segundo antes era a escuridão, logo depois, a luz.

De repente, Frank entendeu para que servia aquele segundo leitor e o que eram aqueles núm eros que o ocupante do abrigo tentou apagar apressadam ente de sua superfície.

Aqueles núm eros brancos pertenciam a um código.

Frank em purrou o carrinho e apertou o play indicado por um a seta. No m ostrador apareceu um a série de núm eros, que indicavam que faixa estava sendo tocada e quanto tem po tinha se passado desde o início.

Olhou os segundos passando lentam ente naquele pequeno retângulo lum inoso. Depois de 10 segundos, apertou o botão que passava da prim eira faixa para a seguinte. Esperou até que aparecesse o núm ero 7, e passou para a terceira faixa. Quando o quadro lum inoso m arcou 4, passou para a quarta. Quando leu o núm ero 8 no m ostrador, apertou stop.

Plique!

O estalo foi tão leve que se Frank não tivesse contido a respiração não teria ouvido nada. Virou-se para a direita, de onde tinha vindo o rum or. Viu que a prateleira de m etal avançara alguns centím etros em relação à posição anterior, revelando um a aderência tão perfeita que, quando estava fechada, não se notava nenhum a diferença na parede.

Enfiou os dedos na fresta ao fundo e puxou a prateleira para si. Deslizando sobre roldanas colocados dos lados, o m óvel saiu cerca de um m etro, revelando um a porta de form a circular. Num nicho escavado no m etal do batente havia um m ecanism o de abertura com um volante que parecia cópia do outro.

Quando revistaram o bunker, não se perguntaram por que as prateleiras da estante estavam com pletam ente vazias. Agora que tinha encontrado um a explicação, Frank foi capaz de levantar um a questão tão sutil que ninguém tivera a perspicácia de colocá-la: o m óvel servia na verdade para esconder a segunda saída.

Frank girou o volante no sentido anti-horário até ouvir o clique da fechadura. Em purrou e a porta abriu, deslizando silenciosa sobre os gonzos. Pensou que Jean-Loup Verdier devia ter gasto um bocado de tem po e de conhecim entos técnicos para fazer a m anutenção daquele lugar.

Atrás da porta apareceu a em bocadura de um pequeno túnel de cim ento com cerca de um m etro e m eio de diâm etro, um buraco negro que partia do abrigo para acabar não se sabe onde.

Frank enfiou o celular no bolso da cam isa, livrou-se do paletó e tirou a Glock do coldre pendurado na cintura da calça. Acocorou-se no chão e teve que fazer um a pequena m anobra de contorcionista para passar por entre as hastes que seguravam a estante. Cruzou a porta blindada. Ficou um segundo observando a entrada daquele túnel e a escuridão que ele prom etia. A fraca ilum inação do abrigo, parcialm ente coberta pela estante e por seu corpo, não perm itia que visse nada além de um m etro. Pensou que podia ser perigoso, m uito perigoso se enfiar naquele buraco daquela form a, às cegas.

Depois pensou na pessoa que tinha fugido por ali, em tudo o que tinha feito e entrou resolutam ente no túnel. Àquela altura, Frank não teria renunciado àquilo nem correndo o risco de encontrar um pelotão de fuzilam ento do outro lado.