Eu Mato

Giorgio Faletti · Capítulo 72 de 76

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Eu Mato

Capítulo 61

61

 

FRANK AVANÇAVA LENTAMENTE na m ais com pleta escuridão.

Depois de um exam e atento do túnel, verificou que a altura era suficiente para que avançasse acocorado e resolveu fazê-lo. A posição não era das m ais côm odas, m as certam ente era m enos arriscada, tendo em vista a situação. Com um sorriso am argo, pensou que, efetivam ente, nenhum a situação seria m ais adequada que aquela para a definição de “um salto no escuro”.

Depois de alguns passos, dados com a im pressão de cam inhar com o um cão am estrado, ficou sem a aj uda da leve claridade que chegava por trás e penetrou na escuridão absoluta. Apesar de j á ter dado a seus olhos o tem po de se acostum arem ao breu, não via absolutam ente nada.

Segurava a pistola com a m ão direita e apoiava o corpo na parede da esquerda, levem ente inclinado para trás, de m odo que pudesse avançar a m ão livre com o vanguarda tátil para se certificar de que não havia obstáculos ou, pior ainda, buracos em que pudesse cair. Se acontecesse algum a coisa com ele lá em baixo, naquele buraco cuj a existência todos ignoravam , não sairia nem para o dia do j uízo final.

Avançava com cuidado, m etro a m etro. As pernas com eçavam a incom odar, sobretudo o j oelho direito. Era o j oelho cuj os m eniscos e ligam entos cruzados haviam estourado durante um a partida de futebol am ericano, vetando para sem pre a possibilidade de continuar a j ogar no tim e da faculdade, bem com o qualquer aspiração à prática esportiva profissional, se ele tivesse algum a. Em geral, exercitava os m úsculos das pernas o bastante para não ter problem as nesse cam po. Mas infelizm ente, havia algum tem po seu treinam ento deixava m uito a desej ar e a posição em que tinha que se locom over naquele túnel seria um a dura prova até para os j oelhos de um levantador de peso.

Estrem eceu levem ente. O túnel não era nada quente. Contudo, pela tensão nervosa, sentia o suor das axilas se espalhar pelo tecido leve da cam isa.

No ar estagnado, sentia um odor de folhas apodrecidas e de um idade, j unto com o cheiro do cim ento. De vez em quando, tocava com as m ãos algum a raiz que tinha conseguido se enfiar nas conexões entre os tubos. Da prim eira vez, assustara-se e retirara a m ão com o se queim asse. O túnel se abria forçosam ente para o exterior e não era im provável que algum anim al tivesse entrado e escolhido o local para um a toca bastante confortável. Frank não era m uito im pressionável, m as a ideia do contato físico com um a cobra ou com um rato não fazia parte de suas aspirações, nem agora, nem nunca.

Pensou que toda aquela caça ao hom em estava, afinal, realizando todas as suas fantasias. Aquela era a situação que visualizava instintivam ente cada vez que pensava em Ninguém . Um avanço lento, rastej ante, furtivo no frio e na um idade que sem pre foram o reino dos ratos. Essa era, exatam ente, a situação durante as investigações: um a travessia lenta, em pequenos passos, com esforço, na m ais com pleta escuridão, esperando que um tênue raio de sol viesse tirá-los do escuro.

Mas deixai-nos morrer à luz do dia…

Naquela cegueira total, um trecho fam oso da Ilíada lhe veio à m em ória: a súplica de Áj ax. Tinha estudado a Ilíada no liceu, um m ilhão de anos atrás. Os troianos e os aqueus com batiam j unto a seus navios e Júpiter m andara um denso nevoeiro ofuscar a visão dos gregos, que estavam sucum bindo. Então Áj ax dirigira um a prece ao pai de todos os deuses, um a fervorosa prece não pela própria salvação, m as pela graça de ir ao encontro da escuridão da m orte à luz do sol. Frank lem brava que seu herói preferido encerrava sua súplica exatam ente com essas palavras.

Um a m udança na inclinação do túnel aj udou-o a se concentrar novam ente. Sentiu que o pavim ento, ou m elhor, a parte que ficava sob seus pés, descia abruptam ente. Era pouco provável que o duto se tornasse intransitável. Afinal, tinha sido construído para ser usado por seres hum anos e a inclinação devia ser um a coisa acidental, não proposital. Possivelm ente, tinham encontrado algum veio de rocha durante a construção, sendo obrigados a desviar para baixo para poder continuar.

Resolveu sentar no chão e continuar assim daquele ponto em diante, redobrando a cautela. Não se preocupou m uito com o aum ento da inclinação. Toda sua avaliação estava correta, e podia acrescentar tam bém que o trecho tinha sido percorrido várias vezes por Ninguém , ida e volta, em bora em condições m uito m ais côm odas, ou sej a, conhecendo o traj eto de cor e salteado e com a aj uda de um a lanterna.

Ele, ao contrário, avançava totalm ente no escuro e não sabia o que poderia encontrar pela frente. Ou em torno, para ser m ais exato. Mas era j ustam ente a natureza de Jean-Loup que im punha um a atenção redobrada. Conhecendo a pérfida astúcia daquele hom em , não parecia im provável que tivesse plantado algum a arm adilha para um eventual intruso.

Perguntou-se novam ente quem seria Jean-Loup e sobretudo quem o tinha criado. Já era fato com provado que não se tratava apenas de um psicopata, um a pessoa fraca e frustrada que, levada pela loucura, com etia um a série de crim es para cham ar a atenção da im prensa e da televisão. Aquela análise superficial resum ia a m aior parte dos casos que ele conhecia, m as estava tão distante de Ninguém quanto a Terra do Sol.

Os outros eram pessoas com uns, ressentidas, com um a inteligência abaixo da m édia, em sua m aioria obrigadas a agir daquele m odo por um a força m ais poderosa que elas, pessoas que aceitavam as algem as quase com alívio.

Ele não, ele era diferente. Havia o cadáver em seu caixão transparente com o testem unha de sua loucura, é verdade. Em sua m ente, agitavam -se indubitavelm ente pensam entos que fariam estrem ecer até o m ais em pedernido psiquiatra.

Mas a sem elhança acabava ali.

Jean-Loup era forte, astuto, preparado, treinado para a luta. Era um com batente na verdadeira acepção da palavra. Havia m atado Jochen Welder e Roby Stricker, duas pessoas de com pleição atlética reforçada pelo exercício constante, com um a facilidade espantosa. A destreza com que se livrou dos três agentes em sua casa era um a confirm ação definitiva para qualquer dúvida a respeito, se ainda houvesse lugar para algum a dúvida. Parecia que conviviam nele, dentro do m esm o corpo, duas pessoas distintas, duas naturezas opostas que se perseguiam tentando se alcançar e anular um a à outra. Talvez a definição m ais correta tenha sido dada por ele m esm o, quando falava com a voz disfarçada: “Sou um e nenhum. Sou ninguém…”

Era um hom em m uito, m uito, muito perigoso e devia ser tratado com o tal.

Frank não se sentia paranoico por causa daquele excesso de cuidado. Muitas vezes, certos excessos fazem a diferença entre um hom em vivo e um hom em m orto.

Sabia disso m uito bem , pois a única vez que se deixou levar pelo instinto e entrou num lugar por im pulso, quase sem pensar, acabou acordando no hospital depois de um a explosão e de quinze dias em com a. E se tivesse se esquecido, possuía um bocado de cicatrizes espalhadas por várias partes do corpo para lem brá-lo.

Agora não queria m ais correr riscos inúteis. Devia isso a si m esm o, decidisse ou não continuar a ser um policial. Devia isso a um a m ulher que, naquele exato m om ento, esperava por ele sentada num a sala do aeroporto de Nice. Devia isso a Harriet, j unto com a prom essa de que nunca a esqueceria.

Continuou a avançar, tentando fazer o m ínim o de barulho possível. Provavelm ente, Jean-Loup j á estava bem longe àquela altura, m as não podia excluir a possibilidade de que estivesse na outra extrem idade do túnel, esperando escondido que o cam inho ficasse livre. Afinal, aquele buraco sob a terra não poderia ir até a periferia de Mentone. Tinha que desem bocar necessariam ente em algum ponto a leste da casa, nas vertentes da m ontanha.

Na rua, houve sem dúvida um a bela confusão por causa dos postos de bloqueio: filas de carros, pessoas que saíam dos veículos e ficavam na ponta dos pés para lançar um olhar curioso, perguntando um as às outras o que estava acontecendo. Não teria sido difícil tentar se m isturar a elas. É verdade que a foto de Jean-Loup fora publicada por todos os j ornais e aparecera em todos os telej ornais da Europa, m as havia m uito tem po Frank perdera a fé em m edidas com o aquelas. As pessoas com uns geralm ente passavam os olhos pelos rostos dos outros com extrem a superficialidade. Só viam o que queriam ver. Bastava que Jean-Loup tivesse cortado o cabelo ou que usasse um par de óculos escuros para ter ótim as chances de se m isturar no m eio da m ultidão sem correr riscos.

Mas a rua tam bém estava cheia de policiais em estado de alerta e de olhos bem abertos. E com eles a história era bem diferente. Cada um deles olharia com desconfiança para um hom em que surgisse de repente de um a m oita a algum as dezenas de m etros da casa de Jean-Loup e subisse para alcançar a beira da estrada. Era um a coisa que alertaria até um cego, e depois de tudo o que tinha acontecido, os policiais estavam vivendo sob tensão havia dias, o que podia levá-los a atirar prim eiro e perguntar depois. Portanto, não podia excluir a possibilidade de que seu alvo tivesse resolvido esperar que o am biente ficasse um pouco m enos congestionado antes de sair do esconderij o.

Continuou a avançar. O rum or do fundo das calças raspando no cim ento lem brava o das cataratas do Niágara. O atrito com eçava a incom odá-lo. Parou um instante para buscar um a posição m ais côm oda. Resolveu se acocorar de novo.

Enquanto se levantava, o bipe do celular que voltava à área de cobertura soou com o o relógio de um cam panário tocando no silêncio absoluto de um a noite no cam po. Aquele sinal podia trair sua presença, m as por outro lado, era a certeza de que a saída não podia estar longe.

Apertou os olhos no escuro. Teve a im pressão de ver pontos lum inosos diante dele, com o se fossem sinais traçados com giz branco sobre um quadro-negro. Tentou acelerar a m archa sem abandonar a cautela. Especialm ente agora, que os batim entos de seu coração aum entaram de repente.

A m ão esquerda continuava a deslizar sobre a parede de cim ento, o dedo da m ão direita estava contraído sobre o gatilho da pistola, sentia um a dor dos diabos no j oelho, m as diante dele havia um vestígio de luz e talvez um a presença à espreita que, por nenhum a razão do m undo, ele poderia subestim ar.

Sobre o quadro-negro da escuridão m arcas brancas m overam -se com o se dançassem , suspensas no ar enquanto ele se aproxim ava. Pouco a pouco, foram aum entando. Frank com preendeu que o túnel acabava perto de um a m oita e que o que estava vendo era a luz filtrada pela folhagem . Provavelm ente, tinha passado um vento, agitando os ram os. Era por isso que a seus olhos, enganados pela escuridão, os pontos lum inosos pareciam vaga-lum es na escuridão da noite.

Subitam ente, vindo de fora, chegou o eco de um grito desesperado.

A prudência de Frank caiu por terra com o um castelo de cartas diante de um ventilador ligado. Em alguns passos, tão velozes quanto a posição lhe perm itia, chegou à m oita que escondia a boca do túnel.

Afastou os ram os e botou a cabeça de fora cautelosam ente. A boca do túnel dava para um a outra m oita, m ais alta e m ais densa, que cobria toda a circunferência do tubo de cim ento.

O berro se repetiu.

Frank foi se esticando lentam ente. O j oelho disse algum as palavras num a língua que Frank não gostaria nem um pouco de aprender. Olhou ao redor. A m oita estava num a área relativam ente plana, um a espécie de terraço natural no flanco da m ontanha, pontilhada de árvores, cuj os troncos delgados eram cobertos de trepadeiras, e com um a densa vegetação m editerrânea j unto ao chão, alternando-se com áreas em que a sarça tom ava conta de tudo. Às suas costas, com o um ponto de referência, viam -se as casas gêm eas e seus j ardins bem -cuidados. Cerca de cinquenta m etros acim a de sua cabeça, à esquerda, ficava a rua. No m eio do trecho escarpado que o separava do asfalto, levem ente à esquerda em relação à m oita na qual se encontrava, Frank percebeu um m ovim ento. Um a silhueta de cam isa verde e calças cáqui, carregando um a bolsa de tecido a tiracolo, escalava cuidadosam ente o barranco entre os arbustos, em direção à m ureta.

Frank teria reconhecido aquele hom em entre m ilhões de outros e em m ilhões de anos.

Em punhou a arm a diante dos olhos, segurando-a com as duas m ãos. Enquadrou a figura na m ira e finalm ente gritou a frase que sonhava em dizer havia m uito tem po.

— Fique onde está, Jean-Loup! Está na m inha m ira. Não m e obrigue a atirar. Levante as m ãos, aj oelhe-se no chão e fique parado. Já!

Jean-Loup virou a cabeça em sua direção. Não deu nenhum sinal de tê-lo reconhecido, nem de ter ouvido o que tinha dito e m enos ainda de que pretendia fazer o que tinha ordenado. Em bora estivesse próxim o o suficiente para ver a pistola nas m ãos de Frank, continuou a subir, deslocando-se para a esquerda.

Frank sentiu o dedo se contrair no gatilho da Glock.

O grito se fez ouvir novam ente, forte e agudo.

Jean-Loup respondeu, inclinando a cabeça para baixo.

— Segure firm e, Pierrot, estou chegando. Não tenha m edo, estou chegando aí para te pegar.

Frank deslocou os olhos para onde Jean-Loup olhava. Pendurado pelas m ãos no pequeno tronco de um a acácia crescida na beira da escarpa, estava Pierrot.

Seus pés balançavam no ar procurando apoio, m as a cada vez que tentava se firm ar, o terreno deslizante cedia e o rapazinho continuava balançando no vazio.

Abaixo dele, o barranco descia íngrem e. Não era um precipício propriam ente dito, m as se Pierrot largasse o tronco, cairia quicando com o um fantoche por duzentos m etros. Se largasse, não haveria saída para ele.

— Anda logo, Jean-Loup. Não aguento m ais. Minha m ão está doendo.

Frank viu o cansaço no rosto do rapaz e sentiu um a nota de m edo vibrar em sua voz. Mas ouviu outra coisa tam bém : a certeza inabalável de que Jean-Loup, o DJ, o assassino, a voz dos diabos, o seu m elhor am igo, iria salvá-lo.

Frank soltou o gatilho e abaixou um pouco a pistola ao perceber o que Jean-Loup fazia.

Não estava fugindo, estava indo ajudar Pierrot.

Talvez a fuga fosse sua prim eira intenção, certam ente porque as coisas tinham se passado com o ele im aginara: esperou dentro do túnel até que toda a confusão se dissipasse, e quando o cam inho ficou livre saiu do buraco com o propósito de fugir m ais um a vez do encalço da polícia. Então, viu que Pierrot estava em perigo. Talvez tenha se perguntado o que Pierrot estava fazendo ali, pendurado num tronco, pedindo aj uda com sua voz de m enino aterrorizado. Talvez não. Mas com preendera a situação num segundo e havia feito sua escolha. Agora, ele estava agindo de acordo com a nova conj untura.

Frank sentiu um a raiva surda subir por dentro, filha de sua frustração. Esperara por aquele m om ento durante m uito tem po e, agora que o hom em que procurara tão desesperadam ente estava sob sua m ira, não podia atirar. Reposicionou a pistola, segurando-a m ais firm e do que j am ais havia segurado um a arm a em sua vida. Além da alça de m ira estava o corpo de Jean-Loup, m ovendo-se para chegar ao local onde seu am igo pendia de um a árvore.

Agora Jean-Loup estava ao lado de Pierrot, um pouco m ais para cim a. Entre eles, o vazio que a queda do rapaz tinha escavado no terreno. Era im possível alcançá-lo para colocá-lo a salvo sim plesm ente estendendo a m ão com o apoio.

Jean-Loup falou com ele com sua voz quente e profunda.

— Estou aqui, Pierrot. Estou chegando. Fique tranquilo que tudo vai se resolver. Mas você precisa se segurar firm e e ficar calm o. Entendeu bem ?

Apesar da precariedade de sua situação, Pierrot respondeu com um de seus habituais acenos de cabeça. Estava com os olhos arregalados de m edo, porém tinha certeza de que o am igo resolveria tudo.

Frank viu que Jean-Loup, depois de colocar no chão a bolsa a tiracolo, estava tirando o cinto das calças. Não tinha a m enor ideia do que pretendia fazer para tirar Pierrot da encrenca em que tinha se m etido. A única coisa que Frank podia fazer era ficar olhando, m antendo-o sob a m ira da pistola.

Jean-Loup acabara de tirar o cinto de couro do últim o passador quando se ouviu um barulho sem elhante ao sopro de um a zarabatana e um tufo de terra saltou bem a seu lado. Ele se dobrou instantaneam ente sobre si m esm o e aquele m ovim ento instintivo salvou sua vida.

Houve um novo sopro e outro tufo de terra voou exatam ente no lugar em que sua cabeça estava um a fração de segundo antes. Frank virou-se rapidam ente, olhando para o alto. Na beira da escarpa, de pé logo abaixo da m ureta, m ergulhado nas m oitas até cintura, via-se o capitão Ry an Mosse. Segurava um a enorm e pistola autom ática com silenciador.

Àquela altura dos fatos, Jean-Loup virou-se e fez um a coisa incrível: m ergulhou entre as m oitas de lentisco e desapareceu.

Assim , sim plesm ente. Um segundo antes estava bem ali, um segundo depois não estava m ais. Frank ficou boquiaberto. Ry an Mosse provavelm ente estava tão espantado quanto ele, o que não o im pediu de disparar um a série de tiros em rápida sucessão ao redor das m oitas em que Jean-Loup tinha desaparecido, até que a m unição se esgotasse. Tirou o pente e enfiou um novo que retirou do bolso da j aqueta. Um instante depois a pistola estava pronta para atirar de novo. Com eçou a descer cuidadosam ente, vigiando qualquer m ovim ento da vegetação que o rodeava.

Frank deslocou a Glock em sua direção.

— Vá em bora, Mosse. Essa história não lhe diz respeito. Largue a arm a e vá em bora. Ou trate de nos aj udar. Prim eiro tem os que pensar no rapaz pendurado lá em baixo, o resto vem depois.

O capitão continuou a descer, pistola em punho. Respondeu sem parar de vigiar em todas as direções as m oitas entre as quais avançava.

— Está dizendo que não tenho nada com isso? Pois eu digo que sim , mister Ottobre. E sou eu quem decido m inhas prioridades. Prim eiro vou acabar com esse m aluco e depois, se quiser, posso aj udá-lo a salvar o tal rapazinho idiota…

Frank tinha a cara de Ry an Mosse bem na m ira. E um forte desej o de atirar nela, quase tão grande quanto o que tinha de atirar em Jean-Loup, sem conceder a atenuante de ter arriscado a vida para salvar um cão ou um rapazinho idiota, com o ele dizia.

— Repito, largue a arm a, Ry an.

O capitão deu um a breve risada, seca e hostil. Sua voz soou sarcástica.

— Se não, vai fazer o quê, atirar? E depois o que vai dizer por aí? Que m atou um soldado de seu país para salvar a pele de um assassino? Largue sua espingardinha de chum bo e aprenda com o se faz…

Mantendo-o na m ira, Frank com eçou a se deslocar na direção de Pierrot o m ais rápido que podia. Nunca tinha estado num a situação daquelas, em que precisava tom ar um a decisão com um núm ero tão grande de variáveis.

— Socorro, não aguento m ais.

A voz apavorada de Pierrot vinha de algum lugar às suas costas. Frank abaixou a arm a e tentou, na m edida do possível, chegar correndo ao ponto em que Jean-Loup estava anteriorm ente. Sentia as sarças e ram os dos arbustos tentando detê-lo, agarrando-o pelas calças, com o m ãos m alignas que brotassem m agicam ente da terra. De vez em quando, virava a cabeça para controlar os m ovim entos de Ry an Mosse, que continuava a descer cuidadosam ente o barranco, a pistola na m ão, exam inando cada arbusto com olhos desconfiados, à procura de Jean-Loup.

De repente, as m oitas ao lado de Mosse se agitaram . Não houve nenhum m ovim ento entre os ram os, não se viu o m enor indício. Aquele que em ergiu do m eio do m ato não era m ais o m esm o hom em que tinha m ergulhado tentando escapar: não era Jean-Loup, era um dem ônio expulso do inferno porque causava m edo aos outros dem ônios. Havia nele um a tensão sobrenatural, com o se de repente um anim al feroz tivesse crescido em seu corpo, em prestando-lhe a força de seus m úsculos e a im petuosidade de seus sentidos.

Com aquela m istura de agilidade, vigor e graça, Jean-Loup se m oveu.

Um chute fez a arm a voar da m ão de seu adversário. A pistola foi arrem essada para longe, perdendo-se entre a vegetação. Mosse era um soldado, certam ente um ótim o soldado, com um treinam ento adequado à triste fam a que carregava, preparado para esperar qualquer coisa num a luta.

Menos, talvez, um com bate contra fantasm as.

Dobrou as pernas num a posição de defesa. O capitão era m ais alto e m ais corpulento que Jean-Loup, m as a sensação de am eaça que aquele hom em em anava só com sua atitude os colocava de certa m aneira no m esm o plano. Porém Mosse tinha um a vantagem sobre Jean-Loup: dispunha de todo o tem po que quisesse. Não se im portava nem um pouco com o rapazinho pendurado num a árvore do barranco, e sabia que o outro tinha pressa para ir em seu socorro. Aquela pressa era o elem ento com o qual pretendia j ogar para levar o adversário a com eter um erro.

Não atacou, m as esperou, afastando-se um passo a cada vez que Jean-Loup se aproxim ava. Enquanto se m ovia, Jean-Loup continuava a falar com Pierrot.

— Está m e ouvindo, Pierrot? Ainda estou aqui, não tenha m edo. Chego num segundo.

Enquanto tranquilizava o m enino, pareceu perder a concentração por um instante e baixou a guarda. Naquele exato m om ento, Mosse atacou.

Vendo o que acontecia em seguida, Frank entendeu que tudo aquilo tinha sido um a tática de Jean-Loup para levar Mosse a agir. Tudo aconteceu em poucos instantes. Mosse fez um a finta de esquerda e logo depois um a série de atemi que Jean-Loup aparou com um a facilidade a bem dizer hum ilhante. Mosse deu um passo para trás. Frank estava m uito distante para ver com clareza de detalhes, m as parecia que a expressão no rosto do capitão era de grande surpresa. Mosse tentou novam ente acertar dois golpes com as m ãos e depois, rápido com o um raio, desferiu um chute. Frank lem brou-se que era o m esm o golpe que fora usado contra ele, no dia em que se desentenderam na viela da casa. Só que Jean-Loup não caiu na arm adilha com o ele. Em vez de aparar o golpe e desviá-lo, expondo-se à reação do adversário, assim que o viu com eçando a chutar, virou de lado e deixou que a perna seguisse seu cam inho para o alto. Depois, pousou o j oelho direito no chão, enfiou-se com o um raio sob a perna levantada de Mosse e bloqueou-a no alto com a m ão esquerda, desequilibrando o corpo do capitão ligeiram ente para trás. Deu um soco terrível nos testículos do adversário e, ao m esm o tem po, puxou-o para a frente.

Frank ouviu claram ente o surdo gem ido de dor de Mosse enquanto caía. Seu corpo ainda não pousara com pletam ente sobre as m oitas e Jean-Loup j á estava de pé. Na m ão direita apertava um punhal. O m ovim ento com que o pegou foi tão rápido que Frank teve a im pressão de que o punhal estava naquela m ão desde o com eço e que só agora tinha se tornado repentinam ente visível.

Jean-Loup se dobrou e desapareceu na vegetação no lugar onde tinha caído o corpo de Mosse.

Quando em ergiu de volta, o anim al que parecia carregar dentro de si até aquele m om ento havia desaparecido e a lâm ina do punhal estava coberta de sangue.

Frank não viu o resultado final da luta, porque nesse m eio-tem po tinha chegado perto do local onde Pierrot estava, pendurado na árvore com Jean-Loup e Ry an Mosse às costas. Viu sinais de m edo no rosto do rapazinho, m as reconheceu sobretudo a m arca preocupante do cansaço. As m ãos que apertavam seu suporte providencial estavam contraídas pelo esforço. Com preendeu que Pierrot não aguentaria m uito m ais. Frank avisou-o de sua presença e tentou tranquilizá-lo falando com calm a, para passar um a confiança que estava longe de sentir.

— Estou aqui, Pierrot. Vou pegar você agora.

O rapaz estava tão cansado que não encontrou forças para responder. Frank olhou em torno. Estava no ponto exato em que Jean-Loup se encontrava quando Mosse atirara da prim eira vez, onde o vira retirar o cinto do cós da calça.

Por quê?

Pela segunda vez, perguntou-se qual seria a razão daquele gesto, ou sej a: com o ele pretendia usar o cinto para socorrer Pierrot? Levantou a cabeça e viu que cerca de dois m etros acim a da árvore de Pierrot havia um tronco seco, m ais ou m enos das m esm as dim ensões. As folhas tinham caído havia tem po e os ram os erguiam -se para o céu com o se, por um a extravagância da natureza, as raízes tivessem crescido ao contrário. Num segundo, com preendeu as intenções de Jean-Loup. Agiu com rapidez. Tirou o celular do bolsinho da cam isa e retirou o clipe que prendia o coldre de couro na cintura. Deixou-os no chão, ao lado da bolsa de tecido que Jean-Loup usava a tiracolo.

Enfiou na cintura das calças a pistola que segurava e estrem eceu levem ente ao contato da arm a fria com a pele. Pegou o cinto e verificou tanto a espessura da tira de couro natural quanto a resistência da fivela. Enfiou novam ente a tira na fivela e prendeu no últim o ilhós, form ando um a espécie de anel flexível de couro, o m ais largo possível.

Exam inou o barranco ao lado e abaixo de onde estava. Seria difícil, m as era possível alcançar a árvore que crescera e m orrera quase paralelam ente àquela onde Pierrot balançava. Buscando apoio com os pés, agarrado às m oitas na esperança de que tivessem raízes sólidas plantadas no terreno, Frank chegou ao tronco ressequido. Espontaneam ente, o contato com a casca áspera proj etou de algum m odo em sua m ente, com o um flash, a im agem do cadáver encontrado no abrigo. Um estalo inquietante proveniente da árvore logo substituiu aquela im agem pela visão de seu próprio corpo rolando ribanceira abaixo. O discurso que valia para Pierrot valia para ele tam bém . Não sobreviveria àquela queda se o tronco cedesse ou se perdesse o apoio. Tentou não pensar em nada e esperou que a árvore fosse forte o suficiente para suportar o peso dos dois. Acocorou-se j unto ao tronco e esticou-se para baixo, tentando fazer o cinto chegar o m ais perto possível do rapazinho.

— Tente se segurar aqui.

Hesitante, Pierrot tentou soltar um a m ão, m as logo voltou ao apoio anterior.

— Não consigo.

Antes m esm o que ele falasse, Frank j á tinha percebido que o com prim ento de seu braço som ado ao do anel de couro não eram suficientes para alcançá-lo. Só havia um a coisa a fazer. Virou-se de m odo a enganchar-se no tronco com as pernas e pendurou-se no vácuo com o um acrobata no trapézio, torcendo o corpo para ter o apoio do terreno sob o tórax e um a visão m elhor para direcionar os m ovim entos de Pierrot do alto. Segurando o anel do cinto com as duas m ãos, conseguiu, enfim , fazer o cinto chegar à altura das m ãos do rapaz.

— Pronto, consegui. Agora, largue a árvore e agarre o cinto, um a m ão de cada vez.

Seguiu com os olhos a m anobra hesitante, quase em câm era lenta, com que Pierrot realizou a operação. Apesar da distância, sentia o som da sua respiração, sibilante de ansiedade e cansaço. O tronco em que estavam pendurados respondeu àquele aum ento de peso, com um rangido sinistro, m uito m ais preocupante que o anterior. Frank sentiu o peso de Pierrot inteiram ente em seus braços e nas pernas enroladas no tronco. Não havia dúvida de que, se Jean-Loup estivesse em seu lugar, conseguiria puxá-lo sem tanto esforço, pelo m enos até içá-lo a um ponto no qual poderia abandonar o apoio do cinto e agarrar-se de algum a m aneira ao tronco da árvore em que Frank estava dependurado com o um m orcego. Desej ou com todas as suas forças que conseguisse fazer o m esm o.

Com eçou a puxar com os braços para cim a, sentindo a violência do esforço acum ulando-se à sensação quase dolorosa do m aciço afluxo de sangue na cabeça provocado pela posição em que estava.

Viu Pierrot subindo centím etro a centím etro, tentando se aj udar com a ponta dos pés. Com o cansaço, Frank com eçou a sentir um a queim ação terrível nos m úsculos dos braços, com o se o tecido leve da cam isa tivesse se incendiado de repente.

A pistola que tinha enfiado nas calças, puxada pela força da gravidade, soltou-se da cintura e caiu lá em baixo. Passou rente à cabeça de Pierrot e perdeu-se ricocheteando pelo barranco.

Naquele instante, o tronco fez um barulho que soou com o um tiro, com o o rum or de um a acha de m adeira estalando na lareira.

Frank continuou a puxar com todas as suas forças. A dor nos braços, no esforço de erguer aquele peso que parecia aum entar a cada segundo, tornou-se insuportável, com o se o sangue em suas veias tivesse sido substituído por ácido sulfúrico puro. Frank teve a im pressão de que suas carnes estavam se dissolvendo e de que, dentro em pouco, o esqueleto do braço ficaria evidente e, sem a proteção dos m úsculos, os ossos finalm ente se destacariam dos om bros e m ergulhariam no vazio, j unto com o corpo de Pierrot.

Apesar de tudo, Pierrot continuava a subir lentam ente e Frank continuava a puxar para cim a, fazendo força com as pernas, apertando os dentes, espantado com sua própria resistência. Um instante depois do outro, sentia o desej o de desistir, de abrir as m ãos para pôr fim àquele suplício, àquele fogo abrasador que queim ava seus braços. Mas no instante seguinte, de algum lugar dentro dele, sentia chegarem novas forças, com o se um a reserva de energia estivesse arm azenada em algum ponto obscuro de seu cérebro, um escaninho secreto que só a raiva e a obstinação podiam abrir.

Agora Pierrot j á estava perto o suficiente para que ele pudesse se aj udar com o corpo. Frank arqueou a parte superior do tronco, que estava em contato com a terra, e conseguiu passar o cinto ao redor do pescoço, transferindo parte do peso aos m úsculos dos om bros e do dorso. O alívio nos braços foi im ediato. Depois de experim entar a resistência por um segundo ou dois, Frank passou o peso para o cinto e estendeu as m ãos livres para Pierrot. Com o pouco de fôlego que ainda tinha à disposição, disse o que pretendia fazer.

— Agora, você vai fazer o que j á fez antes. Largue o cinto, com calm a, um a m ão de cada vez. Agarre m eus braços e suba por eles. Eu seguro você.

Frank não tinha certeza de que conseguiria m anter aquela prom essa. No entanto, quando Pierrot abandonou o apoio e o pescoço voltou a ficar livre, sentiu o alívio de peso com o um refrigério ao longo da espinha dorsal, com o se alguém tivesse j ogado água fresca em sua pele coberta de suor.

Sentiu o aperto frenético das m ãos de Pierrot em seus braços. Pouco a pouco, centím etro por centím etro, agarrando-se desordenadam ente a seu corpo e às suas roupas, o rapazinho continuou sua longa cam inhada para cim a. Espantou-se ao ver que ainda tinha tanta força. O instinto de sobrevivência era um fantástico aliado em certas situações, um a espécie de doping natural. Esperou que aquela força não o abandonasse de repente, não agora que a salvação estava ao alcance da m ão.

Assim que chegou a seu alcance, Frank agarrou Pierrot pela cintura das calças e puxou, aj udando-o a chegar ao tronco. Seus olhos queim avam com o suor que deslizava pelo rosto. Piscou várias vezes, sentindo as gotas de suor deslizarem pelas sobrancelhas e pela testa, naquela posição absurda em que estava, de cabeça para baixo. Não conseguia ver m ais nada. Só sentia os m ovim entos frenéticos do corpo de Pierrot rastej ando sobre o seu, que havia se transform ado num único, desesperado lam ento de dor.

— Conseguiu?

Pierrot não respondeu, m as de repente Frank se sentiu livre. Inclinou a cabeça até quase tocar a terra úm ida e quente. Sentiu, m ais do que viu, que o cinto saía de seu pescoço e caía rolando para se j untar à pistola. Depois, virou a cabeça para não respirar terra j unto com o ar que seus pulm ões im ploravam com urgência desesperada através da boca escancarada. A pressão do sangue nas têm poras tinha se tornado insuportável. Ouviu um a voz chegando do alto, às suas costas, um a voz que parecia vir de um a distância intransponível, com o um cham am ento longínquo do cum e de um a m ontanha. Na espécie de torpor que agora envolvia sua m ente e seu corpo, Frank achou que conhecia aquela voz.

— Muito bem , Pierrot. Agora vá se agarrando nas m oitas e venha até aqui onde estou. Com calm a, está tudo bem agora.

Frank sentiu um leve choque percorrer seu corpo suspenso e um novo rangido da m adeira quando o peso de Pierrot abandonou o tronco. Pensou que aquela árvore seca partilhava do m esm o alívio que sentiu quando se libertou, com o se não fosse um a m atéria inerte, m as um a coisa viva.

Pensou ainda que não havia acabado. Precisava vencer aquela espécie de sonolência, m ental e física, devida à queda de tensão causada pela certeza de que Pierrot estava finalm ente a salvo. Em bora não conseguisse encontrar o m enor vestígio de força física ou de vontade dentro de si, sabia que não era o m om ento de desistir. Se m ergulhasse m ais um segundo naquela ilusória sensação de repouso, não conseguiria ficar de pé novam ente e recuperar o apoio do tronco.

Pensou em Helena e em sua m uda espera no aeroporto. Reviu a tristeza de seus olhos cinzentos, aquela tristeza que ele queria, e talvez pudesse, apagar. Viu a m ão de seu pai, Nathan Parker, suspensa com o um a garra sobre ela.

A raiva e o ódio vieram em seu socorro. Apertou os dentes e reuniu toda a energia que ainda lhe restava antes que desaparecesse de vez, perdendo-se no ar com o a fum aça branca de um a cham iné. Curvou-se e, aj udando-se com o podia com os braços, e subiu com um im pulso. Os m úsculos abdom inais, única parte de seu corpo que ainda não tinha acionado, doíam com o estresse.

Via a m adeira seca do tronco se aproxim ando lentam ente com o um a m iragem . Um enésim o rangido o fez lem brar que, com o qualquer m iragem , ela podia se dissolver de um a hora para outra. Obrigou-se a subir lentam ente, sem m ovim entos bruscos para não sobrecarregar ainda m ais aquele apoio precário.

Finalm ente a m ão esquerda agarrou o tronco, seguida im ediatam ente pela direita. Sem saber com o, conseguiu ficar sentado. O fluxo violento do sangue descendo e recuperando seu curso norm al deixou-o tonto. Fechou os olhos, esperando que a intensa vertigem passasse e que aquelas duas esponj as ressequidas que eram seus pulm ões conseguissem conter todo o ar que estava respirando.

Ficou assim , na penum bra confortável das pálpebras fechadas, os braços agarrados ao tronco, o áspero contato da casca contra a face, até recuperar as forças pelo m enos em parte.

Quando reabriu os olhos, Pierrot estava a alguns m etros dele, de pé ao lado de Jean-Loup, com os braços ao redor de sua cintura, com o se a sensação de ter o corpo balançando no vazio tivesse deixado a necessidade de sentir o apoio de algo ou de alguém para se convencer de que estava realm ente a salvo.

Jean-Loup envolvia seus om bros com o braço esquerdo. A m ão direita segurava o punhal ensanguentado. Por um instante, Frank teve m edo de que usasse o corpo do m enino com o escudo, que o am eaçasse com o punhal na garganta ou que o fizesse de refém . Afastou aquele pensam ento da cabeça. Não, não depois de tudo que tinha visto. Não depois de ver Jean-Loup abandonar qualquer possibilidade de fuga j ustam ente para vir em socorro de Pierrot. Perguntou-se que fim teria tido Ry an Mosse. No m esm o instante em que form ulava a pergunta, percebeu que na verdade a sorte dele realm ente não lhe im portava nem um pouco.

Notou um m ovim ento do alto e levantou a cabeça. Na beira da estrada, apoiadas na m ureta, algum as pessoas estavam paradas diante de seus carros estacionados. Talvez os gritos de Pierrot tivessem cham ado a atenção ou, bem m ais sim plesm ente, era um grupo de turistas que parara por acaso naquele lugar para adm irar a paisagem e acabara acom panhando as peripécias de um a operação de salvação. Jean-Loup virou a cabeça e seguiu a direção de seu olhar. Viu as pessoas e os carros parados quarenta m etros acim a deles. Seus om bros pareceram se inclinar levem ente, com o se um peso invisível tivesse caído de repente sobre eles.

Frank se levantou, segurando-se no tronco com as m ãos, e refez o percurso ao contrário. Acenou para o tronco sem vida com a gratidão de quem presta hom enagem a um am igo fiel, que o aj udara a sair de um a encrenca num m om ento difícil. Sentiu sob os dedos o contato vivo dos ram os das m oitas que usava com o apoio para voltar a colocar os pés na terra firm e, na salvação, no m undo horizontal.

Quando chegou, Jean-Loup e Pierrot estavam diante dele, encarando-o. Frank reencontrou o brilho verde dos olhos de Jean-Loup fixos nos seus. Sentia-se exausto. Pensou que não teria a m enor possibilidade de lutar com aquele hom em , não com a fraqueza que sentia, não depois de tudo que o tinha visto fazer pouco antes, no duelo com Mosse.

Talvez Jean-Loup tivesse adivinhado os pensam entos que cruzavam sua m ente. Sorriu e aquele sorriso brotou num rosto repentinam ente cansado. Por trás daquele sim ples m ovim ento do rosto havia coisas que Frank só conseguia im aginar: um a vida vivida num a passagem contínua da luz para a escuridão, do quente para o frio, da lucidez para o delírio, no dilem a perene de ser um ou nenhum.

O sorriso de Jean-Loup se apagou. Sua voz era a m esm a que encantava seus ouvintes na rádio. Irradiava tranquilidade e bem -estar.

— Fique tranquilo, agente Ottobre. Não tenha m edo. Sei ler a palavra “fim ” quando a vej o escrita.

Frank inclinou-se para pegar o celular no chão. Enquanto digitava o núm ero de Morelli, pensou no absurdo daquela situação. Estava ali, desarm ado, com pletam ente à m ercê de um hom em que poderia desintegrá-lo m esm o lutando com um a das m ãos am arrada às costas. E só tinha a possibilidade de viver porque aquele hom em tinha resolvido não m atá-lo.

A voz de Morelli soou brusca no aparelho.

— Alô.

Frank retribuiu com sua voz exausta e um a boa notícia.

— Claude, é Frank.

— O que houve, está bem ?

As poucas palavras que disse lhe custaram um esforço im enso.

— Venha im ediatam ente para a casa dele. Eu o peguei.

Não ouviu a resposta m aravilhada do inspetor. Não viu Pierrot inclinar a cabeça e apertar-se com m ais força ainda ao corpo do am igo, com o reação ao sentido daquelas últim as palavras. Enquanto abaixava o celular, Frank só tinha olhos para a m ão de Jean-Loup que se abria lentam ente e deixava cair no chão um punhal cheio de sangue.