Eu Mato

Giorgio Faletti · Capítulo 55 de 76

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Eu Mato

Capítulo 46

46

 

QUANDO FRANK SAIU DO CEMITÉRIO, não havia m ais ninguém do lado de fora.

Até a chuva tinha parado. Lá em cim a, no alto dos céus, nenhum deus m isericordioso. Apenas o m ovim ento das nuvens brancas e acinzentadas, entre as quais o vento estava abrindo um tím ido espaço azul.

Chegou ao carro acom panhado pelo leve crepitar de seus passos no cascalho. Entrou e ligou o m otor. Os lim padores de para-brisa do Mégane m overam -se num ruído suave e com eçaram a lim par os resíduos da chuva. Com o hom enagem à m em ória de Nicolas Hulot, colocou o cinto de segurança. No banco a seu lado, havia um exem plar do Nice Matin, com um a m anchete na prim eira página: Governo dos EUA pede extradição do capitão Ryan Mosse.

A notícia da m orte de Nicolas estava dentro, na terceira página. O desaparecim ento de um sim ples delegado de polícia não m erecia as honras de um a m anchete.

Pegou o j ornal e j ogou com desprezo no banco de trás. Engrenou a m archa e olhou instintivam ente para o espelho retrovisor antes de acelerar o carro. Seu olhar caiu no j ornal, que estava de pé, apoiado no encosto.

Frank ficou um instante sem fôlego. De repente, sentiu-se com o um daqueles m alucos que praticam bungee jumping. Voava no vazio e só via a terra se aproxim ando num a velocidade vertiginosa, sem ter nenhum a certeza m atem ática de que o com prim ento do elástico era j usto. Dentro dele, ergueu-se um a prece m uda a quem quer que estivesse em condições de ouvi-la, pedindo que aquela intuição não fosse m ais um a entre as m uitas ilusões que um espelho pode criar.

Ficou alguns segundos pensando e depois foi o dilúvio. Um a cascata de hipóteses à espera de confirm ação desabou dentro dele, do m esm o m odo que a força da água alarga um m inúsculo furo que se abriu pouco a pouco num dique até transform á-lo num j ato enorm e. No entanto, à luz do que tinha acabado de pensar, m uitas pequenas incongruências estariam explicadas num estalar de dedos, m uitos detalhes negligenciados assum iriam um a form a que se encaixava perfeitam ente no espaço que lhes correspondia.

Pegou o celular e digitou o núm ero de Morelli. Assim que Claude respondeu, foi furiosam ente atacado pelas palavras do outro.

— Claude, é Frank. Está sozinho no carro?

— Sim .

— Ótim o. Estou indo para a casa de Roby Stricker. Encontre-m e lá sem dizer um a palavra a ninguém . Preciso verificar um as coisas e gostaria que estivesse com igo quando o fizer.

— Algum problem a?

— Acho que não. Só um a suspeita tão pequena que é quase insignificante. Mas se pensei certo, pode ser o fim de toda essa história.

— Quer dizer que…

— Nos vem os na casa de Stricker — cortou Frank bruscam ente.

Agora lam entava estar ao volante de um carro particular e não de um a viatura da polícia com toda a parafernália de direito. Lam entou não ter pedido um a sirene para colocar no teto em caso de necessidade.

Nesse m eio-tem po, com eçou a se recrim inar. Com o podia ter sido tão cego? Com o pôde perm itir que seus problem as pessoais superassem a lucidez de suas avaliações? Tinha visto o que queria ver, ouvido o que queria ouvir, aceitado o que lhe dava prazer.

E todos tinham sofrido as consequências. Nicolas, em prim eiro lugar.

Se tivesse usado a cabeça, talvez Hulot estivesse vivo naquele m om ento e Ninguém , preso atrás das grades.

Quando chegou a Les Caravelles, Morelli j á estava em pé na porta do edifício esperando por ele.

Largou o carro na rua sem se preocupar se ali era proibido estacionar. Passou ao lado de Morelli com o um pé de vento. Sem um a palavra, o inspetor entrou atrás dele. Pararam diante do porteiro, que olhava para eles com viva preocupação estam pada no rosto. Frank se apoiou no tam po de m árm ore do balcão.

— As chaves do apartam ento de Roby Stricker. Polícia.

A apresentação era inútil. O porteiro se lem brava m uito bem de Frank. O bolo de saliva que engoliu era a confirm ação m ais evidente. Morelli exibiu o distintivo, que arrom bou um a porta j á aberta. Enquanto subiam no elevador, Morelli finalm ente encontrou um m odo de inserir um a palavra em m eio à fúria do am ericano.

— O que está acontecendo, Frank?

— Está acontecendo que sou um idiota, Claude. Um grande, enorm e idiota. Se não estivesse tão ocupado em ser um hom em de m erda, talvez tivesse lem brado que sou um policial e teríam os podido evitar m uito do que aconteceu.

Morelli continuava sem entender nada. Chegaram diante da porta que ainda exibia os lacres colocados pela polícia. Frank arrancou as finas tiras de plástico am arelo quase com raiva. Abriu a porta e entraram no apartam ento.

Suspensa no ar, a sensação de inelutabilidade que sem pre flutua no local onde foi com etido um crim e. O quadro quebrado no chão, as m arcas no carpete, os vestígios das am ostras retiradas pela perícia, o cheiro m etálico do sangue coagulado recordavam a fuga inútil de um hom em diante da m orte, da lâm ina de um punhal, da determ inação de seu algoz.

Frank se dirigiu sem hesitação para o quarto de dorm ir. Morelli viu quando atravessou a soleira da porta e estacou em seguida, exam inando o quarto. O sangue no pavim ento de m árm ore fora lim pado. Restavam as m arcas nas paredes com o únicas testem unhas do crim e com etido naquele quarto.

Frank ficou im óvel por alguns instantes e depois fez um a coisa que Morelli achou incom preensível. Em dois passos, passou pela cam a e foi se deitar no chão exatam ente na posição em que foi encontrado o cadáver de Stricker, que a perícia desenhou nas placas de m árm ore antes de rem over o corpo. Ficou m uito tem po deitado, m ovendo apenas a cabeça. Levantou os olhos para verificar algum a coisa que evidentem ente só se via daquele ponto de vista.

— É isso, m aldição. É isso…

— É isso o quê, Frank?

— Im becis, fom os uns im becis, sobretudo eu. Preocupados em ver as coisas do alto, quando a resposta estava em baixo.

Morelli não conseguia entender. Frank se levantou de repente.

— Venha com igo. Ainda tem os outra coisa para verificar.

— E para onde vam os?

— Para a sede da Rádio Monte Carlo. Se eu estiver certo, a resposta definitiva está lá.

Saíram do apartam ento. Morelli olhava para Frank com o se nunca o tivesse visto antes. O am ericano parecia possuído por um frenesi que coisa algum a no m undo poderia acalm ar.

Atravessaram o hall do condom ínio quase correndo, depois de j ogar as chaves para um porteiro evidentem ente aliviado em vê-los partir. Saíram ao ar livre e entraram no carro de Frank, que um policial uniform izado j á encontrara. O policial estava de pé na frente do carro com o bloco de m ultas aberto na m ão.

— Largue o osso, Leduc: serviço.

O agente reconheceu Morelli.

— Ah, é o senhor, inspetor. Tudo certo.

Cum prim entou-o levando a m ão ao quepe, enquanto o carro partia cantando pneus e se enfiava no trânsito sem dar m uita im portância à regra da preferência. Em alta velocidade, conseguiram pegar a rua que descia à direita, na frente da igrej a de Sainte-Dévote. Enquanto m argeavam a m arina, Frank lem brou que tudo tinha com eçado ali, num barco carregando m ortos que tinha se chocado contra o cais com o um navio fantasm a.

Se estivesse certo, aquela história acabaria exatam ente onde tinha com eçado. Fim da caçada às som bras sem rosto. Agora era chegado o tem po da caçada aos hom ens que, com o tais, tinham um rosto e um nom e.

Fizeram toda a volta que levava ao prédio da Rádio Monte Carlo, do outro lado da m arina, voando baixo, com os pneus cantando no asfalto, que um sol pálido entre as nuvens j á enxugava.

Deixaram o carro ali m esm o, ao lado de um barco estacionado num a plataform a à espera de ser lançado ao m ar. Morelli parecia contagiado pela febre de Frank, que falava sozinho, m ovendo os lábios em silêncio e rum inando frases que só ele entendia. O inspetor só podia segui-lo, à espera de que aqueles grunhidos se transform assem em frases que fizessem sentido.

Tocaram a cam painha e, quando a secretária abriu a porta, chegaram num piscar de olhos ao grande elevador de carga que, felizm ente, estava no térreo.

Subiram até a rádio, onde Bikj alo esperava por eles de porta aberta.

— O que houve, Frank? O que o trouxe a essa hor…

Frank o afastou com um gesto brusco e seguiu em frente. Morelli deu de om bros com o se pedisse desculpas pelo com portam ento do am ericano. Frank passou pela m esa da secretária. Raquel estava sentada na escrivaninha e Pierrot, em pé do outro lado, recolhia alguns CDs em pilhados para serem devolvidos ao arquivo. Frank parou na parede em frente à entrada onde ficavam , atrás das portas de vidro, os cabos das conexões telefônicas, das ligações com satélite e o ISDN.

Virou-se para Bikj alo que o seguia sem entender nada.

— Abra essa porta.

— Mas…

— Faça o que estou dizendo!

O tom de Frank não adm itia réplicas. Bikj alo escancarou as portas e um sopro de ar fresco entrou na sala. Frank ficou um instante parado diante daquele em aranhado de fios. Enfiou as m ãos e deslizou as pontas dos dedos por baixo dos painéis com os plugues das linhas telefônicas.

— O que houve, Frank? O que está procurando?

— Vou lhe dizer o que estou procurando, Claude. Quase enlouquecem os para interceptar os telefonem as daquele filho da puta, sem resultado. E não íam os conseguir nunca, nem que passássem os a vida inteira tentando, e sabe por quê?

Frank deu a im pressão de que tinha encontrado algum a coisa. Sua m ãos se detiveram sob um dos painéis. Com eçou a puxar com toda a força algum a coisa que estava presa ao painel m etálico. Finalm ente conseguiu arrancá-la. Quando a levantou, tinha na m ão um a espécie de caixa achatada de m etal, do tam anho de dois m aços de cigarro, da qual saía um fio que term inava num plugue de telefone. A caixa estava enrolada em fita isolante. Frank exibiu seu achado aos dois, que olhavam para ele atônitos.

— Aqui está o m otivo por que não conseguíam os interceptar um telefonem a que devia chegar de fora. O desgraçado estava ligando daqui de dentro!

Frank expunha seus pensam entos no estado de agitação de quem de repente se vê diante de um a verdade feita de m uitas palavras e quer dizer tudo de um a só vez.

— Eis o que aconteceu. Não foi Ry an Mosse quem m atou Stricker. Na m inha obstinação, queria tanto que ele fosse o culpado que nem considerei as outras possibilidades. Porém , m ais um a vez, Ninguém dem onstrou sua astúcia diabólica. Forneceu deliberadam ente um indício am bíguo, com duas leituras possíveis. Podia dizer respeito tanto a Stricker, quando a Gregor Yatzim in. Em seguida, ficou esperando calm am ente na j anela. Quando colocam os Stricker sob proteção, usando todas as forças que tínham os à disposição, ele tratou de m atar Yatzim in na m aior tranquilidade. Quando o cadáver do bailarino foi descoberto, abandonam os a proteção a Stricker e correm os para a casa do m orto. E Ninguém pôde entrar em Les Caravelles para m atar Stricker tam bém .

Frank fez um a pausa.

— Esse era seu verdadeiro obj etivo. Queria matar Stricker e Yatzimin na mesma noite!

Bikj alo e Morelli pareciam petrificados.

— Mas quando m atou Stricker, teve que lutar com ele. E sem querer, no corpo a corpo, feriu seu rosto. Ninguém não esfolou sua cara porque estava danificada e não podia ser utilizada para seus fins, sej am eles quais forem . Deixou o apartam ento certo de que Stricker estava m orto, m as o infeliz ainda estava vivo e teve tem po de escrever um a m ensagem com sangue…

Frank falava com o se todas as peças do m osaico se aj ustassem perfeitam ente diante de seus olhos à m edida que expunha o desenrolar dos acontecim entos.

— Roby Stricker era um frequentador da vida noturna de Montecarlo e da Côte d’Azur. Conhecia todo m undo que fazia parte desse universo e, portanto, sabia quem era o assassino. Mas naquele m om ento, com preensivelm ente, não lem brou do nom e, em bora soubesse quem era e o que fazia…

Frank fez m ais um a pausa para que os dois que estavam diante dele pudessem assim ilar as inform ações. Recom eçou falando sem precipitação, quase escandindo as palavras.

— Vam os tentar reconstituir a cena. Stricker está deitado no chão, ferido de m orte, o braço esquerdo quebrado. Na posição em que está, j á verifiquei pessoalm ente, pode se ver refletido na parede de espelhos do banheiro através da porta aberta. Escreve o que sabe vendo sua própria im agem invertida e usando a m ão direita, que nunca usa para escrever. É m uito natural que escreva ao contrário e que, infelizm ente, m orra sem conseguir term iná-la…

Pegou pelo braço os dois, que estavam sem palavras, e arrastou-os para o espelho diante da sala de direção. Indicou com o dedo a escrita verm elha em cim a da cabeça deles, refletida ao contrário na superfície polida.

— Não queria escrever RYAN, m as ON AIR, o sinal, na rádio, de que o program a está no ar! Havia um traço indistinto no início da escrita, m as pensam os que não tinha sentido, que fosse um rabisco provocado pelos espasm os da m orte. Mas tinha: Stricker m orreu antes de com pletar o O.

— Quer dizer que…?

A voz de Morelli chegava de um lugar onde é difícil acreditar nos próprios olhos e ouvidos. Bikj alo levou as m ãos ao rosto, pálido com o um m orto, e escondeu-se atrás delas. Só apareciam os seus olhos incrédulos. A pressão dos dedos arregalou-os m ais que o norm al aum entando a expressão de espanto.

— Quero dizer que vivem os j unto com o diabo e não sentim os o cheiro de enxofre!

Frank m ostrou a caixinha que ainda segurava.

— Depois da análise, vocês vão ver que essa geringonça é um sim ples e obsoleto transistor de rádio, que nunca conseguiríam os descobrir porque transm ite num a frequência que sequer considerávam os. Nenhum de nós teria pensado num sistem a tão arcaico. E vão ver que aqui dentro deve haver um timer ou qualquer outra porcaria que liga na hora m arcada. Além de tudo, o sinal telefônico não podia ser detectado porque a engenhoca foi colocada antes da central telefônica à qual estávam os ligados para fazer a interceptação. Os técnicos saberão explicar os detalhes, em bora não sirvam para nada. Ninguém transm itia telefonem as pré-gravados à única pessoa que sabia com o form ular as perguntas e dar as respostas, pois conhecia a gravação…

Frank rem exeu nos bolsos e tirou a foto do disco de Robert Fulton.

— Aqui está a prova definitiva da m inha leviandade. No frenesi de perguntar, às vezes acabam os seguindo hipóteses obscuras, deixando de lado o óbvio, ou sej a: o cérebro de um m enino é sem pre um cérebro de m enino, m esm o no corpo de um rapaz. Pierrot!

A cabeça de Rain Boy despontou com o um a m arionete da divisória de m adeira que separava a escrivaninha da secretária da sala dos com putadores.

— Venha cá um pouco, por favor.

O rapaz se aproxim ou com seu rosto espantado e seu andar desaj eitado. Tinha ouvido as palavras agitadas de Frank, sem entender m uito bem , m as o tom lhe dava m edo. Juntou-se aos três hom ens m eio ressabiado, com o se tem esse ser a causa de toda aquela agitação e levar um a descom postura.

Frank m ostrou novam ente a foto.

— Lem bra-se desse disco?

Pierrot fez que sim com a cabeça, com o costum ava fazer ao ser interrogado.

— Lem bra-se que perguntei se tinha esse disco no quarto e você disse que não? Lem bra-se que pedi que não contasse nada a ninguém , que era um segredo só entre nós. Vou perguntar um a coisa e você precisa dizer a verdade…

Frank deu um tem po para que Pierrot assim ilasse o que estavam lhe pedindo.

— Falou com alguém sobre esse disco?

Pierrot abaixou im ediatam ente os olhos para o chão e ficou em silêncio. Frank repetiu a pergunta.

— Falou com alguém , Pierrot?

A voz de Pierrot parecia chegar das profundezas, de algum lugar exatam ente em baixo dos pés que fixava naquele m om ento.

— Sim .

Frank colocou a m ão em seus cabelos.

— E com quem foi?

O rapazinho levantou o rosto. Seus olhos estavam cheios de lágrim as.

— Não falei com ninguém , eu j uro.

Fez um a pausa, deixando os olhos assustados deslizarem sobre os três hom ens que olhavam para ele em silêncio.

— Só com Jean-Loup…

Frank olhou para Bikj alo e Morelli. Em seu rosto, m isturavam -se em partes iguais triunfo e desprazer.

— Senhores, gostem ou não, Ninguém é Jean-Loup Verdier!

Por um instante, um silêncio de eternidade baixou na sala.

Além do vidro da cabine de direção, Luisella Berrino, a DJ que estava no ar naquele m om ento, continuava sua transm issão sentada diante do m icrofone com o quem está diante de um a j anela para o m undo. Além das vidraças, entrevia-se a esplanada da m arina. Sobre as pessoas, sobre as árvores ainda gotej antes de chuva, sobre os barcos ancorados e sobre toda a cidade estava voltando o sol. Havia palavras, havia sorrisos, havia m úsica, havia pessoas vivas ouvindo, hom ens dirigindo seus carros, m ulheres que passavam roupa, em pregados sentados em suas m esas, casais que faziam am or, j ovens que estudavam .

Mas ali, naquela sala, o ar parecia ter desaparecido, a luz do sol era um a lem brança sem esperança, o sorriso, um bem precioso perdido para sem pre.

Morelli foi o prim eiro a se recuperar. Agarrou o celular e digitou o núm ero da central com dedos frenéticos.

— Alô, é Morelli. Tem os um código 11, repito, código 11, local Beausoleil, casa de Jean-Loup Verdier. Avise Roncaille e diga que o assunto é Ninguém . Entendeu bem ? Ele sabe o que fazer. E m e ligue im ediatam ente com o carro que está de serviço na casa…

Bikj alo desm oronou na cadeira que ficava na frente de um dos com putadores. Parecia ter envelhecido cem anos. Provavelm ente, pensava nas inúm eras vezes em que ficara sozinho com Jean-Loup Verdier, sem suspeitar que estava diante de um assassino tão cruel e desum ano. Enquanto andava de um lado para outro na sala, com o um leão enj aulado, Frank desej ou, pelo bem de sua alm a, que Bikj alo não estivesse lam entando que o sucesso de Voices tivesse chegado ao fim .

Finalm ente a com unicação via rádio se com pletou.

— É Morelli. Quem é e quem está aí com você?

Recebeu a resposta e um a expressão de alívio surgiu em seu rosto. Com certeza, eram agentes que considerava qualificados para a em ergência.

— Verdier está em casa?

Esperou a resposta. Seus m axilares se contraíram .

— Sorel está em casa com ele? Tem certeza?

Outra espera. Mais palavras do outro lado.

— Não tem im portância. Ouça bem o que vou lhe dizer. Nenhum com entário. Jean-Loup Verdier é Ninguém . Repito: Jean-Loup Verdier é Ninguém. Não preciso lem brar o quanto é perigoso. Cham e Sorel com um pretexto qualquer. Deixe o elem ento sozinho, m as im peça a qualquer custo que saia de casa. Disponha os hom ens de form a a m anter todas as saídas sob controle, m as sem dar na vista. Estam os chegando com carros de reforço. Não façam nada até nossa chegada. Entendeu? Nada de nada.

Morelli desligou. Frank estava atrás dele.

— Vam os.

Em três passos chegaram ao fundo da sala e viraram à direita em direção à saída. Assim que os viu chegar, Raquel destrancou a fechadura. Quando estavam saindo, ouviram a voz perturbada de Pierrot vinda de trás da porta envidraçada do escritório ao lado da entrada. Um pensam ento repentino chegou à m ente de Frank e ele se sentiu m orrer.

Não, pensou consigo m esm o, não agora, garoto idiota, não agora. Não me diga que sua estúpida bondade pôs tudo a perder…

Escancarou a porta de vidro e ficou petrificado na soleira. Em pé ao lado da m esa, Pierrot, o rosto inundado de lágrim as, estava falando ao telefone com a voz sacudida por soluços.

— Estão dizendo que o hom em m au é você, Jean-Loup. Não é verdade, diz, por favor, não é verdade…

Com um salto, Frank chegou j unto dele e arrancou o telefone de suas m ãos. Levou-o ao ouvido.

— Alô, Jean-Loup, é Frank, está ouvindo…?

Houve um instante de silêncio do outro lado, depois Frank ouviu distintam ente o clique que interrom pia a com unicação. Pierrot sentou num a cadeira e continuou a chorar desconsoladam ente. Frank virou-se para Morelli.

— Claude, quantos hom ens estão na frente da casa de Jean-Loup?

— Três, dois fora e um dentro.

— Grau de experiência?

— Ótim o.

— Ainda bem . Ligue de novo e explique a situação. Diga que a surpresa acabou e que o elem ento foi avisado. O agente que está no interior corre perigo de vida. Ordene que invadam a casa com o m áxim o cuidado e que, em caso de necessidade, usem as arm as. E diga que não atirem apenas para ferir, entendeu? Agora só podem os correr, esperando que não sej a tarde dem ais.

Frank e Morelli saíram da sala, deixando atrás dele o silêncio perplexo de Bikj alo e Raquel.

O pobre Pierrot continuava sentado em sua cadeira com o um fantoche, chorando com os olhos no chão, diante dos cacos de seu ídolo despedaçado.