Eu Mato

Giorgio Faletti · Capítulo 45 de 76

Páginas do PDF

Eu Mato

Capítulo 38

38

 

O AUTOMÓVEL DE HULOT PAROU NA ESQUINA da Rue Princesse Florestine com Rue Suffren Ray m ond, a poucos m etros da central de polícia. Por ironia do destino, a seu lado havia um outdoor anunciando “Peugeot 206 — Enfant terrible”.

Nicolas indicou o cartaz com o queixo. Em seus lábios esboçava-se um sorriso m alicioso.

— Olhe, o carro certo para o hom em certo.

— O.K., enfant terrible! De agora em diante, está tudo em suas m ãos. Trate de agir.

— Darei sinais de vida se descobrir algum a coisa.

Frank abriu a porta e saiu do carro. Pela j anela aberta apontou um dedo acusador contra o delegado.

— Nada de se descobrir algum a coisa: quando descobrir algum a coisa. Não m e diga que acreditou m esm o nessa história de férias?

Hulot levou dois dedos à testa em sinal de adeus. Frank fechou a porta e ficou alguns segundos olhando o carro se afastar e desaparecer no trânsito.

A pista fornecida pelo vídeo trouxera um sopro de otim ism o para o ar estagnado daquela investigação, m as ainda era m uito tênue para representar algo substancial. Frank só podia cruzar os dedos, por enquanto.

Pegou a Rue Suffren Ray m ond a pé e foi em direção à central. Durante o retorno de Eze-sur-Mer tinha recebido um telefonem a de Roncaille convocando para um a reunião em sua sala para algum as “decisões im portantes”. Pelo tom de sua voz, podia im aginar o teor do encontro. O fracasso da noite anterior, a nova vítim a, aliás as novas vítim as, que tinham levado ao afastam ento de Nicolas, não deviam ter passado em vão pelas cabeças de Roncaille e Durand.

Entrou na central e passou pelo plantonista, que o deixou subir sem lhe dignar um olhar sequer. Já era da casa. Até quando, ele não podia saber, m as por enquanto era assim .

Quando chegou à porta da sala de Roncaille, bateu e, do interior, a voz do diretor o convidou a entrar.

Frank abriu a porta e não se espantou m uito ao ver lá dentro o secretário de Justiça Durand. O que o surpreendeu foi a presença do cônsul am ericano, Dwight Durham . Não que fosse inj ustificada, m as achava que os m eandros de caráter diplom ático seriam discutidos e tratados em alto nível, bem superiores aos que sua qualificação de investigador agregado deixava pressupor. A presença de Durham naquela sala era um sinal m uito forte do governo dos Estados Unidos, sej a por conta dos pauzinhos que Nathan Parker tinha m exido oficiosam ente por m eio de contatos pessoais, sej a pelo assassinato de cidadãos am ericanos no território do Principado. E tinha ainda, com o últim o toque, o pouco edificante cartão de visita de um capitão do Exército dos Estados Unidos acusado de hom icídio e atualm ente detido na prisão m onegasca.

Rocaille levantou-se quando ele entrou, com o sem pre fazia com todo m undo, é bem verdade.

— Entre, Frank, é um prazer revê-lo. Im agino que depois da noite passada deve ter tido dificuldade para dorm ir, com o todos nós.

Frank apertou as m ãos que lhe estendiam . De passagem , Durham lhe deu um a olhadela cheia de subentendidos não m uito difíceis de decifrar. Sentou-se num a poltrona de couro. A sala era um pouco m aior que a de Hulot e tinha um sofá, além das cadeiras, m as não era substancialm ente diferente das outras salas da central. A única concessão ao cargo de diretor da Sûreté eram dois quadros na parede, seguram ente autênticos, m as cuj a im portância Frank não era capaz de avaliar. Roncaille voltou a se sentar atrás da escrivaninha.

— Im agino que tenha lido os j ornais e tudo que escreveram sobre os últim os acontecim entos.

Frank deu de om bros.

— Não, confesso que não senti necessidade. A m ídia tem um a lógica toda própria, que em geral está do lado do cidadão e do editor-chefe. Raram ente ela é útil para quem conduz um a investigação. Não é m eu trabalho ler j ornais. Nem lhes fornecer algo para publicar a qualquer custo…

Durham levou um a m ão à boca para esconder um sorriso. Durand provavelm ente considerou que as palavras de Frank continham um a referência concreta ao afastam ento de Hulot e sentiu-se na obrigação de precisar as coisas.

— Frank, sei o que sente pelo delegado Hulot. Eu tam bém não gostei de ter que tom ar providências que são, no m ínim o, im populares. Sei o quanto Hulot é estim ado dentro das forças policiais, m as você precisa entender…

Frank interrom peu com um leve sorriso estam pado nos lábios.

— Claro que entendo. Perfeitam ente. E não gostaria que isso fosse um problem a.

Roncaille percebeu que a conversa estava tom ando um rum o descendente que podia dar às palavras um a velocidade perigosa. Apressou-se a estender tapetes de boas-vindas e a distribuir porções de seu néctar dos deuses segundo um planej am ento particular e preciso.

— Não deve existir nenhum problem a entre nós, Frank. O pedido e a oferta de colaboração são am plos, incondicionais e absolutos. O sr. Durham está aqui j ustam ente para confirm á-los.

O cônsul encostou-se no espaldar da cadeira e passou o dedo indicador na ponta do nariz. Estava num a posição privilegiada e fazia todo o possível para não ostentá-la e, ao m esm o tem po, dando a Frank a sensação positiva de que não estava sozinho. Frank não pôde deixar de renovar a sim patia e a consideração que o cônsul havia inspirado em sua prim eira visita em Parc Saint-Rom an.

— Mas não adianta fugir dos fatos, Frank. A situação não podia estar m ais com plicada. Já estava por si só, antes m esm o desse… bem , vam os cham ar de incidente do capitão Mosse, para em baralhar ainda m ais as cartas. Porém , essa parece ser um a página virada, que será resolvida pelas respectivas diplom acias, nos m odos e term os que considerarem adequados. Mas no que diz respeito ao sr. Ninguém , com o foi batizado pela im prensa, bem …

Virou-se para Durand, passando para ele a tarefa de term inar o discurso. O secretário olhou para Frank, que teve a im pressão de que ele preferia m ostrar a bunda na televisão no horário nobre a ser obrigado a dizer as palavras que tinha a dizer.

— Decidim os de com um acordo que o prosseguim ento das investigações passará para suas m ãos. Nessa altura dos acontecim entos, ninguém está m ais qualificado que você. É um agente com um currículo excelente, excepcional, eu diria, que está acom panhando a investigação desde o início, conhece e goza da confiança de protagonistas e pessoas envolvidas no caso. O inspetor Morelli estará a seu lado com o representante da Sûreté e com o ligação com as autoridades do Principado. Quanto ao resto, você terá carta branca. Deve nos m anter, a m im e a Roncaille, inform ados sobre o desenvolvim ento das investigações, tendo sem pre em m ente que nosso obj etivo é o seu: precisam os prender esse assassino antes que faça novas vítim as.

Durand acabou seu discurso e ficou olhando para ele com cara de quem acabou de fazer um a espantosa concessão, perm itindo que a criança m ais endiabrada ganhasse um a porção dupla de doces.

Frank assum iu um a postura cerim oniosa, que era, grosso modo, o que Roncaille e Durand esperavam dele. Mas, na verdade, gostaria de dar a cada um o beij o que os entregaria aos centuriões rom anos, para gozar dos trinta dinheiros por cabeça sem o m enor rem orso.

— Muito bem , acho que devo m e sentir honrado com essa m issão e, na verdade, eu m e sinto. Infelizm ente, a astúcia do serial killer que estam os caçando parece ser sobre-hum ana. Até agora, não com eteu um pequeno erro que fosse. E tem os que reconhecer que fez m uitos m ovim entos dentro de um contexto tão pequeno e tão seguro do ponto de vista policial…

Roncaille recebeu esse reconhecim ento às forças policiais locais com o algo que lhe era devido. Apoiou os cotovelos na m esa e inclinou-se levem ente para ele.

— Poderá usar a sala do delegado Hulot. O inspetor Morelli, com o j á foi dito, estará à sua disposição. Você receberá toda a docum entação sobre o caso, e os relatórios da perícia sobre os últim os dois hom icídios, inclusive o de Roby Stricker. A autópsia deve chegar a qualquer m om ento e estará em sua m esa am anhã pela m anhã. Se for de seu agrado, terá um carro particular com o respectivo cartão de “carro de polícia em serviço”.

— Não nego que seria bastante útil.

— Quando sair, Morelli colocará um veículo à sua disposição ao lado da entrada. Um a últim a coisa… está arm ado?

— Sim , tenho um revólver.

— Muito bem . Vam os providenciar um distintivo que, j unto com o seu, lhe dará pleno direito de agir no território do Principado. Boa sorte, Frank.

Frank entendeu que a reunião, pelo m enos no que lhe dizia respeito, estava encerrada. As coisas que aqueles três tinham para discutir talvez lhe dissessem respeito, m as não tinha o m enor interesse por elas. Levantou-se, apertou as m ãos dos presentes e saiu para o corredor. Enquanto descia para a sala de Hulot, repassou as novidades do dia.

A prim eira tinha sido obra de Guillaum e Mercier. Aquele detalhe que viera à luz através da análise do vídeo trazia para a investigação um a pista que, no m om ento, valia seu peso em ouro. Em terra de cego, quem tem um olho é rei. Na terra da ignorância, um nom e e um endereço podem representar a diferença entre a vida e a m orte de alguém . Ao contrário de Nicolas, recebera essa pista com m ais ânsia do que esperança. Era com o se cem m ãos atrás dele o obrigassem a correr, enquanto cem vozes indistintas sussurravam palavras sem sentido em seus ouvidos. Palavras que deveria entender e não entendia durante um a corrida em que não conseguia parar.

Agora, as poucas chances que tinham estavam depositadas em Nicolas Hulot, delegado afastado, que teria m ais possibilidades de descobrir coisas novas no tem po livre do que no tem po oficialm ente dedicado às investigações.

Seu segundo pensam ento foi direcionado a Helena Parker. O que queria dele? Por que o pai a assustava tanto? E que relação havia entre ela e o capitão Mosse? Pelo m odo com o a tratara no dia da briga, era evidente que essa relação ultrapassava os lim ites dos vínculos norm ais entre a filha de um general e um subalterno dele, parecendo que todos pertenciam à m esm a fam ília. E sobretudo, o que havia de verdadeiro na história da instabilidade em ocional daquela m ulher que seu pai alardeava?

Essas perguntas chegaram à m ente de Frank apesar de ele tentar afastar a lem brança de Helena Parker com o fato irrelevante, elem ento perturbador, cuj a única função era tirar sua atenção de Ninguém e da investigação na qual, de agora em diante, estava oficialm ente envolvido.

Abriu a porta da sala de Nicolas sem bater. Agora era sua e podia fazer isso. Morelli estava sentado na escrivaninha e levantou-se num salto quando o viu chegar. Houve um instante de constrangim ento entre eles. Frank resolveu que um a explicação era necessária para deixar claro de que lado cada um deles tinha resolvido ficar.

— Oi, Claude.

— Bom -dia, Frank.

— Já soube das novidades?

— Sim . Roncaille m e contou tudo. Estou contente que você estej a no com ando das investigações, m as…

— Mas?

Morelli parecia tão sólido quanto o rochedo de Gibraltar quando pronunciou as seguintes palavras.

— Mas considero o que fizeram com o delegado um a verdadeira sacanagem .

Frank sorriu.

— Para ser honesto, eu tam bém , Claude.

Se era um a prova, os dois pareciam ter passado por ela. A atm osfera na sala se desanuviou sensivelm ente. Na hora de fazer sua escolha, Morelli tinha optado pelo que o am ericano esperava que optasse. Frank se perguntou até que ponto podia confiar nele e inform á-lo das últim as novidades e dos m ovim entos extraoficiais de Nicolas. Decidiu que por enquanto as coisas estavam bem assim e que não devia exigir dem ais da própria sorte. Morelli era um policial preparado e experiente, m as era um m em bro da Sûreté Publique do Principado de Mônaco. Revelar certas coisas podia deixá-lo encrencado, se algum a coisa saísse errado. O bom Morelli não m erecia isso.

O inspetor indicou um a pasta na escrivaninha.

— Chegaram os relatórios da perícia.

— Já leu?

— Dei um a olhada. Nada que a gente não saiba. Gregor Yatzim in foi m orto exatam ente com o os outros, sem que deixassem nenhum a pista. Ninguém continua sua j ornada, m as não dim inui a atenção.

Não é verdade, Claude, não totalmente. Há música roubada no ar…

— Não tem os m uito a fazer. Só podem os continuar a vigiar a rádio. Isso significa alerta m áxim o, unidade de operações especiais de prontidão e tudo o m ais. Concorda?

— Claro.

— Preciso lhe pedir um favor.

— Pode dizer, Frank.

— Se você não se opuser, essa noite vou deixá-lo sozinho controlando a situação na rádio. Acho que não vai acontecer nada. O hom icídio da noite passada descarregou as baterias de nosso cliente e, pelo m enos enquanto o efeito não passar, ele vai ficar quieto. Em geral, o intervalo entre os crim es de um serial killer tem esse significado. Vou ouvir o program a e estarei disponível no celular, m as preciso de um a noite livre. Tudo bem ?

— Sem problem a, Frank.

Frank se perguntou com o andaria a história entre Morelli e Barbara. Teve a im pressão de que o interesse do inspetor pela m oça era recíproco, m as depois dos últim os acontecim entos, resolveu deixar esse assunto em segundo plano. Morelli não parecia ser o tipo que negligencia o trabalho em detrim ento do am or, m esm o quando o que está em questão é um a pessoa tão atraente quanto Barbara.

— Disseram que botariam um carro à m inha disposição. Poderia ir ver se a prom essa foi cum prida?

— Certo.

O inspetor saiu da sala e Frank ficou sozinho. Tirou a carteira do bolso interno do paletó. Retirou um bilhete dobrado em dois. Era o pedaço da carta que o general Parker tinha deixado em sua portaria depois daquele prim eiro encontro entre os dois, na praça de Eze Village, e no qual estavam escritos seus núm eros de telefone.

Ficou olhando para eles por um tem po. Finalm ente, se decidiu. Pegou o celular e digitou o núm ero da casa. Depois de alguns toques, a voz de Helena Parker atravessou os fios.

— Alô?

— Salve. É Frank Ottobre.

Houve um a pequena pausa antes da resposta.

— Fico feliz em ouvi-lo.

Frank não fez nenhum com entário a respeito.

— Já j antou?

— Não, ainda não.

— É um hábito que resolveu abandonar ou acha que poderia entrar em seus planos para essa noite?

— Creio que é um a hipótese aceitável.

— Então posso buscá-la em um a hora, se for um prazo aceitável para você.

— Mais que aceitável. Lem bra-se onde é a casa, não?

— Claro, até logo.

Frank desligou. Ficou olhando para o visor do celular com o se, por ali, pudesse seguir os m ovim entos da m ulher em sua casa, naquele m om ento. Enquanto fechava o Motorola, não pôde deixar de se perguntar em que espécie de encrenca estava se m etendo.