Eu Mato
Segundo carnaval
A CABEÇA DO HOMEM EMERGE da água não m uito longe da proa do Beneteau. Através da viseira da m áscara de m ergulho identifica a corrente da âncora e, batendo os pés lentam ente, se aproxim a. Agarra-se com a m ão direita e fica observando o barco que reflete a luz da lua cheia no casco de fibra de vidro. Sua respiração no snorkel é calm a e tranquila.
O cilindro de cinco litros que carrega nas costas não é adequado para longas im ersões, m as é leve, m anej ável e garante autonom ia suficiente para suas necessidades. Usa um m acacão preto, anônim o, sem inscrições ou logotipos coloridos, suficientem ente grosso para garantir um a boa proteção contra o frio durante sua perm anência na água. Não pode usar nenhum tipo de lanterna elétrica, m as a luz quase descarada da lua cheia evita que sinta falta dela. Prestando bastante atenção para não provocar a m enor m arola, desliza de novo à flor-d’água, m argeia a silhueta do casco subm erso, com a longa quilha à contraluz voltada para as profundezas escuras, m ais abaixo. Em erge na popa da em barcação e pendura-se na escada que ficou abaixada.
Tudo bem .
Isso evita evoluções para conseguir subir a bordo. Desam arra o pedaço de corda que traz ao redor da cintura. Engancha um m osquetão na escada e antes de m ais nada pendura no que deixou na outra extrem idade a caixa herm eticam ente fechada que trouxe consigo. Quer tirar o cilindro, os pés de pato e os pesos de chum bo e deixá-los am arrados à escada, um m etro acim a da linha da água.
Não pode se dar ao luxo de ter os m ovim entos lim itados, em bora o fato de agir de surpresa contra duas pessoas adorm ecidas conte a seu favor e facilite sua tarefa.
Está com eçando a tirar o pé de pato quando ouve passos sobre o convés do barco. Abandona a escada e desloca-se para a direita, para ter a proteção da am urada. De seu posto entre as som bras, vê a m oça sair a céu aberto e ficar em pé, com o encantada pelo j ogo da lua no m ar calm o e liso. Por alguns instantes, o roupão branco que usa é apenas m ais um reflexo, m as depois, com um gesto fluido, a m oça o deixa cair no chão e fica nua sob o luar.
De sua posição, o hom em pode ver seu perfil: adm ira seu corpo sólido, a linha perfeita do seio pequeno e firm e e segue com o olhar a linha das nádegas que se dissolve nas pernas longas e inquietas.
Com m ovim entos que parecem de m ercúrio, a j ovem m ulher vai até a escada e estica um pé para experim entar a tem peratura da água.
O hom em sorri e é o sorriso pontiagudo de um tubarão.
Não consegue acreditar na própria sorte.
Espera ardentem ente que a m oça não tem a o confronto com a água fria e sucum ba ao fascínio de um banho de m ar à luz da lua cheia. Com o se tivesse captado seu pensam ento, a m oça se volta, com eça a descer a escada e se deixa levar pelas ondas, estrem ecendo com a tem peratura frisante da água, que deixa sua pele arrepiada e os bicos dos seios eriçados.
Afasta-se do barco nadando em direção ao m ar aberto, do lado oposto àquele onde a figura de m acacão preto espreita. O m ovim ento silencioso com que o hom em afunda para dentro d’água tem a sinistra fluidez do predador que dá início ao j ogo da caça contra a presa indefesa, um j ogo cruel que sem pre tem a vida com o prêm io.
Aj udando-se com as m ãos, esvazia com pletam ente os pulm ões através do bocal para descer com m ais facilidade. Em seguida, paralelam ente ao fundo do barco, com eça a se m over na direção da m oça. Pouco depois, chega em baixo dela, levanta a cabeça e consegue vê-la lá no alto, m ancha escura na superfície contra a luz, m ovendo pés e m ãos para se m anter à tona. Sobe lentam ente, respirando devagar para não trair sua presença com bolhas d’água. Quando a m oça está ao alcance de suas m ãos, agarra seus tornozelos e puxa-a para baixo com toda a força.
Surpresa, Arij ane sente o puxão violento que a arrasta da superfície. O m ovim ento que a puxa para o fundo foi tão repentino que não teve nem tem po de encher os pulm ões de ar. Num segundo, está a um m etro de profundidade e quase im ediatam ente sente que a garra em seu tornozelo se solta. Bate os pés instintivam ente para tentar subir, m as duas m ãos pousam em seus om bros, com um peso que a em purra para baixo, para o fundo, longe da superfície que brilha sobre sua cabeça com o um a prom essa m entirosa de ar e de luz. Sente dois braços de ferro circundarem seu busto fechando-se com o um cinto sobre os seios, o contato viscoso do neoprene do m acacão de m ergulho aderindo às suas costas nuas e um corpo desconhecido enlaçado ao seu, enquanto o agressor circunda sua bacia com as pernas tentando im pedir qualquer m ovim ento.
O terror envolve a razão com o um m uro de gelo.
Com eça a tentar se soltar selvagem ente, gem endo, m as seus pulm ões, j á sem oxigênio, queim am num segundo todas as suas parcas reservas. Na m esm a m edida em que cresce a necessidade de ar, Arij ane sente suas forças se apagarem , cada vez m ais à m ercê do abraço m ortal do corpo solidam ente colado ao seu, que a arrasta inexoravelm ente para a noite sem lua das profundezas.
Percebe que está m orrendo, que alguém a está m atando sem que lhe sej a concedido nem saber o porquê. De seus olhos escorrem salgadas as lágrim as de lam ento que vão se confundir com os m ilhares de gotas anônim as no m ar indiferente que a envolve. Sente a escuridão daquele abraço se expandir e com eçar a fazer parte dela m esm a, com o um vidrinho de tinta negra j ogado na água lim pa de um a bacia. Um a m ão fria e im piedosa com eça a penetrar freneticam ente em todo o seu corpo, dentro e fora, com o se tentasse extinguir qualquer m ínim a centelha de vida em seu cam inho, até conseguir atingir seu j ovem coração de m ulher e pará-lo para sem pre.
O hom em sente aquele corpo relaxar repentinam ente, no m om ento em que a vida o abandona. Espera alguns instantes, vira o cadáver da m oça com o rosto para si, enfia os braços sob as axilas e com eça a m over os pés de pato em direção ao alto. À m edida que se aproxim a da superfície lum inosa, o rosto da j ovem m ulher deixa de ser um a m ancha escura e ganha form a lentam ente do outro lado da viseira da m áscara. Aparecem as feições delicadas, o nariz sutil, a boca sem iaberta da qual saem algum as poucas, últim as, enganadoras bolinhas de ar. Aparecem os esplêndidos olhos verdes sem vida fixados pelo flash im piedoso da m orte no m om ento em que se aproxim am daquela luz que não podem m ais ver e que não lhes pertence m ais.
O hom em vê surgir o rosto da m ulher que m atou com o um fotógrafo revela um a fotografia cuj o resultado o deixa particularm ente ansioso. Quando está perfeitam ente seguro da beleza daquele rosto, o tubarão sorri novam ente.
A cabeça do hom em em erge finalm ente na superfície da água. Sem pre segurando o cadáver, aproxim a-se da escada. Pega a corda previam ente am arrada à estrutura tubular de m etal e passa ao redor do pescoço da m ulher, para que a segure enquanto ele se livra do cilindro e do snorkel. O corpo desliza sob a superfície da água provocando um leve rem oinho. Os cabelos da m oça ficam boiando a poucos centím etros da superfície, seguindo o m ovim ento das ondas contra o casco, balançando levem ente com o os tentáculos de um a m edusa sob a luz da lua.
Ele tira os pés de pato, a m áscara e o cinturão de chum bo, que apoia delicadam ente no convés, sem provocar o m enor ruído. Quando fica livre, segura a ponta da escada com a m ão esquerda, solta a corda que segura o cadáver, substituindo-a pelo apoio de seu braço direito. Sem esforço aparente, sobe os poucos degraus de m adeira, carregando consigo o corpo de sua vítim a, o qual deposita atravessado no convés, perpendicular ao com prim ento do barco. Fica exam inando um longo instante e depois se inclina para recolher o roupão que a m oça estava usando antes do m ergulho noturno.
Num sinal de tardia piedade, estende o roupão sobre a m ulher deitada de costas no deque, com o se abrigasse aquele corpo frio do frio de um a noite que para ela não terá m ais fim .
— Arij ane?
A voz chega de repente da cabine. O hom em vira a cabeça instintivam ente naquela direção. Talvez a sensação de estar só na cabine tivesse despertado o com panheiro da m oça. Talvez ele tivesse esticado um a perna em busca do contato de sua pele e não a tivesse achado, na lum inosidade esbranquiçada que o luar espalha na cabine.
Sem obter resposta, com certeza vai sair para procurá-la.
Coberto pelo m acacão negro que faz dele um a som bra ainda m ais escura do que as proj etadas pela lua, ele se levanta e se esconde atrás da proteção que a j unção do m astro e da surriola lhe oferecem .
De onde está, vê prim eiro a cabeça e depois o corpo do hom em que saiu à procura da m ulher. Está com pletam ente nu. Sua cabeça gira ao redor seguindo a direção do olhar e ele para assim que chega no convés e a vê. Ela está deitada na popa, além da barra do tim ão, perto da escada. Tem o rosto virado para o outro lado e parece adorm ecida, distraidam ente coberta com seu roupão branco. Ele dá um passo na direção dela. Sente o chão m olhado sob os pés, abaixa os olhos e percebe as pegadas úm idas no pavim ento de m adeira. Talvez pense que ela deu um m ergulho e tem um m ovim ento de ternura por aquele corpo que parece abandonado no sono, ao luar. Talvez, com os olhos do espírito, possa vê-la nadar, fluida no silêncio, im aginar seu corpo banhado coberto por um reflexo alum inizado quando sai da água e se enxuga m inuciosam ente. Chega até ela em silêncio, talvez com desej o de acordá-la com um beij o, arrastá-la para a cabine e fazer am or com ela. Aj oelha-se a seu lado e pousa a m ão em seu om bro, que desponta em baixo do roupão. O hom em com o m acacão negro pode ouvir distintam ente as suas palavras.
— Am or…
A m ulher não dá o m enor sinal de ter ouvido. Sua pele está gelada.
— Am or, não pode ficar aqui no frio.
Nenhum a resposta ainda. Jochen sente um a estranha angústia fazer ninho em seu estôm ago. Segura delicadam ente a cabeça, vira o rosto de Arij ane para si e encontra nos seus olhos um olhar sem vida. O m ovim ento faz sair um fio d’água da boca sem iaberta. Com preende im ediatam ente que está m orta e um berro silencioso abala sua m ente. Levanta-se de um salto e no instante preciso em que chega à posição ereta, sente um braço úm ido envolver sua garganta. Um a violenta pressão o obriga a dobrar a espinha, curvando-se para trás.
Jochen é um hom em de estatura ligeiram ente superior à m édia e tem corpo de atleta, perfeitam ente treinado por longas sessões na academ ia e horas de corrida para aguentar o trem endo desgaste de um Grande Prêm io. Seu agressor, contudo, é m ais alto e igualm ente forte. A surpresa e o desespero do outro ao descobrir a m orte da m oça j ogam a favor do carrasco. O piloto ergue as m ãos instintivam ente e agarra o braço envolvido pelo m acacão que aperta sua garganta, im pedindo que respire. Tenta com todas as forças dim inuir a pressão que o sufoca. Com o rabo do olho percebe um a cintilação refletir-se à sua direita. Um a fração de segundo depois, o punhal que o agressor em punha, afiado com o um a navalha, voa com um leve sibilo no ar, descrevendo um arco veloz do alto para baixo.
O corpo da vítim a tem um sobressalto e se contrai na agonia da m orte enquanto a lâm ina penetra entre as costelas e atravessa o coração. Sente na boca o gosto artificial de seu próprio sangue e m orre tendo ainda nos olhos o sorriso gélido da lua.
O hom em continua a apertar o punhal até sentir o corpo pender com pletam ente abandonado entre seus braços. Só então larga o cabo do punhal e segura o corpo, apoiando-o contra o seu. Com extrem a facilidade, ele o estende no convés. Fica um instante olhando os dois corpos sem vida a seus pés, respirando devagar para acalm ar a agitação. Depois, pega o cadáver do hom em pelos braços e com eça a arrastá-lo para a cabine.
Tem pouco tem po e m uito trabalho a fazer antes do sol nascer.
A única coisa de que sente falta naquele m om ento é da m úsica.