Eu Mato

Giorgio Faletti · Capítulo 63 de 76

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Eu Mato

Capítulo 53

53

 

HELENA, DA SACADA DA CASA, RESPONDEU com um sorriso e um aceno ao gesto de seu filho, que estava saindo pelo portão do pátio j unto com Nathan Parker e Ry an Mosse. A porta se fechou num a batida seca e a casa ficou deserta. Depois de vários dias, era a prim eira vez que a deixavam sozinha e ela ficou bastante surpresa com isso. Seu pai seguia um plano que ela conhecia, m as cuj os contornos e m anifestações perm aneciam bastante obscuros. Tinha surpreendido Nathan e seu cão de guarda num a conversa, que interrom peram assim que a viram . Desde que sua relação com Frank tinha ficado evidente, sua presença passou a ser considerada suspeita ou até perigosa. Nem por um instante o general levou em consideração a eventualidade de deixá-la sozinha com Stuart. Por isso, ela ficou em casa tendo a angústia com o única com panhia.

Antes de sair, o pai dera um a ordem a Ry an Mosse. Ele retirou todos os aparelhos telefônicos e fechou-os à chave num dos quartos do prim eiro andar. Helena não tinha celular. Nathan Parker lhe falou brevem ente, com o tom que usava com ela e com o m undo quando não adm itia réplicas.

— Vam os sair. Você fica aqui, sozinha. Precisa que lhe diga algum a coisa?

Interpretou seu silêncio com o um a resposta afirm ativa.

— Muito bem . Vou repetir um a coisa, se é que adianta. A vida daquele hom em , o tal Frank, depende de você. Se seu filho não tem im portância suficiente para que volte à razão, creio que essa consideração pode servir com o um elem ento dissuasivo para qualquer iniciativa im pensada de sua parte.

Enquanto o pai falava através da porta aberta para o j ardim , Helena podia ver Stuart e Mosse esperando por ele diante do portão.

— Dentro em breve, irem os em bora, assim que acabar o que vim fazer aqui. Tem os que levar o corpo de sua irm ã, com quem você parece não se im portar, para casa. Quando estiverm os de volta aos Estados Unidos, verá que suas perspectivas vão m udar, inclusive esse estúpido entusiasm o por aquela nulidade…

Quando voltou de Paris e ela encontrou coragem para j ogar a história com Frank Ottobre em sua cara, Nathan Parker ficou enlouquecido. Não era ciúm e, com certeza, pelo m enos não um ciúm e tradicional, um ciúm e com preensível de um pai em relação à filha. Tam bém não era a atração abj eta de um hom em por sua am ante, pois, com o ela tinha dito a Frank, há anos que ele não a obrigava a ter relações com ele.

Aquele período, graças a Deus, parecia encerrado para sem pre. Bastava pensar um só instante nas m ãos daquele hom em em seu corpo para sentir a sensação de repugnância que ainda agora, anos depois, lhe dava um desej o irresistível de se lavar. Suas atenções tinham cessado depois do nascim ento do m enino. Aliás, antes m esm o, depois que ela confessara entre lágrim as que estava grávida.

Recordava os olhos de seu pai quando falou de seu estado e com unicou que pretendia abortar.

— Pretende fazer o quê? — perguntou Nathan Parker com voz incrédula, com o se sua intenção e não a sua gravidez fosse a coisa abom inável.

— Não quero esse filho. Não pode m e obrigar a tê-lo.

— Não cabe a você dizer o que posso ou não fazer. Sou eu quem digo isso a você. E não vai fazer absolutam ente nada. Entendeu bem ? N-a-d-a! — escandiu com o rosto a poucos centím etros do seu.

Depois em itiu sua sentença.

— Você vai ter essa criança.

Helena sentia vontade de rasgar o ventre e extrair o que ele carregava com as próprias m ãos ensanguentadas. Talvez seu pai, o m aldito pai de seu filho, tivesse lido aquela ideia em sua cabeça. Talvez tivesse adivinhado em seu rosto. O fato é que, depois daquele m om ento, nunca m ais a deixou sozinha um instante sequer.

Para j ustificar a gravidez e o nascim ento de Stuart aos olhos do m undo, ele inventou aquela história absurda do casam ento. Nathan Parker era um hom em poderoso, m uito poderoso. Desde que não envolvesse a segurança nacional, tudo lhe era perm itido.

Helena perguntou-se várias vezes com o era possível que nenhum dos conhecidos de seu pai tivesse entendido a verdadeira extensão de sua loucura. E eram hom ens im portantes, deputados, senadores, m ilitares de alta patente e até presidentes dos Estados Unidos. Seria possível que nenhum deles tivesse suspeitado, ao ouvir Nathan Parker, herói de guerra, que aquelas palavras saíam da boca e do cérebro de um louco? Talvez houvesse um a explicação, o sim ples

princípio da reciprocidade: um banal do ut des.*

E se o Pentágono ou a Casa Branca conheciam os aspectos pouco edificantes da personalidade do general, as crises dom ésticas, enquanto perm anecessem entre quatro paredes, poderiam ser toleradas em troca dos serviços que ele prestava à nação.

Depois do nascim ento de Stuart — um homem, finalm ente —, seu pai pareceu estender sobre os dois um sentim ento de posse que ia bem além de seus hábitos m aníacos, de seu m odo absurdo de am ar. Mãe e filho não eram dois seres hum anos, m as um a espécie de propriedade pessoal. Eram considerados com o coisas com pleta e absolutam ente suas. Destruiria quem quer que am eaçasse aquela situação que, em sua loucura lúcida e total, considerava perfeitam ente legítim a.

Era por isso que odiava Frank. Tinha se colocado em seu cam inho, opondo um a personalidade tão forte quanto a sua. Apesar da história que Frank carregava nas costas, Parker percebia que sua força não era doente, era sã. Não vinha dos Infernos, m as do m undo dos hom ens. E com o tal, havia ousado desafiá-lo, havia se recusado a aj udá-lo quando procurou por ele e havia atacado quando deveria se m anter distante.

E sobretudo, não tinha medo dele.

A prova da inocência de Mosse e sua consequente liberação, o fato de ter obrigado o agente do FBI Frank Ottobre a adm itir publicam ente que tinha se enganado, era vivido por Nathan Parker com o um a vitória pessoal. Agora, só lhe faltava a captura do assassino de Arij ane para decretar seu triunfo absoluto. E Helena não tinha dúvidas de que teria sucesso. Ou em qualquer caso, de que tentaria.

Helena pensou na pobre Arij ane. A vida de sua m eia-irm ã não tinha sido m uito m elhor que a dela. Ela e Arij ane não eram filhas da m esm a m ulher. A m ãe de Helena, que ela praticam ente não conheceu, m orrera de leucem ia quando ela tinha 3 anos. Naquele tem po, os tratam entos para aquelas doenças ainda eram experim entais e, apesar dos recursos econôm icos de que o m arido dispunha, ela partiu em pouco tem po. Restaram apenas algum as fotos e film es em Super 8, um as raras im agens dos m ovim entos um pouco m ecânicos de um a m ulher loura e graciosa, de rosto suave, que sorria com um a m enina pequena nos braços, ao lado do m arido-patrão de uniform e.

Ainda hoj e, Nathan Parker falava de sua m orte com o de um a afronta do destino. Helena tinha a im pressão de que o pai, se pudesse sintetizar seus sentim entos a respeito da perda da m ulher, teria usado um a única palavra: intolerável.

Ela crescera sozinha, em com panhia de um séquito de governantas que se sucediam em ritm o cada vez m ais rápido à m edida que os anos passavam . Era apenas um a m enina e não tinha m otivos para suspeitar de que aquelas m ulheres, assim que respiravam a atm osfera da casa, assim que descobriam quem realmente era o general Parker e o que se podia esperar dele, iam em bora de livre e espontânea vontade, apesar do excelente salário, fechando a porta atrás de si com um suspiro de alívio.

Depois, sem nenhum aviso, Nathan Parker voltara de um longo período na Europa com o com andante de algum a coisa relacionada com a OTAN, trazendo com o suvenir um a nova esposa, Hanneke, um a alem ã de cabelos escuros, corpo escultural e olhos verdes frios com o gelo. O pai tratou a história à sua m aneira precipitada. Apresentou aquela m ulher de pele lisa e pálida, um a perfeita estranha, com o sua nova m ãe. E foi o que continuou a ser para sem pre. Não um a m ãe, m as um a perfeita estranha.

Logo depois, nasceu Arij ane.

Com pletam ente envolvido em sua carreira, que prosseguia a todo vapor, o general abandonou o cuidado da casa nas m ãos de Hanneke, que a adm inistrava com o m esm o gelo que parecia correr em suas veias. As relações entre elas eram m arcadas por um a form alidade às vezes até desagradável. Helena não tinha perm issão de ver a irm ã com o um a m enina. Arij ane era m ais um a pequena estranha que partilhava a m esm a casa e não um a com panheira que podia aj udá-la a crescer e a quem Helena podia aj udar a crescer. Para isso, havia as governantas, as babás, os professores e instrutores.

Depois, quando Helena entrou num a esplêndida adolescência, houve o episódio daquele rapaz, Andrés. Era filho de Bry an Jeffereau, o j ardineiro-chefe que fazia a m anutenção do parque que cercava a grande casa dos Parker. No verão, nas férias escolares, ele trabalhava com os j ardineiros para “endurecer os ossos”, com o dizia o pai com orgulho, quando falava dele para Nathan Parker. O general concordava com o argum ento e repetia sem pre que Andrés era “um bom rapaz”.

Por seu lado, Andrés era um j ovem tím ido, que olhava para ela escondido sob a aba do boné de beisebol que usava para se proteger do sol enquanto arrastava para a carroceria da picape os ram os podados que seriam j ogados fora.

Helena percebeu sua atenção constrangida, feita sobretudo de olhares e sorrisos em baraçados. Aceitou-a sem corresponder, m as sentindo-se queim ar por dentro. Andrés não era aquilo que se costum ava definir com o um rapaz bonito. Era um suj eito com o tantos outros, nem bonito nem feio, com um j eito que se tornava desastrado e hesitante assim que ela aparecia. Para Helena, existia um único fascínio: ele era o único rapaz com quem podia conviver. Foi sua prim eira paixão. Andrés sorria para ela e enrubescia; ela respondia e enrubescia. Isso era tudo. Um dia, Andrés tom ou coragem e deixou um bilhete para ela escondido na folhagem de um a m agnólia, preso num galho com um aram e recoberto de plástico verde. Ela o encontrou e tratou de guardá-lo no bolso das calças de m ontaria. Mais tarde, j á na cam a, pegou o papelzinho e leu o bilhete com o coração batendo a cem por hora.

Agora, à distância de todo aquele tem po, não lem brava as palavras com que Andrés Jeffereau declarara seu am or, apenas a ternura que sua caligrafia incerta lhe inspirava. Eram frases inócuas de um rapazinho de 17 anos, vítim a de um a paixão adolescente pela m oça que via e tratava com o a princesa da casa grande.

Hanneke, sua m adrasta, que não vivia segundo os ensinam entos que m inistrava, entrou no quarto de repente, sem bater. Ela escondeu o bilhete sob as cobertas, com um gesto brusco dem ais para que a m adrasta não notasse.

Hanneke se aproxim ou da cam a e estendeu a m ão para ela.

— Pode m e dar o que guardou aí em baixo.

— Mas eu…

A m ulher só olhou para ela arregalando um pouco os olhos para que as faces de Helena pegassem fogo.

— Helena Parker, creio que acabei de lhe dar um a ordem .

Pegou o bilhetinho e entregou à m adrasta. Hanneke leu sem dem onstrar nenhum a em oção, dobrou o papel e enfiou no bolsinho do casaco de seu twin set.

— Bem , acho que isso deve se transform ar num pequeno segredo entre nós, se não quiserm os causar um a grande dor a seu pai…

Foi seu único com entário. Helena sentiu um alívio tão grande que não percebeu que a m ulher estava m entindo, pelo sim ples fato de que aquilo a divertia.

No dia seguinte se encontrou com Andrés.

Estavam a sós nas cavalariças, onde Helena ia todo dia para cuidar de Mister Marlin, seu cavalo. O rapaz estava lá, por acaso ou porque encontrara um a desculpa para ficar por ali, sabendo que cedo ou tarde ela chegaria tam bém . Helena ainda não havia percebido que ele tinha o rosto coberto de pequenas sardas. Andrés falou com um a voz tão em ocionada que ela, por um m otivo que não sabia explicar, a definiu com o um a voz “cheia de pequenas sardas vocais”.

— Leu o bilhete?

Era a prim eira vez que se falavam .

— Sim , li.

— E o que achou?

Ela não sabia o que dizer.

— É, é m uito bonito…

Sem avisar, reunindo toda a coragem , Andrés inclinou-se a beij ou-a no rosto.

Helena virou a cabeça de lado e se sentiu m orrer. Seu pai estava de pé, na contraluz na porta da cavalariça, e viu tudo o que tinha acontecido. Tudo e apenas o que tinha acontecido.

Um rapaz da sua idade tinha beijado seu rosto.

Jogou-se com toda a fúria sobre o pobre rapaz e esbofeteou-o tão violentam ente que o deixou com a boca e o nariz sangrando. Depois, levantou-o do chão e atirou-o com o um graveto contra a porta do boxe de Mister Marlin, que deu um passo para trás relinchando. Gotas de sangue pingavam do nariz de Andrés sobre a cam isa quando Parker o ergueu pela gola, colocando-o de pé.

— Venha com igo, seu sacana.

Arrastou Andrés até a frente da casa e j ogou-o com o um saco vazio aos pés de Bry an Jeffereau, que ficou boquiaberto com um par de tesouras de j ardinagem na m ão.

— Tom e, Bry an, pegue seu m aníaco e saia im ediatam ente da m inha casa. E deve agradecer por sair disso assim , em vez de responder por um a acusação de tentativa de estupro!

A fúria de Nathan Parker não adm itia respostas e Jeffereau o conhecia bem dem ais para tentar replicar. Em silêncio, pegou seu filho, seus hom ens e suas ferram entas e foi em bora dali.

Helena nunca m ais vira Andrés Jeffereau.

Pouco depois, tinha com eçado a ser alvo das atenções de Nathan Parker.

Helena atravessou o quarto que dava para a sacada. A cam a estava cortada ao m eio por um raio de luz. A parte banhada pelo sol era aquela em que Frank, a única pessoa a quem tinha tido a coragem de confessar sua vergonha, dorm ira: achou que isso era um bom augúrio.

Saiu dali e desceu para o prim eiro andar.

A lem brança feliz dos m om entos passados com Frank não era suficiente para apagar suas recordações, tão distantes no tem po, m as ainda tão fortes que a feriam com o se tudo tivesse acontecido no dia anterior.

Não são muitas as mulheres que podem dizer por aí que perderam a virgindade com o próprio pai, pensou. Espero por elas que não sejam muitas, espero pela piedade do universo que eu seja a única, embora tenha certeza de que não é bem assim…

O m undo estava cheio de Nathan Parker, estava certa disso. E tam bém não duvidava de que o m undo estava cheio de m ulheres com o ela, pobres m oças assustadas que vertiam lágrim as de hum ilhação e noj o num a cam a com lençóis m anchados de sangue e do m esm o sêm en que as tinha gerado.

Seu ódio era ilim itado. Pelo pai e por si m esm a, por não ter conseguido se rebelar no m om ento certo. Agora, Stuart j ustificava sua passividade, o filho que am ava na m esm a m edida em que detestava o pai. O filho que, na época, pagaria o que fosse para não ter e que agora não queria perder por nada nesse m undo. Agora havia Stuart, m as o que havia na época? Por m ais que se esforçasse, não conseguia encontrar nenhum a j ustificativa para a própria fraqueza diante da violência do pai.

Muitas vezes, perguntou-se se dentro dela não haveria, grudado em seu cérebro com o um câncer, o m esm o am or doentio que havia em Nathan Parker. Talvez continuasse a suportar aquela tortura porque era sua filha e em suas veias corria o m esm o sangue e a m esm a perversão daquele hom em . Era o que se perguntava m uitas vezes.

Paradoxalm ente, um a única coisa im pediu que enlouquecesse. A consciência de que nunca, nem um a única vez, aquilo que era obrigada a suportar havia lhe dado prazer.

Hanneke devia ter suspeitado de algum a coisa, m as Helena nunca saberia disso com certeza. Provavelm ente o que acontecera em seguida fora causado apenas pelo fogo que queim ava por baixo daquela aparência gélida e form al, um fogo que ninguém , talvez nem ela m esm a, nunca percebera.

De m odo banal e prosaico, deixando um a carta da qual Helena só ouviu falar m uitos anos depois, fugiu com um professor de equitação que frequentava a casa, abandonando sem rem orsos o m arido e a filha. Naturalm ente, para que não faltasse a cerej a do bolo, tinha levado consigo um a bela quantia em dinheiro.

Naquela história, o general Nathan Parker só considerou um a coisa: a discrição com que tudo aconteceu. Muito provavelm ente, Hanneke não passava de um a puta, em bora de alta classe, m as tam bém não era nenhum a idiota. Se hum ilhasse publicam ente o m arido, as consequências poderiam ser catastróficas. Aquele hom em a teria perseguido até o final dos tem pos e do m undo, até satisfazer sua sede de vingança.

A carta, que Helena nunca tinha lido, provavelm ente servia j ustam ente para isso: se a m ulher sabia ou suspeitava de algo sobre a história entre o m arido e Helena, tinha proposto um acordo. Sua liberdade e seu silêncio em troca da liberdade e do silêncio dele. O pacto foi acertado tacitam ente. Com o tem po, através de advogados, chegaram a um providencial divórcio que acertou as coisas.

Com o se costum a dizer, ninguém saiu ferido.

Sobretudo Nathan Parker, cuj a indiferença em relação à m ulher nos últim os tem pos tornara-se absoluta, assim com o seu poder sobre Helena. Mas Hanneke tam bém , que nesse m om ento gozava de seu dinheiro e de seu cavaleiro pelo m undo afora.

Restaram duas m oças, duas reféns do destino pagando por erros que não com eteram . Arij ane saiu de casa assim que com pletou a m aioridade e, depois de peram bular m uito, acabou fixando residência em Boston. Os conflitos com o pai aum entaram na proporção em que ela crescia. Por um lado, Helena tinha pavor de que acontecesse a Arij ane o m esm o que acontecia com ela. Às vezes observava o rosto do pai quando falava com Arij ane para ver se a luz que aprendera a reconhecer e tem er se acendia em seus olhos. Por outro lado, e am aldiçoava-se por isso, rezava para que acontecesse, para não ter que ouvir m ais o passo do pai quando se aproxim ava de seu quarto no m eio da noite, para não sentir sua m ão erguendo os lençóis e o peso de seu corpo na cam a, para não sentir…

Fechou os olhos e estrem eceu. Agora que havia conhecido Frank e com preendido qual era na verdade a m ensagem que duas pessoas trocavam entre si através de um a relação física, percebia plenam ente o horror e o noj o de tudo o que tinha vivido durante aqueles anos todos.

Frank era o segundo hom em de sua vida, o prim eiro com quem fizera am or.

No térreo, a luz invadia a casa. Em nenhum lugar no m undo havia um a luz com o aquela. Em algum canto daquela cidade, Frank vivia sob a m esm a luz e talvez estivesse com a m esm a sensação de vazio. Era com o se um a m áquina estivesse sugando o ar de dentro de seu corpo e a pele aderisse aos ossos num a tentativa artificial de im plosão. E ao m esm o tem po, sentia a ação de um a força exatam ente oposta, o desej o exasperado de explodir tudo o que guardava dentro de si.

Helena atravessou o corredor em direção à porta envidraçada que dava para o j ardim . Passou diante do quarto onde estavam os telefones. Continuou e parou um pouco além . Bem na frente da porta onde estava agora, ela e Frank haviam trocado um longo olhar na noite em que Ry an fora preso. E exatam ente naquele m om ento, ela entendeu tudo. Será que a m esm a coisa tinha acontecido com ele? Em seus olhos não havia o m enor vestígio de em oção, m as Helena, com a intuição que só as m ulheres têm , tinha certeza de que aquele tinha sido o instante preciso em que tudo com eçara entre eles.

Mais do que qualquer coisa no m undo, desej ava que ele estivesse ali para poder lhe perguntar.

Tirou um celular do bolso. Era o aparelho que Frank lhe dera na segunda noite em que se viram , quando teve que sair às pressas para com unicar a Céline a m orte de Hulot. Refletiu sobre o enorm e absurdo daquela situação: tinha que esconder com o um segredo precioso algo que o m undo inteiro j á considerava um obj eto de uso com um .

Tentou ligar para o núm ero de Frank, que ele havia gravado na m em ória do aparelho. Um a voz autom ática disse que o núm ero discado estava desligado e aconselhou que tentasse m ais tarde.

Não, por favor, Frank, não vá sumir logo agora. Não sei quanto tempo me resta. Morro só de pensar em não ver você ou pelo menos falar com você…

Apertou outro botão, que correspondia ao núm ero da central de polícia. A voz da telefonista respondeu.

— Sûreté Publique, bonjour.

— Você fala inglês? — perguntou Helena com um a certa apreensão.

— Claro, madame. O que posso fazer pela senhora?

Respondeu em inglês, m as a palavra madame foi dita em francês. Noblesse oblige. Helena suspirou de alívio. No m ínim o, evitava acrobacias num a língua que não era seu forte. Hanneke havia ensinado, ou m elhor, im posto o alem ão a ela e Arij ane. A segunda m ulher de seu pai tinha horror ao francês, que definia com o língua de hom ossexuais.

— Gostaria de falar com o agente Frank Ottobre, por favor…

— Um m om ento, madame. A quem devo anunciar?

— Helena Parker, obrigada.

— Um m om ento.

A telefonista a colocou em espera e alguns instantes depois a voz de Frank chegou a seu ouvidos.

— Helena, onde você está?

Helena enrubesceu e foi o único m otivo de alívio por não tê-lo ali a seu lado naquele m om ento. Parecia ter voltado atrás no tem po, quando sentiu no rosto os lábios tím idos e inexperientes de Andrés Jeffereau. Entendeu que Frank possuía o poder m ágico de fazer com que recuperasse a inocência. E naquela descoberta, Helena teve a confirm ação de quanto o am ava.

— Estou em casa. Meu pai saiu com Ry an e Stuart e fiquei sozinha. Mosse trancou todos os telefones num quarto, estou usando o que você m e deixou.

— Aquele infeliz. Ainda bem que tive a ideia de levar um celular para você…

Helena não sabia se a central telefônica da polícia ouvia as ligações de Frank. No Parc Saint-Rom an, ele havia m encionado a suspeita de que seu celular e o telefone fixo de sua casa estivessem gram peados. Talvez fosse essa a razão de seu tom rude.

Helena não queria dizer nada que pudesse com prom etê-lo ou constrangê-lo, m as sentia que ia explodir.

— Preciso lhe dizer um a coisa.

Agora, pensou, diga agora ou não vai dizer nunca!

— Eu te am o, Frank.

Helena se deu conta de que era a prim eira vez que dizia aquela palavra. E de que, pela prim eira vez na vida, sentia um m edo do qual não tinha m edo.

Do outro lado, houve um a pausa. Foram só alguns instantes, m as Helena teve a im pressão de que, no tem po transcorrido antes de ouvir a resposta, um hom em poderia plantar tâm aras e esperar para colhê-las; depois a voz de Frank, finalm ente, saiu do telefone.

— Eu tam bém te am o, Helena.

Assim , sim plesm ente, com o devia ser. Com aquela sensação de paz que as obras-prim as sem pre trazem consigo. Agora Helena Parker não tinha m ais dúvidas.

— Graças a Deus, Frank Ottobre.

Não teve tem po de dizer m ais nada. Ouviu o rum or de um a porta batendo na sala onde Frank se encontrava, abafado pelo filtro do telefone.

— Um m om ento — disse ele, com um tom subitam ente frio.

Ouviu um a voz que não era dele dizendo palavras que não entendeu. Depois um grito de Frank, o barulho de algum a coisa batendo na m adeira, seguido de um a im precação, e a voz de Frank berrando:

— Deus do céu, é ele de novo, m aldito filho da puta…

Em seguida, sua voz outra vez no telefone.

— Desculpe, Helena. Deus sabe o quanto queria ficar com você, m as preciso correr…

— O que houve? Pode m e dizer?

— Claro, de todo m odo vai ler tudo nos j ornais am anhã. Ninguém m atou m ais um !

Frank desligou. Helena ficou olhando para o celular, confusa, tentando descobrir com o desligar o aparelho. Estava tão feliz que nem reparou que seu prim eiro, verdadeiro telefonem a de am or tinha sido interrom pido pela notícia de um hom icídio.

 

* Expressão latina equivalente a “Dou para que dês”, nosso popular é dando que se recebe. (N. da T.)