O Historiador

Elizabeth Kostova · Capítulo 11 de 83

Páginas do PDF

O Historiador

Capítulo 9

14 de Dezembro de 1930 Trinity College, Oxford Meu caro e desventurado sucessor:

P retendo concluir a minha narrativa o mais rapidamente possível, pois você precisa extrair

dela informações vitais se quisermos ambos ali sobreviver, pelo menos — e sobreviver num estado

de bondade e misericórdia. Há sobrevivência e sobrevivência, o historiador aprende à sua custa.

Os piores impulsos da humanidade podem sobreviver por gerações a fio, por séculos, até milênios.

E os nossos melhores esforços individuais podem morrer conosco no final de uma única vida.

M as, prosseguindo: quando fui de I nglaterra para a G récia, a minha estada foi uma das

mais tranquilas que já tive, tudo correu bem. O diretor do museu de Creta estava no cais para me

receber e convidou-me para voltar mais tarde nesse Verão, para assistir à abertura de um túmulo

minóico. A lém disso, dois classicistas norte-americanos, que eu queria conhecer há anos, estavam

hospedados na mesma pensão que eu. I nsistiram para que eu me informasse sobre uma vaga que

acabara de abrir no corpo docente da sua universidade perfeita para alguém com a minha

formação e elogiaram muito o meu trabalho. T inha acesso fácil a todas as coleções,

inclusivamente algumas particulares. À tarde, quando os museus fechavam e a cidade fazia a

sesta, sentava-me na minha linda varanda sombreada por trepadeiras, a dar corpo as minhas

notas e, ao mesmo tempo, a extrair delas novas idéias para outros trabalhos a realizar no

futuro. Nessas idílicas circunstâncias, cheguei a pensar em abandonar inteiramente o que naquele

momento me parecia um capricho mórbido, a busca daquela palavra tão peculiar, Drákula.

T rouxera comigo o livro antigo, não querendo ficar longe dele, mas havia uma semana que não o

abria. E m geral, sentia-me liberto do seu fascínio. M as alguma coisa a paixão do historiador por

encontrar respostas, ou quem sabe o mero amor pela caçada levou-me a manter os meus planos e

ir a I stambul por alguns dias. E agora tenho de lhe contar a minha extraordinária aventura num

arquivo daquela cidade. E ste é talvez o primeiro de muitos acontecimentos que irei descrever que

poderá despertar a sua descrença. Peço-lhe apenas que leia até ao fim.

— Obedecendo ao pedido dele, li palavra por palavra — disse o meu pai. — A carta contava-me outra vez a arrepiante experiência de Rossi com os documentos da coleção do sultão M ehmed I I : o mapa em três línguas que ele encontrou e que aparentemente indicava a localização do túmulo de Vlad, o E mpalador, o roubo do mapa por um sinistro funcionário e as duas pequenas feridas por sarar no pescoço do homem. Ao contar esta história, o estilo da sua escrita perdia um pouco da coerência e do controle que eu observara nas duas cartas anteriores, a letra alongava-se, inconsistente, e pequenos erros multiplicavam-se, como se a tivesse datilografado num estado de grande agitação. E , apesar da minha própria inquietação (porque agora era de noite, eu tinha voltado para o meu apartamento e estava a ler lá dentro, sozinho, com a porta trancada e as cortinas supersticiosamente corridas), reparei na linguagem que ele usara ao descrever os acontecimentos; seguia de perto o que me contara apenas há duas noites. E ra como se a história tivesse marcado tão profundamente o seu espírito, quase vinte e cinco anos antes, que só precisasse de ser repetida para um novo ouvinte.

Restavam ainda três cartas, e passei avidamente à seguinte.

15 de Dezembro de 1930

Trinity College, Oxford

Meu caro e desventurado sucessor;

A partir do momento em que o mal-humorado funcionário me arrebatou o mapa, a minha

sorte mudou. A o voltar para o meu quarto, descobri que o gerente do hotel transferira as minhas

coisas para um quarto menor e bastante sujo porque um canto do teto do outro tinha caído.

Durante este processo, alguns dos meus trabalhos tinham desaparecido e uns botões de punho de

ouro de que gostava muito também tinham sumido.

Sentado nos meus novos e exíguos aposentos, tentei imediatamente recuperar as minhas

anotações sobre a história de Vlad Drácula bem como os mapas que vira no arquivo de memória.

E m seguida, fugi rapidamente daquele lugar e voltei à G récia, onde tentei recomeçar os meus

estudos sobre Creta, já que agora tinha algum tempo extra à minha disposição.

A viagem de barco para Creta foi horrível, com o mar muito agitado. Um vento quente,

enlouquecedor, como o famoso mistral francês, soprou incessantemente sobre a ilha. O meu

quarto anterior estava ocupado e só consegui umas instalações péssimas, um quarto escuro e

cheio de mofo. Os meus colegas americanos já tinham partido. O simpático diretor do museu

adoecera e ninguém parecia lembrar-se de que ele me convidara para assistir à abertura de um

túmulo. Tentei continuar com os meus escritos sobre Creta, mas foi inutilmente que procurei

inspiração nas minhas notas. O meu nervosismo só aumentou com as superstições primitivas que

encontrei mesmo nas pessoas da cidade, superstições de que não me apercebera nas viagens

anteriores, embora estejam tão disseminadas na G récia que eu já devesse ter-me deparado com

elas anteriormente. De acordo com a tradição grega, a origem do vampiro, o vrykoJ akas , é

qualquer corpo que não tenha sido enterrado convenientemente ou que demore a decompor-se,

para não falar de alguém que tenha sido acidentalmente enterrado vivo. Os velhos nas tabernas

de Creta mostravam-se mais inclinados a contar-me as suas mil e uma histórias de vampiros do

que a indicar-me onde poderia encontrar outros fragmentos de cerâmica como aquele, ou que

navios antigos os seus avós tinham feito naufragar para depois os pilharem. Certa noite, deixei

que um estranho me oferecesse uma rodada de uma especialidade local chamada,

extravagantemente, "amnésia", que me pôs doente durante todo o dia seguinte.

P ara dizer a verdade, nada me correu bem até chegar a I nglaterra, para onde viajei no meio

de um temporal de ventania e chuva que me causou o enjoo mais terrível que alguma vez senti.

A ssinalo estas circunstâncias para o caso de terem alguma relação com outros aspectos da

minha situação. No mínimo, servirão para lhe explicar qual era o meu estado de espírito quando

cheguei a Oxford: exausto, desanimado, amedrontado. Quando me vi ao espelho, o meu rosto

estava pálido e magro. T odas as vezes que me cortava ao fazer a barba, o que acontecia com

frequência devido ao nervosismo, estremecia, lembrando-me das pequenas fendas meio coaguladas

no pescoço do funcionário turco e duvidando cada vez mais da sanidade da minha própria

recordação. As vezes, tinha a sensação, que me perseguia até quase à loucura, de um objetivo não

cumprido, uma intenção cuja forma não conseguia reconstituir. E stava sozinho e cheio de

ansiedade Numa palavra, os meus nervos estavam num estado que nunca conhecera antes.

É evidente que tentei fazer a minha vida de sempre, sem falar daquele assunto com ninguém

e preparando-me para o semestre seguinte com o cuidado habitual. E screvi para os classicistas

norte-americanos que encontrara em Creta, dando a entender que estaria interessado pelo menos

numa colocação temporária nos E stados Unidos, se eles me pudessem ajudar a arranjar-me uma.

O meu doutoramento estava quase a acabar, sentia cada vez mais a necessidade de começar do

zero e achava que a mudança me faria bem. Completei também dois curtos artigos sobre a junção

de provas arqueológicas e literárias no estudo da produção de cerâmica cretense Com esforço,

apliquei a minha autodisciplina natural às atividades de cada dia, e cada dia me acalmava mais

um pouco. No primeiro mês depois do meu regresso, tentei não só abafar todas as recordações da

minha desagradável viagem, mas também evitar qualquer renovado interesse pelo estranho

livrinho ou pela pesquisa que ele provocara. No entanto, quando a minha confiança se reafirmou,

a curiosidade voltou a crescer perversamente dentro de mim e, certa noite, peguei no livro e

reorganizei as minhas notas de I nglaterra e de I stambul. A s consequências e daí em diante vi-as

como consequências foram imediatas, aterrorizadoras e trágicas.

P reciso de fazer uma pausa, corajoso leitor; não consigo escrever mais por agora. Suplico-

lhe que não desista desta leitura, que prossiga, como eu também tentarei fazer, amanhã.

Seu, com o mais profundo pesar, Bartholomew Rossi