O Historiador

Elizabeth Kostova · Capítulo 49 de 83

Páginas do PDF

O Historiador

Capítulo 46

Meu querido amigo,

O meu motorista conseguiu de fato levar-nos hoje a T ârgoviste, no Norte, depois do que

voltou para junto da família, em B ucareste, enquanto nós nos instalamos numa velha estalagem

para passar a noite. G eorgescu é um excelente companheiro de viagem, durante o percurso,

regalou-me com a história da região rural que íamos atravessando. Os seus conhecimentos são

muito amplos e os seus interesses incluem a arquitetura e a botânica locais, de modo que hoje

aprendi imensas coisas.

T ârgoviste é uma linda cidade, de carácter ainda medieval, e conta pelo menos com esta boa

estalagem onde um viajante pode lavar o rosto com água limpa. E stamos agora no coração da

Valáquia, numa terra de colinas entre montanhas e planície. Vlad Drácula reinou na Valáquia

várias vezes durante as décadas de 1450 e 1460; T ârgoviste era a sua capital, e esta tarde

percorremos as importantes ruínas do seu palácio, com G eorgescu a indicar-me as diversas

divisões e a descrever-me os seus prováveis usos. Drácula não nasceu aqui, mas na T ransilvânia,

numa cidade chamada Sighisoara. Não vou ter tempo de a visitar, mas G eorgescu esteve lá

várias vezes e contou-me que a casa em que o pai de Drácula vivia, o lugar onde Vlad nasceu,

ainda está de pé.

O mais impressionante dos muitos locais impressionantes que aqui vimos hoje, enquanto

vagueávamos pelas velhas ruas e ruínas, foi a torre de vigia de Drácula, ou melhor, um belo

restauro dessa torre, realizado no século dezenove. G eorgescu, como bom arqueólogo, torce o seu

nariz escocês-romeno aos restauros, explicando que neste caso as ameias em volta da parte

superior não estão muito corretas; mas o que se pode esperar, perguntou-me, mordaz, quando os

historiadores resolvem usar a imaginação. Restauro impecável ou não, o que G eorgescu me

contou sobre a torre provocou-me calafrios. E ra usada por Vlad Drácula não só como posto de

vigia naquela era de frequentes invasões turcas, mas também como bom ponto de observação de

onde podia assistir aos empalamentos que eram realizados no pátio em baixo.

T omamos a nossa refeição da noite num pequeno bar perto do centro da cidade. Dali

podíamos ver as muralhas exteriores do palácio em ruínas e, enquanto comíamos o pão e o

ensopado, G eorgescu contou-me que T ârgoviste é o lugar ideal para partir até à fortaleza de

Drácula nas montanhas.

Na segunda vez em que ele tomou o trono da Valáquia, em 1456 explicou, decidiu construir

um castelo acima do A rgês, parra o qual pudesse fugir no caso de invasões vindas da planície. A s

montanhas entre T ârgoviste e a T ransilvânia — e as terras selvagens da própria T ransilvânia

sempre forram um local de refúgio para os Valaquianos

Partiu um pedaço de pão e encharcou-o no molho do ensopado, sorrindo. Drácula sabia que acima do rio havia já algumas fortalezas em ruínas, datadas no mínimo

do século onze. Decidiu reconstruir uma delas, o antigo Castelo Argês. Precisava de mão-de-obra

barrata essas coisas não se resumem sempre a ter alguém parra ajudar? E ntão, com o seu

habitual espírrito generoso, convidou todos os seus boiardes os seus vassalos, sabe, para uma

pequena celebração da P áscoa. Chegarram com as suas melhorres roupas àquele grande pátio

aqui mesmo em T ârgoviste, e ele deu-lhes comida e bebida com farturra. Depois matou os que

achava mais incómodos e fez marchar os restantes com as mulherres e os filhos cinquenta

quilómetros montanha acima, parra reconstruir o Castelo Arges.

G eorgescu esquadrinhou a mesa com os olhos, aparentemente à procura de outro pedaço de

pão.

Bem, na verdade a coisa é mais complicada do que isso, a historia romena é sempre. O irmão

mais velho de Drácula, M ircea, tinha sido assassinado anos antes por inimigos políticos em

T ârgoviste. Quando Drácula subiu ao poder, mandou desenterrar o caixão do irmão e descobriu

que o pobre homem forra enterrado vivo. Foi então que mandou os convites parra a festa de

P áscoa, e assim vingou o irmão, além de ter conseguido mão-de-obra barrata para erguer o seu

castelo nas montanhas. M andou construir olarias perto da fortaleza original, e quem sobreviveu

à viagem foi forçado a trabalhar noite e dia, a carregar tijolos e a construir as murralhas e as

torres. A s antigas canções desta região dizem que as belas roupas dos boiardos lhes caíam do

corpo em farrapos antes de terem acabado o trabalho. — G eorgescu rapou o prato. — J á

reparrei que Drácula era também um sujeito muito prático, além de cruel.

E então amanhã, meu amigo, partiremos seguindo o caminho desses infelizes fidalgos, mas

de carroça, pelas montanhas que eles subiram penosamente a pé.

É notável ver os camponeses andarem por aí com as suas roupas típicas entre os trajes mais

modernos das pessoas da cidade. Os homens usam camisas brancas com coletes escuros e umas

sandálias de couro amarradas até aos joelhos por tiras também de couro, em tudo idênticos a

pastores romanos que voltassem à vida. A s mulheres, que na sua maioria são tão morenas como

os homens e geralmente muito bonitas, usam saias e blusas pesadas, com um carpete fechado

firmemente por cima de tudo, e as suas roupas são bordadas com motivos vistosos. P arecem ser

um povo alegre, rindo e falando alto enquanto regateiam no mercado, que visitei ontem de

manhã logo que cheguei.

É mais difícil do que nunca encontrar maneira de enviar esta carta, por isso, por enquanto,

vou mantê-la em segurança na minha bolsa.

Com afeto, Bartholomew

 

Meu querido amigo,

P ara minha felicidade, conseguimos chegar até uma aldeola nas margens do A rgês, uma

viagem de um dia através de montanhas íngremes, míticas, na carroça de um lavrador cuja mão

enchi generosamente de moedas. Como resultado, hoje estou dorido até aos ossos, mas feliz. E sta

aldeola é para mim um lugar de maravilhas, como se tivesse saído de um conto dos irmãos

G rimm, e não da vida real, e gostaria que você pudesse vê-la nem que fosse por uma hora para

sentir a imensa distância que a separa de todo o mundo europeu ocidental. A s casinhas, algumas

pobres e em mau estado, mas a maioria com aparência bastante alegre, têm beirais compridos e

baixos e grandes chaminés, em cujo cimo se vêem os gigantescos ninhos das cegonhas que passam

o Verão aqui.

Visitei tudo hoje à tarde com G eorgescu e descobri que uma praça no centro da aldeia é o

ponto de reunião deles, com um poço para os moradores e um grande bebedouro para os animais,

que são conduzidos através da aldeia duas vezes por dia. Debaixo de uma árvore periclitante fica

a taberna, um sítio barulhento onde tive de pagar rodadas e mais rodadas de uma aguardente

horrorosa aos bebedores locais pense nisto quando estiver no G olden W olf com o seu meio litro

de suave cerveja preta! Há um ou dois homens entre os habitantes com quem consigo comunicar

um pouco.

A lguns destes homens também se lembram de G eorgescu, da última vez que aqui veio, há

seis anos, e cumprimentaram-no com grandes palmadas nas costas quando entramos na taberna

pela primeira vez hoje à tarde, se bem que outros parecessem evitá-lo. G eorgescu diz que a

viagem de ida e volta à fortaleza demora um dia, e ninguém ainda se mostrou disposto a levar-

nos até lá. Falam de lobos, de ursos e, claro, de vampiros pricolici, como lhes chamam na sua

língua. E stou a começar a compreender algumas palavras de romeno, e o meu francês, o meu

italiano e o meu latim são uma grande ajuda quando tento adivinhar as coisas. E nquanto

entrevistávamos alguns dos bebedores de cabelos brancos esta noite, a maior parte da aldeia

apareceu para olhar para nós, nada discretamente donas de casa, lavradores, grupos de crianças

de pés descalços, e as jovens donzelas, que, de modo geral, são beldades de olhos escuros. Num

dado momento, encontrei-me tão rodeado de aldeãos a fingir que iam buscar água ou varrer os

degraus da frente ou conversar com o dono da taberna que tive de dar uma gargalhada, o que os

fez olhar para mim, espantados.

A manhã há mais o que eu gostaria de ter uma boa hora de conversa consigo! e na minha

na nossa língua!

Seu amigo devotado, Rossi.

 

Meu querido amigo,

E stivemos, para meu assombro, na fortaleza de Vlad. A gora sei porque queria vê-la;

tornou-me um pouco real em vida afigura assustadora que procuro na morte ou estarei em breve

a procurar, de alguma maneira, num lugar qualquer, se os meus mapas forem de alguma ajuda.

Tentarei descrever-lhe a nossa excursão porque gostaria que pudesse imaginar a cena, e porque

quero conservar um registro dela.

P artimos ao nascer do dia na carroça de um jovem lavrador daqui, que parece ser um

indivíduo próspero e é o filho de um dos velhos que frequentam a taberna. Tudo indica que tenha

recebido ordens do pai para nos levar, e não gostou muito da incumbência. Quando subimos para

a carroça, à primeira claridade do dia, na praça da aldeia, apontou para as montanhas umas

poucas de vezes, sacudindo a cabeça e dizendo: "P oenart? P oenan?" Finalmente, pareceu

resignar-se à tarefa e deu rédeas aos cavalos, dois grandes animais castanhos, afastados do

trabalho nos campos por aquele dia.

O homem propriamente dito era um sujeito de aspecto formidável, alto e de ombros

imensamente largos sob a camisa e o colete de lã, e com o chapéu posto, era com certeza duas

cabeças mais alto que nós. I sto fez-me parecer as suas reservas sobre a excursão um tanto

cômicas, embora eu certamente não devesse rir-me dos medos destes camponeses depois do que vi

em I stambul (sobre isto, como já lhe disse, falaremos pessoalmente). G eorgescu tentou envolvê-lo

na conversa durante o nosso percurso na floresta densa, mas o pobre homem segurava as rédeas

num desespero silencioso (pareceu-me), como um prisioneiro a ser levado para o patíbulo. De vez

em quando, a sua mão deslizava para dentro da camisa como se trouxesse ali algum tipo de

amuleto protetor imaginei isto por causa da tira de couro que tinha ao pescoço, e tive de resistir

à tentação de lhe pedir para dar uma olhadela. Senti pena do homem e daquilo por que o

estávamos a fazer passar, contra todos os interditos da sua cultura, e decidi que lhe daria uma

pequena remuneração suplementar no fim da viagem.

T ínhamos a intenção de passar ali a noite para termos tempo de examinar tudo e tentar

conversar com camponeses que encontrássemos e que vivessem perto dali, e para isso o pai do

homem tinha-nos fornecido mantas de viagem e cobertores, e a mãe dera-nos pão, queijo e maçãs,

tudo amarrado numa trouxa e colocado no fundo da carroça. A ssim que entramos na floresta,

senti uma excitação pouco acadêmica, e lembrei-me do herói de B ram Stoker partindo para as

florestas da T ransilvânia uma versão ficcionada delas, de qualquer maneira, de diligência, e quase

desejei que tivéssemos partido à noite, para que também eu pudesse ter visões de misteriosas

fogueiras na floresta e ouvir lobos a uivar. E ra uma pena, pensei, que G eorgescu nunca tivesse

lido o livro, e decidi tentar enviar-lhe um exemplar de I nglaterra, se algum dia voltar àquele

lugar enfadonho. E então, lembrei-me do meu encontro em I stambul, o que me trouxe de volta à

razão.

Atravessamos a floresta lentamente, porque a estrada estava toda sulcada por rodas de

carroças e cheia de buracos e porque quase imediatamente começava uma subida. E stas florestas

são muito profundas, sombrias mesmo ao meio-dia mais quente, com a frescura sobrenatural do

interior de uma igreja. A o viajarmos por dentro delas, vemo-nos totalmente cercados de árvores

e de um silêncio palpitante; da carroça, nada se avista durante quilômetros a fio a não ser os

infindáveis troncos e a vegetação rasteira, uma densa mistura de abetos e diversos tipos de

madeiras duras. Muitas árvores são descomunalmente altas e as suas copas tapam o céu. É como

passar entre os pilares de uma vasta catedral, mas uma catedral escura, uma catedral

assombrada onde ninguém espera vislumbrar a M adona Negra ou santos martirizados em cada

nicho. Vi pelo menos uma dúzia de espécies de árvores, entre as quais altos castanheiros e um tipo

de carvalho que nunca tinha visto.

Num determinado ponto, onde o chão se endireitava, penetramos numa nave de troncos

prateados, um bosque de faias do tipo dos que ainda encontramos mas raramente nos terrenos

mais arborizados de certos solares ingleses. Sem dúvida que já os deve ter visto. A quele poderia

servir de salão de festas para o casamento do próprio Robin dos B osques, com enormes troncos

sustentando um teto de milhões de diminutas folhas verdes, e a folhagem do ano anterior

estendendo-se como um tapete castanho-claro sob os nossos pés. O nosso condutor não parecia

reparar em nada de toda aquela beleza — quando se vive a vida inteira entre paisagens assim,

talvez deixem de ser vistas como "beleza", mas como o próprio mundo e permanecia sentado,

curvado, imerso no mesmo silêncio reprovador. G eorgescu estava ocupado a tomar notas sobre o

seu trabalho em Snagov, de modo que eu não tinha ninguém com quem trocar uma palavra sobre

aquele deslumbramento que nos rodeava.

Depois de viajarmos durante quase meio dia, chegamos a um campo aberto, verde e dourado

à luz do sol. Constatei que tínhamos subido bastante desde a aldeia, e tínhamos uma vista

cerrada das copas das árvores, que desciam de forma tão íngreme nas extremidades do campo que

dar um passo na sua direção significaria cair abruptamente. Dali, a floresta afundava-se num

desfiladeiro, e vi pela primeira vez o rio A rges, uma tira de prata lá em baixo. Da margem

oposta, erguiam-se enormes encostas cobertas de florestas, aparentemente impossíveis de escalar.

E ra uma região para águias, não para pessoas, e pensei com espanto nos muitos combates

travados ali entre Otomanos e Cristãos. Que um império, por mais ousado que fosse, tentasse

penetrar naquela paisagem, parecia-me o cúmulo da loucura. Compreendi melhor por que razão

Vlad Drácula escolhera aquela região para seu baluarte; quase não precisava de uma fortaleza

para a tornar mais inexpugnável.

O nosso guia saltou da carroça e desembrulhou a nossa refeição do meio-dia, que comemos

sentados na relva, sob carvalhos e bétulas esparsos. Depois, estendeu-se debaixo de uma árvore e

tapou a cara com o chapéu, e G eorgescu estendeu-se debaixo de outra árvore, como se fosse a

coisa mais natural do mundo, e dormiram durante uma hora enquanto eu passeava pelo prado.

O silêncio era maravilhoso, a não ser pelo gemido do vento naquelas florestas sem limites. O céu,

de um azul-vivo, estendia-se por cima de tudo. A o caminhar para o outro lado do campo, avistei

uma clareira semelhante muito mais abaixo, presidida por um pastor com roupas brancas e um

largo chapéu acastanhado. O seu rebanho de ovelhas, parecia-me movia-se à sua volta como

nuvens, e conjecturei que ele poderia estar ali de pé, exatamente daquela maneira, apoiado no seu

cajado, desde os dias de T rajano. Senti uma grande paz descer sobre mim. A natureza macabra

da nossa missão evaporou-se da minha mente, e achei que seria capaz de ficar naquela campina

perfumada durante uma ou duas eras, como o pastor.

Na parte da tarde, o nosso caminho levou-nos a estradas cada vez mais íngremes e

finalmente a uma aldeia que G eorgescu disse ser a mais próxima da fortaleza; lá, sentámo-nos

por algum tempo na taberna local com copos desse conhaque muito revigorante a que eles

chamam pãlincà. O nosso guia tornou claro que pretendia ficar com os cavalos enquanto nós

seguíamos a pé até à fortaleza; em nenhuma circunstância ele subiria até lá, muito menos

passaria a noite conosco nas ruínas. Quando insistimos, ele resmungou: "Pentru nimicaín lime", e

levou a mão à tira de couro que usava ao pescoço. G eorgescu disse que aquilo significava "De

maneira nenhuma". O homem mostrava-se tão obstinado que G eorgescu acabou por dar uma

gargalhada, dizendo que a caminhada não era assim tão grande e que de qualquer maneira a

última parte teria de ser feita a pé. A dmirava-me que G eorgescu quisesse dormir a céu aberto em

vez de voltar para a aldeia e, para ser sincero, também não me agradava muito a idéia de passar

lá a noite, embora não tenha dito nada.

A cabamos por deixar o indivíduo com o seu conhaque, os cavalos com a sua água e

retomamos o nosso caminho com as trouxas de comida e os cobertores às costas. E nquanto

percorríamos a rua principal, lembrei-me novamente da história dos boiardos de T ârgoviste, a

caminharem trôpegos para a fortaleza original em ruínas lá no alto, depois pensei no que vira ou

acreditava ter visto em Istambul, e senti uma pontada de inquietação.

A vereda depressa se estreitou até se transformar num pequeno caminho para carroças e em

seguida num atalho que subia à nossa frente através da floresta. Apenas a última parte nos valeu

uma escalada íngreme, que superamos com facilidade. De repente, estávamos no cimo de um cume

batido pelo vento, um espinhaço de pedra que saía da floresta. No ponto mais elevado desse

espinhaço, numa vértebra mais alta do que as outras, agarravam-se duas torres em ruínas e

destroços de muralhas, tudo o que restava do Castelo Drácula. A vista era de tirar o fôlego;

estávamos a uma enorme altitude, com o rio A rgês a reluzir distante no desfiladeiro lá em baixo

e pequenas aldeias espalhadas aqui e ali ao longo das suas margens. P ara sul, vi colinas baixas

que G eorgescu disse serem as planícies da Valáquia, e para norte montanhas altíssimas, algumas

com os picos cobertos de neve. Tínhamos chegado ao poleiro de uma águia.

Georgescu foi a frente na escalada sobre as rochas caídas, e finalmente vimo-nos no meio das

ruínas. Vi imediatamente que a fortaleza tinha sido pequena, e que fora abandonada aos

elementos ha muito tempo, flores silvestres de todas as espécies, líquenes, musgo cogumelos e

árvores retorcidas, deformadas pelo vento, tinham-se instalado ali ha muito. A s duas torres

ainda de pé eram silhuetas ossudas contra o céu. G eorgescu explicou que originalmente a

fortaleza tivera cinco torres, de onde os homens de Drácula podiam manter a vigilância contra

incursões turcas O pátio onde nos encontrávamos fora outrora um poço profundo para possíveis

cercos, e também segundo a lenda uma passagem secreta que levava a uma caverna na margem

do A rges, muito mais abaixo Através dessa passagem, Drácula escapara aos Turcos em 1462,

depois de utilizar a fortaleza de modo intermitente durante cerca de cinco anos. Tanto quanto se

sabia, nunca mais ali voltara. Georgescu acreditava ter identificado a capela do castelo numa das

extremidades do pátio, onde espreitamos para o interior de uma abóbada desmoronada.

P ássaros voavam para dentro e para fora das paredes da torre, cobras e pequenos animais

desapareciam com leves ruídos a nossa frente, e tive a sensação de que a natureza estava prestes

a apossar-se do que restava da cidadela.

Quando a nossa lição de arqueologia acabou, o Sol pendia mesmo por cima das colinas a

ocidente e as sombras das rochas, das árvores e das torres tinham-se alongado a nossa volta

P odíamos voltar parra a aldeia — disse G eorgescu, pensativo. — M as aí vamos ter de

subir outra vez se quisermos explorrar mais amanhã de manhã P or mim, prefirro acampar aqui,

e você?

Naquela altura, sem dúvida que eu preferia não acampar, mas G eorgescu parecia tão

prosaico, tão científico, sorrindo-me com o seu caderno de desenhos na mão, que eu não quis dizer

o que preferia. Começou a juntar madeira seca, eu ajudei-o, e em breve tínhamos uma fogueira a

estalar sobre as lajes de pedra do antigo pátio, cujo musgo tínhamos raspado cuidadosamente

com esse propósito. G eorgescu parecia estar a apreciar enormemente a fogueira, assobiando,

ajeitando os galhos soltos, e instalando uma armação primitiva para a panela que tirou da

mochila. Depressa estava a preparar um ensopado e a cortar o pão, sorrindo para as chamas, e

lembrei-me de que ele era, afinal, tão cigano como escocês.

O Sol pôs-se antes que o nosso jantar ficasse pronto e, quando desapareceu por detrás das

montanhas, as ruínas mergulharam na escuridão, as torres a destacarem-se contra um crepúsculo

perfeito. A lguma coisa — corujas, morcegos esvoaçavam através dos buracos vazios das janelas,

de onde haviam voado flechas na direção das tropas turcas tanto tempo antes. P eguei na minha

manta de viagem e coloquei-a o mais perto possível do fogo. G eorgescu serviu uma refeição

miraculosamente boa e, enquanto comíamos, falou mais uma vez sobre a história do lugar.

Uma das histórias mais tristes sobre Drácula aconteceu aqui J á ouviu falar da primeirra

mulher de Drácula?

Fiz que não com a cabeça.

Os camponeses que vivem aqui à volta contam uma história sobre ela que penso que deve ser

verdadeirra. Sabe-se que, no Outono de 1462, Drácula foi expulso desta fortaleza pelos Turcos, e

que não voltou aqui quando reinou novamente sobre a Valáquia em 1476, pouco antes de ser

assassinado. A s canções das aldeias das redondezas dizem que, na noite em que o exército turco

alcançou aquele penhasco ali em frente — e ele apontou para o veludo escuro da floresta, — os

soldados acamparram na velha florresta de P oenari e tentarram deitar abaixo o castelo de

Drácula disparrando com os seus canhões por cima do rio. Não forram bem sucedidos, por isso o

seu comandante deu ordens parra um grande assalto ao castelo na manhã seguinte

G eorgescu fez uma pausa para atiçar o fogo, a luz dançava-lhe no rosto moreno e nos

dentes de ouro, e os seus caracóis escuros tomavam a forma de chifres

Durrante a noite, um escravo que estava no acampamento turco e que erra parrente de

Drácula, atirrou secretamente uma flecha parra a aberturra da torre deste castelo, no ponto onde

sabia que ficavam os aposentos pessoais de Drácula. A marrado à flecha, havia um aviso a

Drácula parra que fugisse do castelo antes que ele e a sua família fossem feitos prisioneirros. O

escravo conseguiu ver o vulto da mulher de Drácula a ler a mensagem à luz das velas Os

camponeses contam nas suas velhas canções que ela disse ao marrido que preferria ser devorrada

pelos peixes do A rges a tornar-se escrava dos Turcos. Os Turcos não erram muito simpáticos

com os prisioneirros, sabe? — G eorgescu sorriu-me com ar demoníaco por cima do ensopado. —

E ntão, ela subiu a correr os degraus da torre provavelmente aquela ali e atirrou-se lá de cima. E

Drácula, é clarro, escapou através da passagem secreta. — A banou a cabeça com ar óbvio. —

Esta parte do Arges ainda é chamada de Riul Doamnei, que significa o rio da Princesa.

Senti um calafrio, como pode imaginar eu tinha olhado naquela tarde para o precipício. A

queda até ao rio lá em baixo é quase inimaginavelmente longa.

Drácula teve filhos dessa esposa?

A h, sim — G eorgescu serviu-me um pouco mais de ensopado. — O filho deles foi M ihnea o

M au, que reinou na Valáquia no início do século dezesseis. Outro sujeito encantador. A sua

linhagem deu orrigem a toda uma sérrie de M ihneas e M irceas, todos desagradáveis. E Drácula

casou-se de novo, a segunda vez com uma húngarra que era parrente de M áthyás Corvinus, rei

da Hungria. Produzirram uma quantidade de Dráculas

Ainda há Dráculas na Valáquia ou na Transilvânia? Creio que não. Eu tê-los-ia encontrado, se existissem. — Partiu um pedaço de pão e deu-mo.

— E ssa segunda linhagem possuía terras na região de Szekler, e misturrarram-se com os

Húngarros O último deles casou-se com alguém da nobre família dos G e i, e estes também

desaparreceram

A notei tudo no meu caderno entre uma garfada e outra, embora não acreditasse que aquilo

pudesse levar-me a alguma tumba I sto sugeriu-me uma última pergunta, que não me agradava

muito fazer naquela escuridão enorme e cada vez mais profunda.

Não é possível que Drácula esteja enterrado aqui, ou que o seu corpo tenha sido trazido de

Snagov para cá como medida de segurança?

Georgescu riu.

A inda esperrançoso, não é? Não, o sujeito está num lugar qualquer em Snagov, ouça o que

lhe digo. É clarro, aquela capela ali tinha uma cripta; existe uma árrea afundada, com uns

degraus até abaixo. E scavei ali há anos, quando vim aqui pela primeirra vez. — Fez-me um

sorriso aberto. — Os aldeões ficarram semanas sem falar comigo. M as a cripta estava vazia.

Nem uns poucos ossos encontrei.

P ouco depois, começou a dar grandes bocejos. P uxamos os nossos mantimentos para junto

do fogo, enrolámo-nos nas nossas mantas de viagem e ficamos em silêncio. A noite estava fria e

eu felizmente vestira as minhas roupas mais quentes. Fiquei a olhar para as estrelas durante

algum tempo pareciam maravilhosamente próximas daquele precipício negro e a ouvir G eorgescu

a ressonar.

Devo ter adormecido também porque, quando acordei, o fogo estava baixo e um fiapo de

nuvem cobria o topo da montanha. E u tremia de frio, e estava prestes a levantar-me para deitar

mais lenha na fogueira quando um ruído me fez gelar o sangue. Não estávamos sozinhos nas

ruínas, e o que quer que fosse que partilhava conosco aquele lugar escuro e agreste estava muito

perto. Levantei-me devagar, pensando em acordar G eorgescu se fosse necessário e conjecturando

se ele teria alguma arma na sua bolsa cigana, junto com as panelas. Um silêncio mortal havia

descido sobre nós mas, depois de uns segundos, o suspense tornou-se demasiado para mim. T irei

um ramo da pilha de lenha e pu-lo na fogueira e, quando pegou fogo, fiquei com uma tocha, que

ergui com cuidado.

De repente, nas profundezas do local da capela, coberto de vegetação, a luz da minha tocha

deparou-se com o brilho vermelho de um par de olhos. E staria a mentir, meu amigo, se dissesse

que não fiquei com os cabelos em pé. Os olhos aproximaram-se um pouco mais e eu não conseguia

determinar a distância a que estavam do chão. P or um longo momento, olharam para mim, e

senti, irracionalmente, que havia neles uma espécie de reconhecimento, que sabiam quem eu era e

que me avaliavam. E ntão, com um restolhar seco da vegetação rasteira, avistei metade do corpo

de um grande animal, que virou a cabeça para um lado e para o outro e se afastou, trotando,

para a escuridão. E ra um lobo de um tamanho assustador; àquela luz precária, consegui ver por

um segundo o seu pêlo desgrenhado e a sua grande cabeça antes que se esgueirasse para fora das

ruínas e desaparecesse.

Deitei-me novamente, sem querer acordar G eorgescu, agora que o perigo parecia ter

passado, mas não consegui dormir. Via, uma e outra vez na minha mente, pelo menos aqueles

olhos penetrantes, astutos. Acredito que acabei por dormitar mas, ali deitado, apercebi-me de um

som distante, que parecia vir do negrume da floresta. P or fim, senti-me demasiado agitado para

ficar debaixo das mantas, levantei-me outra vez e atravessei furtivamente o pátio coberto de

mato para olhar por cima da muralha. O declive mais abrupto do precipício era o que acabava

no Arges, como já descrevi, mas à minha esquerda havia uma área onde as florestas desciam mais

suavemente, e dali ouvi subir um murmurar de muitas vozes, e vi um clarão que poderia ser de

fogueiras de acampamento. Não sabia se os ciganos acampavam naquelas florestas; teria de

perguntar a G eorgescu de manhã. Como se este pensamento o tivesse chamado, o meu novo

amigo apareceu de repente, indistinto, ao meu lado, arrastando os pés, cheio de sono.

Algum problema? — e espreitou por cima da muralha. Apontei para baixo. Será um acampamento cigano? — Ele riu.

Não, é demasiado longe da civilização. — Um bocejo seguiu-se à frase, mas os seus olhos, à

luz do nosso fogo moribundo, mostravam-se brilhantes e atentos. — M as é esquisito. Vamos

verificar.

Não gostei nada da idéia, mas minutos depois tínhamos calçado as nossas botas e

movíamo-nos em silêncio, descendo o atalho na direção do som. E ste foi ficando cada vez mais

forte, subindo e descendo, numa cadência misteriosa não eram lobos, refleti, mas vozes de

homens. E u tentava não pisar nenhum ramo. Uma vez, vi G eorgescu meter a mão dentro do

casaco — afinal, tinha uma arma, concluí, satisfeito. E m breve avistamos a luz de fogueiras a

tremer entre as árvores e, com um gesto, ele mandou-me agachar e depois estender-me ao seu

lado no mato rasteiro.

Chegáramos a uma clareira na floresta que, surpreendentemente, estava cheia de homens.

E stavam de pé em dois círculos em volta de uma fogueira brilhante, de frente para ela, e

cantavam uma ladainha monótona. Um deles, aparentemente o líder, estava perto do fogo, e

todas as vezes que o cântico subia até atingir um crescendo, todos levantavam um braço esticado

para o saudarem, apoiando a outra mão no ombro do homem ao lado. Os seus rostos, de um

estranho tom alaranjado à luz do fogo, eram duros e não sorriam, e os olhos brilhavam. Usavam

uma espécie de uniforme, casacos escuros por cima de camisas verdes e gravatas pretas.

O que é isto? — murmurei para Georgescu. — O que estão eles a dizer? "Tudo pela P átria!" segredou-me ao ouvido. — Fique quieto e calado, ou estamos mortos.

Acho que é a Legião do Arcanjo Miguel.

O que é isso? — tentei mover apenas os lábios.

E ra difícil imaginar qualquer coisa menos angélica do que aqueles rostos petrificados e os

braços rígidos estendidos. G eorgescu fez-me sinal para nos irmos embora e voltamos

sorrateiramente para a floresta. A ntes de nos virarmos, porém, percebi um movimento do outro

lado da clareira e, para meu crescente espanto, vi um homem alto e de ombros largos envolto

numa capa, o cabelo escuro e o rosto lívido entrevistos por um segundo à luz da fogueira. E stava

de pé fora dos círculos dos homens uniformizados, o rosto alegre; na verdade, parecia mesmo

estar a rir-se. No segundo seguinte deixei de o ver e pensei que devia ter-se esgueirado por entre

as árvores, e então Georgescu puxou-me ladeira acima.

Quando estávamos em segurança nas ruínas ironicamente, as ruínas pareciam agora

seguras, por contraste, G eorgescu sentou-se junto do fogo e acendeu o cachimbo, como que

aliviado.

Meu Deus, homem — disse ele, e respirou fundo. — Podia ter sido o nosso fim! Quem são?

Ele atirou o fósforo para a fogueira.

Criminosos — disse secamente. — Também são conhecidos por G uarda de Ferro. P assam de

roldão pelas aldeias desta parte do país, recrutando rapazes e convertendo-os ao ódio. Odeiam

os judeus em particular, e querrem livrar o mundo deles. — Sorveu com força o cachimbo. —

Nós, ciganos, sabemos que quando matam judeus, os ciganos são sempre assassinados também.

E depois, em geral, mais uma quantidade de gente.

Descrevi a figura bizarra que vira do lado de fora do círculo. A h, com certeza — murmurou G eorgescu. — E les atraem todo o tipo de estranhos

admiradorres. Não vai demorrar muito parra que todos os pastorres das montanhas decidam

juntar-se a eles.

Demorou algum tempo até adormecermos novamente, mas G eorgescu garantiu-me que a

Legião dificilmente escalaria a montanha uma vez iniciados os seus rituais. Consegui cair apenas

num sono leve e desconfortável, e fiquei aliviado ao ver que a aurora chegava cedo àquele ninho

de águias. Tudo estava silencioso, ainda bastante enevoado, e nenhum vento fazia mexer as

árvores em redor. A ssim que a luz ficou suficientemente forte, caminhei com cautela até às

abóbadas desmoronadas da capela e examinei as pegadas do lobo. E ram claramente visíveis no

lado mais próximo da capela, grandes e pesadas, marcadas na terra. O estranho é que havia

apenas um conjunto de pegadas, que saía da área da capela, diretamente das camadas afundadas

da cripta, sem nenhum vestígio de como o lobo lá chegara ou talvez fosse eu que não conseguia

interpretar bem as suas marcas no mato atrás da capela. P ensei muito aquilo, mesmo depois de

termos tomado o pequeno-almoço, feito mais alguns desenhos e começado a descer a montanha.

Mais uma vez, tenho de parar aqui, mas envio-lhe o meu afeto desta terra longínqua

Rossi