O Historiador

Elizabeth Kostova · Capítulo 17 de 83

Páginas do PDF

O Historiador

Capítulo 15

— Quando acabei de ler a última carta de Rossi — disse o meu pai, — senti uma nova

tristeza, como se ele tivesse desaparecido uma segunda vez. E ntretanto, nessa altura, estava convencido de que o seu desaparecimento nada tinha a ver com uma viagem de autocarro para H artford ou com a doença de alguém da família na Florida (ou em L ondres), como a polícia tentara fazer crer. T irei essas idéias da cabeça e preparei-me para examinar os seus outros papéis. L er tudo primeiro, absorver tudo. Depois, estabelecer uma cronologia e começar lentamente — a tirar conclusões. P erguntei a mim próprio se Rossi teria tido alguma premonição de que, ao instruir-me, poderia estar a garantir a sua própria sobrevivência. E ra o mesmo que um terrível exame final embora eu esperasse devotadamente que não fosse final para nenhum de nós dois. Decidi que não faria qualquer plano enquanto não lesse tudo, mas já suspeitava do que provavelmente teria de fazer. Abri o desbotado pacote outra vez.

Os três documentos seguintes eram mapas, como Rossi tinha avisado, todos

desenhados à mão, e nenhum deles parecia mais antigo do que as cartas. E videntemente: tratava-se das versões que ele fizera dos mapas que tinha visto no arquivo em I stambul, copiados de memória depois das aventuras que ali vivera. N o primeiro em que peguei, vi uma grande região de montanhas, desenhadas em forma de pequenos recortes triangulares. E stes formavam dois compridos semicírculos de leste para oeste através da página e aglomeravam-se densamente no lado oeste. Um largo rio serpenteava ao longo da extremidade norte do mapa. Não havia cidades visíveis, embora dois ou três pequenos X no meio das montanhas ocidentais pudessem assinalar cidades. N enhum topónimo aparecia neste mapa, mas Rossi a caligrafia era a mesma da última carta — anotara nas margens: "Sobre os incrédulos que morrem na incredulidade, cairá a maldição de Alá, dos anjos e de toda a humanidade" (O Corão), e outras passagens semelhantes. Perguntei-me se aquele rio seria o mesmo que lhe tinha parecido simbolizado pela cauda do dragão no seu livro. M as não; neste caso ele referia-se provavelmente ao mapa em maior escala que devia estar no meio daqueles. Amaldiçoei as circunstâncias — todas elas — que me impediam de ver e ter nas mãos os originais; apesar da excelente memória e da mão firme de Rossi, certamente haveria discrepâncias entre os originais e as cópias.

O mapa seguinte parecia concentrar-se mais na região montanhosa ocidental mostrada

no primeiro. De novo, vi aqui e ali as letras X, marcadas de acordo com a mesma relação entre uma e outra do mapa anterior. Um no menor aparecia, serpenteando através das montanhas. M ais uma vez, nenhum nome de lugar. Rossi anotara no alto deste mapa: "Os mesmos preceitos corânicos, repetidos". B em, ele tinha sido tão cuidadoso naquela época como o Rossi que eu conheci. Até aquele ponto, porém, os mapas eram demasiado simples, demasiado rudimentares para indicarem qualquer região específica que eu já tivesse visto ou estudado. A frustração tomou conta de mim como uma febre e eu engoli-a com dificuldade, forçando-me a recuperar a concentração.

O terceiro mapa era mais esclarecedor, embora eu não soubesse exatamente o que poderia dizer-me naquela altura. O contorno geral correspondia de fato à feroz silhueta do dragão do meu livro e do livro de Rossi que eu bem conhecia, embora eu talvez não tivesse notado a coincidência a primeira vista se Rossi não a tivesse descoberto. E ste mapa mostrava o mesmo tipo de montanhas triangulares. E ram muito altas agora, formando largas cordilheiras no sentido norte-sul, um rio encaracolando-se através delas e abrindo-se numa espécie de reservatório. P or que razão não poderia ser o lago Snagov, na Romênia, como as lendas sobre a sepultura de Drácula sugeriam? E ntretanto, como Rossi observara, não havia nenhuma ilha na parte mais larga do rio e, de qualquer maneira, aquilo não parecia realmente um lago. Os Xs apareciam novamente, desta vez legendados com minúsculas letras em cirílico. P resumi que seriam as aldeias que Rossi mencionara. E ntre essas aldeias espalhadas, vi um quadrado, marcado por Rossi com os dizeres: "(Árabe) A Tumba ímpia Daquele que M ata os Turcos." P or cima desse quadrado havia um pequeno dragão muito bem desenhado com um castelo a coroar-lhe a cabeça e, em baixo, li mais letras gregas, com a tradução de Rossi para o inglês: "N este lugar, ele vive no mal. L eitor, desenterra-o com uma palavra." As frases exerciam uma atração incrível, como um sortilégio, e cheguei a abrir a boca para as pronunciar em voz alta quando me detive e apertei os lábios. N o entanto, as palavras formaram uma espécie de poesia na minha cabeça, que dançou lá dentro infernalmente durante um ou dois segundos.

P us os três mapas de lado. E ra aterrorizante vê-los ali, exatamente como Rossi os descrevera, e mais estranho ainda ver, não os originais, mas as cópias feitas por ele próprio. C omo provar, em última análise, que ele não inventara toda a história, e desenhara aqueles mapas como uma brincadeira? E u não tinha outras fontes originais sobre aquele assunto, a não ser as cartas dele. Tamborilei com os dedos no tampo da mesa. O tiquetaque do relógio do meu gabinete de trabalho parecia soar muito mais alto do que habitualmente naquela noite e a penumbra urbana parecia demasiado silenciosa por detrás das minhas persianas. H a horas que não comia e doíam-me as pernas, mas não podia parar agora. Relanceei os olhos para o mapa rodoviário dos B alcãs, mas aparentemente não havia nada de extraordinário nele; indicações manuscritas, por exemplo. A brochura sobre a Romênia também não produzia nada de surpreendente além do estranho inglês em que estava redigida: "B eneficiem-se da nossa exuberante e espantosa região rural", por exemplo. Os únicos documentos que ainda não examinara eram as anotações manuscritas de Rossi e o pequeno envelope selado que vira ao folhear os papéis pela primeira vez. T inha pensado em deixar o envelope para o fim, porque estava lacrado, mas não podia esperar mais. E ncontrei a minha espátula de abrir cartas no meio dos papéis, quebrei cuidadosamente o lacre e tirei para fora uma folha de papel.

E ra o terceiro mapa outra vez, com a sua forma de dragão, o rio serpenteante, o arremedo dos altos picos de montanha. Fora copiado com tinta preta, como a versão de Rossi, mas o traço era ligeiramente diferente um bom fac-símile mas de certo modo limitado, arcaico, um pouco ornamentado quando observado mais de perto. Depois da carta de Rossi, eu devia estar preparado para a visão da única diferença em relação à primeira versão do mapa, mas mesmo assim atingiu-me como uma pancada. Acima do local da sepultura retangular e do dragão que a guardava, as palavras, em arco: BARTOLOMEO ROSSI.

Reprimi suposições, medos e conclusões e obriguei-me a pôr o papel de lado e ler as

páginas das notas de Rossi. Aparentemente, fizera as duas primeiras nos arquivos de Oxford e do M useu B ritânico, e não acrescentavam nada ao que ele já me dissera. H avia um breve resumo da vida e das aventuras de Vlad Drácula e uma lista de alguns documentos literários e históricos nos quais Drácula fora mencionado através dos séculos. Outra página seguia-se a estas, num papel diferente, marcada e datada da sua viagem a I stambul. "Reconstituído de memória", dizia, com a sua letra apressada mas cuidadosa, e concluí que deviam ser as notas que passara ao papel logo a seguir à sua experiência no arquivo, quando desenhara os mapas de memória antes de partir para a Grécia.

E stas anotações consistiam numa lista dos documentos do tempo do sultão M ehmed I I

guardados na biblioteca de I stambul pelo menos, os que tinham chamado a atenção de Rossi por estarem relacionados com a sua pesquisa os três mapas, os rolos de pergaminho com relatos das guerras dos povos dos C árpatos contra os Otomanos e livros comerciais dos produtos negociados entre mercadores otomanos nas fronteiras daquela região. N ada disto me parecia muito esclarecedor; mas perguntava-me em que ponto, exatamente, o trabalho de Rossi fora interrompido pelo funcionário com ar ameaçador. Os rolos de pergaminhos e os livros comerciais conteriam pistas sobre a morte ou o enterro de Vlad Tepes? Teria Rossi chegado a examiná-los pessoalmente, ou só tivera tempo para enumerar as possibilidades do arquivo antes de fugir amedrontado?

H avia um último item na lista do arquivo, e este surpreendeu-me; detive-me nele

alguns minutos. "B ibliografia, Ordem do Dragão (sob a forma de parte de um rolo de pergaminho)". O que me surpreendeu nesta nota, e me fez hesitar ao lê-la, foi o fato de ser tão pouco informativa. Em geral, as notas de Rossi eram completas, explicativas; ele gostava de dizer que para isso é que se tomava notas. Seria essa bibliografia, que ele mencionava de modo tão apressado, uma lista organizada pela biblioteca para registrar todo o material que albergava relacionado com a Ordem do Dragão? Sendo assim, por que estaria "sob a forma de parte de um rolo de pergaminho?" Devia ser algo antigo em si, pertencente à biblioteca, pensei talvez do tempo da Ordem do Dragão. M as por que motivo Rossi não dera mais explicações naquela página de caderno, que nada dizia? Ter-se-ia a bibliografia, fosse o que fosse, mostrado irrelevante para a pesquisa dele?

E ssas elucubrações sobre um arquivo distante que Rossi examinara há tanto tempo não

me pareciam apontar diretamente para os motivos do seu desaparecimento, de modo que pousei a folha de papel na mesa, desgostoso, subitamente cansado das minúcias da pesquisa. Ansiava por respostas. C om exceção do que poderia haver nesses pergaminhos, nos livros comerciais e naquela antiga bibliografia, Rossi partilhara comigo as suas descobertas de um modo surpreendentemente meticuloso. M as essa concisão era típica dele; além do mais, dera-se ao luxo, se podemos chamar-lhe assim, de se explicar em muitas páginas de cartas. N ão obstante, eu sabia muito pouco, a não ser talvez o que devia fazer a seguir. O envelope estava agora completamente, desalentadoramente vazio, e o que eu aprendera com os últimos documentos que ele continha não acrescentara grande coisa ao que já sabia através das cartas. Apercebi-me também de que precisava agir o mais rapidamente possível. J á passara muitas noites em claro antes, e na próxima hora talvez fosse capaz de organizar para mim mesmo tudo o que Rossi me contara sobre as anteriores ameaças à sua vida, segundo a sua própria visão.

L evantei-me com as articulações a estalar e dirigi-me à minha pequena e precária cozinha para preparar uma sopa. Ao baixar-me para tirar uma panela limpa, percebi que o meu gato não entrara para comer a refeição da noite, que dividia comigo. E ra um gato vadio, e eu desconfiava que o nosso relacionamento não fosse inteiramente monógamo. M as, pela hora do jantar, geralmente encontrava-o à janela da minha minúscula cozinha, a olhar para dentro, da escada de incêndio, para me dar a entender que queria a sua lata de atum ou, quando eu estava particularmente generoso, o seu prato de sardinhas. E u passara a adorar o momento em que ele pulava para dentro do meu apartamento sem vida, espreguiçando-se e miando alto numa exibição de afeto. C ostumava deixar-se ficar um pouco por ali depois de comer, a dormir na beira do sofá ou a ver-me a passar a ferro as minhas camisas. Às vezes, tinha a impressão de vislumbrar uma expressão de ternura nos seus olhos amarelos perfeitamente redondos, embora também pudesse ser de pena. E ra vigoroso, rijo, com uma pelagem macia preta e branca. C hamava-lhe Rembrandt. P ensando nele, levantei a beira da persiana, empurrei a janela para cima e chamei-o, esperando pelo ruído surdo das suas patas felinas no parapeito. Ouvi apenas o distante tráfico noturno do centro da cidade. Baixei a cabeça e olhei para fora.

A forma do seu corpo enchia o espaço, grotesca, como se tivesse rolado para lá ao brincar e depois ficasse inerte. P uxei-o para dentro da cozinha com mãos suaves e trêmulas, reparando imediatamente na sua espinha partida e na sua cabeça que pendia desajeitadamente. Os olhos de Rembrandt estavam mais abertos do que alguma vez os vira em vida, a boca arreganhada num esgar de medo, as patas da frente abertas e com as unhas à mostra. Soube logo que ele não podia ter caído ali, com tanta precisão, sobre o parapeito apertado. Só uma força muito grande conseguiria matar um animal daqueles — afaguei-lhe o pêlo macio, a raiva sobrepondo-se ao meu terror — e o atacante devia ter ficado arranhado e talvez mesmo ferozmente mordido. M as o meu amigo estava indiscutivelmente morto. C oloquei-o com suavidade no chão da cozinha, os meus pulmões a encherem-se de um ódio nebuloso ao perceber que, sob as minhas mãos, o seu corpo ainda estava quente.

V irei-me depressa, fechei a janela, corri o trinco e pensei freneticamente qual seria o meu próximo passo. C omo poderia proteger-me? As janelas estavam todas fechadas e a porta trancada com um duplo ferrolho. M as o que sabia eu dos horrores do passado? P enetravam nos lugares como névoa, por baixo das portas? Ou partiam os vidros e irrompiam subitamente diante de nós? Olhei em volta, à procura de uma arma. N ão tinha um revólver mas os revólveres de nada serviam contra B ela L ugosi nos filmes de vampiros, a não ser que o herói estivesse equipado com uma bala de prata especial. O que é que Rossi tinha recomendado? "E u não vou andar por aí com alho no bolso, ah, não." E uma outra coisa: "Tenho a certeza de que traz consigo a sua bondade, o seu sentido moral, ou o que quiser chamar-lhe. De qualquer maneira, gosto de pensar que a maior parte de nós é capaz disso."

T irei um pano limpo de uma das gavetas da cozinha e embrulhei nele, com cuidado, o

corpo do meu amigo, deixando-o do lado de fora do apartamento, no vestíbulo. Teria de enterrá-lo no dia seguinte, se o dia seguinte chegasse da mesma maneira de sempre. I ria enterrá-lo no terreno atrás do edifício — bem fundo, onde os cães não lhe chegassem. E ra-me difícil pensar em comer naquelas circunstâncias, mas preparei a minha tigela de sopa e cortei uma fatia de pão para a acompanhar.

E ntão, sentei-me outra vez à secretária e tirei de lá os papéis de Rossi, guardando-os

em ordem no envelope. P ousei o meu misterioso livro do dragão em cima do envelope, tendo o cuidado de não deixar que se abrisse. P or cima de tudo, coloquei o meu exemplar do clássico de H ermann, A I dade de Ouro de A msterdã, que tinha sido um dos meus livros favoritos durante muito tempo. Abri os meus apontamentos para a tese no centro da secretária e apoiei na minha frente um folheto sobre as guildas de mercadores em Utreque, um exemplar da biblioteca que ainda precisava ler com atenção. Pus o relógio ao meu lado e verifiquei, com um arrepio supersticioso, que faltavam quinze minutos para a meia-noite. Amanhã, disse a mim mesmo, iria a biblioteca e leria tudo o que lá encontrasse para me equipar para os próximos dias. N ão me faria nenhum mal aprender mais sobre estacas de prata, dentes de alho e crucifixos, se eram esses os remédios aconselhados pelos camponeses para combater os mortos-vivos durante tantos séculos. P elo menos, era uma prova de fé nas tradições. P or enquanto, só contava com o conselho de Rossi, mas Rossi nunca me falhara quando estava na sua mão ajudar. P eguei na caneta e inclinei a cabeça para o folheto.

N unca tivera tanta dificuldade em concentrar-me. C ada nervo do meu corpo parecia

estar alerta à presença do lado de fora, se é que era mesmo uma presença, como se a minha mente, e não os meus ouvidos, fosse capaz de ouvi-la roçar a janela. C om um esforço, aterrei firmemente em Utreque, em 1690. E screvi uma frase, depois outra. Quatro minutos para a meia-noite. "P rocurar algumas histórias sobre a vida dos marinheiros holandeses", anotei nos meus papéis. P ensei nos mercadores, reunindo-se nas suas associações, já antigas na época, para tirar o melhor proveito possível das suas vidas e das suas mercadorias, agindo dia após dia de acordo com o seu bastante simples sentido do dever, usando uma parte dos seus lucros para construir hospitais para os pobres. Dois minutos para a meia-noite. T omei nota do nome do autor do folheto para voltar a consultá-lo mais tarde. "Explorar a importância das máquinas de impressão da cidade para os mercadores", anotei.

O ponteiro dos minutos do meu relógio deu um salto repentino e eu saltei com ele. M arcava meia-noite em ponto. As máquinas de impressão podiam ser extremamente importantes, pensei, forçando-me a não olhar para trás, ali sentado, sobretudo se as guildas tivessem controlado algumas delas. Terão realmente controlado algumas, comprando-as, tornando-se suas proprietárias? Os tipógrafos teriam a sua própria guilda? De que modo as idéias sobre a liberdade de imprensa entre os intelectuais holandeses naquele contexto estão relacionadas com a propriedade das máquinas de impressão? P or um momento, comecei a interessar-me pelo assunto e tentei lembrar-me do que lera sobre as primeiras publicações em Amsterdã e Utreque. De repente, senti uma grande tensão no ar, como se tudo parasse, e depois um relaxamento da tensão.

Olhei furtivamente para o relógio. M eia-noite e três minutos. C omecei a respirar normalmente e a minha caneta deslizou à vontade pelo papel.

O que quer que estava a vigiar-me não era tão esperto como eu receara, pensei, tomando o cuidado de não parar de trabalhar. P elos vistos, os mortos-vivos acreditavam nas aparências, e eu parecia ter levado em consideração o aviso de Rembrandt e ter-me limitado a realizar as minhas tarefas habituais. N ão seria possível esconder os meus verdadeiros atos por muito tempo, mas naquela noite a minha aparência era a única proteção de que podia dispor. Aproximei mais o candeeiro e mergulhei no século dezessete durante mais uma hora, para consolidar a impressão de estar entregue ao trabalho. E nquanto fingia escrever, raciocinava. A ameaça final a Rossi, em 1931, tinha sido o nome dele escrito no local da sepultura de Vlad, o E mpalador. Rossi não fora encontrado morto sobre a secretária dois dias antes, como poderia acontecer comigo em breve, se não tivesse cuidado. N ão fora encontrado ferido no corredor, como H edges. Fora raptado. P odia estar morto algures, evidentemente, mas enquanto não tivesse a certeza disso, tinha de ter esperança que estivesse vivo. A partir do dia seguinte, precisava tentar encontrar a sepultura.

 

Sentado naquele velho forte francês, o meu pai contemplava o mar da mesma forma que olhara para o espaço aberto no alto das montanhas em Saint-M a hieu, observando o voo em círculos da águia.

— Vamos voltar para o hotel — disse ele, por fim. — Reparaste que os dias já estão a ficar mais curtos? Não quero ser apanhado aqui depois do pôr do Sol.

Na minha impaciência, atrevi-me a fazer uma pergunta direta.

— Apanhado?

Olhou para mim, muito sério, talvez a considerar os riscos relativos das respostas que podia dar.

— O caminho é realmente íngreme — acabou por dizer. — N ão gostaria de ter de

procurar o caminho de regresso no escuro no meio destas árvores, tu gostarias?

Ele também sabia ser atrevido.

Olhei para os olivais, agora de um cinzento-esbranquiçado, em vez do cor de pêssego e

prateado de antes. T odas as árvores estavam retorcidas, voltadas na direção das ruínas de uma fortaleza que outrora as protegera ou às suas antepassadas das tochas sarracenas.

— Não — respondi. — Não gostaria.