O Historiador
Capítulo 27
B arley estava pensativo, os cotovelos nos joelhos, o queixo nas mãos de dedos
compridos, tentando, em vão, lembrar-se de uma coisa sobre o reitor J ames. Finalmente, olhou para mim, e fui surpreendida pela beleza do seu rosto rosado e comprido quando estava sério. Sem aquela jocosidade enervante, poderia ter sido o rosto de um anjo, ou talvez de um monge num claustro na N ortúmbria. P ercebi estas comparações vagamente; só mais tarde se me revelaram.
— Bem — disse ele, por fim —, do meu ponto de vista, há duas possibilidades. Ou você
é maluca, e nesse caso tenho de ficar consigo e levá-la de volta para casa em segurança, ou não é maluca, e nesse caso tem um monte de problemas pela frente e tenho de ficar consigo de qualquer maneira. E u devia assistir a uma aula amanhã, mas vou pensar na maneira de resolver isso.
Suspirou e inclinou-se de novo na poltrona. — Tenho a impressão de que P aris não é o seu destino final. P ode informar-me para
onde vai depois de Paris?
Se o professor B ora tivesse dado uma bofetada a cada um de nós naquela agradável
mesa de restaurante em I stambul, o impacto não seria maior do que nos ter contado sobre o seu "excêntrico passatempo". Foi uma bofetada salutar, no entanto; agora estávamos ambos bem acordados. O meu jet lag desaparecera, e com ele a minha sensação de derrota por não encontrar mais informações sobre a tumba de Drácula. V iéramos ao lugar certo. Talvez, aqui o meu coração deu um salto, e não com uma mera esperança, talvez a tumba de Drácula estivesse localizada na própria Turquia.
N unca tinha pensado nisso, mas agora achava que podia fazer sentido. Afinal, Rossi
fora severamente repreendido ali por um dos mensageiros de Drácula. Os mortos-vivos estariam a proteger não só o arquivo, mas também um túmulo? A forte presença de vampiros, à qual Turgut se referira havia pouco, seria um legado da ininterrupta ocupação desta cidade por Drácula? Recapitulei o que já sabia sobre a carreira e a lenda de Vlad, o E mpalador. Se fora mantido prisioneiro aqui na sua juventude, não poderia ter voltado depois da morte ao local da sua educação precoce sobre técnicas de tortura. P oderia ter uma espécie de nostalgia por aquele lugar, como as pessoas que regressam à terra onde cresceram quando se reformam. E , se o romance de Stoker fosse considerado fiável na sua descrição dos hábitos de um vampiro, o demônio poderia certamente mudar-se de um lugar para o outro, fazendo o seu túmulo onde bem entendesse, no romance, ele tinha viajado no seu caixão até à I nglaterra P or que não teria vindo a I stambul de alguma maneira, movimentando-se à noite, depois do seu passamento, como um mortal qualquer, no coração do império cujos exércitos lhe tinham causado a morte? N o fim de contas, teria sido uma vingança adequada contra os Otomanos.
E ntretanto, ainda não podia fazer nenhuma dessas perguntas a Turgut Acabávamos de conhecer o homem e eu ainda me perguntava se podíamos confiar nele. Parecia sincero, e, no entanto, o seu aparecimento à nossa mesa com o seu "passatempo" era quase demasiado estranho para se sustentar. N aquele momento, conversava com H elen, e ela, finalmente, estava a falar com ele.
— N ão, minha cara senhora, não sei realmente "tudo" sobre a história de Drácula. N a verdade, os meus conhecimentos estão longe de ser arrebatadores. M as suspeito de que ele tenha tido uma grande influência sobre a nossa cidade, uma influência para o mal, e é isso que me faz continuar a pesquisar E os senhores, meus amigos? — E le olhou com ar astuto de H elen para mim. — Os senhores parecem muito interessados no meu assunto. Sobre o que é exatamente a sua tese, meu jovem amigo?
— O mercantilismo holandês no século dezessete — respondi, de modo pouco convincente. P elo menos, foi o que me pareceu, e começava a questionar-me se aquele não teria sido, desde o início, um projeto demasiado ameno. Os mercadores holandeses, afinal, não vagueiam pelos séculos, atacando pessoas e roubando-lhes as suas almas imortais.
— Ah, — achei que Turgut parecia intrigado. — B em... — disse por fim, — se o senhor também está interessado na história de I stambul, pode vir comigo amanhã de manhã ver a coleção do sultão M ehmed. Foi um velho tirano admirável, colecionava muitas coisas interessantes, além dos meus documentos preferidos. M as agora tenho de voltar para casa, para a minha esposa, que deve estar num estado de grande inquietação, estou tão atrasado. — Sorriu, exultante, como se a expectativa de comprovar o estado da esposa fosse o mais agradável de tudo. — C ertamente ela também quererá que os senhores venham jantar conosco amanhã, assim como eu o desejo.
P onderei a questão por um momento; as esposas turcas ainda deviam ser tão submissas como as dos lendários haréns. Ou ele só queria dizer que a esposa era tão hospitaleira como ele? Esperei pelo resmungo de Helen, mas ela manteve-se calada, observando-nos aos dois.
— E ntão, meus amigos — Turgut preparava-se para partir. T irou algum dinheiro do nada, ou foi o que me pareceu, e enfiou-o debaixo da borda do prato. E ntão, brindou-nos uma última vez e bebeu o que restava do seu chá. — Adieu, até amanhã.
— Onde é que nos encontramos? — perguntei.
— Oh, virei aqui buscá-los. Digamos, precisamente aqui, às dez da manhã? Ótimo. Desejo-lhes uma noite agradável. — Inclinou-se e foi-se embora.
L ogo a seguir, notei que praticamente não tocara no seu jantar, pagara a nossa conta juntamente com a dele e deixara-nos o talismã contra o mau-olhado, que reluzia no centro da toalha branca da mesa.
N aquela noite, dormi como um morto, como se diz, depois do cansaço da viagem e do passeio turístico. Quando os rumores da cidade me despertaram, já eram seis e meia. O meu pequeno quarto estava na penumbra. N o primeiro momento de consciência, olhei em volta para as paredes caiadas, os móveis simples e com um aspecto vagamente estrangeiro, o brilho do espelho sobre o lavatório, e senti uma singular confusão mental. L embrava-me da estada de Rossi em I stambul, da sua hospedagem na outra pensão onde teria sido? Onde lhe tinham vasculhado as malas e roubado os seus esboços dos preciosos mapas e parecia lembrar-me de tudo como se eu mesmo tivesse lá estado, ou estivesse a viver a cena agora. Após um instante, notei que tudo estava em paz e em ordem no quarto; a minha mala repousava, tal como a deixara, sobre a escrivaninha, e, mais importante, a minha pasta, com todo o seu precioso conteúdo, permanecia intacta junto da cama, onde eu podia esticar um braço e tocar-lhe. M esmo durante o sono, eu tivera de algum modo a consciência da presença daquele livro antigo e silencioso repousando dentro dela.
Ouvia H elen na nossa casa de banho em comum — pelo menos, esperava que fosse
H elen e não outro hóspede qualquer, já que nos tinham prometido privacidade a abrir a torneira e a andar de um lado para o outro. Depois de um momento, apercebi-me de que poderia parecer que eu a estava a espiar, e envergonhei-me. P ara disfarçar essa sensação, levantei-me rapidamente, despejei água no lavatório do meu quarto e comecei a lavar a cara e os braços. N o espelho, o meu rosto e como eu parecia jovem, mesmo para mim próprio, naqueles dias, minha querida filha, não consigo transmitir-te quanto — era o mesmo de sempre. T inha os olhos lacrimejantes depois de tantas viagens, mas alerta. Dei brilho ao cabelo com um pouco da onipresente brilhantina que se usava na época, penteei-o para trás, liso e lustroso, e vesti as calças e o casaco amarrotados, com uma camisa lavada, embora também amarrotada, e uma gravata. E nquanto ajeitava a gravata ao espelho, os sons da casa de banho desapareceram, e, depois de alguns momentos, peguei na máquina de barbear e forcei-me a bater com força na porta da casa de banho. C omo não houve resposta, entrei. O perfume de H elen, uma água-de-colônia acre e com cheiro a barato, que talvez tivesse trazido da Romênia, perdurava no pequeno aposento. E u já estava quase a gostar dele.
O pequeno-almoço no restaurante consistiu num café forte muito forte servido num
bule de cobre de cabo comprido, pão, queijo salgado e azeitonas, acompanhado por um jornal que não éramos capazes de ler. H elen comeu e bebeu em silêncio e eu estava pensativo, sentindo o cheiro do cigarro que chegava até à nossa mesa, vindo do canto onde estavam os criados. A sala estava vazia naquela manhã, a exceção de alguma luz do sol que entrava pelas janelas em arco, mas o burburinho do tráfego matinal lá fora enchia-o de sons agradáveis e de visões momentâneas de pessoas que passavam, vestidas para trabalhar, ou transportando cestos de produtos do mercado. I nstintivamente, tínhamos escolhido uma mesa o mais longe possível das janelas.
— O professor só vai chegar daqui a duas horas — observou H elen, enchendo o seu
café de açúcar e mexendo-o vigorosamente. — O que vamos fazer?
— E stava a pensar em ir outra vez a pé até H agia Sophia — disse eu. — Quero ver
aquele lugar novamente.
— P or que não? — murmurou ela. — N ão me importo de fazer turismo enquanto estivermos aqui. — Parecia descansada e notei que vestira uma blusa lavada azul-clara com o seu conjunto preto, a primeira cor que eu a via usar, uma exceção ao seu uniforme preto e branco. C omo sempre, trazia o pequeno lenço a tapar-lhe o pescoço no lugar onde o bibliotecário lhe mordera O rosto exibia uma expressão irônica e desconfiada, mas eu tinha a sensação sem nada que a comprovasse de que ela estava a habituar-se à minha presença do outro lado da mesa, quase ao ponto de abandonar uma parte da sua ferocidade.
Quando finalmente saímos, as ruas estavam cheias de gente e de carros, e vagueamos no meio deles pelo coração da cidade velha até entrarmos num dos bazares. T odas as ruelas estavam cheias de compradores mulheres idosas vestidas de preto apalpando arco-íris de finos tecidos; mulheres jovens com trajes de cores vivas, as cabeças cobertas, regateando os preços de frutos que eu nunca tinha visto antes ou a examinar bandejas de jóias de ouro, velhos com gorros de crochê sobre os cabelos brancos ou as cabeças calvas, lendo jornais ou inclinando-se para ver de perto filas de cachimbos de madeira trabalhada. Alguns seguravam colares de orações. P ara onde quer que olhasse, via rostos bonitos, cheios de argúcia, de pele cor de azeitona e traços vincados, mãos que gesticulavam, dedos que apontavam, lampejos de sorrisos que às vezes deixavam entrever um dente de ouro. E m volta, ouvia o clamor das vozes enfáticas e confiantes dos vendedores, às vezes uma risada.
H elen exibia o seu sorriso fixo e invertido, com os cantos da boca virados para baixo, olhando em volta para aqueles estranhos como se lhe agradassem, mas também como se pensasse que os percebia bem de mais. P ara mim, a cena era deliciosa, mas também sentia uma certa desconfiança, o que era uma sensação nova para mim, que datava apenas da semana anterior e que ultimamente me acompanhava em qualquer lugar público. E ra uma procura no meio da multidão, um olhar por cima do ombro, o impulso de sondar os rostos à procura de boas ou más intenções e talvez também a impressão de estar a ser observado. E ra uma sensação desagradável, uma nota dissonante na harmonia de todas aquelas conversas animadas à nossa volta, e conjecturei, não pela primeira vez, se em parte não teria sido contagiado pela atitude cínica de H elen em relação à espécie humana. Também me perguntava se essa sua atitude seria intrínseca ou apenas o resultado da vida que tivera num Estado totalitário.
Fossem quais fossem as suas origens, sentia a minha própria paranóia como uma afronta ao meu eu anterior. Uma semana antes, era um vulgar estudante universitário americano, contente no meu descontentamento em relação ao meu trabalho, saboreando lá no fundo a sensação de prosperidade e do elevado nível moral da minha cultura, embora ao mesmo tempo fingisse questionar isso e tudo o resto. Agora a G uerra Fria era real para mim na pessoa de H elen e no seu olhar desiludido, e uma guerra fria mais antiga fez-se sentir nas minhas próprias veias. P ensei em Rossi, deambulando por aquelas ruas no Verão de 1930, antes que a sua aventura no arquivo o fizesse sair precipitadamente de Istambul, e também ele era real para mim não apenas o Rossi que eu conhecera como também o jovem Rossi das suas cartas.
H elen bateu-me ao de leve no braço enquanto caminhávamos, e apontou com a
cabeça na direção de dois velhos sentados a uma mesinha de madeira enfiada num canto próximo de uma barraca.
— Olhe, ali está a sua teoria do lazer, ao vivo — disse. — São nove da manhã e eles já
estão a jogar xadrez. É estranho que não estejam a jogar tabla, que é o jogo preferido nesta parte do mundo. Mas acredito que neste caso seja xadrez.
De fato, os dois homens estavam a posicionar as suas peças num tabuleiro de madeira
aparentemente muito usado. P reto contra marfim, cavalos e torres protegiam os seus bispos, os peões frente a frente em formação de batalha — a mesma disposição de todas as guerras do mundo, refleti, parando para observar.
— Sabe jogar xadrez? — perguntou Helen.
— Evidentemente — respondi, quase indignado. — Costumava jogar com o meu pai. — Ah — o tom era amargo, e lembrei-me, tarde demais, que ela não tivera esse tipo de
lições na infância, e que jogava a sua própria versão de xadrez com o seu pai com a imagem que fazia dele, pelo menos. Mas parecia estar concentrada em reflexões históricas.
— O xadrez não é ocidental, sabe, é um jogo muito antigo, originário da I ndia: shahmat,
em persa. Xeque-mate, acho que é assim que se diz. Shah quer dizer rei. Uma batalha entre reis.
Fiquei a observar os dois homens a começarem a partida, as mãos enrugadas
escolhendo os primeiros guerreiros. Diziam piadas um ao outro provavelmente eram velhos amigos. P or mim, teria ficado ali o dia inteiro, a assistir, mas H elen afastou-se, impacientemente, e eu segui-a. Quando passamos, os homens pareceram notar a nossa presença pela primeira vez, olhando-nos zombeteiramente por um momento. Devemos ter ar de estrangeiros, concluí, embora o rosto de H elen combinasse de modo admirável com as fisionomias à nossa volta. I maginei quanto tempo duraria o jogo — a manhã inteira, quem sabe e qual deles ganharia desta vez.
A barraca ao lado deles estava justamente a abrir. N a verdade, era um telheiro debaixo
de uma venerável figueira na orla do bazar. Um rapaz de camisa branca e calças escuras puxava vigorosamente as portas e cortinas da barraca, montando mesas do lado de fora e expondo as suas mercadorias livros. H avia livros empilhados sobre os balcões de madeira, livros caídos de caixotes no chão e livros revestindo as prateleiras do lado de dentro.
Aproximei-me avidamente, e o jovem proprietário saudou-me com a cabeça e sorriu,
como se reconhecesse um bibliófilo fosse qual fosse a sua nacionalidade. H elen aproximou-se mais devagar, e ficamos ali a folhear volumes em talvez uma dezena de línguas. M uitos eram em árabe, ou em turco moderno; alguns escritos com o alfabeto grego ou o cirílico; outros, em inglês, francês, alemão, italiano. E ncontrei um tomo em hebraico e toda uma prateleira de clássicos em latim. A maioria eram edições baratas, mal impressas e mal acabadas, as capas de tecido já puídas de tanto serem manuseadas. H avia livros de bolso novos, com cenas lúgubres nas capas, e volumes que pareciam muito antigos, especialmente algumas das obras em árabe.
— Os B izantinos também gostavam de livros — murmurou H elen, folheando o que parecia ser uma recolha de poesia alemã. — Talvez comprassem livros exatamente neste lugar.
O rapaz terminara os seus preparativos para o dia de trabalho e veio junto de nós para nos cumprimentar.
— Falam Alemão? Inglês?
— Inglês — disse eu rapidamente, já que Helen não respondera.
— Tenho livros em inglês — disse ele com um sorriso agradável. — No problem. — T inha um rosto magro e expressivo, com grandes olhos esverdeados e um longo nariz. — Também jornais de Londres, Nova Iorque.
Agradeci-lhe e perguntei-lhe se trabalhava com livros antigos.
— Sim, muito antigos — E ntregou-me uma edição do século dezenove de Muito B arulho por Nada, de má qualidade, encadernado em tecido gasto. Tentei imaginar de que biblioteca teria vindo aquele volume e como teria feito a sua viagem da burguesa M anchester, digamos — até esta encruzilhada do mundo antigo. Folheei as páginas, para ser educado, e devolvi-o.
— Não bastante antigo? — perguntou, sorrindo.
H elen estivera a espreitar por cima do meu ombro e agora olhava descaradamente para o relógio. Afinal, nem sequer tínhamos chegado perto de Hagia Sophia.
— Pois é, temos de ir — disse eu.
O jovem vendedor de livros inclinou-se para nós com cortesia, com o livro na mão.
Olhei para ele por um segundo, perturbado por algo que era quase um reconhecimento, mas ele virou-se e já estava a atender um novo cliente, um homem idoso que poderia ter formado um trio com os jogadores de xadrez. H elen empurrou-me ao de leve o cotovelo com o seu e deixamos a loja, andando com mais determinação em torno do bazar, de regresso à zona da nossa pensão.
O pequeno restaurante estava vazio quando entramos, mas alguns minutos depois Turgut apareceu à porta, saudando-nos e sorrindo, e perguntou-nos como tínhamos dormido. N aquela manhã, usava um fato de lã cor de azeitona, apesar do calor cada vez maior, e parecia cheio de uma agitação contida. Os seus cabelos escuros e encaracolados estavam penteados para trás, os sapatos brilhavam de tão engraxados e movimentava-se rapidamente, apressando-nos a sair do restaurante. N otei mais uma vez que era uma pessoa de grande energia, e fiquei aliviado por ter um guia assim. A agitação também tomava conta de mim. Os documentos de Rossi estavam em segurança na minha pasta, e talvez, nas próximas horas, eu chegasse mais perto do seu paradeiro. Em breve, pelo menos, talvez pudesse comparar as suas cópias dos documentos com os originais que ele examinara tantos anos antes.
E nquanto seguíamos Turgut pelas ruas, ele explicou-nos que o arquivo do sultão
M ehmed não ficava no edifício principal da B iblioteca N acional, embora estivesse sob a proteção do E stado. E ncontrava-se agora num anexo da biblioteca que antes fora uma madrassa, uma escola islâmica tradicional. Ataturk fechara essas escolas no seu processo de secularização do país, e a escola em questão continha atualmente livros raros e antigos sobre a história do I mpério, pertencentes à B iblioteca N acional. E ncontraríamos a coleção do sultão Mehmed entre outras dos séculos da expansão otomana.
O anexo à biblioteca era um edifício pequeno e elegante. As portas que davam para a
rua, e pelas quais entramos, eram de madeira com aplicações de bronze. As janelas estavam cobertas com arabescos de mármore; a luz do sol filtrava-se através delas, formando belas formas geométricas e adornando o piso da entrada imersa em penumbra com estrelas cadentes e octógonos. Turgut mostrou-nos onde devíamos assinar o registro, que estava em cima de um balcão na entrada (notei que H elen assinou com um rabisco ilegível), e ele também assinou, com um floreado.
Seguimos então para o único salão do anexo, um espaço amplo e silencioso sob uma
cúpula decorada com mosaicos verdes e brancos. M esas de madeira polida estendiam-se ao comprido da sala, e já ali estavam três ou quatro pesquisadores a trabalhar. As paredes estavam cheias não só de livros, mas também de gavetas e caixas de madeira, e do teto pendiam delicados candeeiros de bronze em forma de cúpula, equipados com lâmpadas elétricas. O bibliotecário, um homem esguio de uns cinquenta anos com um colar de orações na cintura, abandonou o seu trabalho e veio na nossa direção para apertar ambas as mãos de Turgut nas suas. C onversaram por um momento da parte de Turgut, captei o nome da nossa universidade — e então o bibliotecário dirigiu-se-nos em turco, sorrindo e inclinando-se.
— E ste é M r. E rozan. E le dá-vos as boas-vindas à coleção — disse-nos Turgut, com
visível satisfação. — Diz que gostaria de prestar-lhes serviços.
Encolhi-me, involuntariamente, e Helen fez um sorriso afetado. — Ele vai preparar imediatamente para os senhores os documentos do sultão Mehmed
sobre a Ordem do Dragão. M as, primeiro, devemos sentar-nos confortavelmente aqui e esperar por ele.
Sentamo-nos a uma das mesas, tendo o cuidado de nos mantermos longe dos outros
pesquisadores. E les olharam-nos com uma curiosidade passageira e depois voltaram ao seu trabalho. P assado um momento, M r. E rozan voltou, transportando uma grande caixa de madeira com um cadeado na frente e palavras escritas em árabe entalhadas na tampa.
— O que diz aqui? — perguntei ao professor. — Ah — tocou na parte superior da tampa com as pontas dos dedos. — Diz, "Aqui há
mal" hmm... "Aqui, o mal está contido... reside o mal. T rancai-o com as chaves do sagrado Corão."
O meu coração deu um salto; as frases eram impressionantemente semelhantes às que Rossi relatara ter lido na margem do misterioso mapa e ter pronunciado em voz alta no velho arquivo onde, em tempos, a caixa estivera guardada. N ão mencionara a caixa nas suas cartas, mas talvez nunca a tivesse visto, se um bibliotecário lhe tivesse trazido apenas os documentos. Ou talvez tivessem sido colocados na caixa depois de Rossi ter estado lá.
— Quantos anos tem a caixa? É muito antiga? — perguntei a Turgut. E le abanou a cabeça.
— N ão sei, e o meu amigo aqui também não sabe. C omo é de madeira, acho pouco provável que seja dos tempos de M ehmed. O meu amigo disse-me uma vez — sorriu na direção de M r. E rozan, e o homem retribuiu-lhe o sorriso, sem compreender — que estes documentos foram colocados na caixa em 1930, para os manter em segurança. E le sabe isso porque discutiu o assunto com o anterior bibliotecário. É muito meticuloso, o meu amigo.
1930! H elen e eu entreolhamo-nos. P rovavelmente, quando Rossi tinha escrito as suas cartas, Dezembro de 1930 para quem quer que viesse um dia a recebê-las, os documentos que ele examinara já tinham sido colocados naquela caixa, por motivos de segurança. Uma vulgar caixa de madeira poderia ter evitado os ratos e a umidade, mas o que teria levado o bibliotecário daquele tempo a trancar os documentos da Ordem do Dragão numa caixa ornamentada com um aviso sagrado?
O amigo de Turgut segurava agora um molho de chaves e estava a meter uma delas no cadeado. Quase ri, lembrando-me do nosso moderno catálogo de fichas, o acesso a milhares de livros raros no conjunto de bibliotecas da universidade. N unca me imaginara a fazer um tipo de pesquisa que precisasse de uma chave antiga. A chave rodou na fechadura.
— Cá estamos — murmurou Turgut, e o bibliotecário afastou-se. Turgut sorriu-nos com uma certa tristeza, pensei e levantou a tampa.
N o comboio, B arley tinha acabado de ler em silêncio as primeiras duas cartas do meu pai. Angustiava-me vê-las ali abertas nas mãos dele, mas sabia que B arley confiaria na voz respeitável do meu pai, enquanto na minha, mais fraca, só acreditaria parcialmente.
— Já esteve em Paris? — perguntei, em parte para disfarçar a minha emoção.
— Acho que sim — disse B arley, indignado. — E studei lá durante um ano, antes de ir para a universidade. A minha mãe queria que eu aprendesse melhor francês.
E u ansiava por lhe perguntar sobre a sua mãe e por que razão exigia do filho essa agradável aptidão, e também como era ter mãe, mas B arley já estava novamente mergulhado na carta.
— O seu pai deve ser um professor fantástico — disse ele. — I sto é muito mais interessante do que o que aprendemos em Oxford.
Aquela frase abriu-me um novo campo de exploração. As aulas em Oxford seriam aborrecidas? Seria possível? B arley estava cheio de coisas que eu queria saber, um mensageiro vindo de um mundo tão vasto que eu nem sequer conseguia começar a imaginar. Fomos interrompidos por um revisor, que passou apressado pela porta do nosso compartimento e seguiu pelo corredor.
— Bruxelas! — gritava.
O comboio já estava a reduzir a velocidade e, poucos minutos depois, víamos pela
janela a estação de B ruxelas; os funcionários da alfândega já estavam a entrar. L á fora, pessoas corriam para apanhar os seus comboios e os pombos debicavam migalhas croissants? Pão? Doces? na plataforma.
Talvez porque secretamente gostava muito de pombos, observava atenta a multidão e,
de repente, reparei numa figura que não se movia. Uma mulher, alta e vestida com um casaco preto comprido, encontrava-se parada de pé na plataforma. Uma écharpe preta envolvia-lhe o cabelo, emoldurando um rosto branco. E stava um pouco longe demais para lhe poder ver as feições com nitidez, mas vi de relance uns olhos escuros e uma boca quase anormalmente vermelha um batom de cor viva, talvez. H avia algo de estranho no estilo das suas roupas; no meio das mini-saias e das horríveis botas de solas grossas da época, ela usava finos sapatos pretos de salto alto.
E ntretanto, o que primeiro me chamou a atenção, e a manteve por um instante antes
que o nosso comboio se pusesse de novo em movimento, foi a sua atitude de alerta. E squadrinhava o nosso comboio de uma ponta à outra. I nstintivamente, afastei-me da janela e B arley olhou-me, numa interrogação muda. Aparentemente, a mulher não nos vira, embora tivesse dado um passo meio hesitante na nossa direção. E então pareceu mudar de idéias e voltou-se para examinar outro comboio que tinha acabado de chegar, do outro lado da plataforma. Alguma coisa nas suas costas direitas, severas, fez com que eu não tirasse os olhos dela até o comboio sair da estação e ela desaparecer no meio da multidão, como se nunca tivesse existido.