O Historiador
Capítulo 34
G uardo várias fotografias do meu pai, tiradas pouco antes de ele deixar os E stados
Unidos à procura de Rossi, embora, quando vi pela primeira vez essas imagens na minha infância, não fizesse a menor idéia do que acontecera depois. Uma delas, que mandei emoldurar há anos e hoje está pendurada por cima da minha secretária, é uma imagem a preto e branco, da época em que o preto e branco estava a ser destronado pelos instantâneos a cor. M ostra o meu pai como nunca o vi. E stá a olhar diretamente para a câmara e tem o queixo um pouco levantado, como se estivesse prestes a responder a alguma coisa que o fotógrafo dizia. N unca saberei quem era o fotógrafo; esqueci-me de perguntar ao meu pai se ainda se lembrava. N ão podia ter sido H elen, mas talvez fosse outro amigo, colega de pós-graduação. E m 1952 apenas a data está escrita com a caligrafia do meu pai no verso da fotografia, havia já um ano que frequentava o curso de pós-graduação e já iniciara as suas pesquisas sobre os mercadores holandeses.
N a fotografia, parece estar a posar ao lado de um edifício da universidade, a julgar
pelo trabalho de cantaria em estilo gótico ao fundo. Um dos pés está colocado acintosamente em cima de um banco, o braço apoia-se na perna, a mão pende com elegância junto ao joelho. Veste uma camisa branca ou de cor muito clara, gravata de riscas diagonais, calças escuras vincadas e sapatos bem engraxados. A estatura é igual à de que me lembro de quando ele era mais velho — altura mediana, ombros medianos, uma elegância agradável mas não extraordinária, que a idade madura não lhe roubou. Os olhos profundos são cinzentos na fotografia, mas eram azul-escuros na vida real. C om os olhos encovados e as sobrancelhas espessas, maçãs do rosto salientes, nariz grosso e lábios carnudos abertos num largo sorriso, tem naquela fotografia uma aparência bastante simiesca um ar de inteligência animal. Se a fotografia fosse a cores, o cabelo liso teria um tom de bronze sob a luz do sol; só sei que tinha essa cor porque uma vez ele descreveu-ma. Quando o conheci, e tanto quanto posso recuar no passado, o cabelo dele era branco.
N aquela noite, em I stambul, avaliei em toda a extensão o que era passar uma noite em
claro. P ara começar, o horror do momento em que vi, pela primeira vez, o rosto de um morto-vivo e tentei compreender o que tinha visto bastaria aquele momento para me manter acordado. Depois, saber que o bibliotecário morto me vira e depois desaparecera fez-me tomar consciência da enorme vulnerabilidade dos papéis que tinha na minha pasta. E le sabia que H elen e eu tínhamos uma cópia do mapa. Teria aparecido em I stambul porque estava a seguir-nos ou, de alguma forma, imaginou que o original estivesse aqui? Ou, se não tivesse concluído isto por conta própria, teria alguma fonte de informação que eu desconhecia? E le tinha examinado os documentos da coleção do sultão M ehmed pelo menos uma vez. Teria visto os mapas originais e feito cópias deles? E u não tinha meios de decifrar estes enigmas e certamente não podia correr o risco de dormitar, pensando na avidez da criatura pela nossa cópia do mapa, na forma como se tinha atirado a H elen para a estrangular na biblioteca da nossa universidade por causa desse mapa. O fato de ter mordido H elen, e ter talvez adquirido um gosto por ela, só me fazia ficar ainda mais nervoso.
Se tudo isso não fosse suficiente para me manter de olhos abertos durante aquela noite, enquanto as horas se arrastavam cada vez mais silenciosas, havia aquele rosto adormecido não longe do meu mas também não muito perto. I nsisti com H elen para que dormisse na minha cama enquanto eu me acomodaria na poltrona coçada. Quando as minhas pálpebras se fecharam uma ou duas vezes, um olhar de relance para o seu rosto vigoroso e sério provocava uma onda de ansiedade que me despertava como se fosse água fria. H elen queria ter ficado no seu quarto afinal de contas, o que é que a senhoria iria pensar se descobrisse este arranjo? — mas eu pressionei-a até ela concordar, ainda que contrariada, em dormir sob a minha vigilância. E u vira demasiados filmes ou lera muita ficção, e sabia que uma mulher que ficasse sozinha durante algumas horas à noite poderia ser a próxima vítima do demônio. H elen estava tão cansada que certamente adormeceria, como eu podia ver pelas sombras profundas sob os seus olhos, e tinha a leve impressão de que também estava assustada. Aquele lampejo de medo nela assustou-me mais do que o choro de terror noutra mulher e espalhou uma cafeína sutil nas minhas veias. É possível, também, que uma certa languidez e fragilidade da sua postura, habitualmente erecta e altiva, daqueles ombros largos tão determinados durante o dia, tenha mantido os meus olhos abertos. Estava deitada de lado, uma das mãos debaixo da minha almofada, os caracóis mais escuros do que nunca sobre a brancura da fronha.
N ão conseguia concentrar-me para ler ou para escrever. E não tinha a menor vontade de abrir a minha pasta, que por precaução enfiara debaixo da cama em que H elen dormia. M as as horas iam-se passando e não houve nenhum arranhar misterioso no corredor, nenhum animal a farejar pelo buraco da fechadura, não houve fumo a invadir o quarto silenciosamente por baixo da porta nem bater de asas contra a janela. Finalmente, uma leve claridade acinzentada espalhou-se pela penumbra e H elen suspirou mansamente, como se percebesse o raiar do dia. E ntão, um palmo de luz do sol abriu caminho através das persianas e mexeu-se. P eguei no casaco, tirei a pasta de debaixo da cama com o mínimo de ruído possível e saí do quarto por delicadeza, para esperar por ela à entrada, no andar de baixo.
Ainda não eram seis horas, mas um cheiro forte a café vinha de algum lugar da casa e, para minha surpresa, encontrei Turgut sentado numa das cadeiras de forro bordado, com uma pasta preta no colo. T inha um ar incrivelmente repousado e desperto e, logo que me viu entrar, levantou-se de um salto para me apertar a mão.
— Bom dia, meu amigo. Agradeço aos deuses por tê-lo encontrado imediatamente.
— Também lhes estou grato por encontrá-lo aqui — respondi, afundando-me numa poltrona perto dele. — Mas o que o traz aqui tão cedo?
— Ah, não podia ficar longe tendo novidades para lhe contar. — Também tenho novidades — disse eu, soturno. — Fale primeiro, doutor Bora. — Turgut — corrigiu-me, ele meio distraído. — Veja isto. — E começou a desatar o
cordão que prendia a pasta. — C omo prometi, ontem à noite dei uma vista de olhos nos meus papéis. J á os tinha examinado muitas vezes e, é claro, não me surpreendi por não encontrar nada de novo. Fiz cópias do material que estava nos arquivos, como viu, além de ter reunido também muitos relatos diferentes dos acontecimentos ocorridos em I stambul durante o período da vida de Vlad e imediatamente após a morte dele.
Respirou fundo e prosseguiu:
— Alguns desses escritos fazem referência a acontecimentos misteriosos na cidade,
mortes, rumores de vampirismo. Também juntei todas as informações que obtive a partir de pesquisas em determinados livros que pudessem dizer-me algo sobre a Ordem do Dragão na Valáquia. M as não encontrei nada de novo ontem à noite E ntão, resolvi telefonar ao meu amigo Selim Aksoy. E le não é da universidade tem uma loja, mas é um homem muito instruído. Sabe mais de livros do que qualquer outra pessoa em I stambul, sobretudo daqueles que contam a história e as lendas da nossa cidade. É uma pessoa muito amável, e passou a maior parte da noite comigo a vasculhar a sua própria biblioteca. P edi-lhe que procurasse qualquer vestígio de um enterro de alguém da Valáquia aqui em I stambul no final do século quinze, ou qualquer sinal de que possa haver aqui um túmulo de alguma forma relacionado com a Valáquia, a T ransilvânia ou com a Ordem do Dragão. M ostrei-lhe também — e não foi a primeira vez as cópias dos mapas e o meu livro do dragão, e expliquei-lhe a sua teoria de que aquelas imagens representam um local, o local do túmulo do Empalador.
"J untos, folheamos muitas, muitas páginas sobre a história de I stambul, examinamos
gravuras antigas e os cadernos de anotações em que ele copia as mais diversas coisas que encontra em bibliotecas e museus. É muito diligente, esse Selim Aksoy. N ão tem mulher, nem família, nem outros interesses. A história de I stambul consome-o. P assou a noite a trabalhar, porque a sua biblioteca pessoal é tão grande que nunca conseguiu absorver tudo o que ela contém, e não estava em condições de me dizer o que poderíamos descobrir. Finalmente, encontramos uma estranha coisa, uma carta — reproduzida num livro sobre a correspondência entre os ministros da corte do sultão e diversos territórios distantes pertencentes ao I mpério nos séculos quinze e dezesseis. Selim Aksoy disse-me que comprou esse exemplar a um livreiro em Ancara. A impressão é do século dezenove, e foi compilado por um dos nossos historiadores de I stambul, que estava interessado em todos os registros daquele período. Selim também me disse que nunca tinha visto outro exemplar deste livro.
E sperei pacientemente, percebendo a importância de todas essas informações e o fato
de Turgut ser tão minucioso. P ara um especialista em literatura, ele era um historiador de primeira categoria.
— N ão, Selim não conhece nenhuma outra edição deste livro, mas acredita que os documentos nele reproduzidos não são — como é que se diz... forjados, porque já viu o original de uma das cartas na mesma coleção que visitamos ontem. E le também adora aquele arquivo, sabe, e encontro-o lá com frequência sorriu. B em, no referido livro, quando os nossos olhos já quase se fechavam de fadiga e a aurora se anunciava, encontramos uma carta que pode ser de alguma importância para a sua busca. O editor da coletânea acredita que seja do final do século quinze. Traduzi-lhe a carta. Está aqui.
Turgut tirou da pasta uma folha de caderno.
— L amentavelmente, a carta anterior a que esta se refere não consta do livro. Só Deus sabe, mas provavelmente já não existe em lugar nenhum, ou o meu amigo Selim tê-la-ia encontrado há muito tempo.
Pigarreou e leu em voz alta:
— "Ao mui ilustre Rumeli K adiasker..." — fez uma pausa. — E ste era o supremo magistrado militar para os B alcãs, sabe. — E u não sabia, mas balancei a cabeça e ele prosseguiu: — "I lustre senhor, realizei a investigação que me foi solicitada. Alguns dos monges colaboraram de muito bom grado pela quantia que combinamos e examinei pessoalmente a sepultura. O que eles me disseram originalmente é verdadeiro. Recomendo uma nova investigação deste assunto em I stambul. Deixei dois guardas em Snagov para vigiar qualquer atividade suspeita. C uriosamente, não houve registros de casos de peste aqui. Vosso servidor, em nome de Alá."
— E a assinatura? — perguntei. O meu coração batia com força; mesmo depois da minha noite em claro, estava totalmente acordado.
— Não há assinatura. Selim acha que pode ter sido rasgada do original, acidentalmente ou para proteger a privacidade do homem que escreveu a carta.
— Ou talvez nem tenha sido assinada, para manter o segredo — sugeri. — E não há outras cartas no livro que façam referência a este assunto?
— N enhuma. N em anteriores nem posteriores. É um fragmento, mas o Rumeli K adiasker era muito importante, portanto isto deve ter sido uma questão muito séria. Depois, procuramos árdua e prolongadamente nos outros livros do meu amigo e não encontramos mais nada relacionado com este assunto. E le disse-me que, tanto quanto se lembra, nunca viu a palavra "Snagov" noutros relatos sobre a história de Istambul. Leu essas cartas uma vez há poucos anos sem achar que a palavra fosse significativa — foi quando eu lhe disse que se trata do local onde supostamente Drácula foi sepultado pelos seus seguidores que o fez reparar nela enquanto examinávamos os papéis. P or isso, talvez ele a tenha de fato visto noutra ocasião e não se lembre.
— M eu Deus — disse eu, pensando não apenas nas sutis probabilidades de M r. Aksoy ter visto a palavra noutra ocasião, como nessa perturbante ligação entre I stambul, que nos rodeava, e a distante Romênia.
— Sim — e Turgut sorriu tão alegremente como se estivéssemos a discutir a ementa do pequeno-almoço. — Os inspetores públicos para os B alcãs estavam muito preocupados com alguma coisa aqui em I stambul, tão preocupados que enviaram alguém ao túmulo de Drácula em Snagov.
— M as, que raio é que eles encontraram? — B ati com o punho no braço da cadeira. —
O que é que os padres de lá disseram? E por que razão estavam apavorados?
E sse é exatamente o motivo da minha perplexidade — concordou Turgut. — Se Vlad
Drácula estava a repousar pacificamente lá, por que estariam preocupados com ele a centenas de quilómetros de distância, em I stambul? E , se o túmulo de Vlad está realmente em Snagov e sempre esteve, por que será que os mapas não correspondem àquela região?
Eu podia apenas apreciar a exatidão das perguntas dele. — H á outra coisa — disse eu. — Acha que existe de fato uma possibilidade de Drácula
estar sepultado aqui em I stambul? I sso explicaria a preocupação de M ehmed com ele depois da sua morte, e a presença de vampirismo aqui a partir dessa época?
Turgut bateu as mãos uma na outra diante de si e apoiou um grande dedo no queixo. — E ssa é uma questão de peso, meu amigo Vamos precisar de ajuda para isso, e acho
que o meu amigo Selim é a pessoa certa para nos ajudar
Ficamos a olhar-nos em silêncio no vestíbulo sombrio da pensão, com o cheiro a café a
pairar entre nós, novos amigos unidos por uma velha causa. Então, Turgut despertou.
— N ão ha dúvida de que precisamos procurar mais, ir mais longe. Selim disse que nos
acompanhará ao arquivo assim que estiverem prontos. E le sabe de fontes que existem lá sobre a I stambul do século quinze, a que eu próprio não prestei muita atenção porque estão fora dos meus interesses relacionados com Drácula. Vamos examiná-las juntos. O meu amigo bibliotecário certamente ficará feliz por nos mostrar esse material antes do horário de abertura ao público, se eu lhe pedir. Ele mora perto do arquivo e pode abri-lo para nós antes de sair. Tem de ir trabalhar. Mas onde está Miss Ross? Já terá deixado os seus aposentos?
A frase provocou-me uma confusa e súbita convergência de pensamentos na cabeça, e
eu não sabia a que problema devia acudir primeiro. A menção ao amigo bibliotecário de Turgut lembrou-me de novo o meu inimigo bibliotecário, de quem quase me esquecera, na excitação causada pela carta. Agora, enfrentava a peculiar tarefa de abalar a credulidade de Turgut contando-lhe o encontro com um homem morto, embora a sua crença em vampiros históricos provavelmente se estendesse aos contemporâneos. A pergunta dele sobre H elen, contudo, lembrava-me de que a deixara sozinha por demasiado tempo, o que era imperdoável. A minha intenção fora dar-lhe privacidade ao acordar, e contava que ela descesse logo depois de mim. Por que não aparecera ainda? Turgut continuava a falar
— E ntão, Selim — que nunca dorme, sabe — foi tomar o pequeno almoço, porque não
queria apanhá-los de surpresa —, ah, aí está ele!
A campainha da porta da pensão tocou e um homem esguio entrou, fechando a porta
atrás de si. Acho que esperava uma presença venerável, um homem idoso com um fato de executivo, mas Selim Aksoy era jovem, magro e vestia calças escuras folgadas e bastante coçadas com uma camisa branca. Veio ao nosso encontro, pressuroso, no rosto uma expressão intensa que não chegava a ser um sorriso. Só quando apertei a sua mão ossuda é que reconheci os olhos verdes e o nariz comprido e fino. Já o vira antes, e de perto. Demorei mais uns segundos a situá-lo, até que me veio a memória a mão fina estendendo-me um livro de Shakespeare. Era o vendedor de livros da pequena loja junto ao bazar.
— M as nós já nos encontramos! — exclamei, e ele exclamou algo semelhante ao mesmo tempo que eu no que me pareceu um amálgama de turco e inglês. Turgut olhou de um para outro, visivelmente espantado, e, quando expliquei, riu-se, depois sacudiu a cabeça, admirado.
— Coincidências — disse apenas.
— E stão prontos? — M r. Aksoy recusou com um gesto a cadeira que Turgut lhe indicava na sala de estar.
— Ainda não — disse eu. — Se me permite, vou ver como está M iss Rossi e quando poderá juntar-se a nós.
Turgut assentiu com um ar um tanto ingénuo demais. E sbarrei contra H elen nas escadas literalmente, pois dei comigo a subir os degraus de três em três. E la segurou-se ao corrimão para não cair pela escada abaixo.
— L ivra! — disse, zangada. — Onde vai com tanta pressa? — E sfregava o cotovelo e eu tentava não sentir o roçar do seu fato preto e do seu ombro firme no meu braço.
— À sua procura — respondi. — Desculpe, magoou-se? Só fiquei um pouco preocupado porque a deixei sozinha lá em cima tanto tempo.
— E stou ótima — disse ela, com mais suavidade. — Tenho estado a pensar... Quanto tempo falta para o professor Bora chegar?
— Já está lá em baixo — anunciei —, e trouxe um amigo.
H elen também reconheceu o jovem livreiro e ficaram a conversar, hesitantemente, enquanto Turgut telefonava para Mr. Erozan e gritava para o bocal do telefone.
— H ouve uma chuvada — explicou ele ao voltar. — As linhas ficam um pouco roufenhas nesta parte da cidade quando chove. O meu amigo pode ir encontrar-se conosco no arquivo agora mesmo. P ela voz, parecia adoentado, talvez uma constipação, mas disse que ia já para lá. Quer café, minha senhora? E compro-lhe pãezinhos de sésamo no caminho.
Beijou a mão de Helen, para minha irritação, e saímos todos apressadamente.
E sperava ficar para trás com Turgut enquanto andávamos, para poder falar-lhe em particular sobre o aparecimento do mórbido bibliotecário da minha universidade; não achava conveniente comentar o assunto em frente de um estranho, sobretudo de alguém que, segundo Turgut, tinha pouco interesse em caçar vampiros. Turgut, entretanto, já estava profundamente mergulhado numa conversa com H elen antes de completarmos o primeiro quarteirão, e tive o duplo aborrecimento de vê-la conceder-lhe a ele o seu raro sorriso e saber que não podia transmitir uma informação necessária e urgente. M r. Aksoy seguia ao meu lado, lançando-me um olhar de vez em quando, mas a maior parte do tempo parecia tão absorto nos seus pensamentos que não me sentia à vontade para o interromper com observações sobre a beleza matinal das ruas.
E ncontramos a porta exterior da biblioteca destrancada Turgut disse com um sorriso
que sabia que o seu amigo não se demoraria e entramos em silêncio, Turgut dando galantemente passagem a H elen. A pequena entrada, com os seus belos mosaicos e o livro de registro aberto e preparado para os visitantes do dia, estava deserta. Turgut segurou a porta interior para H elen entrar, e ela já avançara bastante no vestíbulo silencioso e imerso em obscuridade quando a ouvi prender a respiração, parando tão inopinadamente que o nosso amigo quase tropeçou atrás dela. Algo me fez eriçar os cabelos da nuca antes mesmo de perceber o que estava a acontecer, e em seguida outra coisa bem diferente fez-me empurrar o professor com brutalidade e colocar-me ao lado de Helen.
O bibliotecário que nos esperava estava imóvel no meio da sala, o rosto virado para nós,
como se aguardasse ansioso a nossa chegada. N ão era, porém, a figura amigável que imaginávamos, nem trazia a caixa que esperávamos poder examinar outra vez, ou uma pilha de manuscritos empoeirados sobre a história de I stambul. O seu rosto era pálido, sem vida — exatamente como se a vida se tivesse esvaído dele. N ão era o amigo bibliotecário de Turgut, mas o que nós conhecíamos, alerta e de olhos brilhantes, nos lábios um vermelho pouco natural, o olhar esfaimado e ardente voltado para nós. N o instante em que os seus olhos se fixaram em mim, a minha mão latejou no ponto em que ele a torcera violentamente na biblioteca da minha universidade. E stava ávido de alguma coisa. Ainda que eu tivesse tranquilidade de espírito para conjecturar sobre aquela avidez — se era sede de conhecimento ou de qualquer outra coisa —, não teria tido tempo para formar o pensamento. Antes que eu desse um passo para me colocar entre H elen e a asquerosa personagem, ela tirou uma pistola do bolso do casaco e disparou sobre ele.