O Historiador
Capítulo 72
G ostaria de poder dizer que tive um gesto de bravura, ou fiz alguma coisa útil, ou
tomei H elen nos braços para ter a certeza de que ela não iria desmaiar, mas não foi o que aconteceu. H á pouca coisa pior do que ver um rosto muito amado transformado pela morte, ou pela degeneração física, ou por uma horrível doença. Esses rostos são monstros da espécie mais aterradora a dos amados intoleráveis.
— Oh, Rossi — disse eu, e as lágrimas vieram-me aos olhos tão repentinamente que
nem as senti chegar.
H elen chegou-se mais perto e olhou para ele. V i que estava vestido com as mesmas
roupas que usava na noite em que eu falara com ele pela última vez, quase um mês antes; estavam rasgadas e sujas, como se ele tivesse sofrido um acidente. A gravata tinha desaparecido. Um fio de sangue enchera os vincos de um lado do seu pescoço e formara um estuário escarlate no colarinho manchado. A boca frouxa e inchada deixava escapar uma respiração fraca e, além do movimento do subir e descer da sua camisa, estava imóvel. Helen estendeu a mão.
— N ão lhe toques — disse eu, asperamente, o que só fez aumentar o meu próprio
horror.
M as H elen parecia tomada pelo mesmo transe em que ele se encontrava e, com os
lábios trémulos, acariciou de leve a face dele com os dedos. N ão sei dizer se era ainda pior ele abrir os olhos, mas foi o que fez. Ainda eram muito azuis, mesmo à luz imprecisa das velas, mas o branco dos olhos estava injetado de sangue e as pálpebras inchadas. Aqueles olhos estavam horrivelmente vivos, também, e perplexos, indo de um lado para outro como se tentassem assimilar os nossos rostos, enquanto o corpo permanecia mortalmente parado. E ntão, o olhar pareceu concentrar-se em H elen, curvada para ele, e o azul dos olhos clareou com tremenda força, abrindo-se como se quisesse vê-la inteira.
— Oh, meu amor — disse ele, muito baixo. Os seus lábios estavam gretados e espessos,
mas a voz era a que eu amava, com o sotaque acentuado.
— Não... a minha mãe — disse Helen, esforçando-se por encontrar as palavras. Pousou
a mão na face dele. — Pai, sou a Helen... Elena. Sou a sua filha.
E le então levantou uma das mãos, como se a controlasse apenas de maneira vacilante,
e segurou na dela. A sua mão estava ferida, as unhas muito compridas e amareladas. E u queria dizer-lhe que íamos tirá-lo dali num instante, que íamos para casa, mas já sabia que não havia esperança, ele estava demasiado ferido.
— Rossi — disse eu, debruçando-me. — É o Paul. Estou aqui. O seu olhar desnorteado ia de H elen para mim e outra vez para H elen, e depois
fechou os olhos com um suspiro que percorreu todo o seu corpo inchado.
— Ah, P aul — disse ele. — Veio à minha procura. N ão devia ter feito isso. — Olhou de
novo para Helen, com os olhos a enevoarem-se, e pareceu querer dizer mais alguma coisa.
— Lembro-me de si — murmurou depois de um momento.
Remexi no bolso interior do meu casaco e tirei de lá o anel que a mãe de H elen me dera. Segurei-o perto dos olhos dele, mas não demasiado perto, e ele largou a mão de H elen e tocou no anel de modo desajeitado.
— Para si — disse a Helen. Ela pegou no anel e colocou-o no dedo.
A minha mãe — disse ela, agora com a boca a tremer visivelmente. — Lembra-se dela? Conheceu-a na Romênia.
E le olhou para ela com algo semelhante ao seu entusiasmo de outrora e sorriu, o rosto torto.
— Sim — sussurrou finalmente. — Eu amei-a. Para onde foi ela?
— Está em segurança na Hungria.
— Você é filha dela? — Havia uma espécie de assombro na sua voz.
— Sou sua filha.
As lágrimas vieram-lhe lentamente à superfície dos olhos, como se já não fluíssem com facilidade, e escorreram-lhe pelas rugas nos cantos. Os sulcos que deixaram brilhavam à luz das velas.
— Por favor, tome conta dela, Paul — disse ele, fracamente.
— V ou casar-me com ela contei-lhe. P ousei a mão no peito dele. H avia um certo chiar inumano por dentro, mas forcei-me a manter ali a mão.
— Isso é... bom — disse ele finalmente. — A mãe dela está viva, está bem?
— Sim, pai — o rosto de Helen contraiu-se. — Ela está na Hungria, segura.
— Sim, já me disse isso — e fechou de novo os olhos.
— E la ainda o ama, Rossi — e afaguei o peito da camisa dele com a mão vacilante. — Mandou-lhe esse anel e... um beijo.
— Tentei tantas vezes lembrar-me onde ela estava, mas alguma coisa...
— Ela sabe que tentou. Descanse um pouco.
A respiração dele tornara-se alarmantemente estertorosa.
De repente, os seus olhos escancararam-se e esforçou-se por se levantar. O esforço era doloroso de ver, sobretudo porque não produziu praticamente nenhum resultado.
— Filhos, têm de sair daqui agora — arquejou. — É muito perigoso ficarem aqui. E le vai voltar e matá-los — e lançava olhares rápidos de um lado para o outro.
— Drácula? perguntei baixinho.
O seu rosto ficou transtornado por um instante à menção do nome.
— Sim. Ele está na biblioteca.
— B iblioteca? — perguntei, olhando em volta espantado, apesar do pavor no rosto de Rossi. — Que biblioteca?
— A biblioteca é ali dentro — e tentou apontar para uma parede.
Ross — disse eu, com urgência na voz. -Diga-nos o que aconteceu e o que devemos fazer.
E le pareceu lutar com a sua própria visão por um segundo, focalizando-a em mim e
piscando rapidamente os olhos. O sangue seco no seu pescoço moveu-se com o esforço para respirar.
— E le veio buscar-me de repente, ao meu gabinete, e levou-me numa longa viagem.
Eu não estava... consciente durante uma parte dela, portanto não sei que lugar é este.
— B ulgária — disse H elen, segurando na mão inchada dele com ternura. Os seus olhos
faiscaram de novo com um velho interesse, um lampejo de curiosidade.
— Bulgária? Então, é por isso que... — e tentou umedecer os lábios. — O que é que ele lhe fez?
E le trouxe-me para cá para cuidar da sua... diabólica biblioteca. Resisti de todas as
maneiras que pude. A culpa foi minha, P aul. E u tinha começado a fazer umas pesquisas outra vez, para um artigo... — lutou para respirar. — Queria mostrá-lo como parte de uma... tradição. Que começou com os G regos. E u... eu ouvi dizer que havia um novo investigador na universidade a escrever sobre ele, apesar de não ter conseguido descobrir o nome do homem.
N isso, ouvi H elen prender subitamente a respiração. Os olhos de Rossi palpitaram na
direção dela.
— Pareceu-me que devia finalmente publicar... E le respirava com um ruído sibilante, e fechou um pouco os olhos. H elen, segurando-
lhe na mão, tremia encostada a mim; mantive o braço firme na sua cintura.
— Está bem — disse eu. — Descanse.
Mas Rossi estava decidido a acabar.
— N ão está bem — quase sufocou, os olhos ainda fechados. — E le deu-lhe o livro a si.
E u soube então que ele viria buscar-me, e veio. L utei com ele, mas ele quase me fez... gostar dele... — P arecia incapaz de levantar a outra mão, e virou o pescoço e a cabeça, desajeitadamente, de modo que pudemos ver uma ferida redonda e profunda no lado do seu pescoço. Ainda estava aberta, e, quando ele se mexeu, abriu-se mais e sangrou. O nosso olhar fixo na ferida agitou-o novamente, e olhou para mim, suplicante.
— Paul, está a ficar escuro lá fora?
Uma onda de terror e desespero invadiu-me até à ponta dos dedos. — Consegue sentir isso, Rossi?
— Sim, sei quando a escuridão está a chegar, fico... faminto. P or favor. E le vai ouvi-los.
Depressa... saiam.
— Diga-nos como encontrá-lo — disse eu, angustiado. — Vamos matá-lo agora. — Sim, matem-no, se puderem fazer isto sem pôr as vossas vidas em perigo. Matem-no
por mim — sussurrou, e, pela primeira vez, vi que ainda podia sentir raiva. — E scute, P aul, há um livro lá dentro. A vida de São J orge — ele recomeçou a lutar com a respiração. — M uito antigo, com uma capa bizantina... nunca ninguém viu um livro assim. E le tem muitos livros excelentes, mas esse é... — pensamos que tivesse desmaiado, e H elen apertou a mão dele nas suas, chorando sem poder conter-se. Quando ele voltou a si, murmurou: — E scondi-o atrás do primeiro armário à esquerda. L eve-o consigo, se puder. E screvi uma coisa... guardei uma coisa dentro dele. Depressa, P aul. E le está a acordar. E stou a acordar com ele.
— Oh, meu Deus olhei em volta, procurando uma ajuda qualquer, — não sabia qual. — Ross, por favor... não posso deixá-lo ficar consigo. Vamos matá-lo e você vai curar-se. Onde é que ele está?
Agora, porém, Helen estava mais calma e pegou na adaga e mostrou-lha.
Ele pareceu deixar escapar um longo suspiro, misturado com um sorriso. Vi então como os seus dentes tinham crescido, como os de um cão, e como os cantos da sua boca já estavam em carne viva. As lágrimas corriam-lhe livremente dos olhos e escorriam-lhe pelas faces magoadas.
— Paul, meu amigo...
— Onde é que ele está? Onde é a biblioteca? — Fiz a pergunta com mais insistência ainda, mas Rossi não conseguia falar.
H elen fez um gesto rápido, e eu compreendi e arranquei depressa uma pedra de um canto do chão. L evei um longo momento a soltá-la, e durante esse momento receei ter ouvido um movimento na igreja por cima de nós. H elen desabotoou a camisa dele e abriu-a com delicadeza. Depois apoiou a ponta da adaga de Turgut sobre o coração dele.
E le manteve os olhos fixos em nós por uns segundos, confiante, e estavam tão azuis como os de uma criança, depois fechou-os. Assim que eles se fecharam, reuni todas as minhas forças e arremessei de encontro ao punho da adaga aquela pedra antiga, uma pedra assentada pelas mãos de um monge anônimo ou de um camponês qualquer, algum habitante desaparecido do século doze ou treze. É provável que aquela pedra estivesse ali há séculos, a ser pisada pelos monges que traziam ossos para o seu ossário ou vinho para a sua adega. Aquela pedra não se movera quando o cadáver de um matador de Turcos estrangeiro fora transportado secretamente por cima dela e escondido num túmulo novo no chão ali perto, nem quando os monges valáquios celebraram uma missa herética em cima dela, nem quando a polícia otomana veio procurar em vão o corpo, nem quando os cavaleiros otomanos avançaram sobre a igreja com as suas tochas, nem quando uma nova igreja cresceu sobre ela, nem quando os ossos de Sveti P etko foram trazidos no seu relicário para repousarem perto dela, nem quando os peregrinos se ajoelharam nela para receberem a bênção do mártir. P ermanecera ali todos aqueles séculos até eu a arrancar rudemente do seu lugar e dar-lhe um novo uso, e é tudo o que posso escrever sobre isto.